Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

terça-feira, setembro 21, 2010

Álcool no limite

Durante um jogo de futebol, 70% da energia gasta resultam em produção de calor. Somente 30% representam a energia gasta com contração muscular

Caroline Buss e Fernanda Mendonça*

O consumo excessivo de álcool é uma grande ameaça ao bem-estar, agravando problemas sociais, contribuindo para grande parte dos acidentes de trânsito, levando a comportamentos de risco e perda de produtividade.

Para o atleta de futebol, além disso, o álcool não faz parte de um estilo de vida compatível com o alto rendimento, pois prejudica o desempenho, já que ocasiona perda de concentração, coordenação, fadiga e desidratação.

Perigos do álcool
Ao consumir uma bebida alcoólica, as primeiras sensações são de euforia, conversa solta. À medida que continuamos bebendo, o nível de álcool no sangue vai aumentando, afetando nosso raciocínio e julgamento, coordenação motora, controle e consciência, podendo, em situações extremas, levar ao coma e até a morte.

Danos em longo prazo
O consumo regular de quantidades consideráveis de álcool prejudica o fígado, o coração e o cérebro, provocando danos permanentes a estes órgãos. O excesso de álcool também pode causar diferentes tipos de câncer.

Efeitos do álcool sobre o cérebro
As células cerebrais são particularmente sensíveis à exposição excessiva ao álcool. O cérebro diminui mesmo em pessoas que bebem moderadamente. A extensão da retração é proporcional à quantidade ingerida.

Abstinência, junto com uma boa nutrição, reverte alguma lesão cerebral, ou toda ela, se o beber em excesso não se estendeu por mais alguns anos. Contudo, beber além da capacidade de recuperar-se por períodos prolongados pode causar dano severo e irreversível à visão, memória, capacidade de aprendizado e a outras funções.

Qualquer um que tenha tomado uma bebida alcoólica experimentou um dos efeitos físicos causados pelo álcool: aumento da produção de urina. Isso acontece porque o álcool deprime a produção de hormônio antidiurético pelo cérebro. A perda de água corporal leva à sede. O único líquido que aliviará a desidratação é a água, mas se as únicas bebidas disponíveis contiverem álcool, cada drinque pode agravar a sede. O “bebedor” inteligente, então, alterna as bebidas alcoólicas com escolhas não alcoólicas e usa as últimas para aplacar a sede.

A água perdida durante a depressão hormonal leva com ela minerais importantes, como magnésio, potássio, cálcio e zinco, diminuindo as reservas do organismo. Esses minerais são vitais para o balanço hídrico e para a coordenação nervosa e muscular. Quando o beber acarreta perdas, os minerais devem ser repostos no dia seguinte para que as deficiências não se agravem.

O poder engordativo do álcool
As calorias do álcool devem ser consideradas como gordura na dieta, porque no organismo ocorrem interações metabólicas entre a gordura e o álcool. O organismo ao receber gordura e álcool armazena a gordura e se livra do álcool tóxico, queimando-o como combustível. O álcool pode promover armazenamento de gordura, particularmente na área abdominal central – a “barriga de cerveja”, observada nos consumidores moderados de álcool.

O que é uma dose?
As bebidas alcoólicas contêm uma grande parte de água e algumas outras substâncias, bem como o álcool etano. A dose de uma bebida varia conforme seu teor alcoólico, ou seja, a concentração de álcool. Confira:

Essas medidas padrão podem, no entanto, não corresponder aos drinques servidos em bares. Muitos copos de vinho contêm facilmente 180 a 240 ml de vinho, por exemplo.

Ressaca
Uma sensação horrível de dor de cabeça, sensações desagradáveis na boca e náusea que a pessoa sente na manhã seguinte depois de beber demais – é uma forma branda de abstinência de droga. As ressacas são causadas por diversos fatores. Um deles são os efeitos tóxicos dos congêneres - substâncias químicas outras que não o álcool, responsáveis por alguns dos efeitos fisiológicos das bebidas alcoólicas, como o gosto e o pós-efeito.

A desidratação do cérebro é um segundo fator: o álcool não somente faz o corpo perder água, como também reduz o conteúdo de água das células cerebrais.

Outro contribuinte para a ressaca é o formaldeído, que vem do metanol, um álcool produzido constantemente por processos químicos normais em todas as células.

Tempo, unicamente, é a cura de uma ressaca. Os remédios “populares” claramente não funcionam: vitaminas, aspirina, beber mais álcool, respirar oxigênio puro, exercitar-se, comer ou beber alguma coisa ruim, são todos inúteis. A reposição de líquidos pode ajudar a normalizar a química do organismo. Dor de cabeça, sabor desagradável na boca e náusea da ressaca são consequências do beber demais.

Efeito do álcool sobre a nutrição
O abuso do álcool também causa dano indiretamente por meio da desnutrição. Quanto mais álcool uma pessoa bebe, é menos provável que ela consuma alimentos suficientes para obter os nutrientes necessários. Como o açúcar e a gordura puros, o álcool fornece calorias vazias, ele remove nutrientes. A cada 150 calorias gastas em álcool, o indivíduo não recebe nenhum valor nutricional em troca. Quanto mais calorias são gastas dessa maneira, menos sobram para gastar com alimentos nutritivos.

O abuso de álcool também atrapalha o metabolismo de nutriente de cada tecido. As células do estômago secretam em excesso ácido e histamina um agente do sistema imunológico que produz inflamação. A cerveja, em particular, pode irritar o estômago, estimulando-o a liberar mais ácido e abrindo caminho para úlceras gástricas e esofágicas. As células intestinais deixam de absorver tiamina, folato, vitamina B6 e outras vitaminas. Os hepatócitos perdem a capacidade de ativar a vitamina D e alteram sua produção de bile. Os bastonetes de retina, que normalmente processam a vitamina A (retinol) para a forma necessária na visão, processam álcool no lugar. As células hepáticas também sofrem uma redução na capacidade de processar e usar a vitamina A. Os rins excretam magnésio, cálcio, potássio e zinco.

Os produtos intermediários do álcool interferem também com o metabolismo da vitamina B6. Eles desalojam a vitamina de sua proteína protetora de tal modo que ela é destruída, levando a uma deficiência que reduz a produção de hemácias.

Mais dramático é o efeito do álcool sobre o folato. Quando há excesso de álcool, o corpo expele ativamente o folato de todos os seus sítios de ação e armazenamento. O fígado, que normalmente contém folato suficiente para satisfazer todas as necessidades, escoa seu folato para o sangue. À medida que o folato sanguíneo eleva-se, os rins acabam excretando-o como se estivesse em excesso. O intestino, em situações normais, libera e recupera folato continuamente, mas torna-se tão danificado pela deficiência de folato e toxicidade do álcool que não consegue recuperar o seu próprio folato e deixa escapar qualquer folato do alimento também.

O álcool também interfere na ação de qualquer quantidade pequena de folato que ainda esteja presente. Isso inibe a produção de novas células, em especial as células de divisão rápida do intestino e do sangue.

Deficiência de nutrientes constitui, assim, uma consequência virtualmente inevitável do abuso de álcool, não apenas porque o álcool substitui o alimento, mas também porque ele interfere diretamente no uso dos nutrientes pelo organismo, tornando-os ineficazes mesmo que estejam presentes. Ao longo de uma vida, beber em excesso produz déficits de todos os nutrientes.

Álcool e reposição de líquidos
O álcool exagera o efeito desidratante do exercício em um ambiente quente, age como poderoso diurético por deprimir a liberação do hormônio antidiurético pela hipófise posterior e por amortecer a resposta da arginina-vasopressina. Esses efeitos poderiam deteriorar a termorregulação durante o estresse térmico, fazendo com que o atleta corra um maior risco de lesão térmica durante o exercício. Além disso, como muitos atletas consomem bebidas que contêm álcool após o exercício e/ou a competição desportiva, uma questão seria se o álcool afeta a reidratação durante a recuperação.

Durante um jogo de futebol, 70% da energia gasta resultam em produção de calor. Somente 30% representam a energia gasta com contração muscular. Para manter a temperatura constante, nosso organismo perde água pela sudorese. Esta perda é que determina a manutenção da temperatura corporal.

Ao final da partida, então, o corpo apresenta menor quantidade de água do que no início da partida. Agora, se você adicionar a qualquer bebida alcoólica (a cerveja, inclusive), vai perder mais água ainda. O resultado dessa história pode ser desde um mal-estar transitório até uma complicação mais grave por alteração da funcionalidade do sistema cardiovascular.

O álcool é culpado não somente pelas mortes por problemas de saúde, mas também pela maioria das demais mortes de pessoas jovens, incluindo acidentes de carro, quedas, suicídios, homicídios, afogamentos e outros acidentes.

Atletas de futebol mundialmente reconhecidos já prejudicaram sua carreira e arriscaram seu patrimônio em função de hábitos antidesportivos fora dos gramados. O consumo de álcool prejudica o trabalho dos diferentes profissionais envolvidos com a preparação do atleta (nutricionista, preparador físico, psicólogo, fisiologista), pois interfere no organismo como um todo, diminuindo o rendimento no campo. A maneira mais segura de escapar dos efeitos nocivos do álcool é, evidentemente, não beber.

Dê um pontapé no álcool e maximize o seu desempenho!

Referência bibliográfica

Sizer, F., Whitney E. Nutrição – Conceitos e Controvérsias. 8a. Edição, Editora Manole, 2003.
McArdle, W., Katch F., Katch V. – Nutrição – Para o Desporto e o Exercício. Editora Guanabara Koogan, 2001.
Fonte: Nutrifit - Nutrição Personalizada -
www.nutrifit.ntr.br

*Caroline Buss é nutricionista formada pela UFRGS, especialista em Medicina Esportiva e Ciências da Saúde (PUC-RS). Além disso, é mestre em Epidemiologia (UFRGS), doutoranda em Fisiologia e Fisiopatologia (UERJ), professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e diretora da Nutrifit. Presta ainda consultoria em diferentes modalidades esportivas e Programa de Qualidade de Vida -caroline@nutrifit.ntr.br.

Fernanda Mendonça é nutricionista formada pela Universidade do Vale dos Sinos, graduada em Educação Física pela UFSM. É também especialista em Medicina Desportiva e Ciências da Saúde pela PUC-RS e em nutrição clínica pelo IMEC e diretora da Nutrifit, com trabalho na equipe juvenil de tênis da AABB (2000-2003) e no Grêmio Foot-Ball Portoalegrense (1998-2005) - fernanda@nutrifit.ntr.br.
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Variabilidade de prática e formação esportiva no futebol

O treinar do futebol deve conter uma atmosfera repleta de variáveis, especialmente na formação esportiva

Rodrigo Vicenzi Casarin e Dênis de Lima Greboggy

Novamente, este espaço será utilizado com objetivo de gerar alguns questionamentos e reflexões para todos que buscam a transcendência acerca das várias dimensões inerentes ao futebol. O conteúdo a ser hoje discutido será relativo à alguns pressupostos sobre a variabilidade de prática (conteúdo estudado nas disciplinas Aprendizagem Motora, Pedagogia e Metodologia do Esporte dos cursos de Educação Física). Entretanto, antes de dar-se início, há uma necessidade do entendimento breve de alguns conceitos que, infelizmente ainda são desconhecidos, e logicamente por pessoas que permanecem com o pensamento de que "no futebol já está tudo inventado". TUDO inventado mesmo? Será?

Que o futebol tanto pode, quanto deve ser ensinado, não restam dúvidas. Entretanto para um ensino eficiente e com eficácia, há um fator preponderante a ser compreendido com unanimidade por todos que trabalham ou desejam trabalhar neste esporte: conhecer a natureza do futebol e entendê-lo como um fenômeno. Desta forma, será que os conteúdos ensinados vêm sendo feitos de maneira atual e cientificamente correta? E qual a relação de tudo isto com a variabilidade de prática no ensino-aprendizagem/treinamento?

Pois bem, veja-se: o futebol é um jogo desportivo coletivo de invasão. Em seu contexto, percebe-se num olhar macro a existência de situações como, equipes em constante relação de oposição e cooperação, onde o objetivo maior (ou a lógica do jogo) é de marcar o gol e evitar de levá-lo. Ao adentrar-se na visão micro, tem-se então sub-estruturas conectadas entre si. Esta observação micro pode nitidamente ser desenvolvida quando há um entendimento realmente aprofundado do futebol, por exemplo, nas observações de antecipações, tomadas de decisão, jogadas imprevisíveis, sprintscom trocas de direção, passes, finalizações, enfim, constantes variáveis que estão incontestavelmente inter-relacionando-se a todo instante e são interdependentes umas das outras.

No partir então da ótica que no futebol tudo está inter-relacionado, e seus acontecimentos são de natureza não-linear, há a necessidade de se aprender o processo de interpretação destes acontecimentos não-lineares com "outros olhos", através da luz da complexidade. Assim, com esta maneira de pensar (e que sempre deveria existir no futebol), chega-se a conclusão de que a complexidade pertencente ao jogo gera um alto nível de variabilidade prática (maneiras diferentes e inúmeras de se executar os comportamentos tático-técnico-físico-psicológico do jogo). Desta forma, usando uma dedução simples, chega-se a um núcleo comum: o treinar do futebol deve conter uma atmosfera repleta de variabilidade, especialmente na formação esportiva (entendam-se escolas de futebol).

Neste sentido, quais das duas tabelas de ensino-aprendizagem/treino abaixo contêm maior variabilidade?

Parece simples interpretar qual dos dois modelos possui maior variabilidade de prática, mais muitos irão interpretar com confusão as tabelas acima, de acordo com a visão e o entendimento relativo a o que é futebol? E o que deve-se ensinar em futebol? Entretanto, aprender o futebol é acima de tudo aprender a pensar! O futebol para ser ensinado necessita de alguém que o conheça bem, e que essa pessoa desenvolva nos atletas um jogar com plena autonomia. É principal lembrar que cada sessão de treinamento ou cada aula deve ser interdependente, e que durante um processo de longo prazo, a somatória dos treinamentos trará os objetivos determinados. Assim, deve-se perceber que a máxima monotonia, estereotipia, correspondendo à uma mínima variabilidade, resultará também, a mínima compreensão do contexto do futebol. Então de nada adianta cobrar veemente algo (aos "berros" escandalosos à beira do gramado) durante o jogo, se o treino não proporcionou um ambiente repleto respostas a serem escolhidas por uma tomada de decisão reflexiva, feita com um questionamento socrático , para o aluno entender e resolver os problemas diversos e imprevisíveis que o jogo apresenta, porém, embasado em uma forma de jogar.

Por fim, somando-se à variabilidade de prática, uma ação mediadora do professor, com boas instruções em forma de descoberta guiada , causará um grande engrama congitivo-motor de respostas que irão permitir aos atletas compreenderem criticamente o jogo de futebol.

¹Reflexão acerca de assuntos conduzindo o aluno a se questionar sobre suas tomadas de decisão e fazer com que este seja reflexivo com os companheiros de equipe.
²Espécie de mediação com intuito de hierarquizar tomadas de decisão (mais eficaz e menos eficaz), sem apresentar uma resposta pronta ao aluno.

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Centro de Informação no Futebol: isso ganha jogo?

O uso de informações na prática esportiva não deve ser subjugado apenas pelo resultado

Eduardo Fantato

Olá amigos,

Por algumas vezes discutimos a formação do Centro de Informação de Jogo, (CIJ) no futebol. Alguns clubes já estão começando a montar uma central. Alguns chamam de Infocenter, outros de DataCenter, enfim, alguns nomes para as tentativas de se construir uma CIJ, mesmo que ainda tímidos.

Quando comentávamos sobre esse ponto numa palestra recentemente sobre a tecnologia a serviço do futebol, um aluno levantou a seguinte questão: que tipo de informação pode ser produzida por esses Infocenters. Isso ganha jogo?

Pergunta interessante, mas não é a resposta para ela que chama a atenção. Mas sim a simplicidade do fim da pergunta. “Isso ganha jogo?”

Sim, o ganhar o jogo é primordial para o futebol. Já dissemos anteriormente que é esse o resultado que vai determinar se o planejamento estava ou não certo, ainda que seja superficial a análise com base apenas no resultado.

Então refaço as questões que levantei durante a palestra para refletirmos, fixados pelo eixo final da pergunta, “Isso ganha jogo?”

1. Treino de velocidade ganha jogo?
2. Treino de resistência ganha jogo?
3. Musculação ganha jogo?
4. Testes Físicos ganham jogo?
5. Salário em dia ganha jogo?
6. Centro de treinamento ganha jogo?
7. Fisioterapia ganha jogo?
8. Nutrição ganha jogo?
9. Psicólogo ganha jogo?
10. Assessor de Imprensa ganha jogo?
11. Gestão ganha jogo?
12. Tecnologia ganha jogo?

Poderíamos elencar uma centena de questões envolvendo aspectos que compõem o campus (utilizando do conceito de Pierre Bourdieu) prático do futebol. Enfim, o que ganha o jogo?

Daí alguns poderiam vir e dizer: “o que ganha o jogo é gol, se você tiver feito mais gols que seu adversário você ganha o jogo.”

Daí faríamos novas perguntas:

1. Treino de velocidade faz gol?
2. Treino de resistência faz gol?
3. Musculação faz gol...

Novamente, uma centena de perguntas, até alguém mudar o argumento central da pergunta inicial, para a partir daí começarmos um novo ciclo de perguntas.

Desta forma gostaria de fazer uma reflexão. Não podemos simplesmente julgar o uso das informações no futebol pelo fato do resultado propriamente dito. Porque o que está em jogo é o uso que se faz das informações.

Daí partiríamos para um novo escopo de perguntas: competência ganha jogo?

Opa! Nessa pergunta surgiu um desconforto, mas talvez com questões que façam um pouco mais de sentido:

1. Treinar com competência a velocidade pode ajudar a ganhar o jogo?
2. Utilizar as informações tecnológicas com competência ajudam a ganhar o jogo...

Pronto, diriam alguns, ou de novo...

Afinal como avaliar a competência? Talvez na simplicidade da complexa filosofia de vida de um gênio da humanidade:

“O verdadeiro significado das coisas é encontrado ao se dizer as mesmas coisas com outras palavras”. (Charles Chaplin)

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O mundo do futebol está ao contrário?

Erich Beting

Na realidade do futebol brasileiro, o mundo ainda gira ao contrário. Só alguns poucos repararam

Em 2010, o Campeonato Brasileiro disputado na fórmula por pontos corridos chega a sua sétima edição. Depois de 32 disputas em que o formato do torneio nunca se repetiu, o futebol brasileiro exibiu sopros de modernização ao adotar o modelo de decisão de um campeão que é mais simples e fácil de se planejar.

Na essência, é isso o que significa o Brasileirão por pontos corridos. Um torneio que é absolutamente previsível em sua disputa, o que torna mais fácil de você planejar um time para ser o campeão ao longo de 38 rodadas. Não há muita margem para o imprevisível nessa fórmula de disputa da competição. Aquele que se preparar para ter um time forte durante 38 rodadas, fatalmente será o vencedor ao término dessa “batalha”.

Parece simples. E é! Só que, em sua sétima edição “previsível”, o Brasileirão continua a dar mostras de que a palavra planejamento passa ao largo da maioria das equipes. Para se dar bem nos pontos corridos, é preciso planejar. Olhar ali por volta de janeiro e saber como você estará em dezembro. Calcular, projetar e trabalhar para isso.

Mas, passadas 23 rodadas do atual Brasileirão, fica claro que são pouquíssimos os clubes que de fato fizeram um trabalho de planejamento para a disputa da competição. O líder Corinthians, por exemplo, foi o único até agora forçado a mudar de treinador no decorrer da competição. Mas a chegada de Adílson Baptista apenas modificou a forma como o time joga, sem mudar o plano traçado no início da temporada por Mano Menezes.

Será tão estranho assim que o clube lidera a competição?

As campanhas medíocres e/ou medianas de Palmeiras, Flamengo, São Paulo, Atlético-MG e Grêmio são uma clara amostra de como a falta de planos pode destruir um clube durante a disputa por pontos corridos.

Esses cinco times desfizeram-se de atletas e treinadores (à exceção do Galo) no decorrer do campeonato. Apostaram em atletas mais velhos e outros identificados com a torcida. Esqueceram-se do básico. Sem planejar, o clube não terá sucesso.

Não é à toa que o europeu está acostumado a jogar nos pontos corridos. Essa falta de insegurança que uma fase mata-mata causa é de arrepiar o pensamento de alemães, ingleses e franceses, por exemplo. A racionalidade européia é sintetizada na fórmula de disputa da maior competição dos países.

A chave do sucesso de grandes empresas é ter dinheiro em caixa e grande capacidade de planejar as ações no mercado de atuação. O restante vem junto com isso. No futebol, essa lógica permanece. Quem souber mais como planejar o ano e também tiver dinheiro suficiente para conseguir executar esse plano, será mais bem sucedido.

Mas, na realidade do futebol brasileiro, o mundo continua andando ao contrário. Apenas alguns poucos repararam. Não é coincidência que esses disputarão o título nacional até dezembro...

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Respeito - Nova campanha da Uefa prega respeito dentro do futebol

Rodrigo Barp

Respeito tem sido algo raríssimo na sociedade (civilizada?) atualmente.

Poderíamos desfilar uma série de valores e virtudes ausentes nessa mesma linha: cordialidade, gentileza, solidariedade.

Um dos grandes vetores de transformação social poderia e deveria ser o esporte. E tanto melhor o esporte mais praticado e incensado em todo o mundo, o futebol.

Entretanto, já vem de tempos que presenciamos quase que o reverso da medalha, em que os jogos e competições remontam à sanha ancestral do homem em expiar seus pecados e frustrações.

As arenas do futebol, hoje, se parecem mais com aquelas dos romanos, cujo deleite era vivido por combates sanguinários entre homens e feras.

Para escrever sobre o respeito e lhe dar a sensação mais precisa de como nos faz falta, invocamos alguns (maus) exemplos recentes.

Domenech e Parreira; Dunga e Escobar; Anelka e Domenech; Neymar e Dorival Junior.

O caso Neymar, o mais fresco na memória coletiva, denota que o futebol e as pessoas que o compõem devem se olhar no espelho e se questionar se de fato se está diante do Médico ou do Monstro.

Puritanismos à parte, Neymar, o pós-adolescente de 18 anos, deve ser orientado a se responsabilizar por todos os atos não só dentro como fora do campo, no mesmo grau em que se lhe outorga a liberdade para escolher se vai ao Chelsea, se fica no Santos, se compra um Fusca ou uma Ferrari.

Como acontece com todos nós. Respeito é uma atitude, mais do que um sentimento, e deve ser expressado, manifestado.

Os que acompanham os jogos-espetáculo da Uefa Champions League devem ter notado as mensagens nos intervalos e chamadas de TV sobre a campanha “Respeito”.

Alguns excertos de releases no site oficial da entidade dão conta da importância e envolvimento da Uefa com esta discussão:

O fair-play e o respeito têm um papel fundamental no desporto, qualquer que seja a modalidade desportiva, especialmente nas que envolvem crianças.

"As crianças precisam de valores fortes para crescer. O futebol, como desporto colectivo, permite que elas percebam a importância da disciplina, do respeito, do espírito de equipa e do fair play, tanto no desporto, como na vida em geral. A campanha de fair-play da Fifa vai muito além da promoção do fair play em campo durante uma competição", explicou Joseph Blatter, o presidente da Fifa.

"O respeito é um princípio fundamental do futebol", afirmou o presidente da Uefa, Michel Platini. "Respeito pelo jogo, jogadores, árbitros, adversários e adeptos. A Uefa não vai tolerar o racismo ou qualquer outra forma de discriminação, em campo, nas bancadas ou nas cidades."

A campanha Respeito da Uefa é promovida em importantes jogos e eventos organizados pela Uefa, tendo sido lançada antes do Uefa EURO 2008 que decorreu na Áustria e na Suíça. Esta iniciativa está ligada a programas que visam combater a violência, o racismo, a xenofobia e a homofobia, isto para além de incentivar o apoio dos adeptos, o diálogo intercultural, a proteção do meio ambiente e a ajuda humanitária.

A mensagem visa fomentar o respeito para com os adversários, os adeptos das outras equipas e os árbitros em particular, isto para além do próprio jogo. "O futebol é um terreno fértil para fomentar a fraternidade e a diversidade", continuou Platini. "Somos todos iguais com a bola nos pés e a Uefa vai continuar a promover a participação cívica, a defender grandes causas humanitárias e a combater os problemas sociais. Vamos unir-nos e mostrar respeito".

Ronaldinho Gaúcho foi ovacionado e homenageado em Barcelona, pelo seu ex-clube, na final da Copa Joan Gamper. Puyol lhe deu o troféu de campeão de presente, como justa retribuição ao que o ídolo proporcionara em cinco anos na Catalunha.

No Brasil, o que temos feito? Quais são as iniciativas planejadas de federações, clubes, sindicatos, mídia e da CBF?

Considerar pouco grave o episódio que envolveu Neymar no Santos significa perpetuar a dicotomia entre a sociedade brasileira e o futebol aqui praticado, permitindo com que um se aproveite do outro, de costas viradas, impunemente.

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Uefa lança programa de estudo para gestão esportiva

Entidade organizará, na capital francesa, seminários de nove horas semanais durante 20 meses

Equipe Universidade do Futebol

Buscando uma evolução constante no âmbito da gestão esportiva, a Uefa deu início ao Mestrado Executivo em Gestão Desportiva Europeia (MESGO), com objetivo de aprofundar seus conhecimentos na área. Conforme informa o site oficial da entidade, a iniciativa é aberta para a participação de responsáveis e diretores das federações desportivas nacionais ou internacionais, Ligas e clubes, membros de órgãos europeus ou governamentais, e parceiros de organizações desportivas.

Em parceria com a Sciences Po, em Paris, e outras instituições acadêmicas (Centro de Gestão Desportiva de Birkbeck, Faculdade de Birkbeck, Universidade de Londres; Centro de Direito e Economia do Desporto da Universidade de Limoges; Universidade Johannes Gutenberg de Mainz; Instituto Nacional de Educação Física da Catalunha, Universidade de Lleida), serão realizados seminários de nove horas semanais durante os próximos 20 meses. Os debates promoverão a análise de métodos específicos dos participantes, seus principais desafios e novas medidas que poderiam garantir o desenvolvimento do futebol europeu.

O evento também visa às novas alterações na legislação esportiva nas áreas comerciais, sociais e financeiras. Recentemente a Uefa promoveu a publicação de seus novos regulamentos de Licenciamento de Clubes e Fair Play Financeiro, que determina o equilíbrio financeiro dos clubes e de suas respectivas contas.

Já na última segunda-feira, a Sciences Po recebeu os 20 participantes para o primeiro módulo semanal. A Uefa espera que o MESGO ajude a discernir a natureza específica do modelo de desporto europeu, implicando na aceitação das novas regras.

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Neymar, Bellucci e a profissionalização do atleta - II

Erich Beting

neymar Não, isso não é um flashback. Muito menos uma falta total de assunto do blogueiro. Mas, menos de um mês depois de abordar o tema do "fico" de Neymar (no dia 20 de agosto), eis que o atacante santista mostra exatamente a face mais triste daquilo que chamávamos a atenção por aqui. A falta de preparo do atleta, no Brasil, para ser profissional. Profissional no significado correto do termo. Não apenas por ser remunerado, mas por ter atitudes condizentes com o cargo ocupado. E é aí que o esporte acaba sendo extremamente cruel com os seus atletas mais renomados.

É muito complicado para uma pessoa lidar com a fama. Ela faz parte do sucesso na carreira do atleta, mas é muito difícil, de uma hora para outra, ser o centro das atenções, ter todas as suas atitudes vigiadas, viver sob a pressão de não poder errar. Geralmente, nas carreiras "normais", o ápice de desempenho de uma pessoa acontece numa época mais madura, por volta de uma experiência de 10 a 15 anos de carreira, após a pessoa ter passado pelas mais diferentes etapas de seu desenvolvimento profissional. E, nem assim, muitas vezes o ser humano aguenta o tranco.

Agora coloque-se na posição de um jovem de 18 anos de idade que tem uma conquista pessoal fantástica graças a seu talento como atleta. Como aguentar essa mudança brusca de vida? Como aceitar que não será tudo sempre uma maravilha, que ele não resolverá todos os problemas do time de uma hora para outra, que ele não será sempre "o cara"?

Pois é. Como já dito por aqui, o desenvolvimento do futebol como negócio significa cada vez mais grana e, proporcionalmente, maior responsabilidade para o atleta. Só que será que o esporte está pronto para dar a assistência necessária a esse atleta?

Profissionalizar não representa apenas dar dinheiro para o jogador permanecer no país. É preciso dar estrutura para ele entender em qual realidade está inserido. O stress pelo qual Neymar passa hoje é típico de um profissional que está saturado com uma crescente pressão, sem conseguir (ou achar que está conseguindo) obter o resultado esperado. Natural, não fosse uma pessoa que tivesse sua vida monitorada pela mídia e não fosse dado a ele o direito de errar.

A gestão de carreira de atletas é algo que ainda engatinha no Brasil. Naturalmente, nos próximos anos, deveremos observar um aumento substancial na preocupação com o atleta como pessoa, mais do que uma simples máquina de obter desempenho e resultados. Mas, até lá, ainda ouviremos muitos xingamentos perdidos por aí, típicos de quem não se acostumou com a pressão inerente ao alto cargo que ocupa. Nada mais natural, e nada mais passível de punição para que se aprenda.

A profissionalização virá. Pelo bem ou pelo mal...

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segunda-feira, setembro 20, 2010

Estudo aponta Real como marca mais valiosa do mundo

REDAÇÃO
Da Máquina do Esporte, São Paulo - SP

Impulsionado pela presença de jogadores midiáticos, principalmente o português Cristiano Ronaldo, o Real Madrid é a marca mais valiosa do futebol mundial. Esse é o principal resultado de um estudo conduzido pela consultoria Brand Finance, divulgado nesta segunda-feira.

O levantamento estabeleceu em 462 milhões de euros o valor da marca Real Madrid. O Manchester United, líder do mesmo estudo publicado em 2009, vale 446 milhões de euros e aparece no segundo posto.

A pesquisa criou um ranking das 25 marcas mais valiosas entre os clubes do futebol mundial. Além de Real Madrid e Manchester United, o “top five” do levantamento teve Barcelona (433 milhões de euros), Bayern de Munique (360 milhões de euros) e Arsenal (257 milhões de euros).

Além dos valores totais, o estudo destrinchou o valor de cada equipe em diferentes aspectos. A pesquisa mostrou, por exemplo, que o trabalho comercial e o novo patrocínio – a AON substituiu a AIG – compensou o insucesso desportivo do Manchester United na última temporada.

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sábado, setembro 18, 2010

A cultura da vitória: os campeões se constroem

Dentro de um sistema tão elaborado e complexo quanto o futebol, gerar uma cultura de vitória não é algo tão simples

Rodrigo Azevedo Leitão

Muricy caricatura Muitas pessoas me perguntam quais características comuns entre si, têm os treinadores de futebol vencedores.

A curiosidade ansiosa para tentar entender por que alguns poucos vencem tanto, e outros tantos vencem tão pouco, faz com que muitas vezes, uma busca incessante de relações causa-efeito se inicie, e tente explicar com argumentos simplistas, o que diferencia um treinador campeão, de outro que não seja.

Eu não tenho uma resposta pronta para isso – tenho sim alguns palpites e alguns apontamentos.

De qualquer forma, o que me parece muito importante, é entender que obviamente, vencer ou perder não é uma questão do acaso.

Os campeões se constroem, e por mais que isso doa para o ouvido de alguns, a conquista da vitória, nada mais é, do que a conquista do controle das variáveis que interferem direta e indiretamente no desempenho de jogadores e equipes.

Por mais abstrato que isso pareça, o “vencer”, é resultado da busca constante e permanente de um ambiente de excelência, em que as “engrenagens” do processo geram um tipo de conspiração, que se torna espontânea, de rotinas de vitória.

Em outras palavras, da mesma maneira que criamos rotinas para coisas diversas, e somos capazes de desenvolver hábitos que algumas vezes até condicionam nosso comportamento, para alcançar a vitória e “transformar suor em ouro”, é necessário que sejamos capazes de gerar uma “cultura de vitória”.

Dentro de um sistema tão elaborado e complexo quanto o futebol (com tudo que o envolve, em todos os seus níveis e categorias), gerar uma cultura de vitória não é algo tão simples. (Grifo deste blog)

São muitas as interações e interdependências nesse sistema. São muitos e longínquos os elementos que interferem diretamente na maneira com que ele (o sistema) se organiza.

Quando o professor e filósofo Manuel Sérgio disse, que para saber de futebol é preciso saber muito mais do que futebol, talvez tenham sido poucos, os que lhe deram ouvido. E dos que o ouviram, talvez, muito menos ainda foram aqueles capazes de entendê-lo.

A construção de uma cultura de vitória segue caminhos diversos para se estabelecer, e esses caminhos são particulares ao meio que se está inserido. Depois de instalada, ela tende com o passar do tempo e se bem administrada, a ficar cada vez mais forte.

Um treinador que seja parte fractal dessa cultura amplifica seu capital simbólico, e a partir daí está pronto para influenciar novos ambientes, com maiores chances de sucesso.

A construção da vitória, parte então do entendimento de que ela está no jogo, mas não apenas dentro do campo de 100 por 70 metros, de grama verde; ela está num jogo muito maior, que está muito além das quatro linhas.

Por isso, termino hoje com um trecho de um texto que li faz tempo, e que me parecia estranho, sem nexo; mas que hoje dia faz todo o sentido...

Trecho de “A menina que virou vento” (Tedtage Noarie)

Ela soprava enquanto o vento tocava seu rosto.
Ela soprava, soprava, soprava, enquanto o vento tocava seu rosto.
E ela soprava, soprava, soprava, soprava; e então, também virou vento...

Imagem: Muricy Ramalho

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Rivaldo valoriza conhecimento empírico e minimiza importância dos treinadores

Presidente do Mogi Mirim desde 2008, campeão mundial dá apenas 20% de importância aos técnicos

Equipe Universidade do Futebol

Ex-melhor do mundo e campeão mundial com a seleção brasileira em 2002, Rivaldo, agora aos 38 anos, falou, em entrevista ao portal IG, sobre sua carreira como jogador, timidez diante das câmeras e até sobre sua relação com treinadores pelos times que passou.

Além de apontar Wanderley Luxemburgo, atual técnico do Atlético Mineiro, como melhor treinador com quem já trabalhou, o ex-camisa 10 da seleção canarinho exaltou o conhecimento empírico de jogadores, citando em especial seu período como comandado de Louis Van Gaal no Barcelona.

“Ele [Van Gaal] é um grande treinador, mas é muito cabeça dura e teimoso. Ele é um técnico que não jogou bola. Foi jogador de time de terceira divisão e queria ensinar tudo. A gente discutia por isso. Treinador tem que ter inteligência para saber que não sabe tudo. Muitos jogaram em segunda divisão, não ganharam nada e quando viram técnicos querem ensinar. Isso é até um desabafo, viu [risos]? Com todo respeito, como um cara desses vai querer me ensinar? Como vai querer ensinar o Messi? Na minha opinião, técnico tem 20% de importância num time. Quem decide são os jogadores”, revelou em declaração ao site.

Ainda sobre o assunto, Rivaldo fez questão de exaltar a postura de Josep Guardiola, companheiro de time na época de Barcelona e atual treinador da equipe catalã, quanto ao sucesso dos campeões espanhóis dentro de campo. Segundo ele, Guardiola concede o mérito de suas conquistas apenas aos jogadores.

“Então, ano passado eu fui ao Barcelona fazer uma visita. Encontrei o Guardiola, que jogou comigo. Fui falar com ele e já cheguei parabenizando, porque ele tinha ganhado tudo na temporada. Ele virou para mim sério e disse: “Parabéns para mim? Dá parabéns para os caras, Rivaldo. Eu não faço nada. Olha o que é o Messi. Ele pega a bola e decide. O Daniel Alves joga hoje e amanhã quer treinar. Os caras estão voando. O Xavi mete a bola onde quer.” Se é outro técnico se aproveita e pega o mérito todo para ele”, enalteceu Rivaldo, que afirma ainda ter condições de atuar dentro das quatro linhas.

Confira entrevista

Entrevista com Rivaldo: "Nunca gostei de fazer gols em propaganda na TV"

Ao iG, meia diz que ainda não parou de jogar e que não se arrepende de ter fugido dos holofotes. Para ele, o Palmeiras de 1996 foi o melhor time em que jogou e os técnicos têm apenas 20% de importância numa equipe

Paulo Passos, iG São Paulo

A cada pergunta, Rivaldo passa a mão no rosto. Antes de responder, encosta os dedos como quem vai rezar e olha para baixo.  A frieza que demonstra nos gramados some quando a missão do jogador é falar. Ele não está na sede Fifa, na Suíça, onde há 11 anos recebeu o prêmio de melhor do mundo. Nem em Yokohama, local da conquista da Copa, em 2002.

A cena acontece na sala de imprensa do Mogi Mirim. Rivaldo, aos 38 anos, fala como presidente do clube, cargo que ocupa desde 2008, para seis jornalistas que foram à entrevista coletiva do anúncio oficial da parceria da equipe paulista com o Mallorca, da Espanha, na última quarta-feira.

“Para dar uma entrevista é duro, você viu. Eu fico suando. Não sou de ficar aparecendo, só falei por ser presidente”, confessa. Após o evento, o meia-atacante conversou com a reportagem do iG. Em uma entrevista de mais de 40 minutos, ele falou sobre as carreiras de jogador e agora dirigente e jurou que, apesar dos 38 anos, ainda não se aposentou.

Getty Images

Campeão mundial, em 2002, Rivaldo diz que ainda quer jogar futebol

Para voltar aos gramados, ele terá que resolver um impasse com o Bunyodkor, seu último time. Por enquanto, está impedido de atuar profissionalmente, pois ainda tem contrato com o clube do Uzbequistão.

Tímido confesso, Rivaldo está longe de ser um fenômeno de marketing, apesar de reconhecido como um dos maiores jogadores de todos os tempos. Aparições na TV são raras. Nem mesmo no auge da carreira, quando atuava no Barcelona, era um freqüentador assíduo de campanhas publicitárias. “Prefiro ser reconhecido pelo que fiz em campo. Nunca gostei de fazer gols em propaganda”, brinca o meia-atacante.

Nos últimos meses, ele encontrou um meio de se expressar com mais facilidade. Rivaldo aderiu ao twitter. “Virou moda, né? Ali é fácil, atrás do computador, sozinho eu até brinco com o pessoal”, conta o jogador, que tem mais de 55 mil seguidores. “Eu estou começando. Logo, logo chego no Kaká. Ele tem 2 milhões”, completa, com uma risada tímida.

Confira a entrevista: 

iG: Você chegou a comentar que gostaria de voltar para o Palmeiras. Já conversou com o Luiz Felipe sobre isso?
Rivaldo: Não, nem falei com ele sobre isso. Mas pelas entrevistas que ele deu, acho que vai ser difícil. Mas eu respeito, cada um é cada um. Ele está fazendo o trabalho dele lá, tem os jogadores dele. O que eu vou falar do Felipão? Ele me levou para a Copa do Mundo, quando muitos diziam que eu estava machucado. Fui campeão graças à oportunidade que ele me deu.

iG: Você imaginava que seria um dia presidente de um clube?
Rivaldo: Eu nunca imaginei. Tem coisas na vida que você não espera e elas acontecem. Eu não imaginei ser o melhor jogador do mundo ou ganhar uma Copa. As coisas vão acontecendo e você vai vendo que tem condições de chegar lá. Nunca sonhei que 16 anos após chegar aqui em Mogi Mirim, vindo de Recife, eu ia ser presidente do clube.

iG: Você é muito admirado em Barcelona. Acha que o reconhecimento na Europa é maior do que aqui?
Rivaldo: Antes da Copa eu poderia dizer isso. Mas depois de 2002, isso mudou. Até hoje, recebo o carinho das pessoas por causa daquele Mundial. Tem gente que pede para eu jogar em 2014 [risos]. Agora, acontece que meu auge foi no Barcelona. Joguei cinco anos lá. As pessoas têm um carinho enorme. Até nessa semana lembraram de mim, porque o Messi fez dois gols e ultrapassou uma marca que eu tinha no clube. Eu fico feliz de ter feito história lá.

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No Barcelona, Rivaldo jogou por cinco anos. "Foi o meu auge", diz o meia

iG: Ao mesmo tempo, comparado com outros jogadores do seu nível, você tem pouca projeção em marketing e propaganda. É algo que você nunca deu bola, se arrepende?
Rivaldo: Nunca me interessou. Eu sempre procurei, em toda minha vida como jogador, conquistar as coisas dentro de campo. Não sou contra quem gosta e sabe aparecer. Hoje, para dar uma entrevista como presidente de clube é duro. Eu fico suando. Eu não sou de ficar aparecendo. Acho que agora, como presidente, vou ter que aparecer mais, porque tenho uma responsabilidade e tenho que divulgar o clube.

iG: Ainda lhe incomoda aparecer?
Rivaldo: Sim, se fosse como jogador eu não faria essa entrevista. Não sou de falar, de querer me promover. Nunca precisei disso, por ser tímido. É uma coisa minha mesmo. É da pessoa. Tem gente que gosta de estar na televisão, em programas ou propagandas. Eu até fiz uns comerciais. Antes, eu sempre perguntava o que eu tinha que fazer. Tinha que me preparar antes. Mas eu não me arrependo de ser assim. Eu nunca precisei disso, mas não sou contra quem faz. Cada um sabe o que é melhor. Sei que isso pode ajudar muito para ser reconhecido e tal. Mas eu quero ser reconhecido pelo que fiz dentro de campo no Palmeiras, Corinthians, Mogi Mirim, na Copa do Mundo e em todos clubes que passei, e não por estar em televisão. Eu fico feliz quando sou lembrado pelos torcedores que dizem o que eu fiz como jogador. Nunca gostei de fazer gols em propaganda.

iG: Qual o melhor técnico com que você trabalhou?
Rivaldo: Eu sempre vou falar que para mim foi o Vanderlei Luxemburgo. Eu aprendi muito com ele. Muitos podem não gostar dele, mas para mim é o melhor. Mesmo passando por esse momento no Atlético-MG, eu tenho plena confiança de que ele vai sair dessa posição. Vai ficar no meio da tabela ou subir mais. No Campeonato Brasileiro você ganha três jogos seguidos e muda tudo. Tenho certeza que os jogadores do Atlético-MG não fazem corpo mole, com ele não tem isso. Quando jogava com ele, eu corria por ele, porque sabia que o cara era gente boa. Ninguém no time quer que ele vá embora. Até os que estão no banco gostam dele. Isso não existe em outros lugares que passei. Seja Barcelona ou qualquer outro time. O cara tá no banco fica com raiva do treinador. O Luxemburgo sabe levar o grupo.

iG: Na Europa você teve problemas com alguns técnicos. O Louis  Van Gaal, na época do Barcelona, foi o mais difícil de trabalhar?
Rivaldo: Com ele, foi só um problema de trabalho. Ele é um grande treinador, mas é muito cabeça dura e teimoso. Ele é um técnico que não jogou bola. Foi jogador de time de terceira divisão e queria ensinar tudo. A gente discutia por isso. Treinador tem que ter inteligência para saber que não sabe tudo. Muitos jogaram em segunda divisão, não ganharam nada e quando viram técnicos querem ensinar. Isso é até um desabafo, viu [risos]? Com todo respeito, como um cara desses vai querer me ensinar? Como vai querer ensinar o Messi? Na minha opinião, técnico tem 20% de importância num time. Quem decide são os jogadores.

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Para o meia, Van Gaal é um grande técnico, "mas muito cabeça dura e teimoso"

iG: Você acha que os técnicos são muito valorizados?
Rivaldo: Então, ano passado eu fui ao Barcelona fazer uma visita. Encontrei o Guardiola, que jogou comigo. Fui falar com ele e já cheguei parabenizando, porque ele tinha ganhado tudo na temporada. Ele virou para mim sério e disse: “Parabéns para mim? Dá parabéns para os caras, Rivaldo. Eu não faço nada. Olha o que é o Messi. Ele pega a bola e decide. O Daniel Alves joga hoje e amanhã quer treinar. Os caras estão voando. O Xavi mete a bola onde quer.” Se é outro técnico se aproveita e pega o mérito todo para ele.

iG: E tem muito disso, na sua opinião?
Rivaldo: Claro. Cara que diz que ensinou tudo. Vai ensinar o que para o Messi? Isso prejudica muito. Treinador tem que ter o comando das coisas, mas não pode querer ensinar tudo para o jogador que tem talento. Tem que deixar o cara livre. Quem decide são os jogadores. Eles são 80%. Vejo técnico que era goleiro e quer mudar o jeito do seu lateral cruzar a bola. Eu não entendo isso. O cara deixa de jogar e aprende tudo. Às vezes dá vontade de pedir para ver o vídeo dele, para saber se ele fazia tudo o que tava dizendo.

iG: E você não dá conselhos para os garotos aqui do Mogi Mirim?
Rivaldo: Eu sempre, quando venho aqui nos treinos, falo alguma coisa, mas com humildade. Digo que errava que nem eles. Quando é novo, você tem que dizer o que é melhor fazer. Mas tem técnico que quer mudar o jogador quando ele já é formado. Só porque acha que sabe tudo.

iG: Você atuou com grandes jogadores. Qual foi o melhor?
Rivaldo: Djalminha, Ronaldo e Ronaldinho. Acho que foram esses, dos que joguei junto. Agora, que enfrentei foi o Zidane. Ele sempre disse que se preocupava comigo nos jogos e eu também ficava atento com ele. Principalmente nos jogos do Barça contra o Real Madrid, em que a pressão era grande. Ele sempre me deu muita moral. Eu respeitava ele dentro de campo. É um cara que você tem que ir com cuidado, até para não passar vergonha.

iG: Dava medo jogar contra ele?
Rivaldo: Respeito, né? Você olha e só dá o bote nele na boa. Se tenta ir antes roubar a bola, pode cair sentado com a bunda no chão. Aí passa vergonha e vocês da imprensa vão cair em cima, tirar sarro. Você viu na Copa do Mundo que ele deu um chapeuzinho no Ronaldo? Se fosse eu, segurava e não ia com fome para cima dele não [risos].

iG: E time, qual foi o melhor que você atuou?

Rivaldo: Aquele Palmeiras de 1996. A gente se divertia em campo. Tudo era festa. Essa época foi muito boa. Também teve um time muito forte nos primeiros dois anos do Barcelona.

iG: E a seleção de 2002?
Rivaldo: Era um grande time. Quando se ganha, tudo é maravilha. Eu participei de duas Copas e foi a mesma alegria. Em 1998 foi a mesma coisa, mas como não venceu não teve aquilo de família Scolari. Mas era um grande time, com certeza.

iG: O Felipão chegou a dizer, em uma entrevista ao jornal O Globo, que precisou ter uma conversa com você e o Ronaldo, porque havia uma disputa entre os dois para ver quem fazia mais gols. Isso aconteceu?
Rivaldo: Nunca teve esse conversa. Ou o repórter entendeu errado ou o Felipão se confundiu. Eu lembro da minha chuteira que meu pai me deu, não vai ser de algo de 2002 que vou esquecer.

iG: E como você está vendo a situação do seu ex-clube Santa Cruz, eliminado da Série D do Campeonato Brasileiro?
Rivaldo: É triste, eu tenho carinho grande pelo clube. Eu sou Santa Cruz de sangue, minha família toda  é. Torcida eles têm. Estão na quarta divisão e conseguem colocar 60 mil torcedores no estádio. Isso é uma força muito grande. Eu até me ofereci para ajudar. Falei com o pessoal para emprestar jogadores do Mogi Mirim, mas ninguém deu atenção. Acontece que dirigente, às vezes, quer ter o mérito só para ele. Não quer que ninguém ajude. Eu ia colocar jogadores lá, mas o pessoal não deu bola. Depois até falaram na imprensa de Recife que eram jogadores fracos que eu estava oferecendo. Mas eles nem vieram aqui. Acho que os dirigentes do Santa Cruz nem sabem onde é Mogi Mirim. O goleiro que eu ofereci para eles está em Portugal. Eu queria ajudar, ia pagar os salários. Fico triste de ver o clube assim. Tentei ajudar, mas não adiantou.

iG: Você é assumidamente uma pessoa tímida. Entretanto, no Twitter, tem conversado bastante com torcedores, dado sua opinião. Como é isso?
Rivaldo: Sentado na cama, atrás do computador o cara se solta. Na verdade, foi um cunhado meu que fez para mim. Mas ai passou seis meses e eu nunca tinha mexido. Um dia entrei com a minha esposa e ela começou a escrever, usando o meu nome. Ai um dia eu disse agora eu vou começar a escrever. E gostei da brincadeira, viu? Hoje tenho 55 mil seguidores. Daqui a pouco eu chego no Kaká, que já tem dois milhões [risos].

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sexta-feira, setembro 17, 2010

Via Twitter, Ronaldo antecipa problema para a Copa-14 e reclama de gramados brasileiros

Jogador está fora de ação desde o jogo contra o Atlético-PR, na segunda rodada do returno

Equipe Universidade do Futebol

Ronaldo

Na última semana, Botafogo e São Paulo duelaram no Engenhão pelo Campeonato Brasileiro. Além da atuação eficiente do time carioca na vitória por 2 a 0, o que chamou a atenção também foi o estado debilitado do gramado. Fluminense e Corinthians, na quarta-feira seguinte, jogaram no mesmo ambiente, sob as mesmas adversidades, mas as reclamações, pensando de maneira estrutural, partiram de quem não esteve em campo: Ronaldo.

O atacante do Corinthians, que está afastado da equipe há algumas semanas por conta de uma lesão na panturrilha esquerda, apenas assistiu ao triunfo dos seus companheiros por 2 a 1. Mas tratou de comentar, via Twitter, sobre o tema.

"O futebol brasileiro precisa cada vez mais de melhores estruturas para treino e também para jogo. Precisamos melhorar nossos gramados, nossos estádios, para que os profissionais tenham condições de oferecer grandes espetáculos”, escreveu o Fenômeno, em sua página oficial no microblog.

“E não falo isso pensando em Copa do Mundo, falo porque o nosso futebol precisa para usarmos nos nossos campeonatos”, continuou.

O camisa 9 deve retornar à ativa apenas na próxima quarta-feira, quando o Corinthians encara o Santos, na Vila Belmiro, às 22h (de Brasília). Neste sábado, diante do Grêmio Prudente, novamente o atacante apenas poderá tecer críticas das arquibancadas – o jogo será realizado no Pacaembu.

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Náutico contrata e cria diretoria de relacionamentos

Projeto inovador visa ligação entre os diversos departamentos do clube

Equipe Universidade do Futebol / Fonte: Máquina do esporte

A presidência do Náutico está prestes a anunciar a criação de nova diretoria, em movimento inédito no futebol brasileiro. O clube pernambucano terá diretoria de relacionamentos, responsável por gerar a interface entre diretorias de comunicação e marketing, ouvidoria, torcedores, sócios e imprensa.

Para viabilizar a criação da pasta, sugerida por conselheiro do time, a diretoria de comunicação, desocupada até então, foi preenchida com a contratação de Kleber Medeiros, sócio-diretor da KM2 Produções, agência especializada em marketing esportivo.

A diretoria de relacionamentos, similar à chamada relações institucionais em empresas, segundo o vice-presidente de comunicação e marketing, Roberto Varela, será ocupada por dois profissionais. A composição do novo organograma do clube foi feita com o auxílio de empresas de consultoria na área.

"É um investimento muito grande, ainda que pequeno diante das necessidades", explica o vice-presidente à Máquina do Esporte. "Com as poucas receitas que temos, nós profissionalizamos tudo o que é possível", completa Varela, após elogiar o desempenho do atual diretor de marketing, Marcelo Furtado.

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Agência cria serviço de transporte para o Engenhão

Dificuldade no acesso ao estádio deve ser minimizado com a nova proposta

Equipe Universidade do Futebol

Líder do Campeonato Brasileiro, o Fluminense defenderia o posto contra o Corinthians, que ocupava a segunda colocação. Ainda assim, apenas 23.126 espectadores foram ao Engenhão acompanhar a vitória alvinegra por 2 a 1. Diante da dificuldade de acesso à arena, uma agência resolveu criar um sistema de transporte exclusivo para jogos no espaço.

O serviço foi divulgado nesta quinta-feira, e já começará a funcionar no próximo sábado. Haverá ônibus e vans saindo de 14 pontos da cidade, com embarques duas horas (para jogos nos fins de semana) ou três horas antes (para jogos no meio da semana).

A comercialização de lugares será feita apenas até a véspera dos jogos. No caso do Botafogo, sócios do clube terão prioridade para uso do transporte, que deve custar R$ 30 (ida e volta).

“O projeto nasceu da dificuldade do acesso dos torcedores e de estacionamento. O torcedor não terá as dificuldades de um transporte público nem a possibilidade de ter seu carro rebocado, como acontece algumas vezes ao redor de estádios. E ainda terá um seguro”, disse Marcos Pimenta, dono da agência que criou o projeto, ao site oficial do Botafogo.

Com o fechamento do Maracanã para obras relacionadas à Copa do Mundo de 2014, Flamengo e Fluminense vão mandar seus jogos no Engenhão.

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O BIRG, o CORF e a explicação da indústria do futebol brasileiro

A influência direta dos resultados no sentimento do torcedor e consequentemente no rendimento financeiro de um clube

Oliver Seitz

Quando você vai a um estádio de futebol, você provavelmente sabe dizer por que você está indo. Agora, você sabe dizer por que os outros milhares de torcedores também estão lá?

Cada um tem lá sua razão específica pra torcer para um clube. Pode ser por influência familiar, por aversão ao time do vizinho, por causa de um atleta específico, por morar do lado do estádio e por outras tantas coisas mais. E todas essas coisas foram estudadas e identificadas.

Existem inúmeras razões pela quais uma pessoa escolhe torcer por um time. E existem outras mais que fortalecem ou enfraquecem o laço entre o torcedor e o seu clube. A mais comum delas foi denominada por alguns pesquisadores de Basking In Reflected Glory (BIRG), que significa algo como “orgulhar-se com a glória refletida”, que é o fenômeno que ocorre quando um time ganha um jogo e o torcedor diz (e sente) que “nós ganhamos a partida”. Com o BIRG, quanto mais um time ganha, mais orgulho ele gera e mais pessoas se apropriam do status de vencedor gerado pelas vitórias.

O BIRG é, evidentemente, o principal laço da relação entre clubes e torcida no Brasil. Isso acontece muito por conta da impossibilidade ambiental de desenvolver outras relações, principalmente dos laços mais profundos com a comunidade local de cada torcedor, já que as comunidades locais do Brasil são ainda muito recentes e carecem de maiores vínculos com os seus habitantes. Com isso, há pouco vínculo social entre clube e torcida, deixando que o BIRG se apodere da intermediação do processo.

Por conta do BIRG, quando o time está ganhando, a torcida se torna fanática, lota estádios e compra produtos. O grande problema é que o BIRG traz em sua essência outro processo psicológico oposto, que foi denominado de Cutting Off Reflected Failure (CORF), que significa algo como “romper com o fracasso refletido”, que ocorre quando o time perde e o torcedor diz (e sente) que “eles perderam a partida”. Com o CORF, quanto mais um time perde, mais torcedores se afastam do time para evitar absorver o status de fracasso. Ou seja, quando um time perde uma partida ou um campeonato, os torcedores param de consumir produtos e de ir aos estádios como forma de evitar parecer que eles também são perdedores. Com o BIRG, “nós ganhamos”. Com o CORF, “eles perderam”.

Como esses dois fenômenos são predominantes na relação entre times e torcedores no Brasil, os clubes ficam excessivamente reagentes ao sucesso em campo. Afinal, a derrota significa não apenas o fato esportivo em si, mas cria também um grande impacto nas receitas e na administração do ambiente político do clube. Com isso, exerce-se uma enorme pressão por sucessos imediatos e constantes, onde vitórias devem ser obtidas a qualquer custo e derrotas são suficientes para motivar mudanças completas na estrutura do clube. Isso acaba gerando uma situação em que é impossível desenvolver o mínimo controle financeiro e torna o fluxo de receitas e despesas algo absurdamente instável, impossibilitando qualquer manutenção de parâmetros de gestão de longo prazo.

O BIRG e o CORF explicam muito sobre como funciona a indústria do futebol brasileiro e por que o buraco financeiro vai ficando cada vez maior. A boa notícia é que existem métodos para tentar minimizar o impacto que esses fenômenos causam nos clubes. A má notícia é que aqueles que tem poder para aplicar esses métodos de controle são justamente aqueles que mais se deixam influenciar por eles.

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Série C e Ceará travam marketing do Fortaleza

EDUARDO LOPES
Da Máquina do Esporte, São Paulo – SP

Neste domingo, o Fortaleza disputará com o Águia de Marabá a classificação do grupo A do Campeonato Brasileiro da Série C. Para a diretoria do clube, o sucesso dessa empreitada não será refeltido apenas em campo: a possibilidade de voltar à Série B não traz um alívio somente à sua torcida, a maior no Estado segundo a pesquisa Lance!-Ibope de 2010, mas traz também um alívio financeiro para a diretoria que assumirá o clube em 2011.

Para o presidente do Fortaleza, Renan Vieira, existem dois problemas para a atual gestão conseguir novos recursos provenientes de patrocínios: a presença na Série C e o sucesso do Ceará. “Como o nosso rival está bem na Séria A do campeonato, fica mais difícil as empresas investirem na gente”, afirmou o presidente.

O Ceará, que possui a terceira torcida de seu Estado, atrás de Flamengo e do próprio Fortaleza, tem feito um Campeonato Brasileiro surpreendente. O time chegou a liderar a competição junto com o Corinthians, antes da parada do torneio para a Copa do Mundo. Com média de 21,5 mil pessoas, o clube tem a quarta maior média de público no Nacional. Mesmo com os jogos já em andamento, tal campanha resultou no fechamento de contratos de empresas como a Fisk e a Neo Química.

O contraste vivido pelo Fortaleza se reflete na busca por patrocínios. “Se a gente passar para a Série B já melhora muito. A Série C é que é muito complicada”, lamenta Renan Vieira. O presidente deixará o seu posto daqui a dois meses, quando um novo nome deverá ser eleito.

Nos últimos anos, o Fortaleza esteve na divisão principal do Campeonato Brasileiro durante as temporadas de 2005 e 2006 e caiu para a Série C em 2009, mesmo ano em que o Ceará subiu para a Série A.

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Coritiba atrai 5,5 mil sócios com volta a Couto Pereira

RODRIGO CAPELO
Da Máquina do Esporte, São Paulo - SP

O Coritiba volta ao Couto Pereira no próximo sábado (18), após afastamento imposto pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) pela confusão generalizada no estádio após o rebaixamento à segunda divisão, no fim de 2009. Quase um ano depois, contudo, o marketing alviverde transformou o incidente em crescimento de quadro social.

Até o momento, o clube paranaense já reúne 13 mil sócios adimplentes, após ter começado o ano de 2010 com aproximadamente 2,5 mil. "Ultimamente, ganhamos 400 sócios por dia com um conjunto completo de ações", explica o diretor de marketing do Coritiba, Roberto Pinto Júnior, à Máquina do Esporte.

O time iniciou setembro, segundo o dirigente, com 7,5 mil associados e a previsão era chegar a 15 mil até o fim do mês, mas esse número já foi ajustado para 20 mil. "Voltar a jogar em casa, campanhas publicitárias, novos pontos de atendimento móvel, promoções, boa fase do time em campo, esses fatores fizeram com que nossa estratégia tivesse sucesso", completa o diretor.

Na volta ao Couto Pereira, o Coritiba enfrenta a Portuguesa às 15h50 e luta pela liderança da Série B do Campeonato Brasileiro. Com o resgate da torcida após desgosto causado pelo vexame do rebaixamento em 2009, somado ao vandalismo que marcou a última partida, contra o Fluminense, o marketing do Coritiba espera acrescer a meta de sócios até o fim do ano.

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quinta-feira, setembro 16, 2010

Polícia prende 11 torcedores em operação no Rio de Janeiro

Ação contra violência das torcidas organizadas foi realizada na última madrugada

Equipe Universidade do Futebol

A Polícia Civil do Rio de Janeiro foi responsável pela prisão de 11 integrantes de torcidas organizadas de Flamengo e Vasco durante uma ação da operação Hoolingans, batizada em referência aos torcedores violentos do Reino Unido.

Conforme informou policiais da 73ª DP, de São Gonçalo, estão sendo cumpridos 19 mandados de prisão e outros 24 de busca e apreensão. Até agora, já foram apreendidos oito máquinas caça-níqueis, celulares e notebooks encontrados em estabelecimentos das torcidas.

A operação ainda conta com 48 equipes de várias delegacias distritais e especializadas de Niterói e do Rio. O objetivo é diminuir o índice de violência na capital carioca, impedindo o choque de gangues na cidade.

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Fracasso na Série D paralisa marketing do Santa Cruz

Entraves políticos congelam ações publicitárias do clube nordestino

Equipe Universidade do Futebol

A eliminação do Santa Cruz da Série D do Campeonato Brasileiro fez com que o clube antecipasse eleições presidenciais, de dezembro para outubro. Frustrado, o atual presidente, Fernando Bezerra Coelho, deixa a equipe três meses antes do previsto para que a futura gestão tenha tempo de planejar a próxima temporada. Por ora, o impasse político paralisou o marketing tricolor.

Desde o início do ano, a missão da cúpula do time pernambucano era ascender à terceira divisão da liga nacional, objeto de desejo comum entre a torcida, aflita com o afastamento do Santa Cruz da elite brasileira desde 2006. Com o fracasso mais recente, a saída de Coelho e a indefinição de candidatos a substitui-lo fizeram com que negociações de patrocínios para 2011 emperrassem.

Se o atual grupo de empresários que apoia o clube conseguir emplacar novo nome na presidência, o planejamento traçado até o momento terá continuidade e o departamento de marketing retoma discussões por novos acordos. O contrato com a Penalty, fornecedora de materiais esportivos, está praticamente acertado, conforme antecipou a Máquina do Esporte.

Caso contrário, se o sucessor apontado pelo grupo não vencer as eleições, é provável que a nova gestão leve mais tempo para se adaptar ao clube e comece a anunciar mudanças. Por esse motivo, principalmente, as eleições foram antecipadas. Até o momento, além do presidente, já deixaram o Santa Cruz técnico, gerente de futebol e mais de 20 atletas.

O êxodo de profissionais está diretamente ligado ao fracasso na Série D. Em outras competições, como Campeonato Pernambucano e Copa do Brasil, a equipe nem obteve resultados tão negativos - 3º e 13º, respectivamente. Mas o foco é a promoção à Série C e, segundo fonte ligada ao time, todos os esforços serão empregados para atingir a meta.

O Campeonato do Nordeste e a Copa Pernambuco ainda serão disputados até o fim do ano, mas o torcedor tricolor terá de se conformar com desempenho abaixo do ideal. Sem presidência definida, o desfalcado elenco será comandado pelo então treinador das categorias de base, Henry Lauar, promovido a técnico após a demissão do antecessor.

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quarta-feira, setembro 15, 2010

Estádio climatizado no Qatar impressiona Fifa

Candidato a sede da Copa de 2022, país já é visto com bons olhos pelos inspetores da entidade

Equipe Universidade do Futebol

Na última terça-feira, inspetores da Fifa desembarcaram em Doha, no Qatar, para avaliar as condições do país para a realização do Mundial de 2022. Conforme apurou o portal Globoesporte.com, os representantes, liderados pelo chileno Harold Mayne-Nicholls, foram aompanhados pelo brasileiro Leonardo Vitorino, do Al Gharafa e pelo treinador sérvio Bora Milutinovic, o único a dirigir cinco seleções diferentes em Copas do Mundo.

Caracterizada pelos projetos grandiosos e inovadores de nove arenas, a candidatura dos árabes impressionou aos inspetores que acompanharam a partida entre Al Saad e Al Ryan, pela Liga do Qatar 2010/2011, no estádio Jassim Bin Hamad. Segundo Leonardo, a climatização dos estádios foi apontada como um dos pontos positivos do país.

“O que mais impressionou aos inspetores da Fifa foi à temperatura do estádio registrar 19 graus, enquanto a temperatura real de Doha se encontrava em 36 graus. O que está sendo mais enfatizado, é que apesar do calor, o Qatar tem condições de colocar sistemas eficientes de climatização nos estádios e até mesmo nas ruas”, disse em declaração ao site.

O portal também revela que já nesta quarta-feira, serão apresentados os projetos de infraestrutura e também os planos de desenvolvimento. O planejamento inclui uma nova rede de transportes públicos, a mais prática e compacta de toda história. No dia seguinte, a delegação visitará um dos mais modernos centros de treinamento em excelência do mundo, chamado de Aspire.

Rússia, Austrália, Inglaterra, Japão, Estados Unidos, Espanha/Portugal e Holanda/Bélgica estão na briga para sediar tanto o Mundial de 2018 quanto o de 2022; já Coréia do Sul, assim como o próprio Qatar, disputa apenas o segundo.

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Geração Z: quem são os consumidores do futuro?

Nascidos junto à tecnologia, eles mostram-se mais exigentes, inquietos e querem marcas sustentáveis

Por Sylvia de Sá, do Mundo do Marketing

Muito já se falou sobre a geração Y. Agora chegou a vez da Z. Formado por crianças e adolescentes – futuros consumidores – esse grupo já desenha algumas tendências que devem despertar a atenção do mercado. Mantendo algumas características dos jovens da Y, a Z aparece cada vez mais preocupada com a sustentabilidade e disposta a não pagar por produtos e serviços que podem ser encontrados gratuitamente na internet.

O conceito de gerações, antes muito utilizado pela área de recursos humanos, ganha importância também no mercado. Mesmo não sendo possível rotular pessoas apenas de acordo com a sua faixa etária, a definição pode facilitar o conhecimento e o desenvolvimento da estratégia das empresas. Semelhantes à Y, a Geração Z também é inquieta, menos fiel às marcas e acostumada a fazer tarefas múltiplas. A diferença, no entanto, é que a nova geração tem todas as características de forma mais acentuada, pois se desenvolveu junto com os avanços tecnológicos mais recentes.

Geração Z quer conteúdo grátis e marcas sustentáveis “A geração Z já nasceu com o joystick, o controle remoto e o celular no berço, enquanto a Y viu isso acontecer. Se a Y quer as coisas rápidas, a Z muito mais, ela não sabe o que é o mundo sem tecnologia”, aponta Paulo Carramenha (foto), Diretor Presidente da GFK CR Brasil, em entrevista ao Mundo do Marketing.

Consumidor menos previsível
Em relação à idade, a geração Y é formada por jovens de 20 a 30 anos e a Z por crianças e adolescentes de até 17 anos, enquanto a X é composta por adultos de 30 a 45 anos. Em sua maioria, a X nasceu após acontecimentos como a chegada do homem à lua e viu surgir o videocassete e o computador pessoal, mas passou por um momento de instabilidade financeira, o que não aconteceu com os jovens da Y, muito mais inseridos no mercado de consumo.

A Y, além de ter se desenvolvido numa época de prosperidade econômica, também testemunhou grandes avanços tecnológicos, como a internet, o que fez com que crescessem estimulados por atividades e realizando tarefas múltiplas. As características, entretanto, não são suficientes para definir um grupo de pessoas, que sofrem diversas influências sociais, culturais e econômicas que acabam por refletir no comportamento.

“Cada vez mais fica claro que o consumidor é menos previsível do que era no passado. Estamos tentando entender o tempo todo o que mudou. Antes de serem de gerações diferentes, esses consumidores são também pessoas, com necessidades, expectativas e valores que vão além da idade ou do ano de nascimento”, diz Carramenha.

Geração Z quer conteúdo grátis e marcas sustentáveis Jovens não querem pagar por conteúdo
Cabe ao Marketing, então, selecionar segmentos de pessoas que tenham um comportamento de consumo semelhante. “As gerações estão ficando cada vez mais próximas. Se eu falar da X, por exemplo, sempre existiu um pé atrás em relação à compra pela internet. Mas com o desenvolvimento do serviço, hoje essas pessoas estão mais confiantes na hora de comprar”, explica Ana Barbieri (foto), Professora do curso “Cultura Jovem: as gerações X, Y e Z”, do CIC ESPM – Centro de Inovação e Criatividade, em entrevista ao Mundo do Marketing.

Para as empresas é essencial entender uma característica fundamental da geração Y e, principalmente, da Z: eles querem pagar cada vez menos por produtos e conteúdo. Fazer downloads gratuitos de músicas, filmes e livros é um hábito comum a esses consumidores, que não pagam por isso com a mesma frequência que a geração X.

“O que eles mais compram são produtos relacionados à moda e à tecnologia, especialmente celular. Além disso, apesar dos jovens da geração Z ainda não estarem inseridos no mercado de consumo, eles influenciam os pais na hora da compra, fazem pesquisa na internet e vão à loja física”, aponta Ana.

Sustentabilidade e marcas transparentes
Outra tendência que já se desenha entre os indivíduos da Y – e deve ficar ainda mais relevante na Z – é o apelo por produtos e serviços sustentáveis. “Os jovens estão mais preocupados com o meio ambiente e com causas sociais, mais do que a geração anterior, que é muito consumista. Eles querem escolher melhor, saber que a marca contribui para a sustentabilidade e para buscar o consumo consciente”, diz Carramenha, da GFK.

A transparência das marcas também é um atributo muito valorizado pelos jovens da geração Y. “As marcas que souberem entregar conteúdo para esse consumidor se darão bem. As empresas que querem se comunicar com o jovem têm que fazer algo que eles gostem e que também esteja ligado à marca. As companhias devem ser verdadeiras e conhecer os consumidores”, ressalta Ana, da ESPM.

A estratégia vale também para a geração Z, que representa os consumidores de amanhã das empresas. É preciso que as marcas mantenham um diálogo desde agora para manter um vínculo forte e um relacionamento estreito no futuro. É o que faz a Oi, trabalhando plataformas que falam diretamente com esse público.

Geração Z quer conteúdo grátis e marcas sustentáveis Conexão com os jovens de espírito
A marca que surgiu há oito anos conta hoje com investimentos em música, moda, esportes e cultura. Um dos canais mais fortes da empresa é a Oi FM. A rádio presente em 10 cidades é um dos principais exemplos de como a operadora de telefonia consegue se conectar aos jovens e fortalecer sua marca entre consumidores, sem esquecer dos prospects.

“A Oi surgiu com a preocupação de ser uma marca voltada para pessoas de espírito jovem. Essa forma de comunicar visa definir a identidade da marca. Medimos o sucesso da Oi a partir da relação emocional que as pessoas têm com ela”, diz Flavia da Justa (foto), Diretora de Comunicação de Mercado da Oi, em entrevista ao Mundo do Marketing.

O foco da Oi nos “jovens de espírito” prova que, muito mais do que uma divisão por faixa etária, é necessário entender os consumidores e seus estilos de vida. “As pessoas querem continuar jovens. As marcas devem trabalhar os estilos de vida. Hoje não há uma grande massa para que as empresas falem tudo igual. Não dá para dizer que uma pessoa de 30 anos seja muito diferente de uma de 25”, acredita Ana.

Entender as diferenças entre as gerações ajuda na construção da estratégia das empresas, mas não se pode deixar de lado o perfil de cada consumidor. “O mais importante é perceber que, independentemente de idade e geração, os consumidores são pessoas. As marcas se relacionam com seres humanos”, aponta o executivo da GFK.

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