Confira a continuação do material especial que discute o desenvolvimento do trabalho desenvolvido pelos principais clubes do país, a partir da opinião de diversos profissionais da nova geraçãoNesta segunda parte da matéria especial da Universidade do Futebol, nossos entrevistados respondem a segunda pergunta formulada a partir da declaração do novo diretor técnico de futebol do São Paulo, René Simões, que destaca a filosofia de trabalho do Barcelona e que permite uma reflexão crítica sobre o futebol brasileiro:
Por que a grande maioria dos clubes brasileiros, apesar de muitos contarem com profissionais competentes, ainda tem dificuldades em realizar um trabalho integrado, científico e que agregue as principais conquistas metodológicas atuais do treinamento?
Wladimir Braga – Para o preparador físico da base do Atlético Mineiro, “é importante destacar que a gestão do conhecimento é o que mais falta aos diretores e gerentes de futebol de base dos clubes do futebol brasileiro, de uma forma geral”. E conclui: “a formação de um conceito de trabalho torna-se, portanto, a principal carência neste sentido, e todo trabalho de formação de atletas fica prejudicado, por que as categorias [de base] do futebol não têm um 'norte' e permanecem seguindo no escuro no processo de 'tentativa e erro' até acertarem em alguma promessa isolada”.Leandro Zago – Para este jovem treinador e estudioso do futebol ,“a competência é um termo abstrato quando não está direcionada a algo. Ser competente em algo é ter sucesso em algumas tarefas que contribuem para a execução de um projeto maior. Enquanto as diretrizes não estiverem determinadas, os profissionais trabalharão cada um em uma direção e o produto final desse 'processo' (desenvolvimento pleno do atleta de futebol) será a soma das intenções dos profissionais que tiveram contato com o atleta durante o período de formação. Quando na verdade, os clubes deveriam ter uma definição bem clara sobre qual o tipo de atleta que seria desejável na equipe profissional e a partir daí tomar todas as outras decisões relacionadas às categorias de base, desde a captação de atletas até a contratação dos profissionais competentes para sustentar o processo já delineado".
"Quanto às metodologias, enquanto todas as equipes que se enfrentam trabalharem na mesma perspectiva, não sentirão necessidade de mudar. É necessário alguma equipe ter êxito por um período prolongado para criar a necessidade de mudança”.
Sandro Sargentim – Este pesquisador das ciências do futebol revela que “temos dois [tipos de] profissionais que aplicam treino: um, os ex-atletas que não se preocupam com nada de novo e acham que nada tem muita importância além daquilo fizeram quando jogavam, sem inclusão de nenhuma atualização. Outro, os professores de Educação Física, que não aprendem nada na universidade de como se montar sessões de treino [especificamente aplicados ao futebol]”. Portanto, na opinião do Prof. Sandro Sargentim, os profissionais do futebol entram no mercado despreparados, recebem seus salários, mas investem pouco em cursos de formação ou especialização no futebol.Eduardo Barros – Na opinião deste gestor técnico de campo e colunista da Universidade do Futebol,“a principal questão é administrativa. Geralmente, dirigentes do futebol brasileiro assumem que sabem tudo acerca da modalidade. Presos à crença do domínio (apenas aparente) do jogo e suas interações e inter-relações, realizam uma sequência de decisões equivocadas em toda a cadeia produtiva de um clube de futebol. Não exigem integração entre categorias e comissões técnicas, não acreditam que o bom jogador possa ser formado, ‘mimam’ os potenciais (habilidosos) jogadores, contratam e demitem sem critérios, enfim, desconsideram atitudes fundamentais para o exercício de um projeto de futebol sustentável”.
Diante da postura inadequada dos gestores, Eduardo Barros acredita que ela “gera um movimento em cadeia no ambiente/contexto do clube em que cada profissional age com absoluta insegurança, faz somente o seu trabalho, busca a vitória a qualquer custo e que evita o novo, pois, por desconhecê-lo, teme o fracasso. Comportamentos que não combinam com um trabalho integrador e interdisciplinar”.Você vai montar o seu treino? Não esqueça (e cuidado com) o princípio das propensões
Rodrigo Bellão – Para o treinador da base da Portuguesa de Desportos, há muitos dogmas e paradigmas no futebol que precisam ser mudados. Um dos mais importantes deles é aquele que prega o resultado em primeiro lugar, desconsiderando-se os processos. Ele afirma: “Não se considera qualquer trabalho no futebol, até mesmo nas categorias de base, se não houver bons resultados de jogos em um espaço de no máximo até um ano”.
Concorda com a tese de que “a falta de conhecimento de quem comanda e dirige o futebol também é um grande problema”. E conclui: “Ainda há preferência de muitos [dirigentes] por recrutarem profissionais que foram bons ex-atletas para trabalhar na função de treinador. Às vezes me perguntam onde eu joguei para ser treinador. É difícil de ser aceita, mas a minha resposta é: ‘na academia’, estudando o futebol. Não que o ex-atleta não possa ser um bom treinador, mas acredito que somente a sua experiência, hoje em dia, não é tudo o que se necessita para ser um bom treinador. Os estudos são importantes também”.
Bruno Pivetti – Este profissional e autor do livro Periodização Tática é bastante crítico e contundente sobre o tema em questão: “Precisamos de uma reforma urgente! Mas para isto é necessário sair do senso comum. Afinal, como dizia a já batida frase de Albert Einstein, ‘Não há nada que seja maior evidência de insanidade do que fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes’. Ou seja, precisamos sair do senso comum! Porém, não acredito que isto seja um dever exclusivo dos treinadores, mas sim de todos aqueles que estão inseridos no meio esportivo, a começar pelos acadêmicos formadores de profissionais e de opiniões. Digo isto porque por experiência: os profissionais inseridos na prática já se deram conta da necessidade vital do conhecimento teórico para auxiliar no processo organizacional coerente do cotidiano do futebol tanto na formação, quanto no profissional. E isto é evidenciado pela presença cada vez mais constante de profissionais jovens, recém saídos da universidade em clubes de futebol brasileiros".
Periodização Tática: o futebol arte alicerçado em critérios"Infelizmente, em nosso país, existe um verdadeiro abismo entre a teoria, formada pelos membros da academia, e a prática, formada em sua maioria por ex-jogadores e/ou profissionais de característica mais empírica, que suportam sua rede de conhecimento pelas experiências vividas e não em um aporte de cunho mais científico", acrescenta.
O Prof. Bruno Pivetti detecta preconceitos e um consequente distanciamento entre os considerados práticos (ex-atletas) e os teóricos (acadêmicos que trabalham ou estudam o futebol). Estes, muitas vezes, assumem um ar de superioridade, por conta de sua formação e aqueles, protegidos pelas suas experiências como atleta, não aceitam teorias que possam fundamentar ou modificar as suas práticas, impedindo a conquista de novas aprendizagens e evolução. Por isso, conclui: “Pronto! Está feito o distanciamento provocando a ausência de trocas de experiências e informações que potencialmente beneficiariam ambos os lados”.
Bruno Baquete – Este treinador da base do Corinthians e também colunista da Universidade do Futebol adota a constatação de René Simões sobre o Barcelona (“banho de normatização, organização, respeito à filosofia de jogo e metodologia de trabalho”) para solucionar também os problemas do futebol brasileiro. Embora seguir este caminho de solução seja algo óbvio, entende que esta visão “está muito distante da visão limitada que os gestores brasileiros (de campo ou não) têm sobre o jogo”. E Bruno Baquete bota ainda o dedo na ferida do trabalho realizado por muitos treinadores conservadores nas categorias de base dos clubes brasileiros:
“Hoje mesmo na base temos muitos treinadores que não enxergam além de seus palavrões e se orgulham em dizer que tudo isso que a Universidade do Futebol discute é coisa da Europa e que não se aplica ao nosso futebol. Isso é triste! E mais triste ainda é ver certos profissionais fazendo as mesmas coisas há 20, 30, 40 anos e quando um profissional chega com novas ideias é massacrado e não tem espaço!”.
Baquete finaliza comentando sobre os avanços que ocorrem em muitas outras áreas, comparando com o que ocorre no futebol. E questiona: “Por que isso [avanço] não ocorre em nosso futebol? Por que não pegamos os exemplos e seguimos ao invés de ficarmos parados no tempo?”.
Augusto Moura – Já para o membro do departamento de captação de atletas do Coritiba, “é altamente complexo apontar motivos e críticas aos clubes nacionais quanto ao sucesso ou não das metodologias utilizadas em suas categorias de formação.” Mas aponta alguns aspectos que considera importantes e que trariam benefícios ao futebol de forma geral. São eles: “valorização profissional; infraestrutura adequada; recursos financeiros e materiais; revisão de regras e regulamentos dos torneios de base e escolas de futebol no Brasil; constante oportunização aos cursos e eventos de capacitação e reciclagem; plano de cargos e salários; profissionalização das ferramentas de observação, captação e promoção de talentos; e abastecimento contínuo do banco de dados.”
Ele acredita também que podemos alcançar vantagens competitivas aplicando consagrados princípios empresariais, como por exemplo: “análises de cenário que destrinchem ameaças e oportunidades, além de pontos fortes e fracos existentes.” Neste sentido afirma que “vale traçar um paralelo com o futebol e também pesquisarmos como estão atuando e se organizando nossos concorrentes nacionais, sul-americanos e europeus. Certamente, esse prognóstico nos proporcionará discussão, reflexão e revisão de mecanismos metodológicos.”
E complementa: “Por isso, a iniciativa de estabelecer princípios e criar hábitos administrativos dentro dos departamentos que compõem um clube de futebol é extremamente necessário no intuito de sistematizar e padronizar metodologias, criando assim, maneiras de controlar e monitorar as variáveis.”
Especial: Mano Menezes, treinador da seleção brasileira
*Não perca a sequência deste especial, que terá sua terceira parte publicada na próxima quinta-feira (dia 15). Na sexta, uma novo texto escrito pelo zagueiro do Corinthians Paulo André fecha a série.
Sinopse
"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
CALOUROS DO AR FC
quinta-feira, março 15, 2012
Barcelona estimula a reflexão crítica sobre o futebol brasileiro – parte 2
Mudança no comando da CBF não indica melhorias no futebol brasileiro
Como o leitor sabe, Ricardo Teixeira não é mais o presidente da entidade máxima do futebol brasileiro. Não iremos tratar o que aconteceu durante o seu mandato, pois todos sabem e veem as notícias diárias sobre. Iremos falar a respeito do que pode acontecer daqui pra frente.
Muitos que não acompanham o futebol diariamente devem pensar que agora o futebol brasileiro terá mudanças significativas. A diferença é que o poder não será mais centralizado em uma única pessoa. Começará o jogo político de vários grupos para suceder Ricardo Teixeira. Antes, o poder deste era inquestionável. A partir da última segunda-feira, pode-se dar início a um processo democrático. Porém, há ressalvas a serem feitas.
O processo de reformulação da administração do nosso futebol, como um todo, não passará pela CBF. Primeiro, os clubes devem ter dirigentes preocupados em tal reformulação, já que hoje – e possivelmente não mudará - estes elegem o presidente da entidade. Atualmente e legalmente, a CBF não tem poder de “excluir” o presidente de um clube, não tem poder de decisão sobre este. Já os clubes precisam alterar o sistema arcaico de votação para seus presidentes, o qual facilita a troca de cargo por voto.
Atualmente, alguns clubes já possuem o sistema de voto direto, por parte do associado ou sócio-torcedor, como é no Corinthians e no Internacional, por exemplo. Mas outros tantos permitem apenas que conselheiros escolham o presidente.
Qual o benefício do associado e/ou sócio-torcedor votar diretamente no presidente de um clube? Tendo o direito de voto, há mais competitividade entre os candidatos e praticamente anula a chance de se formarem alianças políticas para favorecimento de cargos internos.
Ao invés de 300 conselheiros votarem, serão cinco mil, 10 mil pessoas, por exemplo. Isso faz com que os candidatos sejam mais preparados para assumir o cargo mais importante do clube e a evolução aconteça naturalmente. O candidato, que antes era ruim, mas se elegia porque utilizava um sistema de eleição a seu favor, no voto direto vê suas chances diminuírem consideravelmente.
E por que esse processo inverso é fundamental para a reformulação do futebol brasileiro? São os dirigentes de clubes e federações que elegem o presidente da CBF. Ele, por si só, não fará revolução na administração esportiva. A CBF e as federações existem porque os clubes existem, e não o contrário. O presidente da CBF não pode demitir o presidente do clube X porque este “não tomou decisões certas em determinadas situações”. Porém, o dirigente deste mesmo clube tem direito de voto e, caso o exemplo seja inverso, poderá escolher outro candidato à Confederação.
A evolução administrativa do futebol brasileiro irá acontecer gradualmente e deverá começar pelos dirigentes dos clubes. Se estes evoluem, as federações e a CBF irão evoluir naturalmente.

*Estudante de Administração e Marketing do Esporte na instituição de ensino ESPM - Escola Superior de Propaganda e Marketing
quarta-feira, março 14, 2012
Em primeiro ato da Era Marin, CBF estabelece contrato vitalício com treinadores das equipes sub-15 e sub-17
Ney Franco confirma acerto com Marquinhos Santos e Emerson Ávila e enaltece confiança no trabalho realizadoEquipe Universidade do Futebol / www.universidadedofutebol.com.br
Ricardo Teixeira deixou a CBF na última segunda-feira e as primeiras mudanças de ordem estrutural já ocorreram na entidade agora presidida por José Maria Marin. Um dia após a troca de comando, Marquinhos Santos e Emerson Ávila foram contratados como treinadores das equipes sub-15 e sub-17, respectivamente.
Ambos já atuavam à frente destes mesmos grupos. A diferença é que agora eles se desligaram de Coritiba (Santos) e Cruzeiro (Ávila) para fazer parte do quadro de funcionários da entidade.
“Além de não precisar mais pedir liberação dos profissionais para disputar as competições, eles terão mais tempo para observar jogadores pelo Brasil afora e com isso aumentar cada vez mais o índice de acerto nas convocações”, justificou Ney Franco, coordenador das categorias de base da CBF, em entrevista ao site oficial da mesma.
De acordo com um comunicado lançado na terça, a medida faz parte de uma série de alterações que se iniciaram com a chegada do diretor de seleções, Andrés Sanchez. O ex-presidente do Corinthians teria colocado seu cargo à disposição, segundo Marin, mas o novo mandatário manteve todos diretores no cargo.
Em 2011, Emerson Ávila comandou a seleção sub-17 campeã sul-americana no Equador. No fim daquele ano, Marquinhos Santos foi campeão sul-americano, no Uruguai, com a sub-15.
“Confio muito no trabalho deles. Principalmente por conta do currículo de cada um, repleto de experiência com a garotada da base e de resultados positivos. São duas grandes contratações”, concluiu Franco.
Barcelona estimula a reflexão crítica sobre o futebol brasileiro – parte 1
René Simões, que assume o departamento de formação de atletas do São Paulo como diretor técnico, cobra avanço metodológico e uma reflexão filosófica sobre o trabalho desenvolvido no BrasilEquipe Universidade do Futebol / www.universidadedofutebol.com.brO São Paulo Futebol Clube anunciou recentemente a contratação de René Simões como novo diretor técnico do departamento de formação de atletas. Este conhecido treinador, formado em Educação Física e membro do painel de instrutores da Fifa, está iniciando o seu trabalho no Centro de Formação de Atletas (CFA) Laudo Natel, em Cotia (SP), e futuramente, espera-se, será o responsável pela integração entre o elenco profissional e as equipes de base.
Logo em sua primeira entrevista ao site oficial do São Paulo, Simões enalteceu a estrutura excepcional já existente, mas sem deixar de destacar a necessidade da correta aplicação dos conhecimentos dos profissionais envolvidos no projeto do clube.
Na avaliação dele, o clube deve retomar o seu padrão de qualidade próprio, desenvolvendo um “jogo bonito”, mas acima de tudo coletivo, com o objetivo da vitória.
“O São Paulo é uma marca grande e por isso tem que ter projeto grande. Vou ter que ouvir muito. Talvez eu saiba como fazer, tenho minhas ideias, mas preciso conversar e ouvir muito todos os profissionais envolvidos. Conversei com o presidente, com os diretores, com o Leão. Quero conversar muito com ele e com todos os treinadores da base”, acrescentou Simões, que disse já vir se preparando para essa mudança na nova gestão de sua carreira.
Semanas atrás, o experiente gestor técnico fez uma visita às estruturas do Barcelona na Espanha. E, durante os quatro dias conhecendo profundamente La Masia, o local cada vez mais famoso onde o clube forja seus jovens talentos, e o departamento de futebol principal, Simões teceu alguns comentários em sua página pessoal de uma importante rede social a respeito da experiência:
“...um banho de normatização, organização, respeito à filosofia de jogo, e metodologia de trabalho. Me entristece ao verificar que tudo isso no Brasil é considerado fútil, inútil e teórico demais. Paciência! Eles estão dando banho de futebol. Assisti à goleada de 5 x 0 da Espanha na Venezuela. Parecia profissionais contra juvenis tamanha a diferença. A bola era escondida ao adversário. Só podiam correr e dar a saída depois dos gols. Ainda há tempo para voltarmos a fazer o que fazíamos com tanta facilidade. Brasil e brasileiros, queiramos mais”.
Espanha 5 x 0 Venezuela - Amistoso Internacional - 29/02/2012
Com base nestas considerações de René Simões, a Universidade do Futebol ouviu uma nova geração de profissionais brasileiros que atua em clubes e instituições acadêmicas, propondo uma reflexão crítica sobre a atual realidade do futebol brasileiro. Para isso, formulou a todos eles as três seguintes questões abertas:
1) Qual é o seu sentimento ao tomar contato com o depoimento de René Simões comparando o que é feito no Barcelona e aqui no Brasil?
2) Por que a grande maioria dos clubes brasileiros, apesar de muitos contarem com profissionais competentes, ainda tem dificuldades em realizar um trabalho integrado, científico e que agregue as principais conquistas metodológicas atuais do treinamento?
3) Como você avalia que poderíamos desenvolver uma nova inteligência de jogo, de responsabilidade e de qualidade nas atividades aos nossos atletas, em função das altas exigências competitivas deste século XXI?
Confira o que pensam Wladimir Braga, preparador físico da equipe sub-17 do Atlético-MG; Leandro Zago, treinador da equipe sub-13 do Corinthians; Sandro Sargentim, coordenador do curso de pós-graduação em Ciências do Futebol da FMU; Eduardo Barros, assistente técnico do Paulínia; Rodrigo Bellão, treinador da equipe sub-15 da Portuguesa de Desportos, Bruno Pivetti, preparador físico da equipe principal do Audax São Paulo; Bruno Baquete, assistente técnico da equipe sub-17 do Corinthians e Augusto Moura, membro do departamento de captação do Coritiba.Dividimos esta matéria especial em três partes. A seguir, a primeira delas, contendo a opinião destes oito profissionais em relação à primeira pergunta*:
Qual é o seu sentimento ao tomar contato com o depoimento do René Simões comparando o que é feito no Barcelona e aqui no Brasil?
Wladimir Braga – Compartilha da opinião do professor Renê Simões e acha que um dos motivos de nossa decadência “está relacionado à falta de conhecimento e entendimento dos gestores do futebol brasileiro a respeito do processo de formação. Não entendem que o foco no processo é que deve predominar frente aos resultados passageiros”.
Leandro Zago – Acredita que “não há um sentimento; tudo está muito claro. É preciso buscar em um curto prazo a real identidade do futebol brasileiro e [definir] que tipo de atleta queremos. Devemos respeitar também a questão cultural ligada a cada região do país e entender como ela influencia no atleta que estamos recebendo e no processo que vamos desenvolver.” Ele acredita também que devemos fazer com que os nossos atletas sejam o melhor que puderem ser e que não devemos "construir" jogadores europeus – devemos buscar "construir" grandes jogadores brasileiros.
E complementa: “Diz-se que o futebol brasileiro é um futebol de passes rápidos, dribles, baseado no talento individual. Com isso eu não concordo. Podemos até ter sido um dia, mas atualmente nossos atletas não conseguem manifestar essas capacidades no alto nível, fora do país, quando enfrentam jogadores com outra formação e os jogos dentro do país apresentam uma velocidade inferior ao alto nível europeu. Isso sim penso que possa ser mudado com metodologias mais específicas ao futebol, e não com aquelas que têm origem no atletismo”.
Sandro Sargentim – Para este profissional o grande problema do futebol brasileiro é a desatualização de seus profissionais. “Não temos formação para os profissionais que aplicam treinos para os futebolistas brasileiros, seja na formação, ou no alto rendimento”.
Eduardo Barros – Expressa um sentimento de esperança, porém alerta que “a metodologia de treinamento desatualizada, o privilégio à vertente física do jogo, o imediatismo das vitórias em detrimento ao bom futebol e, acima de tudo, a gestão incompetente voltada ao interesse individual são fatores determinantes em nosso posicionamento atual no futebol mundial.” E complementa:“René Simões e todos os demais profissionais do futebol que se propuserem a reverter este cenário terão muito trabalho pela frente”.Rodrigo Bellão – Ao concordar com as inquietações de René Simões, afirma que “com o passar dos anos, paramos no tempo; acomodamo-nos”. E alerta para o perigo de acreditarmos que o Brasil é um celeiro inesgotável de craques e que “a todo o momento, irão aparecer atletas com extrema qualidade técnica e que isso basta para continuarmos no topo”. Constata ainda que o futebol e a maneira de jogar mudaram. O futebol evoluiu e fizemos pouco para nos adaptar. E recorre a Charles Darwin para provar sua afirmação:
“Não é o mais forte ou o mais inteligente da espécie que sobrevive, mas sim o que melhor se adapta”.Neste sentido cita o Barcelona como um clube que soube se adaptar aos novos tempos. E completa, comentando sobre as categorias de base dos clubes, que segundo ele “já estão se adaptando e mudando diversos conceitos e paradigmas”. Mas acredita que apenas em “mais uns cinco ou seis anos começaremos a perceber algumas mudanças no nosso futebol”.
Bruno Pivetti – Considera René Simões “um dos treinadores mais dotados de discernimento do futebol brasileiro.” E pensa que declarações como esta significam “uma luz de esperança acerca do futuro do futebol brasileiro.” Afirma que “apesar do René representar uma geração de treinadores que se acomodou e se apoiou na resolução individual dos problemas de jogo de jogadores fora de série existentes à época, sem se preocupar com a organização global do processo de formação e das vertentes mais coletivas do jogo”, acredita que este treinador tenha notado o atual ostracismo em que está entregue o futebol brasileiro. E reclama de uma urgente e melhor preparação de dirigentes e treinadores.
“No Brasil, acostumamo-nos a pensar que o fora de série é quem ganha e resolve o jogo.” Enquanto isso, em países com Espanha, Portugal e Alemanha, por exemplo, “não só o jogo e suas variações táticas são matéria de estudo, mas também o processo de operacionalização do jogo em si.” É da opinião de que estamos muito atrasados em relação a estes países. “Não consigo conceber um país de quase 200 milhões de pessoas, em que pelo menos boa parte está inserida na cultura do futebol, e uma significativa quantia pratica o futebol na maior parte de seu dia desde a infância, ter uma eficiência tão baixa no que concerne a formação futebolística”.
Pivetti acredita que “se não fosse o futebol de rua, que fornece um vasto repertório cognitivo-emocional e sensório-motor aos jogadores, estaríamos em um quadro de sucateamento muito mais agravado”. Considera ainda que, por mais paradoxal que seja, “o que está salvando nosso futebol é a desgraça de muitas famílias inseridas na pobreza, em que as condições fundamentais de educação e lazer não são respeitadas e por isto a criança/jovem fica a jogar 6-8 horas por dia.”
Sobre os treinadores brasileiros, também é enfático: “Se dependêssemos de nossos treinadores, acredito que o Brasil estaria equiparado ao fenômeno que acontece na Itália, por exemplo, em que o futebol é normatizado por uma cultura fisicista, na qual a vertente arte da modalidade é sufocada por indivíduos que anseiam o perfeccionismo físico sobrevalorizado nas falidas culturas soviéticas, nazistas e fascistas. Louvado seja o nosso futebol de rua, que apesar de decadente, ainda existe! E conclui com uma afirmação de impacto: “É mais fácil, nos dias de hoje, um jovem futebolista ser ‘estragado’ nos clubes do que propriamente formado.”Bruno Baquete – Afirma categoricamente: “Há algum tempo estamos discutindo os resultados e o futebol bonito apresentado pelo Barcelona e pela seleção da Espanha. Alguns atribuem ao fato de ambos terem excelentes jogadores, porém se esquecem de olhar para o que realmente importa que é o treino e de como ele influencia na formação de uma real cultura de jogo que explicita nessas equipes muito mais que um jogar, uma filosofia que tem embasamento na cultura, religião, história do clube e país.”
Augusto Moura – Destaca o fato de um profissional como René Simões, formado em Educação Física, com vasta experiência prática e passagens em dezenas de clubes nacionais e internacionais, além de seleções, acaba de receber uma bela e desafiadora oportunidade de auxiliar no processo de gestão das categorias de base de um clube brasileiro. “René Simões possui experiência e discernimento suficientes para as constatações feitas.” E enaltece a visita deste profissional ao Barcelona, conhecendo seu plano de ação e sua metodologia aplicada ao longo dos anos, porém sem deixar de salientar que “o Brasil possui incontáveis centros de formação de atletas, milhares de profissionais capacitados e dezenas de clubes que possuem departamento de categorias de base amplamente estruturados.”
Mas complementa dizendo que quantidade não é sinônimo de qualidade. “Talvez esteja aqui nosso maior problema” adverte. Em relação ao futuro é otimista: “O aumento de simpósios, cursos de especialização, acesso aos livros, artigos e constantes debates tornam cada vez mais saudável a formação de opinião e construção do conhecimento no Brasil. Esses fatos servem como premissa para passos mais consistentes e seguros na caminhada rumo a otimização do processo de formação integral de atletas nas categorias de base em clubes brasileiros.”
*Não perca a sequência deste especial, que será publicada nos dias 14 (quarta-feira) e 15 de março (quinta-feira). Na sexta, uma novo texto escrito pelo zagueiro do Corinthians Paulo André fecha a série.
A partir dela, esperamos contribuir para as discussões construtivas da modalidade, com ideias e novas propostas. Contamos com sua participação no espaço de comentários logo abaixo!
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terça-feira, março 13, 2012
Universidade do Futebol apresenta especial sobre o trabalho metodológico desenvolvido no futebol brasileiro
Material está dividido em três partes e traz uma reflexão filosófica a partir de depoimentos e ideias de profissionais da nova geraçãoEquipe Universidade do Futebol / www.universidadedofutebol.com.br
A partir desta terça-feira, a Universidade do Futebol apresenta um material especial em seu site. O objetivo é estimular a reflexão crítica sobre o futebol brasileiro a partir de uma análise referente à metodologia de treinamento aplicada nas categorias de base dos principais clubes do país.
O mote da produção foi uma declaração de René Simões, novo diretor técnico do departamento de formação de atletas do São Paulo, em visita à Espanha – especialmente ao Barcelona e à La Masia.
Durante os quatro dias conhecendo profundamente o local cada vez mais famoso onde o clube catalão forja seus jovens talentos, e ao departamento de futebol principal, Simões falou a respeito da experiência em sua página pessoal em uma rede social:
“...um banho de normatização, organização, respeito à filosofia de jogo, e metodologia de trabalho. Me entristece ao verificar que tudo isso no Brasil é considerado fútil, inútil e teórico demais. Paciência! Eles estão dando banho de futebol. Assisti à goleada de 5 x 0 da Espanha na Venezuela. Parecia profissionais contra juvenis tamanha a diferença. A bola era escondida ao adversário. Só podiam correr e dar a saída depois dos gols. Ainda há tempo para voltarmos a fazer o que fazíamos com tanta facilidade. Brasil e brasileiros, queiramos mais”.
Com base nestas considerações de René Simões, a Universidade do Futebol ouviu uma nova geração de profissionais brasileiros que atua em clubes e instituições acadêmicas, propondo uma reflexão crítica sobre a atual realidade do futebol brasileiro. Para isso, formulou a todos eles as três seguintes questões abertas:
1) Qual é o seu sentimento ao tomar contato com o depoimento de René Simões comparando o que é feito no Barcelona e aqui no Brasil?
2) Por que a grande maioria dos clubes brasileiros, apesar de muitos contarem com profissionais competentes, ainda tem dificuldades em realizar um trabalho integrado, científico e que agregue as principais conquistas metodológicas atuais do treinamento?
3) Como você avalia que poderíamos desenvolver uma nova inteligência de jogo, de responsabilidade e de qualidade nas atividades aos nossos atletas, em função das altas exigências competitivas deste século XXI?
Até a próxima quinta-feira, você irá conferir o que pensam Wladimir Braga, preparador físico da equipe sub-17 do Atlético-MG; Leandro Zago, treinador da equipe sub-13 do Corinthians; Sandro Sargentim, coordenador do curso de pós-graduação em Ciências do Futebol da FMU; Eduardo Barros, assistente técnico do Paulínia; Rodrigo Bellão, treinador da equipe sub-15 da Portuguesa de Desportos, Bruno Pivetti, preparador físico da equipe principal do Audax São Paulo; Bruno Baquete, assistente técnico da equipe sub-17 do Corinthians e Augusto Moura, gerente de captação de atletas do Coritiba.Na sexta, uma novo texto escrito pelo zagueiro do Corinthians, Paulo André, fecha esta série especial. A partir dela, esperamos contribuir para as discussões construtivas da modalidade, com comentários e novas propostas. Participe você também!
domingo, março 11, 2012
Princípios estruturais: atividades práticas para apoio e mobilidade
Confira três exemplos para o desenvolvimento de tais princípios de modo fractal ao jogo em modelo pensadoBruno Baquete
Dentro do Modelo de Jogo, temos os princípios operacionais, que regem a ação dos jogadores, como vimos em colunas anteriores, e os princípios estruturais, que orientam os atletas na ocupação do espaço.
Os princípios estruturais são referências para que os jogadores ocupem de maneira inteligente o espaço do jogo nos momentos de ataque, defesa e transição.
Em linhas gerais, servem como “ferramentas” para deixar o “campo grande” quando a equipe está atacando e o “campo pequeno” quando a equipe está defendendo.
Além de auxiliar na estruturação do espaço nos momentos de transição.
Segundo Leitão (2009) os mesmo podem ser elencados da seguinte maneira:
Princípios Estruturais de Ataque:
Amplitude
Penetração
Profundidade
Mobilidade
Apoio
Ultrapassagem
Compactação OfensivaPrincípios Estruturais de Defesa:
Retardamento
Cobertura
Equilíbrio
Flutuação
Recuperação
Compactação Defensiva
Bloco
DirecionamentoPrincípios Estruturais de Transição Ofensiva:
Densidade Ofensiva
Balanço Ofensivo
Proporção OfensivaPrincípios Estruturais de Transição Defensiva:
Densidade Defensiva
Balanço Defensivo
Proporção DefensivaOutros autores, como Vazqués Folgueira (2001), Parreira (2005), Hughes (1974), Bangsbo e Peitersen (2002) tratam de tais princípios, mas a nomenclatura difere de autor para autor e de país para país. O que importa é a essência de cada um deles seja entendida.
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Pois bem! na coluna desta semana vou me focar em dois princípios de ataque: apoio e mobilidade.
O apoio, segundo Parreira (2005) e Leitão (2008) se refere à ocupação do espaço de jogo de maneira inteligente a fim de criar linhas de passe para o portador da bola.
Já a mobilidade, segundo os mesmos autores citados acima, se refere à movimentação coordenada de jogadores da equipe a fim de desestabilizar a defesa adversária e criar linhas de passe para o portador da bola. É algo parecido com o rodízio feito no futsal, por exemplo.
Definidos tais princípios, preciso agora pensar em como eles se articulam com as demais referências da minha equipe.
Por exemplo, se tenho como princípio operacional de ataque a manutenção da posse de bola, devo ter muito bem desenvolvido tanto o apoio como a mobilidade (além disso, devo verificar se os mesmos estão contribuindo para o cumprimento da lógica do jogo!).
Visto isso, o próximo passo é...
Estruturar as atividades!
Abaixo, seguem três atividades para o desenvolvimento de tais princípios de uma maneira fractal ao jogo e que leva em conta um Modelo de Jogo hipotético elaborado para fins didáticos:
Atividade 1
Descrição
- Atividade de 4 X 2 (“Bobinho”): o objetivo é estimular a criação de apoios e a mobilidade. Essa atividade pode ser utilizada no aquecimento de categorias maiores ou mesmo na parte principal do treino em categorias menores. O número de jogadores pode variar.
Regras e Pontuação
- Os quatro jogadores devem manter a posse de bola sem que os dois defensores a recuperem; se isso ocorrer, quem errou o passe ou perdeu a bola vai para o lugar do defensor.
- O jogador que fez o passe não pode ficar no lugar. Deve se movimentar em qualquer direção e criar uma nova linha de passe. Com isso, a atividade fica mais dinâmica e a mobilidade é estimulada.
Atividade 2
Descrição
- Atividade de 6 X 6, em que o objetivo das equipes é manter a posse de bola.
Regras e Pontuação
-O campo é dividido em quatro quadrantes.
- A equipe para pontuar deve trocar o maior número de passes possível sem interrupção.
- Cada jogador só pode fazer um passe dentro de cada quadrante. Por exemplo, após o jogador “A” realizar um passe no quadrante “X”, ele deve se deslocar para qualquer outro quadrante de campo para tocar na bola novamente.
Atividade 3
Descrição
- Atividade de 11 X 7, jogo de ataque contra defesa com regras adaptadas.
Regras e Pontuação
Ataque
- Marca 5 pontos quando fizer o gol.
- Marca 2 pontos quando trocar 8 passes.
Defesa
- Marca ponto quando ultrapassar a linha tracejada. A pontuação será de acordo com a quantidade de passes realizados antes de ultrapassar a linha tracejada, ou seja, se a equipe trocar 10 passes e ultrapassar a linha tracejada, marca 10 pontos.
Em próximas colunas vou abordar outros princípios e apresentar atividades para o desenvolvimento das mesmas.
Até a próxima!
Para interagir com o colunista: bruno@universidadedofutebol.com.br