Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

sexta-feira, agosto 07, 2009

Motivação em números: o sucesso crescente da Uefa Champions League se reflete no ímpeto dos jogadores em campo
Por que Chelsea e Liverpool fizeram uma das maiores partidas da história do principal torneio de clubes do mundo?
Luciano Teixeira de Souza, Thiago Mendes Cardoso
O dia 27/05/2009 marcou a grande final do, hoje, maior torneio de clubes de futebol do planeta, a Uefa Champions League.

Naquela data, a equipe espanhola do Barcelona se sagrava campeã após uma vitória incontestável sobre os ingleses do Manchester United.

Porém, as duas nacionalidades citadas acima dizem respeito apenas à origem das equipes, pois a Champions League se tornou tão grande e milionária que é possível afirmarmos categoricamente que cada jogo se tornou um confronto entre “mini-seleções” de jogadores de todo o planeta.

Tanto sucesso, mídia e dinheiro envolvidos fizeram com que a Champions League se tornasse um dos maiores objetivos na carreira de um jogador profissional. Em muitos casos, um objetivo maior até do que o de representar a seleção de seu país.

Um dos jogos desta competição, agora em 2009, que deixou bem claro como o alto nível de motivação influenciou diretamente no ímpeto dos jogadores em campo foi o clássico inglês “Chelsea x Liverpool”. Jogo que, para muitos, pode ser considerado o melhor jogo do ano e com o qual trabalharemos neste estudo.

Os dados utilizados aqui são captados através da **Prancheta Eletrônica, da ScoutOnLine Tecnologia Esportiva.

Percebam no quadro abaixo como, ainda com relação às “mini-seleções”, cada time se compõe em termos da nacionalidade dos seus jogadores:



Com relação ao jogo em si, essa foi uma partida muito movimentada e que dividimos em quatro momentos (intervalos) distintos. Isso pode ser observado no gráfico de passes certos ao longo do tempo de jogo abaixo, bem como nos campogramas de posicionamento efetivo dos jogadores nesses mesmos intervalos seguimentados:





Dividimos em quatro grandes momentos sob uma visão tática: até 2x0 Liverpool; empate por 2x2; virada do Chelsea para 3x2; e virada do Liverpool até o final. Nesses seguimentos do jogo fica possível perceber a estrutura tática das equipes, a maneira como iniciaram a partida e suas nuances em função da necessidade do resultado.

Uma marca das equipes inglesas - pelo menos das quatro grandes (Chelsea, Liverpool, Arsenal e Manchester United) - é o 4-3-3 que varia para um 4-5-1 ao estarem sem a posse de bola.

São os “falsos pontas”, voltando para a primeira linha defensiva. Essa estrutura foi a utilizada pelo Chelsea no início da partida.

No início, o clube londrino esteve muito recuado em função da marcação adiantada do Liverpool, com os pontas Malouda e Kalou recuados; no campograma (0-28 min) vê-se uma média de ações defensivas com todos os jogadores atrás do meio de campo. O resultado foi um excesso de tentativas de ligação direta entre os setores de defesa e ataque, com muitos lançamentos em direção a Drogba e ações ofensivas de perigo somente nas bolas paradas.

Pelo lado do Liverpool, além da marcação adiantada, os Reds tiveram um esquema parecido com o do Chelsea, entretanto, os pontas tiveram o apoio dos laterais no ataque, com Fabio Aurélio e Arbeloa sempre participando das ações ofensivas nas quais, mesmo sem chegarem à linha de fundo com constância, tornaram-se o grande diferencial da equipe.

Enquanto isso, os Blues tiveram o zagueiro Ivanovic improvisado na lateral direira, além de Ashley Cole discreto no ataque.

Na segunda etapa da divisão (28-57), as principais mudanças se devem à entrada de Anelka. Ele entrou no lugar de Kalou e melhorou a qualidade no setor direito, conseguindo manter a posse de bola e auxiliar Drogba no ataque, tanto em jogadas pelo meio, como em jogadas pelo fundo, de onde saiu o primeiro gol. Além disso, abriu espaço pra a chegada de Lampard pelo meio.

O equilíbrio da partida refletiu-se no campograma com o avanço das linhas de defesa e equilíbrio no fluxo de passes. Resultado da diminuição da intensidade da marcação do Liverpool, até de certa maneira dada como natural, pois o desgaste físico de marcar pressão no ataque é muito grande.

Na terceira etapa da divisão (57-76), o Liverpool voltou a dominar as ações (algo bastante claro no gráfico 1 acima), porém, aos 76’, num erro na saída de bola da sua defesa, acabou tomando o gol da virada.

Por fim, na última etapa da nossa divisão, após o Chelsea virar o placar para 3x2 (quando o rival precisaria de mais três gols para a classificação), os azuis pareceram relaxar com um ar de missão comprida. A partir daí os vermelhos começam a trocar maior número de passes e marcaram dois gols num intervalo de dois minutos. Gols que saíram em um chute despretensioso de Lucas e uma jogada de Riera pela esquerda, com as linhas defensivas do Chelsea muito próximas à grande área.

Na sequência, faltando um gol para a classificação do Liverpool, o Chelsea conseguiu manter a posse de bola no campo adversário e não levou o sufoco que era esperado num momento daqueles. Marcou um gol justamente após jogada de Drogba, o responsável pela manutenção dessa posse de bola e, quando tudo parecia definido, Essian ainda salvou uma bola em cima da linha e que colocaria o Liverpool na partida restando ainda os acréscimos do árbitro.

O que se pode tirar dessa partida como exemplo de fatores determinantes de um resultado e que aconteceram de maneira explícita é:

· A marcação pressão no campo adversário foi fundamental para a manutenção da posse de bola já no início do jogo. Além de poder roubar a bola num setor mais próximo à área, pode-se pegar o adversário desestruturado.

· Jogadas de linhas de fundo realizadas pelos pontas, e não pelos laterais que somente dão apoio, quando o senso comum diz que estes “acabaram” no futebol atual (é muito comum escutar isso no noticiário esportivo).

· Times jogando sem um meia responsável somente pela armação, jogando com um trio de volantes versáteis com função primeiramente de desarme (Essien-Lampard-Balack/Lucas-Mascherano-Xabi Alonso) podem ser muito eficientes, e faz com que estes sempre apareçam no ataque vindo de trás.

Uma partida com muitos gols acontece em função de erros do setor defensivo ou mérito do ataque. E com relação a isso, o aspecto motivacional dos atletas em torno da competição influencia diretamente no resultado final.

Fica aí o exemplo a ser seguido aqui no Brasil. Mantendo nossas estrelas por maior tempo e aproveitando esse bom momento do futebol brasileiro (com a atual “onda” de contratações do exterior, ainda que limitada) de nomes de peso, é possível despertar um interesse maior por esta temporada do Campeonato Brasileiro, além de dar uma maior qualidade ao mesmo.

Por melhor gestão e diminuição de dívidas, CBF planeja calendário brasileiro 'à La Europa'
Pedido foi realizado pelo presidente Lula, após reunião com Ricardo Teixeira; proposta será encaminhada em 30 dias
Equipe Universidade do Futebol
Em 30 dias, a organização do futebol brasileiro poderá dar mostras de querer caminhar em uma linha comum com o que se dá na Europa. Um calendário alterado e adequado ao modelo do Velho Continente, com jogos entre agosto de um ano e junho da temporada posterior, é reflexo de uma sugestão apresentada em reunião em Brasília, realizada nesta sexta-feira.

No acordo entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o mandatário da CBF, Ricardo Teixeira, uma proposta deverá ser apresentada ao Executivo até o próximo mês. Mesmo se receber a aprovação imediata, entretanto, o novo calendário poderá entrar em vigor apenas em 2012 – os clubes precisam respeitar contratos comerciais e de transmissão firmados até 2011.

“No Brasil, no meio do campeonato, os melhores atletas por vezes saem do país”, apontou o ministro do Esporte, Orlando Silva Jr, referendando a mudança como uma forma de de evitar a saída de jogadores para campeonatos de outros países durante as principais competições nacionais.

Uma questão fundamental levantada se refere ao aperfeiçoamento da gestão dos clubes. Silva Jr. crê que é preciso definir uma espécie de lei de responsabilidade fiscal própria do futebol, a exemplo do que ocorre hoje com a administração pública para limitar gastos.

“Seriam medidas para uma gestão mais profissional, enquadrar os orçamentos de modo a reduzir as dívidas dos clubes. Há dívidas trabalhistas, fiscais e bancárias enormes. É preciso reestruturar essas questões de modo a dar eficiência ao futebol”, argumentou o ministro, que citou os altos salários dos atletas como um dos motivos que conduzem muitas agremiações às dívidas.

quinta-feira, agosto 06, 2009

A especialidade de uma atmosfera: diferenças entre se assistir a um jogo no estádio e pela TV
Na praça esportiva, público é parte atuante do evento, enquanto noção virtual, apesar dos benefícios, não traduz plenamente os sentimentos do torcedor
Bruno Camarão
“Se as pessoas acharem que o futebol é aquele da TV, ele irá acabar”. Apesar da incerteza do aparato midiático em que foi proferida tal frase, bem como a identidade da construção gramatical, o sentido e o contexto expostos por Sócrates nessa afirmação são um só: o modo como o público que se afasta dos estádios a cada dia, por uma série de motivos, compreende o jogo do esporte mais popular do mundo está abalado.

O principal representante do movimento social conhecido como Democracia Corinthiana e um dos maiores jogadores da história do clube do Parque São Jorge, sempre crítico à atual administração do futebol brasileiro – leia-se CBF –, analisa o afastamento do público que se encantava pelas suas próprias jogadas, em décadas remotas, ciente das diferenças de mundo daquela e da época atual. Diferentemente dos anos 1980, quando, por exemplo, o Flamengo colocava em média aproximadamente 60 mil pessoas por jogo*, no Campeonato Brasileiro do ano passado, quando realizou uma campanha positiva e terminou na quinta colocação, a presença de quase 40 mil torcedores em cada duelo no Maracanã, na maioria das vezes, surpreendeu.

A queda acentuada em relação a pouco mais de 20 anos, mesmo em se considerando o valor da massa rubronegra in loco em 2008, é mais um traço para corroborar com o perfil do espectador caseiro. E da exposição das diferenças no olhar.

“Futebol é no campo. Na TV, você não tem a dimensão do que é uma partida, de fato. Vê-se a geometria, todo o movimento de todos os atletas em campo. Isso é algo inconcebível, mesmo com 36 câmeras espalhadas”, avalia Plínio Labriola Negreiros, que é historiador, além de professor de História da Escola Nossa Senhora das Graças.

A tentativa de se criar um espetáculo que não existe, com o fechamento das lentes em um bloco mais cheio de torcedores, além da disposição intencional de microfones direcionais que captam o áudio em meio às torcidas organizadas, por exemplo, condiciona quem está do outro lado da tela a se impressionar com o estádio cheio. O que geralmente não procede.

Corre-se o risco de, com um tempo, as próximas gerações perceberem o futebol apenas como aquilo que se passa na TV? Uma resposta foi dada por Ary Rocco, professor de jornalismo da FECAP, que desenvolveu uma tese de doutorado no departamento de comunicação e semiótica da PUC-SP sobre a relação entre torcedores de futebol no espaço virtual.

“Eu acredito que não. A ida do torcedor ao estádio não vai acabar nunca. O que particularmente acredito é que mais cedo ou mais tarde teremos de nos render ao modelo inglês, onde, na Inglaterra, em 1992, com a Premier League, decidiu-se que o futebol era um espetáculo sócio-econômico e, como tal, o torcedor teria de pagar mais caro, mas com algumas condições de conforto, que fizesse ele abdicar de um teatro, de um cinema, por exemplo, em detrimento do futebol”, prevê.

“Vejo a solução parecida por aqui, guardadas as devidas proporções, relativas a PIB, poder aquisitivo do brasileiro, mas teremos de ajustar a fórmula, profissionalizar o futebol a tal nível que o torcedor sinta aquele evento como uma atividade de lazer, com segurança, para desfrutar disso. Se continuar com esse modelo, não tenho dúvidas de que perderemos muitos torcedores para a televisão, para outras formas de lazer, e até para clubes de fora”, completa Rocco, apontando para uma situação muito comum: garotos brasileiros trajando uniformes de equipes estrangeiras.

Um jovem de classe média alta, vestindo a camisa do Milan, da Inter de Milão ou do Real Madrid, e não dos clubes brasileiros, seria sinal da preferências dele, como consumidor do esporte, de assistir pela televisão a um espetáculo melhor, com uma qualidade melhor, do que efetivamente ir ao estádio por conta do receio próprio ou da família.

Os jogos organizados tornaram-se institucionalizados a partir de meados do século XIX, especificamente na Europa e nos Estados Unidos. Até o início do século XX, os esportes fortemente marcados por organizações, equipes e campeonatos nos quais a presença do nacional era muito forte.

O ressurgimento dos Jogos Olímpicos, da Copa do Mundo, e dos campeonatos nacionais, entre outros eventos, conviveu com uma dinâmica em que outras identidades se construíram – cidades e regiões têm muito a dizer nesse processo.

Nem mesmo o advento da televisão e dos patrocínios milionários das multinacionais destruiu essa multiplicidade de identidades construídas nas diferentes modalidades esportivas por diferentes populações. Na mesma medida que os esportes e as equipes podem representar identidades locais, regionais, nacionais e étnicas, também apresentam funcionalidade político-ideológica. Uma análise caso a caso é mais interessante.

Roberto Da Matta (1982) considera que uma mesma atividade pode ser apropriada de formas diferentes por diferentes sociedades, como é o caso do futebol no Brasil, diferente do futebol praticado nos países europeus, por exemplo. Ele ressalta que, no Brasil, o futebol é sempre chamado jogo, o mesmo termo que classifica os chamados “jogos de azar”, como o tambémbrasileiro “jogo do bicho”.

Normalmente, o interesse dos brasileiros pelo futebol encontra-se dividido em torno da regionalidade decorrente da torcida a diferentes clubes. Os clubes de futebol simbolizam um pertencimento social com características específicas, demandando dos torcedores uma lealdade por toda a vida (“Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer...”). Muitas vezes, os locutores esportivos se referem à torcida de um clube como “nação” (“nação colorada”, “nação rubronegra”, etc., de acordo com as cores do clube), ressaltando esse sentido de comunidade reunidaao redor do pertencimento afetivo a um grupo, a um sentimento coletivo compartilhado, no caso, mediado pelo time do coração.

“O nascimento da mídia esportiva estaria relacionado à formatação do torcedor. Somos todos robôs e estamos submetidos a ela. O futebol e a mídia quase que se retro-alimentam. Zaldo Barbosa acreditava que o rádio acabaria com a sociabilização do futebol. Mas ocorreu o contrário”, avalia Luiz Henrique de Toledo, do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

“A mídia tem sua posição ideológica e ela joga com essa questão da violência. Há uma consequente apropriação de parte da elite pelo espaço urbano, que começa a se desagregar. Torcer hoje passa por esse esvaziamento. É necessária uma modulação, por questões econômicas, do que é ser torcedor hoje. O fato de estar em casa não significa que você está mais afastado da violência”, completa Luiz Henrique.

Após fraturar o terceiro e quarto metacarpos da mão esquerda, o atacante Ronaldo ficará afastado por aproximadamente um mês do Corinthians. Isso corresponderá a cerca de oito jogos do Nacional. A projeção de Mano Menezes, treinador da equipe, é de que os corintianos diminuam a frequência nesse período por conta da falta desse “fator motivador”.

“Provavelmente vamos perder público porque o Ronaldo é uma atração especial, mas precisaremos resolver os problemas do ataque sem ele. [O Brasileiro] perde muito sem ele, pois quanto mais jogadores do seu nível ou próximo disso, melhor para a competição”, acredita o comandante-técnico gaúcho.

* Segundo estatísticas da revista Placar, dentre as dez maiores médias de público da história da primeira divisão do Campeonato Brasileiro, o Flamengo aparece em cinco delas – todas na década de 1980.
1. Flamengo (1980) - 66.507
2. Flamengo (1982) - 62.436
3. Flamengo (1983) - 59.332
4. Atlético Mineiro (1977) - 55.664
5. Internacional (1975) - 51.692
6. Corinthians (1976) - 47.729
7. Flamengo (1987) - 47.610
8. Internacional (1979) - 46.491
9. Bahia (1986) - 46.291
10. Flamengo (1981) - 43.614

Bibliografia

GEBARA, A. (Org.) ; PILATTI, Luiz Alberto (Org.) Ensaios sobre História e Sociologia nos Esportes. 1. ed. Jundiaí: Fontoura, 2006. v. 2000. 196 p.

quarta-feira, agosto 05, 2009

Construindo um calendário racional para o futebol brasileiro
Três premissas, atuando em sinergia, podem conferir à temporada brasileira bons frutos à competição e à saúde dos clubes
Luis Filipe Chateaubriand
Não chega a ser novidade que o calendário do futebol brasileiro é dotado de imperfeições diversas, sendo um inibidor das possibilidades que os clubes de futebol possam ter para maximizar a satisfação de seus clientes, os torcedores, e obter resultados financeiros em decorrência disso.

É, portanto, imperativo que sejam feitas mudanças estruturais no calendário de nosso futebol. Este documento visa propor algo nesse sentido.

Para que o calendário do futebol brasileiro possa ser mais eficaz do que acontece atualmente, há que se ir além de apenas adotar a fórmula de turno e returno e pontos corridos para o Campeonato Brasileiro – medida acertada, porém insuficiente, para se ter um bom calendário.

Com efeito, três premissas são importantes para que se tenha um bom calendário no futebol brasileiro, a saber:

• Adaptação temporal ao calendário do futebol europeu;

• Definição de uma competição central a ser jogada aos fins de semanas, intercalada com as outras competições, realizadas aos meios de semanas, durante toda a temporada regular;

• Adoção de um modelo que permita que as seleções nacionais, e a seleção brasileira em particular, só atuem quando os clubes não estiverem em ação.

A primeira premissa importante, portanto, é a adequação do calendário do futebol brasileiro ao calendário europeu. A sincronia de datas entre os dois centros faz-se absolutamente necessária, pois, assim, os períodos de transferências entre jogadores ficam harmonizados e, com isso, evita-se a migração em massa dos principais jogadores do futebol brasileiro para a Europa em meio ao Nacional.

É sabido que, no modelo atual, a existência de uma “janela” de transferências entre junho e agosto de cada ano faz com que os principais jogadores em atividade no futebol brasileiro sejam transferidos para o mercado europeu, fazendo com que os clubes percam seu time base em meio à principal competição do calendário.

Isso deve ser evitado, o que pode ser conseguido se a temporada de competições seguir o modelo de pré-temporada em julho, período de competições oficiais entre agosto e maio, e férias dos jogadores de futebol em junho.

A segunda premissa importante diz-nos que há de existir uma competição principal que seja jogada ao longo de toda a temporada anual, mantendo os clubes em atividade durante esse período – os envolvidos poderão garantir, assim, jogos oficiais desde o início até o término.


Pelo caráter de competição primordial que o Campeonato Brasileiro assume em nosso futebol, este deve ser o certame jogado aos fins de semanas ao longo de toda a temporada. Destarte, primeira, segunda, terceira e o equivalente à quarta divisões devem ser realizados somente aos sábados e domingos, entre agosto de um ano e maio do ano seguinte.

As outras competições podem ser distribuídas ao longo desse mesmo período, só que jogadas no meio das semanas.
Um corolário da adoção dessa premissa é que fazer com que a competição principal do futebol brasileiro, o Campeonato Brasileiro, seja jogada só aos fins de semanas significa um tratamento especial para esta, o que propicia melhor satisfação dos torcedores e consequente aumento de receitas na competição que ocupa todos os clubes principais ao longo da temporada.

A terceira premissa é que as seleções só devem atuar quando os clubes não estiverem em ação. Com isso, evita-se que, havendo a indesejável coincidência, ou os clubes joguem desfalcados de seus jogadores cedidos às seleções, ou as seleções joguem sem alguns jogadores que poderiam ser convocados, mas permanecem nos clubes – ambas as situações são nocivas, tanto aos clubes, como às seleções.

Parece ser sinal de respeito ao torcedor, ainda, a não coincidência de jogos de seleções com jogos de clubes, pois, quando a dita coincidência acontece, o torcedor precisa se dividir entre a atenção que dá a seu clube de coração e à seleção de seu país, o que não é ideal.

É óbvio que o período adequado para as seleções fazerem treinos e jogarem competições oficiais é quando os clubes não estão em ação. Ou seja, e tomando o calendário europeu como referência, os meses de junho e julho. Portanto, todo o trabalho de seleções deve ser realizado nos meses citados, com o período entre agosto e maio sendo de exclusividade dos clubes, que são as instituições que fazem o negócio acontecer.

Cabe ressaltar que a adoção de uma das premissas, de forma isolada, sem a adoção das outras duas, pouco contribui para se ter um calendário racional. Não adianta adequar o calendário brasileiro ao europeu se continuar havendo jogos de seleções no período que deveria ser dedicado aos clubes. Não adianta as seleções só jogarem quando os clubes não estiverem em atividade, se não houver uma competição central que ocupe os clubes principais ao longo de toda a temporada. Não adianta termos o calendário nacional coincidindo com os dos grandes centros se continuarmos a distribuir mal as competições ao longo da temporada, sem a adoção de uma especial que vá preencher a maior parte da temporada oficial.

Adotar as três premissas em conjunto gera uma sinergia que pode produzir bons resultados.

Cabe lembrar que, para que essas premissas possam resultar em um calendário racional e bem planejado, outra variável é importante: o número de jogos por agremiação. Não se deve existir o clube que joga muitas vezes ao longo da temporada, nem o clube que quase não está em ação. Há que se buscar um patamar de equilíbrio. Mas tal assunto merece ser abordado com maior profundidade, em outro artigo.


*Luis Filipe Chateaubriand é autor do livro 'Futebol brasileiro: um projeto de calendário'

domingo, agosto 02, 2009

COM PÉ E CABEÇA – ANO IV – Nº155

ENTREVISTA COM BENÊ LIMA
Clarimundo D’Oitiva, o provocador, instiga o crítico Benê Lima


Clarimundo – Você integra a administração do Artilheiro?
Benê Lima – Não, não. Já tive uma atitude mais cooperativa com o Site, mas a falta de tempo e o distanciamento por razões profissionais de algumas pessoas a ele ligados me fizeram contribuir apenas com a manutenção de minha coluna. Mas o que mais me chama a atenção são a durabilidade e a consistência do projeto. Sobre isto posso falar por ser uma espécie de colunista-precursor.

Clarimundo – Como você vê a chegada dos multimeios como Artilheiro no meio esportivo cearense?
Benê Lima - Alguns acontecimentos importantes foram noticiados em primeira mão por sites na internet. Existem pesquisas que revelam que mais de 50% dos norte-americanos tem como principal fonte de informação os sites e blogs da web. É inegável a agilidade e a praticidade proporcionadas pela internet, além da busca virtual ter-se revelado mais qualificada e prazerosa. Enquanto o formato radiofônico, televisivo e do jornal impresso pouco ou nada permitem ao modelo convencional, a web, por si só, já é a renovação e a revolução, a ponto de trazer contribuição inestimável a todos os veículos de comunicação. Some-se a isso o gigantesco salto de liberdade que a web representa, através de suas ferramentas de interação.

Clarimundo – Você parece cultuar um viés neoprogressista e revolucionário. Isso é idealismo, estilo ou charme?
Benê Lima
- Nenhuma das opções anteriores sintetiza com acerto minha visão. Sou neoprogressista quanto às idéias, mas conservador quanto aos valores. A revolução que acredito e que defendo é a do conhecimento, rejeitando todas as outras derivadas da força e das armas. Se você fala de meus arremedos de projetos e idéias sobre o futebol, aí posso dizer que hoje tenho uma visão mais social e menos fragmentada do esporte. Quero contribuir mais e mais para que tenhamos uma visão transdisciplinar do futebol, criando relações sistêmicas entre suas categorias e subcategorias, entre o amador e o profissional.

Clarimundo – O que traria de proveito essas tais relações sistêmicas que você tanto fala?
Benê Lima
- O futebol amador e o profissional sobrevivem sem uma conexão mais amiúde de causa-e-efeito. Cada um por si. Essa desconexão comprime a oferta de novos talentos e de mão de obra especializada. Dentro desse contexto, nossos clubes profissionais ficam onerados pela baixa produção de ‘matéria-prima’ (jogadores) e mão-de-obra qualificada (treinadores, técnicos, preparadores, auxiliares, etc.). Assim, enxergam como única saída a construção de custosos centros de treinamentos (os cetês), cujo custo operacional e de manutenção não é levado na devida conta. Agora mesmo o Ceará Sporting cogita a construção de um desses centros na cidade de Pacajus. Isso configura um erro estratégico de elevado custo, pois só a locomoção de seus quadros em cinco anos absorveria uma quantia exorbitante, além de outros custos e riscos adicionais.

Clarimundo – Mas, e aí, o que se faria de real para que o futebol amador pudesse contribuir com os clubes profissionais?
Benê Lima
- Estruturar o futebol amador é a nossa idéia. A criação de uma entidade nacional em nosso estado já está em curso, e neste projeto ela buscará apoio nas três esferas (municipal, estadual e federal) para patrocinar um surto desenvolvimentista do futebol amador no estado do Ceará. As competições amadoras seguiriam o modelo preconizado pela FIFA e CBF, com o aval e o comprometimento da FCF quanto ao cumprimento do calendário. Desse modo se abririam novas perspectivas não só para atletas, mas também para os profissionais da área.

Clarimundo – Qual o escopo das mudanças que você preconiza como necessárias ao futebol cearense?
Benê Lima
- Os alvos das mudanças seriam na orientação geral dos gestores (ou atores) do nosso futebol. Isso inclui a administração dos nossos clubes, a administração da federação (FCF) e a crônica esportiva. Falta-nos o capital intelectual na área esportiva para pensarmos nossos próprios projetos, para criarmos soluções alternativas contextualizadas na nossa realidade, sem importarmos modelos que guardam pouca ou quase nenhuma afinidade com nossa economia e nossa cultura.

Clarimundo – Por que razão se fala tanto em ética e pouco se pratica a esse respeito?
Benê Lima
- Na verdade, se percebe um grande equívoco no enunciado do conceito de ética. Por aqui, tem-se a ética como sinônima de parcimônia crítica, ou melhor, de extrema generosidade e casuísmo, a ponto de se considerar ético a mentira e o mentiroso, em detrimento da verdade e do legítimo. Não foi por acaso que solicitei ao doutor em filosofia que proferiu palestra sobre o tema, no 1º Seminário Cearense de Futebol Feminino, que formatasse a ética como um produto, buscando ‘vendê-la’ sob suas vantagens e benefícios. A idéia era mostrar e comprovar aos presentes o verdadeiro e inestimável valor do bem supremo da ética.

Clarimundo – Você já tem alguma experiência prática como gestor na área esportiva?
Benê Lima
- Pouca, mas o suficiente para formular um caminho de autodescoberta a baixo custo. Nosso tônus cerebral adveio da soma da experiência predominantemente teórica dos nossos clubes, aliada à experiência prática do Caucaia Esporte Clube. Quem acompanhou e acompanha o site do clube sabe dos acréscimos que fizemos, sobretudo na área de comunicação. Outra experiência que tem ganhado boa visibilidade é a de coordenador técnico e relações públicas da Liga Cearense de Futebol Feminino. Promovemos, ao lado do Presidente Sérgio Ricardo, um substancial impulso no crescimento da entidade, principalmente quando direcionamos seu trabalho para o aspecto educacional e social. Organizamos um Seminário com elevado conteúdo didático-pedagógico, e de prático obtivemos a convocação de uma atleta radicada em um de nossos clubes para a Seleção Brasileira Sub-19.

Clarimundo – É verdade que essa sua visão do futebol é fruto de um processo de transformação de suas idéias originais?
Benê Lima
- É verdade sim. Tinha, como muitos, uma visão elitista do futebol. Não enxergava nem as macro e menos ainda as micro relações existentes no mundo da bola. E isso era algo tão arraigado que tinha desdobramentos em outras áreas, como a do rádio. Só há pouco passei a ver a exata dimensão, por exemplo, de uma rádio comunitária. Mas, a bem pouco, passei a valorizar os programas esportivos que abrem espaço para o futebol amador, e eu mesmo adotei tal iniciativa no programa diário que coordeno e apresento. É bem verdade que ainda não encontrei um profissional com o qual tenha maior afinidade, mas creio que isso deve estar bem próximo.

Clarimundo – E quanto ao futebol profissional, como vê as situações do Ceará e do Fortaleza?
Benê Lima
- São situações bem diferentes na atualidade. A experiência positiva do Fortaleza serviu ao Ceará, e o Fortaleza não perseverou no acerto. Dito assim pode parecer fácil, mas a gente sabe que no futebol o sucesso é efêmero. O Ceará de agora tem uma cara mais profissional e se apresenta como um produto mais confiável, embora o componente político-eleitoral esteja tão presente como em tempos recente. E isso transfere instabilidade ao clube. O Fortaleza rebusca um modelo administrativo profissional desde o fim da co-gestão, mas até aqui não encontrou nenhum que o pacifique e estabilize. E, quando tudo é mais efêmero do que deveria, a estabilidade, a durabilidade e a confiabilidade passam à distância.

Clarimundo – Como assim?
Benê Lima
- O Fortaleza foi lançado numa tormenta pelo experimentalismo da gestão anterior. Esperava-se que a gestão e mesmo a autogestão praticada pela diretoria atual, principalmente através de seu departamento de futebol, pudesse tirar o time e o clube do mar revolto em que ainda está. Sem a cooperação dos bons resultados de dentro do campo a situação foi agravada, e não fora pela bravura dos que lá se encontram, não sei o que seria do Fortaleza.

Clarimundo – Que nota você daria para o programa que você comanda?
Benê Lima
- O Metro nos Esportes está longe de ser o programa que eu gostaria de fazer. Uma nota cinco já estaria de bom tamanho. O programa não tem custo. O programa que eu quero fazer tem custo e não é barato, teria pré e pós-produção.

Clarimundo – Por que o seu blog é tão conceitual, como você mesmo costuma falar?
Benê Lima
- Mera opção. Já tem muita coisa ruim por aí. Quem mais se preocupa com audiência e coisas do gênero são os enganadores. Quero como contrapartida ao que o rádio e a web possam me dar em visibilidade, devolver às pessoas que me acompanham um mínimo em possibilidade de conhecimento e qualidade. E o futebol não é tão superficial como se pensa e nem só o que se passa no âmbito das quatro linhas. Há muito mais, muito mais mesmo, do que supõe a grande maioria. E precisamos evoluir e fazer evoluir, sem o quê não haverá futuro promissor.


(...)
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