Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Gestão: Atlético-MG fecha 1 ano sem marketing, e Cruzeiro cresce

RODRIGO CAPELO
Da Máquina do Esporte, São Paulo – SP

Clubes mineiros divergem a respeito de estrutura administrativa

“O Atlético-MG vive sem departamento de marketing, mas não é verdade que o clube viva sem o marketing.”  - (Benê Lima)

Ao contrário do que se podia prever no fim do Campeonato Mineiro, após o Atlético-MG conquistar o 40º título da própria história e ver o rival Cruzeiro ser eliminado pelo Ipatinga nas semifinais, o clube celeste, cada vez mais estruturado, superou a equipe alvinegra, única entre os times mais tradicionais do país a não possuir sequer departamento de marketing, dentro e fora de campo.

O presidente do Atlético-MG, Alexandre Kalil, extinguiu a área de marketing ainda em 2009, sob o argumento de que a diretoria de marketing havia demandado cerca de R$ 3 milhões e não havia criado nenhum negócio consistente. Um ano depois, o time enfrenta as dificuldades de centralizar decisões no mandatário e carece de ações para amenizar a má fase no futebol.

Um dos principais desafios entre os mineiros foi superar o fechamento do estádio do Mineirão, em obras devido à Copa do Mundo de 2014, e migrar para outras arenas. Enquanto o Cruzeiro, ao criar ações de relacionamento com torcedores, lucrou cerca de R$ 1,9 milhão nas bilheterias, o Atlético-MG embolsou R$ 1,1 milhão, 5º pior desempenho do país nesse quesito.

Procurado pela reportagem da Máquina do Esporte, o Atlético-MG se recusou a fazer balanço sobre o primeiro ano completo sem um departamento de marketing ativo. Recentemente, o presidente Alexandre Kalil chegou a afirmar que "marketing no futebol é coisa para vigarista" e reafirmou que é capaz de fazer marketing sem profissionais contratados para a função.

"O clube que não possuir um departamento de marketing, feito por profissionais, está fadado a sumir", sentencia José Cocco, diretor da J.Cocco Sportainment, agência especializada em marketing esportivo. "Se o marketing está gerando mais custos que receitas, está sendo mal feito, mal utilizado, mal administrado", opina.

O Cruzeiro, por sua vez, optou pelo caminho contrário e possui diretores comercial e de marketing distintos, de forma que o primeiro se dedique ao fechamento de novos negócios e o segundo, a ações de marketing ligadas à torcida. Atualmente, ainda conta com o auxílio da agência Serápis Bey Sports para captar recursos por meio de patrocínios.

"Quem acha que marketing serve apenas para trazer dinheiro está muito enganado", define Valdinei Fujarra, diretor da Fujarra Marketing Esportivo. De acordo com o profissional, além de servir para conseguir novas fontes de receita, o departamento tem como função criar meios de comunicação com o cliente, ou, nesse caso, o torcedor.

Os resultados da falta de atividade em termos de marketing no Atlético-MG podem ser sentidos, em última instância, nos resultados no futebol. O Cruzeiro, forte candidato ao título nacional até as últimas rodadas e classificado para a Copa Santander Libertadores de 2011, deve anunciar renovações com patrocinadores na próxima segunda-feira (3).

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Marketing: Sócio-torcedor representa desafio para clubes pequenos

RODRIGO CAPELO
Da Máquina do Esporte, São Paulo – SP

São Bernardo, fundado em 2004, criou programa para associados

Com adesão fixada em R$ 80 e 11 mensalidades de R$ 25, pode-se obter acesso a uma série de benefícios, desde ingressos gratuitos para partidas como mandante até participação em sorteios de brindes e camisas oficiais e promoções durante jogos. Similar aos elaborados por tradicionais equipes, esse programa de sócio-torcedor foi criado pelo São Bernardo.

A equipe reside em São Bernardo do Campo, no interior de São Paulo, porém próximo à capital. Com cerca de 765 mil habitantes, segundo levantamento de 2010 do IBGE, a cidade certamente está dividida entre Corinthians, Palmeiras, São Paulo e, desde dezembro de 2004, São Bernardo Futebol Clube, time local que carrega as cores preto e amarelo.

Clubes de menor porte e sem muita tradição enfrentam maiores  dificuldades na adoção do marketing. (Benê Lima)

Entre equipes fundadas há muito mais tempo, como Atlético Paranaense e Avaí, de Curitiba e Florianópolis, respectivamente, a cessão de entradas gratuitas por meio do programa de sócio-torcedor impede ambos de atingirem melhores números em bilheterias. Clubes fundados há menos de uma década, então, têm complicada missão a cumprir.

Por existir há menos tempo que marcas consolidadas, caso do São Bernardo e de muitos outros espalhados pelo Brasil, o número de torcedores fiéis é naturalmente menor, mas isso não significa que a criação de um quadro social esteja impossibilitada. Pelo contrário, exige criatividade para manter o torcedor por perto com benefícios e promoções.

"Não adianta só fazer sorteio, rifa de camisa, tem que gerar uma motivação maior, apelar para a paixão", explica José Cocco, diretor da J.Cocco Sportainment, agência de marketing esportivo voltada para a fusão entre esporte e entretenimento. "Uma das inúmeras opções é envolver o torcedor, a família dele, oferecer espetáculos além do futebol, outras atrações".

A elaboração de programa de sócios-torcedores, em termos comerciais, apesar de reduzir virtuais lucros com comercialização de ingressos para partidas, permite ao clube, independentemente do tamanho da torcida, a planejar melhor as receitas. As vantagens dessa estratégia, contudo, não se restringem a ganhos financeiros.

"A maior vantagem de qualquer programa de sócios é conhecer o torcedor, relacionar-se com ele, conhecê-lo de forma mais orgânica, porque tendo mais informação, há muito mais a oferecer na hora de negociar um patrocínio", justifica Valdinei Fujarra, diretor da agência Fujarra Marketing Esportivo. "Mas é possível fazer um quadro social, sim, desde que se tenha criatividade".

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Gestão: Sócios derrubam lucro de clubes em bilheterias

RODRIGO CAPELO
Da Máquina do Esporte, São Paulo – SP

Atlético-PR: R$ 1,3 mi com sócios; pior lucro do país nos ingressos

A apenas alguns dias de finalizar 2010, diante da necessidade de traçar o planejamento estratégico para a próxima temporada, determinados dilemas ocupam clubes brasileiros. O sócio-torcedor, em particular, tende a dividir opiniões, ao contrapor antecipação de receitas e virtual prejuízo ao desempenho nas bilheterias.

O Internacional de Porto Alegre surge como primeira referência no assunto, ao reunir cerca de 106 mil sócios, dos quais 35 mil têm direito a entrada gratuita e 71 mil, desconto de 50% no valor do ingresso. Esse modelo gera aproximadamente R$ 3,8 milhões por mês, segundo números fornecidos pelo clube.

A estratégia de distribuir descontos nos tíquetes para atrair associados, entretanto, leva como efeito colateral virtual diminuição no lucro com bilheterias. Durante o Campeonato Brasileiro, o clube gaúcho embolsou R$ 3,3 milhões, abaixo, por exemplo, do rival Grêmio, que não oferece esse benefício e lucrou R$ 4,3 milhões.

O modelo desenvolvido pelo Internacional para lidar com sócios-torcedores foi adaptado em outras agremiações, como Atlético Paranaense e Avaí, mas os resultados não são tão animadores. A distribuição de ingressos gratuito para filiados gera, em ambos os casos, receita mensal, mas derruba números com bilheterias.

O Atlético-PR, atualmente com cerca de 19,6 mil sócios, recebe mensalmente aproximadamente R$ 1,3 milhão, de acordo com estimativa baseada no preço da mensalidade, de R$ 70. Em ingressos, porém, os paranaenses lucraram apenas R$ 411 mil no torneio nacional, o pior desempenho do país.

O Avaí, por sua vez, reuniu 12 mil associados com entrada gratuita e arrecada em torno de R$ 900 mil por mês com o quadro social. O lucro com tíquetes, novamente, foi de R$ 586 mil, acima apenas do próprio Atlético-PR e do Grêmio Prudente, dono da pior média de público e rebaixado à Série B.

Em público, contudo, nenhum dos dois repete o mau desempenho notado nas finanças. O Atlético-PR atingiu média de 16,3 mil torcedores por jogo no Brasileirão, enquanto o Avaí, 9,4 mil, sinal de que os descontos a sócios, apesar de gerarem recursos, impedem melhores resultados em outra fonte de receita.

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terça-feira, dezembro 28, 2010

Presidente Vargas: modernidade e segurança a serviço do torcedor

Para fazer o download da apresentação em Powerpoint sobre as Obras do Presidente Vargas, clique aqui.


A reforma do estádio Presidente Vargas está a todo vapor desde o seu início, em 23 de dezembro de 2009. A obra não foi paralisada um dia sequer e o ritmo dos trabalhos só tem aumentado. Em janeiro, eram 45 operários; hoje, são quase 400 trabalhando em três turnos. Desde novembro, 80 operários trabalham até as 20h, em serviços de acabamento (alvenaria, reboco e revestimento). 

Dividida em duas etapas (Recuperação Estrutural e Reforço, e Modernização), a obra está, atualmente, em sua fase final, com 90% de conclusão das atividades. A demora da entrega do equipamento deve-se ao fato da complexidade do processo de recuperação e no reforço da estrutura do PV. As patologias encontradas no concreto da antiga estrutura do estádio foram exigindo outras análises e medidas a serem tomadas, além daquelas previamente pensadas.

Maquete da Reforma do Presidente Vargas
 
Quando se realizou o apicoamento dos pórticos (pilares e vigas) do PV, por exemplo, observou-se que o aço de alguns concretos já nem existia mais, podendo ceder a arquibancada das quais davam sustentação. Além disso, as vigas do setor 1, ao lado da Tribuna de Imprensa, estavam com esmagamento de concreto, a ponto de entrarem em colapso. Esses fatos novos constituíram a parte mais delicada e importante da reforma, pois estão diretamente ligados à segurança do torcedor no estádio. Ao todo, a fase de recuperação da antiga estrutura durou 10 meses, algo que não fora previsto quando a reforma teve início, em janeiro. Essa etapa já está concluída. 

A modernização do estádio, por sua vez, acontecia à medida que a recuperação de um setor era finalizada. No momento, esta etapa está chegando à sua fase final com a construção e a implantação de catracas eletrônicas que farão a identificação do torcedor, através de bancos de dados e imagens, e alambrado de vidro laminado e temperado, nos moldes do Estádio da Vila Belmiro, do Santos Futebol Clube; Estádio do Atlético Paranaense; e Arena do Barueri. O alambrado, no PV, se diferencia na maior espessura do vidro pela ausência de divisões que atrapalham a visão.

Com a reforma, o PV, terá sua capacidade ampliada para 20.050 lugares, atendendo aos padrões internacionais de segurança e conforto determinados pela FIFA. Isso garante que o estádio cearense possa receber jogos de competições nacionais organizadas pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), como a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro, e ainda funcionar como centro de treinamento para as equipes que virão para Fortaleza participar da Copa do Mundo de 2014. 

SOCIEDADE FISCALIZA OBRAS 

Vereadores, membros da Federação Cearense de Futebol (FCF), do CREA-CE, da APCDEC (Associação dos Profissionais da Crônica Desportiva do Estado do Ceará), do Ministério Público foram algumas das organizações da Sociedade e do poder público que acompanharam de perto a reforma do estádio. A própria imprensa pode acompanhar o andamento da obra, etapa por etapa.

Um dos exemplos de participação e fiscalização da sociedade civil é a área destinada à imprensa, que contou com as sugestões e a fiscalização dos órgãos de classe. Acompanhando de perto a execução das obras, a APCDEC, por exemplo, conseguiu ampliar de 20 para 30 o número de bancadas destinadas à imprensa escrita.

Linha do Tempo: Estádio Presidente Vargas 

1912 – Aquisição do Campo do Prado pela Liga Metropolitana Cearense de Futebol, localizado atualmente no prédio do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).

1939 – Lançada a pedra fundamental do primeiro estádio de futebol da Capital. 

14 de setembro de 1941 – Inauguração oficial do Estádio Municipal de Fortaleza (futuro Presidente Vargas).

21 de setembro de 1941 – Realização da primeira partida no estádio, disputada entre as equipes do Ferroviário e Tramways/PE. O primeiro gol marcado no estádio, e que deu a vitória ao Ferroviário por 1 x 0, foi de autoria do jogador Chinês, aos 20 minutos da primeira etapa.

1952 – O estádio passa a se chamar Presidente Vargas.

1958 – Primeira reforma.

1963 - Segunda reforma: ampliação para 35 mil lugares.

1984 – No dia 07 de setembro de 1984, Fortaleza e Calouros do Ar realizam partida que marca a reabertura do PV, após sua terceira grande reforma.

07 de maio de 1989 – Na partida Ceará 1 x 1 Ferroviário, o PV registrou o maior público de sua história: 38.515 pagantes.

1997 - Quarta reforma: colocação dos assentos e redução da capacidade para 19.800 lugares.

Setembro de 2005 – Entre os meses de setembro e novembro de 2005, o Estádio Presidente Vargas ficou interditado para a realização de uma série de melhorias. Os degraus de acesso às arquibancadas foram substituídos por rampas. Houve também a reforma dos vestiários e banheiros, além da adequação do sistema de prevenção contra incêndios às normas do Corpo de Bombeiros.

Fevereiro de 2008 – A praça esportiva foi interditada preventivamente para a realização de testes de segurança estrutural.

Maio de 2008 – SER IV e Secel assinaram contrato com a Associação Técnico-Científica Engenheiro Paulo de Frontin (Astef), para a realização de testes na estrutura física do PV. Os testes foram concluídos em novembro de 2008.

22 de dezembro de 2009 - A prefeita Luizianne Lins assinou a ordem de serviço para a reforma do PV.

Esporte e lazer: direitos sociais

A criação da Secretaria de Esporte e Lazer de Fortaleza (Secel), em março de 2008, representou um avanço para as políticas públicas do setor.

A missão da Secel é formular e implantar Políticas Públicas de Esporte e Lazer, visando à melhoria da qualidade de vida da população, a efetivação do esporte e do lazer enquanto direitos sociais e a difusão de uma cultura corporal libertadora.

Tratando o esporte e o lazer como fator de desenvolvimento humano, a Prefeitura busca integrar a população em uma relação social justa e democrática. Para isso, desenvolve ações regulares que já fazem parte do cotidiano da população de Fortaleza.

ACADEMIA NA COMUNIDADE: Desde 2006, o programa oferece avaliação física, orientação nutricional e a prática regular de atividade física, através da realização de aulas de ginástica, jogos e recreação. O objetivo é melhorar a qualidade de vida dos participantes. As aulas acontecem diariamente em 26 núcleos espalhados por praças e espaços públicos de Fortaleza. A equipe de 34 profissionais, entre educadores físicos e nutricionistas, beneficia cerca de quatro mil pessoas por mês.

ESPORTE NA COMUNIDADE: Atuando desde 2005, o mais antigo programa de esporte e lazer em atividade na Capital oferece, a crianças e jovens, aulas de futebol, futsal, handebol, vôlei, basquete, ginástica, natação, hidroginástica, caratê, judô e capoeira. Ao todo, são 32 professores ministrando aulas em 34 núcleos, beneficiando cerca de três mil pessoas por mês.

ESPAÇO ORIENTAL: Criado em 2006, o programa oferece à população de todas as idades a prática do Tai Chi Chuan, uma arte marcial oriental milenar ligada ao Kung Fu. Ao todo, 13 núcleos, distribuídos em praças e áreas verdes da cidade, recebem mais de mil pessoas por mês. Além de contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população, as aulas proporcionam espaços de socialização e a requalificação de espaços públicos.

PELC: Iniciado em 2009, o Programa Esporte e Lazer da Cidade (Pelc), feito em parceria com o Ministério do Esporte, trabalha com pólos de atividades esportivas, culturais e de lazer em bairros periféricos de Fortaleza. 

O programa atua em 10 núcleos, localizados em diversos bairros da capital. Ao total, são mais de 3,5 mil pessoas beneficiadas por mês. No projeto estão envolvidos 71 profissionais, entre professores de educação física, arte educadores, psicólogos e agentes comunitários de esporte e lazer.

SALÃO DO TABULEIRO: Em atividade desde 2006, o projeto proporciona momentos de lazer à população, ao mesmo tempo em que democratiza o aprendizado e a prática de jogos de mesa e de tabuleiro, como dama, xadrez, gamão, futebol de botão, sinuca e tênis de mesa. De atuação itinerante, o programa atende cerca de 400 pessoas por atividade.

ESPORTE ADAPTADO: Através de atividades físicas recreativas e de lazer, o Programa Esporte Adaptado vem ajudando a promover espaços de socialização e fortalecendo a autoestima e a autonomia das pessoas com deficiência. Hoje o programa funciona em quatro núcleos, atendendo uma média de 200 alunos. 

COPA 2014: Após uma força tarefa que envolveu os poderes municipal e estadual, Fortaleza foi escolhida uma das 12 subsedes da Copa de 2014. A FIFA, organizadora do evento, entendeu que a cidade tem potencial para contemplar os sete eixos estruturais definidos: estádios, saúde, transporte e trânsito, energia e telecomunicações, meio ambiente e saneamento básico, turismo, segurança pública. O PV estará à disposição das equipes para servir de campo de treinamento. A proposta foi entregue a comissão da FIFA para análise.

Fonte: Secel
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Tópicos para reflexão sobre a identificação e desenvolvimento de talentos

A influência dos aspectos sociais, físicos e psicológicos para a formação de um atleta profissional
Sérgio Raimundo*

“Um domingo sem futebol, transforma-se, para muita gente, num episódio burlesco, porque já não sabe viver sem a dialética tensional e criadora do desporto-rei” (SÉRGIO, 2008a, p. 138)

Na tentativa de detectar e desenvolver, com sucesso, jogadores que são mais passíveis de ser tornarem estrelas no futuro, isto é, meras esperanças a jogadores de elite, os clubes investem significantes quantias de dinheiro, sendo essa identificação realizada, por vezes, numa idade prematura como os 6-8 anos de idade (HELSEN et al., 2005). Esta situação decorre da ideia de que tal desenvolvimento pressupõe que os jogadores recebem treino especializado que, por seu turno, acelere o processo de desenvolvimento de talento (WILLIAMS e REILLY, 2000).

Desta forma, teoricamente, não seria de prever que os clubes mais ricos tivessem sempre os melhores jogadores, por exemplo, quando chegam à categoria de sub-19? Se um clube compra muitos jogadores, significa que os seus processos de observação e/ou desenvolvimento não são os mais corretos? Mas porque será, no caso da Europa, necessário ir buscar tantos jogadores a África e à América do Sul, havendo tantos jovens que praticam futebol no continente europeu?

Talento somente inato ou somente adquirido?

O termo “talentoso” é usualmente utilizado como sinônimo de “dotado”, verificando, portanto, um dom ou talento que se possui, não se aprende a ter, mas a verdade é que nunca se encontraram indicadores de predição seguros, que garantissem, antecipadamente, o desempenho excepcional na alta competição (ARAÚJO, 2004).

Como se explica o fato de muitos atletas excepcionais nunca terem manifestado sinais precoces de um talento incomum? E entre aqueles jovens que os tenham manifestado, porque é que muitos deles nunca chegaram a peritos, ou a atletas de alto nível? Por exemplo, o Professor João Barnabé referiu no 1º Seminário organizado pelo Núcleo de Futebol da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa, que o ex-internacional português Luís Figo (127 internacionalizações e melhor jogador do mundo em 2001), surgiu no Sporting Clube de Portugal com 12/13 anos, com cerca de 1,30 metros, 30 quilogramas, não tendo sido referenciado por nenhum observador (acompanhava um amigo ao treino). O treinador nunca imaginou que o atleta poderia vir a atingir o nível que atingiu, enquanto, pelo contrário, afirmou ter tido esperança em outros jogadores que não atingiram o alto nível referindo que, possivelmente, tal não aconteceu devido a “outros fatores” intermédios dos quais o processo está dependente.

Processo de identificação e desenvolvimento e indicadores de talento

A identificação de talentos, no desporto, é um fenômeno que existe desde os anos 60’ e início dos anos 70’, que se acredita ter levado à obtenção de resultados estrondosos durante os Jogos Olímpicos de 1972, 1976 e 1980, por parte de países do “Bloco de Leste Europeu”, sendo que, por exemplo, 80% dos medalhistas búlgaros nos jogos de 1976 foram resultado de um processo de identificação de talentos (WOLSTENCROFT, 2002). Os mesmos autores afirmam que, esta aproximação tradicional acabava por ser uma “seleção natural de indivíduos já implicados num dado desporto”. Mas pode-se criticar estes processos? Se sim, numa análise mais objetiva, não foram conseguidos os objetivo finais, que se remetiam ao alcance de medalhas? Se não, deixamos de abrir espaço para outros atletas que simplesmente não dispõem das condições suficientes para praticar desporto, ou excluímos do processo atletas tidos com potencial, mas que simplesmente são maturalmente menos evoluídos? Será importante obter um equilíbrio entre o sim e o não?

Na perspectiva física

Os indicadores físicos de talento, relacionados com o desempenho, assentam em indicadores antropométricos, como por exemplo, a estatura, o peso, a composição corporal, o diâmetro ósseo, o perímetro dos membros, entre outros. As implicações da predição de futuros jogadores de elite, com base nestas medições podem ser irrealistas, nos grupos mais jovens, pois o desempenho poder ser diferenciadamente afetado pela taxa de crescimento físico e maturação dos jogadores (HELSEN et al., 2005; WILLIAMS e REILLY, 2000). Desta forma, modelos que assentem em medidas físicas e antropométricas apenas resultariam, se as medições das variáveis chave ocorressem assim que se soubesse que os valores relativos de medição entre indivíduos eram estáveis (WOLSTENCROFT, 2002).

Por exemplo, uma diferença na idade relativa de 12 meses pode resultar em variações antropométricas significantes que verifica haver em jovens jogadores (2175) de 10 países da Europa uma sobre-representação de jogadores nascidos no primeiro quarto do ano de seleção (de janeiro a março) para todas as seleções nacionais jovens, dos sub-15 aos sub-18, e os autores concluíram que os jogadores com maior idade relativa (tendo em conta as diferenças em relação ao mês de nascimento), são, provavelmente, mais identificados como “talentosos”, devido às prováveis vantagens físicas que têm sobre os seus colegas relativamente mais “novos” (HELSEN et al., 2005). Estas diferenças foram menos notórias no futebol feminino, presumivelmente, devido ao fato de as mulheres maturarem mais cedo do que os rapazes, tornando as assimetrias nas distribuições das datas de nascimento das jogadoras menos aparentes.

No futebol, outros fatores como a tomada de decisão diminuem a significância das variáveis físicas que, apesar de fazerem parte da totalidade de uma realidade que se tenta compreender, é incapaz de distinguir as diferenças entre vencedores de uma final (WOLSTENCROFT, 2002), por exemplo, da Liga dos Campeões.

Na perspectiva fisiológica

Referindo-se a estudos que encontram superioridade fisiológica em relação ao aporte máximo de oxigênio (VO2máx), potência anaeróbia, força do tronco, volume cardíaco (absoluto e relativo), em jogadores de sucesso (11 a 17 anos), comparando com jogadores da mesma faixa etária de menor sucesso, Williams e Reilly (2000), referem que há possibilidade de que nesses estudos, parte da superioridade fisiológica dos jogadores de sucesso se tenha ficado a dever a uma passagem dos jogadores por uma abordagem mais sistematizada do treino, antes da introdução dos mesmos nas equipas jovens especializadas.

Vejamos agora um ponto de vista diferente, que o treinador José Mourinho dá, relativamente à velocidade, referindo-se a um famoso velocista português Francis Obikwelu (medalha de prata nos 100 metros dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004), e ao jogador Deco:

“É muito rápido [Obikwelu] e não conheço nenhum jogador de futebol que o consiga igualar numa corrida de 100 metros. No entanto, numa partida de futebol, 11 contra 11, julgo que o Obikwelu seria o mais lento! (…) Se o colocássemos [Deco] numa corrida de 100 metros com os homens do atletismo ele faria uma figura ridícula. É descoordenado a correr, não tem velocidade terminal, muscularmente de certeza que está carregado de fibras de contração lenta e nada de fibras de contração rápidas. No entanto, num campo de futebol é um jogador dos mais rápidos que conheço, porque a velocidade pura não tem nada a ver com a velocidade no futebol. (…) Nesta forma de analisar a velocidade, um jogador lento do ponto de vista tradicional é, afinal, um jogador rápido numa perspectiva complexa, porque se vai deslocar numa altura em que os outros não esperam, num momento correto, num momento em que o companheiro com a bola precisa que ele se desloque” (LOURENÇO, 2010, p. 42).

Na perspectiva psicológica

Os investigadores ainda não identificaram um inventário psicológico que ajude a selecionar jogadores com maior ou menor potencial, sendo improvável que qualquer simples inventário tenha um completo poder preditivo, pois as habilidades psicológicas podem estar altamente propensas a modificação, por meio de treino especializado (WILLIAMS e REILLY, 2000). Verifica-se também que nos casos em que existem diferenças de maturação física entre jogadores, como resultado do efeito da idade relativa, estas podem coincidir com uma maior maturidade psicológica dos mais avançados, relativamente aos seus homólogos (HELSEN et al., 2005).

Num estudo sociológico efetuado com oito treinadores das seleções nacionais jovens da Dinamarca, Christensen (2009) examinou o modo como os mesmos identificavam o talento e verificou que as qualidades pessoais, relativas ao ver e conhecer o jogador como pessoa, eram vistas como significantes para um posterior desenvolvimento de talento (ex.: de um treinador: “Vi tantos talentos que eram realmente tão bons, mas que não tinham o mentalmente necessário ou apenas não o desejavam o suficiente (…). Tens que estar disposto a colocar outras coisas de parte para te tornares verdadeiramente bom, tens que ter alguma humildade, em geral, face ao jogo (…) olhar um pouco mais para a frente, que apenas para o próximo jogo”. Pertencia ao construto dos treinadores a ideia de que o talento ideal é possuidor de uma “personalidade autotélica” (CSIKSZENTMIHALYI in CHRISTENSEN, 2009), isto é, tem a habilidade de se concentrar e focar no desempenho imediato, “jogar seriamente” e ser treinado independentemente das “boas” ou “más” percepções das estratégias de ensino que os treinadores possuem. Apesar desta possível existência de uma “personalidade autotélica”, imagine-se a quantidade de diferentes personalidades presentes num típico clube profissional de topo e o potencial histórico-cultural que lhe está subjacente! Cada atleta tem as suas vivências, é único. Diz o professor Manuel Sérgio (2008a, p. 138), referindo-se ao “diálogo” existente num jogo de futebol, mas que pode ser transferida para o diálogo dentro de uma mesma equipa: “Um jogo de futebol, como qualidade relacional, diz-nos isto, precisamente: o outro existe e deve ser respeitado como outro!”.

Vejamos agora o que o jogador internacional português Deco relata, da sua visão da gestão psicológica que José Mourinho fazia do seu grupo de jogadores: “ele conseguia ter a percepção de como cada um funcionava e usava isso em prol do grupo.” (LOURENÇO, 2010, p. 146). O jogador refere-se também a um caso concreto, daquilo que pensa ter sido a gestão de Mourinho em relação ao jogador internacional português Maniche:

“Antes de um jogo importante (…) em que o Mourinho sabia que precisava dele, porque era um jogador fantástico (…) um ou dois jogos antes, no campeonato, Mourinho tirava-o da equipe e sentava-o no banco. O Maniche era um jogador muito explosivo e ficava ‘cego’ por ir para o banco, resmungava, dizia mal da vida e do treinador (…) Mourinho queria provocar o Maniche, e o fato é que conseguia sempre o efeito pretendido. O Maniche ficava ‘cego’ e depois, na altura de regressar, revoltado com a situação, ia sempre com a ideia de fazer o melhor jogo da sua vida.” (LOURENÇO, 2010, p. 145-146)

Inteligência de jogo e habilidade do jogador

Vejamos o ponto de vista do treinador José Mourinho, referente à diferença entre velocidade de corrida (ex.: 100 metros) e velocidade no futebol:

“A velocidade no futebol tem a ver com a análise da situação, de reação ao estímulo e capacidade de identificá-lo. No futebol o que é o estímulo? É a posição no campo, a posição da bola, é o que o adversário vai fazer, é a capacidade de antecipar a ação, é a percepção daquilo que o adversário vai fazer, é a capacidade de perceber que espaço é que o adversário vai ocupar para receber a bola sozinho (…) o homem é um todo complexo no seu contexto.” (LOURENÇO, 2010, p. 42)

Numa análise em que se investigue o grau de coordenação perceptivo-motor e se verifique como o mesmo faz emergir padrões de movimento refinados e eficazes, é notório, que o desempenho perito surge como consequência de anos de treino intenso e sistemático e que, com os anos, esse desempenho fica mais constante e eficiente, e menos centrado nos aspectos motores (mais “automático”) (ARAÚJO, 2004). Desta forma, talvez deva ser dada maior atenção às habilidades técnicas e táticas, quando da seleção de jogadores, em oposição à dependência excessiva nos indicadores físicos, como a altura, (HELSEN et al., 2005) pois é a capacidade do indivíduo detectar e usar a informação contextual para alcançar os seus objetivos, que torna a sua ação eficaz num dado contexto (ARAÚJO, 2004).

Na perspectiva sociológica

Williams e Reilly (2000) referem que, por exemplo, famílias financeiramente estáveis tendem a fornecer maior suporte financeiro e maior mobilidade e flexibilidade de transporte, aos seus filhos ou familiares. De fato Côté (1999) referiu que o apoio dos pais e uma atitude positiva face ao envolvimento da criança no desporto parecem ser muito importantes durante todo o período de crescimento.

Outros atores sociais do contexto do crescimento dos talentos são os professores e os treinadores. Christensen (2009) desafiou a assunção, usualmente aceite, que a identificação de talentos por parte dos treinadores é um processo racional ou objetivo, enquanto Williams e Reilly (2000) afirmam verificar-se que os clubes profissionais assentam na avaliação subjetiva dos observadores e/ou treinadores, suportada por uma espécie de “lista de compras” de critérios chave como [abreviaturas do Inglês] TABS (Técnica, Atitude, Equilíbrio, Velocidade), SUPS (Velocidade, Compreensão, Personalidade, Habilidade) e TIPS (Talento, Inteligência, Personalidade, Velocidade).

Christensen (2009) perguntou a um dos treinadores do seu já referido estudo, o que normalmente tem escrito no final dos jogos, ao que o mesmo respondeu que “normalmente, apenas nomes e nada sobre qualidades”. Os detalhes e as qualidades permaneceram um sentimento (feeling) e uma experiência perceptiva na qual ele baseou o julgamento do jogador. Em particular, os treinadores utilizaram frases como “eu consigo ver” e “eu vi”, quando descreviam a forma como selecionavam jogadores talentosos. Para estes treinadores, o talento é algo que parece bem. Um treinador afirmou que “é essencial que tenhas algumas fotos (mentais) que de alguma forma evoquem uma resposta; algo que te lembre do que o Michael Laudrup fazia quando tinha 16 anos quando o vi a jogar pela primeira vez. Algo que viste antes e que foi bom… A isso é o que eu chamo ter uma visão”.

Reflexão

Pode-se dizer que muitos dos estudos que existem não são adequados do futebol e bastará verificar essa situação nos exemplos de José Mourinho, que no entender de Sérgio (2008a, p. 140) implantou uma grande mudança de paradigma no treino desportivo através da “operacionalização do todo”, tendo entrado “no futebol altamente competitivo como uma rajada impetuosa de metodologias inovadoras”.

Os treinadores das seleções dinamarquesas do estudo de Christensen (2009) referiram que para além das qualidades pessoais e das competências de jogo, a inteligência de jogo é uma variável a considerar, mas não pode ser medida isoladamente ao jogar o jogo e está relacionada com as escolhas inteligentes em contexto de jogo formal ou reduzido. Verificamos que estes contextos são incertos, mas não os poderemos apelidar cientificamente de “acasos” só porque a ciência tem dificuldades em isolar as suas variáveis, pois a verdade é que é neles que os desempenhos dos jogadores ocorrem, da mesma forma que não poderemos apelidar de “acaso” ao mundo em que vivemos e também ele é complexo e caótico. Morin (1999, p. 85-87) considera que “uma grande conquista da inteligência seria de poder enfim se desembaraçar da ilusão de predizer o destino humano (…). O futuro chama-se incerteza”.

De fato, Williams e Hodges (2005) referem que é mais fácil avaliar a efetividade dos programas de condicionamento da aptidão física, alterações nas capacidades aeróbia e anaeróbia e características antropométricas como a composição corporal e o peso, do que intervenções ao nível comportamental. “Acasos” são as “determinações econômicas, sociológicas, e outras no curso da história” que se encontraram imersas numa crença de um futuro repetitivo e progressivo e numa “relação instável e incerta com os acidentes e riscos inumeráveis que fazem bifurcar ou desviar o seu curso” (MORIN, 1999, p. 85). Mas a verdade é que acontecimentos como, por exemplo, a catástrofe econômica de 1929, apelidada de “Black Tuesday” ou “Wall Street Crash”, apareceram sem pedir licença!

Pode ser também verdade que, como foi referido na análise deste processo de identificação de talentos, que a categorização de algumas crianças como não tendo talento inato está a discriminá-las e que é injusta e desnecessária, impedindo jovens de seguirem um objetivo (ARAÚJO, 2004). Pode também ser verdade que dois jovens tenham condições idênticas para desenvolver o seu potencial e que um alcance a elite e o outro não. Mas o que é verdade é que em toda a sociedade acontece atualmente uma seleção natural. Não quero com isto dizer que é o correto, mas é o que acontece!

Se o que se tiver em conta for o crescimento ao nível de maturação dos atletas, será válida a afirmação de que se está a excluir os mais fracos? Mas um teste universitário não é também uma seleção dos aparentemente melhores? E a procura de emprego em que se faz a escolha, por vezes apenas de um candidato entre centenas, por meio do recurso a algumas entrevistas e/ou testes psicotécnicos, entre outros? A identificação e desenvolvimento de talentos, atualmente não é mais do que um espelho da nossa sociedade, da nossa cultura, do contexto “hipercientificado e hipermercantilizado” que também “está presente no desporto hodierno” (SÉRGIO, 2008b, p. 148).

O que acontece com a seleção de talentos é a pretensão de abonar os mais aptos com uma oportunidade de trabalho numa área que desejam. Não seria a tentativa de homogeneização um reprodutor de desigualdades na sociedade atual, ou será a homogeneização a desigualdade em si? Se o objetivo é marcar gols, dar espetáculo e ganhar medalhas, como é obter as melhores notas na escola e os melhores testes psicotécnicos na tentativa de ser selecionado para um emprego, que não se critiquem e que se mantenham os processos de identificação e desenvolvimento de talentos. Se o objetivo é educar através do desporto, eduquem na escola a “unidade complexa da natureza humana [o seu humano é em simultâneo físico, biológico, cultural, social, histórico] que está completamente desintegrada do ensino” (MORIN, 1999, p. 17)! Não descriminem nos empregos! Não falem em homogeneização e igualdade de oportunidades!

Os treinadores e observadores são os elementos que realizam a identificação de talentos na prática, são eles que guiam os seus projetos, nos quais investem milhares e milhões de euros, sendo obrigados pela sociedade a ter retorno imediato, tendo assim, o tempo reduzido para obter o seu retorno. São eles que jogam o seu prestígio no momento de mostrar “os seus jogadores”, sendo também eles os desacreditados e criticados socialmente se “os seus jogadores” não tiverem desempenhos ao mais alto nível.

De qualquer forma, como é possível que um treinador do estudo de Christensen (2009) tenha descoberto quem seria o homem do jogo em 4/5 minutos, após um jogador ter efetuado dois toques na bola, o que efetivamente aconteceu, tendo esse jogador sido considerado o homem do jogo? É a praxis! Este conhecimento é, antes de mais, autêntico! Aprende-se e desenvolve-se como resultado de uma lógica proveniente da sua esfera de ação, dentro da esfera maior que é o mundo. Os peritos sentem o jogo, sentem o que vai acontecer (CHRISTENSEN, 2009).

Assim sendo e apesar de no futebol as qualidades “certas” e “erradas” não serem identificadas por meio de alguns fatores únicos, mas sim de um conjunto de características multifacetadas (CHRISTENSEN, 2009), é necessário criar canais de diálogo entre a ciência e a prática, ou a ciência arrisca-se a funcionar num circuito fechado, para o qual os treinadores se podem tornar indiferentes.

A base é o humano e identifico-me nas palavras do grande mestre Manuel Sérgio (2008b) “O desporto por que me bato é um desporto de ideias, de extensa e sólida cultura humanista (…) em direcção a um mundo de Liberdade, de Verdade e de Justiça!”.

Bibliografia

ARAÚJO, D. A insustentável relação entre talentos e peritos: talento epigenético e desempenho emergente. Treino Desportivo, especial 6(Novembro), p. 46-58, 2004

CHRISTENSEN, M. “Na Eye for Talent”: Talent Identification and the “Pratical Sense” of Top-Level Soccer Coaches. Sociology of Sport Journal, v. 26, p. 365-382, 2009

CÔTÉ, J. The Influence of the Family in the Development of Talent in Sport. The Sport Psychologist, v. 13, p. 395-417, 1999

HELSEN, W. F.; WINCKEL, J. V.; WILLIAMS, M. A. The relative age effect in youth soccer across Europe. Journal of Sport Science, v. 23, n. 6, p. 629-636, 2005.

LOURENÇO, L. Mourinho – A Descoberta Guiada. Lisboa: Prime Books, 2010. 174 p.

MORIN, E. Os sete saberes para a educação do futuro. Lisboa: Instituto Piaget, 1999, 130 p.

SÉRGIO, M. Futbolsofía: Filosofar a través del fútbol. In: Sérgio, M. (Ed). Textos Insólitos. Lisboa: Instituto Piaget, 2008a. P. 119-132

SÉRGIO, M. O desporto por que me bato. In: Sérgio, M. (Ed). Textos Insólitos. Lisboa: Instituto Piaget, 2008b. P. 143-151

WILLIAMS, A. M.; HODGES, N. J. Practice, instruction and skill acquisition in soccer: Challenging tradition. Journal of Sports Sciences, London, v. 23, n. 6, p. 637-50, 2005

WILLIAMS, A. M.; REILLY, T. Talent Identification and development in soccer. Journal of Sports Sciences, v. 18, p. 657-667, 2000

WOLSTENCROFT, E., ed. Talent Identification and Development: An Academic Review (A report for Sportscotland by the University of Edinburgh). Edinburgh: Sportscotland, 2002. Disponível em: http://www.sportscotland.org.uk/ChannelNavigation/Resources/Topic
Navigation/Publications/Talent+identification+and+development+programme.htm. Acesso em: 16 ago. 2010

* Licenciado em Ciências do Desporto e Mestre em Educação Física pela Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa; Trabalha com futebol de formação, tendo estado nas épocas 2008/2009 e 2009/2010 na Escola de Futebol do Sport Lisboa e Benfica; em Julho de 2009 estagiou na Escola de Futebol Étoile Lusitana (Dakar, Senegal), clube vencedor da Milk Cup 2010 (escalão de sub-17)

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Diretos Federativos: Santos perde ‘fatia’ de seus jogadores em disputa na Justiça

Decisão que dava parte dos direitos federativos de alguns jogadores foi renegada

Equipe Universidade do Futebol

A disputa entre Santos e grupo DIS para obter uma parcela dos direitos federativos de alguns de seus principais jogadores de 2010 sofreu uma reviravolta. O clube da baixada que antes tinha reconquistado a “fatia” de seus jogadores, agora teve que devolver a porcentagem dos passes ao grupo de investidores.

A agremiação alvinegra alega que a venda de parte dos direitos federativos de seus atletas não havia sido realizada de acordo com o real preço de mercado de seus jogadores, entre eles o meia Paulo Henrique Ganso, o volante Wesley e o atacante André.

“Ainda nem fomos comunicados da decisão. E, mesmo que eles tenham obtido a liminar, não significa vitória definitiva. Muita coisa ainda vai acontecer, vamos continuar discutindo e cada um vai defender sua parte. Ainda vamos estudar qual será o próximo passo”, revelou Luciano Moita, diretor jurídico do Santos, em declaração ao portal Globo.com.

Apenas com André e Wesley, já negociados com times do exterior, o clube arrecadaria cerca de R$ 8,5 milhões. Já com Ganso, uma das grandes revelações do clube em 2010, a determinação da Justiça fez com que o Santos voltasse a possuir os mesmo 45% que o Grupo DIS tem direito em uma futura venda da jóia.

Fotos: Dir-1: Ganso; Esq.: Wesley; dir-2: André

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segunda-feira, dezembro 27, 2010

Clodoaldo Gonçalves Leme, mestre em Ciências da Religião e doutorando em Psicologia Social

Especialista em religiosidade fala de conquista da individualidade e da ascensão social pelo futebol
Bruno Camarão

O esporte, de maneira geral, possui uma série de dinâmicas inerentes, entre as quais se destacam as interações entre os próprios atletas, os jogos e as regras específicas. Ele pode ser destacado como uma maneira interessante para figurar processos de individualização e socialização pensados simultânea e articuladamente, já que ambos são estruturados pela linguagem e são capazes de individualizar e tornar comum ao meio social esse sujeito.

No Brasil, especificamente, o sentimento arraigado com as modalidades esportivas coletivas e o convívio com a bola, os valores culturais internalizados desde a infância e que prosseguem com o indivíduo ao longo de sua vida, têm o poder de aproximar as pessoas, estimular o diálogo, a troca de experiências e informações – um ambiente fértil para o desenvolvimento humano e para a formação das identidades psicossociais. Doutorando nessa área e mestre em Ciências da Religião, Clodoaldo Gonçalves Leme se aprofunda na abordagem do futebol.

Graduado em Educação Física pela Escola Superior de Educação Física de Jundiaí (1999), com especialização em Treinamento Esportivo e Fitness (2001) pela mesma instituição, ele possui mais de uma década de experiência com estudos na área, desenvolvendo principalmente desenvolve principalmente os temas: futebol, religião, religiosidade, sociedade de risco, sociedade do espetáculo, identidade social, emprego e desemprego.

Na avaliação de Clodoaldo, o indivíduo não nasce membro da sociedade, mas sim com a predisposição para a sociabilidade e torna-se membro da sociedade à medida que consegue internalizar e compreender seus semelhantes, apreendendo o mundo como realidade social dotada de sentido. “Pode-se inferir que esse fator sócio cultural, de certa forma, acaba viabilizando a sobrevivência das equipes de futebol em nosso país, que são fortalecidas pelo desejo de aproximação de neófitos que, costumeiramente, optam por um clube, seja como atleta (profissional ou amador) ou torcedor”, disse, nesta entrevista à Universidade do Futebol.

Ele destaca em sua tese que os riscos no “mundo da bola” são flutuantes na vida dos indivíduos, ou seja, mudam de acordo com as circunstâncias de vida e têm diferentes repercussões, dependendo do repertório de cada um. Em virtude disso, não é possível fazer inferências do tipo causa-efeito, com um raciocínio linear, quando se trata dos riscos no futebol.

“É preciso identificar que processos ou mecanismos influenciaram o que liga risco à consequência em um determinado ponto da história do indivíduo”, aponta Clodoaldo, que entrevistou alguns desses personagens com histórias de vida protagonizadas pela perda do emprego – ou seja, a saída do futebol profissional -, e como isso colocou os sujeitos em situações de risco.

A identificação é que estes ex-atletas precoces são os mais expostos aos riscos, pois foram privados de uma educação familiar e escolar mais adequada. “Os que não tiveram um processo de socialização mais estruturado se percebem na corda bamba frente aos projetos futuros”, acrescenta.

Eis o sinal aos talentosos jogadores e aspirantes a craques: o equilíbrio da vida biológica, psíquica e social, está intimamente ligado à maneira de lidar com certas valências ou espaços de vida, como a profissão (carreira), a casa (família), os estudos, os investimentos de toda ordem.

“Cada um terá que, efetivamente, encontrar um justo equilíbrio entre essas valências ou espaços de vida sem deixar que nenhum deles avance excessivamente sobre os outros reduzindo-os, anulando-os e, por conseguinte, desequilibrando-se mais ou menos profunda e irremediavelmente”, afirma Clodoaldo, que ainda fala sobre sua dissertação de mestrado em Ciências da Religião, a qual trata das manifestações de religiosidade no futebol profissional paulista, além de abordar o reconhecimento dos ídolos como seres “sagrados” tendo como pano de fundo a socialização do indivíduo.

Universidade do Futebol – Na visão do senhor, de que modo o esporte – e mais precisamente o futebol – pode funcionar como um instrumento capaz de possibilitar a emancipação e a autonomia dos sujeitos?

Clodoaldo Leme – É possível afirmar que o déficit educacional que perpassa não apenas o esporte, em especial o futebol, mas toda a sociedade brasileira, colabora com o fato de as pessoas se perceberem desprotegidas, sem amparo diante da lógica capitalista, do sistema que é imposto a todos e se tornou dominante há tanto tempo que se tende a tomá-lo como “normal” ou “natural”, mesmo em suas mazelas. Num tal contexto, o espaço para os chamados “valores humanos” (tomados, de modo geral, como valores que elevam a condição pessoal do indivíduo além de sua capacidade produtiva ou de consumo) é estabelecido a partir de certas condicionantes (se ele pode, eu também posso, ou “gente que faz”, ou ainda, “querer é poder!”, são exemplos).

Salienta-se que essas situações de vida pontuais são importantes, entretanto não significa que o final feliz será alcançado pela maioria. A bem da verdade, o sucesso, o reconhecimento, os processos emancipatórios que contribuem com o desenvolvimento do indivíduo, assim como a tão falada autonomia, só serão logrados mediante um esforço extraordinário. Para tanto, emerge um projeto educacional, familiar e social, estruturado, adequado, como uma ferramenta importante no processo de socialização dos sujeitos. Frisa-se ser o esporte, o futebol, principalmente o inserido no âmbito educacional, um instrumento capaz de possibilitar a emancipação e a autonomia dos sujeitos, pois estes cidadãos/desportistas/aprendizes seriam capazes de se reconhecerem mutuamente e se auto-afirmar enquanto identidades próprias, à medida que interagem intersubjetivamente.

O esporte e suas dinâmicas inerentes (interações, jogos, regras, etc.) podem ser destacados como meio propício para figurar os processos de individualização e socialização concebidos de forma articulada e simultânea, pois ambos, estruturados pela linguagem, são capazes de individualizar e socializar o sujeito ao mesmo tempo.

Universidade do Futebol – Amparado pela psicologia social, qual é a importância da brincadeira, do jogo, e das relações interpessoais no processo de constituição das identidades humanas?

Clodoaldo Leme – Recorro ao psicólogo social, George Herbert Mead, para clarear o debate em torno da importância da brincadeira, do jogo, e das relações interpessoais, nesse processo de constituição das identidades humanas. Mead destaca a importância dos jogos infantis como um primeiro momento em que a criança irá se constituir a partir da relação com o outro, seu outro (dublê). É nos jogos e brincadeiras infantis que a criança cria seus personagens imaginários e se permite colocar em diferentes papéis sociais (torna-se médico, professora, motorista, jogador, etc.). Sendo assim, os jogos infantis têm um caráter funcional, pois cumprem o cargo de serem mediadores para a criança em relação à sua sociedade, pois permitem que elas se coloquem no lugar do outro. Os jogos que antecedem aos de regras são aqueles em que a criança brinca de alguma coisa sem se preocupar com os fins e os meios de sua atividade (play), podendo alterar rapidamente de papéis; por exemplo, a bola que era chutada, agora pode se transformar em cavalo pela criança, que sentada, sente-se cavalgando. Posteriormente, a criança continuaria seu processo de desenvolvimento ao participar do jogo com regras (game), regras estas que determinariam os padrões de comportamento dos integrantes da interação. A regra, ao ser internalizada, faz com que o indivíduo funcione por si só e que os participantes consigam atingir seus objetivos em conjunto e não mais isoladamente.

A partir especialmente da aquisição da fala é que a criança irá gradualmente dominando o processo de apropriação da atitude do outro. E o jogo com regras implica essa apropriação da atitude de todos os participantes de forma organizada, até chegar ao ponto em que todos assimilem as regras, organizando para si o outro, como um outro generalizado, tendo por referência o ponto de vista do todo integrado de sua comunidade social. Fundamental, o conceito do “outro generalizado” aparece com destaque na obra de George Mead, como elemento essencial de sua teoria do self. O autor descreve-o da seguinte forma: “a comunidade ou grupo social organizado, que proporciona ao indivíduo sua unidade do ‘self’, pode ser chamada ‘o outro generalizado’. A atitude do outro generalizado é a atitude de toda a comunidade”. Assim, por exemplo, no caso de um grupo social como o de uma equipe de futebol, a equipe é o outro generalizado, na medida em que intervém – como processo organizado ou atividade social – na experiência de qualquer um de seus membros.

Vale ressaltar que, somente na medida em que o indivíduo puder adotar as atitudes gerais de todos os outros envolvidos nos processos sociais de sua comunidade, concordando com a totalidade das relações experienciais, das instituições e grupos de seu ambiente comunitário, é que esse indivíduo poderá desenvolver um self completo. Pode-se dizer que o outro generalizado é uma espécie de influência da socialização na constituição do self, ou seja, na individuação. Identificado em crianças maiores, o jogo, como realizado no esporte, exige uma maior complexidade do self.

Compondo o quadro explicativo, aludimos ao(s) garoto(s) que se iniciaram brincando com a bola “desinteressadamente”, até terem o contato com o futebol estruturado, para, a partir daí, começarem a sonhar com a carreira de atleta de futebol profissional. Salienta-se o aspecto de considerar o prazer e o benefício físico, psíquico e social que a prática esportiva pode desencadear, mas deve-se considerar também, principalmente no caso específico do futebol, que muitos atletas iniciantes e amadores, vislumbram pela carreira esportiva a possibilidade real de ascensão social, pois o esporte de preferência nacional é tido como meio propício, principalmente para as crianças mais pobres, para buscarem minimizar problemas econômicos e suas consequências de toda ordem, pois parte da população é privada de educação de qualidade, estudos, cursos profissionalizantes, entre outros direitos, que lhes são suprimidos por falta de vontade política.




Mead aponta que é nos jogos e brincadeiras infantis que a criança cria seus personagens imaginários e se permite colocar em diferentes papéis sociais 

 

Universidade do Futebol – Walter Benjamin diz que o grande equívoco em relação aos brinquedos fabricados é o fato de que estes são sempre pensados como produções para as crianças e não como criações das crianças. Os brinquedos, atualmente industrializados e produzidos em séries, limitam a criatividade das crianças, mesmo quando estas não são totalmente servis a eles? E de que modo isso pode se refletir na formação do jogador de futebol?

Clodoaldo Leme – Em primeiro lugar, pondera-se que, diferentemente de outras áreas de atuação, o futebol parece denotar situações que fogem de um padrão convencional, quando se refere à escolha da carreira profissional. Basta lembrar que quando a maioria das crianças nasce, além de receber o nome, recebe também do pai ou de outra pessoa próxima da família e influente no meio, um time que, provavelmente, irá lhe acompanhar pelo resto da vida – são poucos os que mudam de agremiação; como diz o ditado: brasileiro troca de mulher, mas não troca de time. Mesmo quando a equipe passa por momentos difíceis, por uma “draga danada”, os torcedores não o abandonam. “Até a pé nos iremos. Para o que der e vier (...)” diz o hino do Grêmio; “(...) Sofro por ti Corinthians (...)”, canta uma das maiores torcidas brasileiras; e assim por diante.

Interessante salientar que junto com as formas de vida, dentro das quais nascemos e que cunharam nossa identidade, como descreve Habermas, “assumimos modos inteiramente diferentes de uma responsabilidade histórica, uma vez que depende de nós o modo como continuamos as tradições nas quais nos encontramos previamente”. É bem da verdade, quem tem o futebol permeando a sua socialização, dificilmente se solta dessa teia no decorrer de sua história; em menor ou maior intensidade, ele será referência em sua vida.

E como o futebol também é apresentado às crianças? Pelo brinquedo denominado bola! Pode ser de borracha, couro, papel ou meia, ela constantemente está nas garras da “molecada”, ao lado da cama, no jardim ou na garagem. É muito difícil encontrar alguém que nunca tenha brincado com uma; se não brincou, no mínimo foi vítima de algum “pé torto” que estava por aí dando os seus chutinhos e, de quebra, acertou uma bela bolada no desatencioso que estava andando sem reparar que havia uma “pelada” ali por perto e que ainda teve que ouvir um sonoro: “desculpa aí, tio, tá dormindo”.

Em nosso país, a paixão pelo esporte e o convívio com a bola, valores culturais internalizados desde a infância e que prosseguem com o indivíduo ao longo de sua vida, têm o poder de aproximar as pessoas, estimular o diálogo, a troca de experiências e informações, sendo assim, lócus propício para o desenvolvimento humano e para o ininterrupto processo social de formação das identidades psicossociais. Aliás, o indivíduo não nasce membro da sociedade; nasce com a predisposição para a sociabilidade e torna-se membro da sociedade à medida que consegue internalizar e compreender seus semelhantes, apreendendo o mundo como realidade social dotada de sentido. Pode-se inferir que esse fator sócio cultural, de certa forma, acaba viabilizando a sobrevivência das equipes de futebol em nosso país, que são fortalecidas pelo desejo de aproximação de neófitos que, costumeiramente, optam por um clube, seja como atleta (profissional ou amador) ou torcedor.

Esse ciclo que se inicia na socialização primária das crianças, carregado de emoção e simbolismo e que as acompanha pela vida adulta é reforçado pela exposição intensa do esporte na mídia, que comumente destaca as histórias de sucesso e de superação de atletas e/ou equipes. Resultante dessa correlação entre esporte, socialização e mídia (televisão, jornais, revistas, rádio, internet etc.) são a glamorização e o magnetismo exercido pelo esporte, aludindo a ideia de um sucesso profissional consequente à prática esportiva, que viria com certa naturalidade, pois ao “nascermos” no Brasil, “todos seremos” jogadores de futebol.

Como salientado, não é necessário fazer muito esforço para perceber que, para se iniciar no futebol, não há obrigatoriedade de aquisição de materiais específicos; um papel amassado ou, até mesmo meias enroladas e costuradas servem para alegrar a brincadeira mais praticada pela garotada. No decorrer do tempo, o simples divertimento vai se transformando em algo mais organizado, com a formação de equipes, aquisição de uniformes, bolas oficiais, entre outros equipamentos que são necessários para a prática do futebol. Na rua, no terreno da esquina – que hoje, infelizmente, estão escassos -, nas escolinhas de futebol, colégios e clubes, a brincadeira vai se tornando cada vez mais importante e complexa. Entretanto, há dificuldade em perceber que nesta simples brincadeira pode haver ilusões. Quais valores são passados para a criança? Quais valores se enraízam nela?

Muito importante: na trajetória rumo ao profissionalismo, muitos atletas contam com incentivadores, entre eles, os pais e familiares, os amigos, os professores, suas próprias habilidades, e a informação, por vezes, distorcida, passada pela mídia, em que é mostrado o lado vitorioso do futebol, evidenciando a reduzida parcela dos vencedores, quando, de fato, o futebol profissional é o sonho de muitos, mas a realidade para poucos, tendo o indivíduo que passar por diversos obstáculos para chegar a brilhar dentro das “quatro linhas” e aparecer no noticiário e nas manchetes esportivas. Relembra-se que numa sociedade dominada pela produção e consumo de imagens, nenhuma parte da vida pode continuar imune à invasão do espetáculo; nem mesmo o futebol.

Por ora, sustenta-se que, partindo da brincadeira de criança, perpassando pelo momento em que a atividade é arraigada em sua vida com mais entusiasmo, até a busca pelo profissionalismo, o processo de formação da identidade do “boleiro” é contínuo, pois acredita encontrar no futebol a oportunidade de ser reconhecido socialmente. Há ilusão de que sempre é possível. No entanto, para maioria dos “seguidores”, o futebol não tem glamour.

Enfim, esclarece-se que a busca por esta carreira é grande, mas a conquista do espaço neste esporte é muita pequena. Há o êxito, mas há também muita frustração e, diante deste aspecto, pode-se dizer que os que conseguem a consagração e os que caminham à margem, terão em sua identidade “carimbada” a palavra futebol, pois a perspectiva de se tornarem grandes atletas e a busca da ascensão social via futebol, são valores internalizados desde a infância, quando a nomeação do mundo é retransmitida por seus outros significativos, como os familiares, prosseguindo com o reforço feito pela ordem sistêmica, através da mídia, por exemplo, em sua socialização, até o momento de definição ou crise identitária, quando se deparam com a (im)possibilidade real da profissionalização no futebol. Aliás, mesmo sabendo das incertezas, muitos indivíduos querem esta carreira para ele, ou, no futuro, para seu filho.

A necessidade de conquistar espaço, de ser um atleta, de ganhar dinheiro e principalmente de ser alguém reconhecido socialmente, mostra que a identidade do atleta de futebol é caracterizada pelas constantes metamorfoses. Na longa trajetória rumo ao profissionalismo, ou não, as transformações são contingentes às dificuldades encontradas nos caminhos e descaminhos do mundo da bola. Na identidade do indivíduo ficam “traços” do futebol, entretanto, a maioria não poderá “ganhar” a vida neste esporte.

Então, seria o futebol mais um canto da sereia? A ilusão de conquista da plena individualidade e ascensão social, promessa de um sistema meritocrático como o capitalista? Quais seriam as alternativas para aqueles indivíduos que buscariam um recomeço na sociedade, com outras ferramentas, que não sejam suas chuteiras? Tudo isso começa com uma “simples” brincadeira.




Há necessidade de se compreender que o futebol profissional é o sonho de muitos, mas a realidade para poucos, diz Clodoaldo 

 

Universidade do Futebol – No artigo “Considerações sobre a formação e transformação da identidade profissional do atleta de futebol no Brasil”, que você assina com Antonio da Costa Ciampa e Renato Ferreira de Souza, há uma reflexão sobre o que seria um processo de ilusão de conquista da plena individualidade e ascensão social a partir do futebol. Como você vislumbra as alternativas de recomeço na sociedade para aqueles indivíduos que não obtiveram êxito como profissionais da bola?

Clodoaldo Leme – O ritmo de vida dos atletas de futebol é simplesmente muito acelerado. Diante deste fato, não param para refletir e perguntar o porquê de tanta pressão. Poderiam utilizar melhor o tempo que ficam concentrados para tentar compreender como se dão as relações no ambiente do futebol profissional. Aliás, desde a base até o alto nível, um bom orientador poderia colaborar de maneira efetiva com a vida dos indivíduos que passam grande parte do tempo a correr nos treinos e nos jogos, que enfrentam problemas educacionais, entre outros.

Sabe-se que querer humanizar plenamente o futebol profissional é utópico, no entanto, poderiam existir mais momentos para acalmar os ritmos, para reequilibrar os sistemas físicos, neurológicos, sociais, etc., sem ser aqueles comumente utilizados (de forma enganosa) pelos atletas, acima da média ou não, como os pagodes, as bebidas, as mulheres bonitas e os carrões. Os atletas que apenas se utilizam desses recursos como forma de “viver a vida” acabam encontrando sérios problemas em sua vida pós-futebol, pois ao deixar de lado instrumentos importantes para uma vida mais equilibrada, ao se depararem com os riscos, o caminho muitas vezes é sem volta: poucos conseguem ter ferramentas adequadas para arquitetar o futuro.

Vale destacar que os riscos no “mundo da bola” são flutuantes na vida dos indivíduos, ou seja, mudam de acordo com as circunstâncias de vida e têm diferentes repercussões, dependendo do repertório de cada um. Portanto, não é possível fazer inferências do tipo causa-efeito, com um raciocínio linear, quando se trata dos riscos no futebol. É preciso identificar que processos ou mecanismos influenciaram o que liga risco à consequência em um determinado ponto da história do indivíduo. Vale destacar que em algumas entrevistas que realizei, nas histórias de vida que foram transparecidas, a perda do emprego, ou seja, a saída do futebol profissional, colocou os sujeitos em situações de risco, sendo os mais expostos aos riscos os que foram privados de uma educação familiar e escolar mais adequada. Os que não tiveram um processo de socialização mais estruturado se percebem na corda bamba frente aos projetos futuros.

É neste ponto que os craques e aspirantes a craques não devem esquecer (tem que ser lembrados) que o equilíbrio da sua vida biológica, psíquica e social, está intimamente ligado à maneira de lidar com certas valências ou espaços de vida, como a profissão (carreira), a casa (família), os estudos, os investimentos de toda ordem. Cada um terá que, efetivamente, encontrar um justo equilíbrio entre essas valências ou espaços de vida sem deixar que nenhum deles avance excessivamente sobre os outros reduzindo-os, anulando-os e, por conseguinte, desequilibrando-se mais ou menos profunda e irremediavelmente.

Efetivamente, a vida não apenas dos jogadores, mas das pessoas em geral, não pode transformar-se ou fundir-se com a sua carreira, com o seu trabalho, com a sua profissão (agitando-se constantemente), nem com a sua casa (fechando-se), nem consigo próprias (ensimesmando-se, idealizando-se), nem com os outros (divagando inteira e descontroladamente no fluxo e refluxo das relações). O processo dialógico, o processo dialético, são mecanismos que não poderão deixar de funcionar de um modo equilibrado no interior do psiquismo humano e na justeza de sua articulação identitária.

No universo do futebol, é necessário que exista o equilíbrio entre os espaços ou estilos de vida. No entanto, o que se verifica é que os jogadores estão preocupados e absorvidos excessivamente com a profissão, a carreira, o trabalho, fazendo passar o resto para segundo ou terceiro plano ou descurando-o completamente (infelizmente, para muitos não há opção: trabalhe ou trabalhe... apenas para subsistir). Acrescenta-se que o problema é muito grave no futebol, pois além de abrir mão de estudos e cursos profissionalizantes para alcançar o objetivo, os indivíduos na faixa etária dos 30 aos 35 anos de idade (uns com um pouco mais, outros com bem menos), são exclusos do meio. Examinando a situação de seu dia-a-dia, cada um poderá ver qual ou quais configurações reproduzem nos seus estilos de vida. Nos dias atuais, uma reflexão séria sobre estas realidades é indispensável para fazer o diagnóstico dos seus estados de vida e desenvolver as formas de intervenção mais adequadas para repor o equilíbrio.

Muitos dos problemas que os “sem clubes” têm e das dificuldades que afetam o seu equilíbrio e relacionamento intra e interpessoal ligam-se diretamente com as situações elencadas. É por isso, como se tem insistido, que o sistema de educação em geral e o de formação de atletas em específico não pode ser deixado de lado. Eles têm que transformar-se numa instituição “de verdade” e selecionar com mais propriedade os conteúdos das distintas temáticas dos planos de estudos e de formação (há poucos meses, o Barcelona anunciou que o departamento que coordena as equipes inferiores passava a se chamar futebol de formação e não mais futebol de base. “Parece uma mudança boba, mas não é. Queremos formar homens aqui, não só jogadores. São poucos os que conseguirão, realmente, triunfar no futebol”, afirmou Guillermo Amor, diretor das divisões de base do clube. Para isso, o clube paga as despesas nos estudos de todos os atletas, de 7 a 21 anos. Até mesmo a presença de empresários no CT do Barcelona é controlada. “Orientamos as famílias a tratarem diretamente conosco. Pelos menos até os 16 anos, quando se inicia realmente a carreira profissional”, disse o dirigente.).

Para tanto, a qualidade e a atualidade das informações são cruciais. Lembra-se que há um bombardeio constante de informações, não só de níveis muito discutíveis, mas até com frequência, falsas e contraditórias, com o agravante de iludir não apenas os que almejam a carreira de atleta de futebol profissional, mas também outras crianças, adolescentes adultos e idosos que buscam uma vida mais digna.

Estes são alguns dos problemas que são preocupantes e que terão que ser enfrentados com “muita garra e determinação” por todos e, sobretudo, por aqueles que têm responsabilidades na sociedade, em especial no futebol, se querem que ela se transforme para melhor, que seja mais equilibrada, justa e que as pessoas se sintam mais protegidas. É neste sentido que uma formação do atleta como um todo, como Homem, poderá contribuir para que os indivíduos e, consequentemente, o meio futebolístico, seja mais esclarecido, autêntico, tolerante na medida do possível, pois não se pode esquecer que a sociedade capitalista é competitiva e excludente: o futebol não caminha à margem dessa sociedade.

Postula-se que os atletas sendo bem preparados, em todos os seus âmbitos (físico, social, emocional etc.), a possibilidade de existir um adulto mais estruturado, e também a frequência da recolocação profissional, pode ser bem maior.



 
Lionel Messi em meio às crianças: diretor das divisões de base do Barcelona mira formação de homens, e não apenas de atletas no clube catalão

 

Universidade do Futebol – A sua dissertação de mestrado em ciências da religião trata das manifestações de religiosidade no futebol profissional paulista. Poderia explicar um pouco sobre como surgiu essa ideia e o processo de confecção do trabalho?

Clodoaldo Leme – Detectei a lacuna existente nos estudos relacionados ao impacto das crenças e práticas religiosas no futebol e percebi a importância de explorar o tema. No trabalho, procurei investigar as manifestações de religiosidade no futebol profissional paulista. Dentro do universo de pesquisa, escolhi cinco equipes que disputavam a primeira divisão do campeonato estadual (Sport Club Corinthians Paulista, Santos Futebol Clube, Sociedade Esportiva Palmeiras, São Paulo Futebol Clube e Associação Desportiva São Caetano). Os principais motivos da escolha dessas equipes foram: o grande espaço a elas atribuídas pelos meios de comunicação; por serem de “massa” ou “emergentes”; e também por serem o “objeto do desejo” de muitos atletas iniciantes e mesmo de profissionais consagrados do futebol.

De modo a entender a grande presença da religião e da religiosidade percebidas nos gramados brasileiros em tempos recentes – através de manifestações e relatos de atletas e integrantes de comissões técnicas –, busquei trabalhar em duas linhas, uma de caráter teórico-bibliográfico e, a outra, de caráter empírico. O caminho percorrido se iniciou pela colocação, em um contexto de pesquisa, dos aspectos representativos do futebol e suas conexões com a religião/religiosidade ao redor do mundo. O trabalho parte de uma História do futebol (das práticas “proto-futebolísticas” ao esporte moderno) e, a partir dela, à conexão com a realidade brasileira e paulista. Mostro, em seguida, as conexões dentro das equipes do objeto de estudo e, também, como foi constituído o trabalho de campo. Para compreender o porquê das manifestações de religiosidade no futebol, empreguei a teoria da Sociedade de Risco, de Ulrich Beck e, elementos da Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, que são essenciais no construto.

A aproximação das teorias risco/espetáculo em relação à realidade brasileira e, principalmente, ao “esporte das multidões”, em conjunto com a pesquisa de campo (realizada com vinte personagens do futebol), permitem concluir que o risco é um dos grandes motivadores das manifestações de religiosidade no futebol. Ou seja, o espiral risco/espetáculo, fruto do sistema sócio-econômico capitalista, competitivo e excludente, é determinante para a compreensão do trabalho.

Universidade do Futebol – Por que muitos no ambiente do futebol enxergam na religiosidade, em suas crenças e fé, um fator especial, potencializador, para obtenção de vitórias?

Clodoaldo Leme – Tendo em vista a presença significativa de manifestações de religiosidade entre atletas, nos times, entre técnicos de futebol e demais integrantes da comissão técnica – e segundo a opinião de muitos deles, de que a fé potencializa o desempenho esportivo -, uma crença religiosa pode ser um fator decisivo para esses colocarem em um contexto as chamadas “situações de risco” vividas em suas trajetórias, na sua vida dentro do mundo do futebol e na sua vida particular.

Vivemos em um mundo capitalista, e o capitalismo moderno se insere no futuro ao prever lucros e perdas – ou seja, ao “apostar no risco” - continuamente. Neste sentido, dentro do ambiente do futebol – que não é profissionalmente dos mais estáveis -, o atleta, além de ter que enfrentar os riscos do capitalismo, do “mercado futebolístico”, sofre também os riscos do seu meio de atuação.

Assim, não estando bem fisicamente, tecnicamente, taticamente, emocionalmente – fatores que determinam seu rendimento – o risco de ser descartado é grande, pois a competitividade é acentuada. Enfim, as manifestações de religiosidade no futebol são fruto do risco vivido por seus participantes; elas são evidenciadas materialmente por esse esporte ser um “grande espetáculo”.

Universidade do Futebol – Como treinadores e integrantes da comissão técnica interpretam a religiosidade nesse ambiente?

Clodoaldo Leme – A conduta frente ao fenômeno varia, é claro, de indivíduo para indivíduo. Nas entrevistas que realizei visando à construção do trabalho, houve respostas que legitimaram ou não a postura religiosa, mas o principal aspecto verificado foi que, em situações de risco, os procedimentos são os mesmos entre todos: acontecem rituais, apelos, ou qualquer outro “encontro” com o sobrenatural. Enfim, deve-se executar algum rito porque, se não for assim, os “deuses” se “enraivecem”; aplacados, os “deuses” ajudarão o indivíduo num momento de perigo, pois, como sugere Berger e Luckman: “o universo simbólico defende o indivíduo do supremo terror, outorgando uma legitimação fundamental às estruturas protetoras da ordem institucional”. Nesse sentido, os rituais controlam a ansiedade.

Universidade do Futebol – E a mídia especializada em futebol: é possível se traçar uma análise do registro religioso por parte dos profissionais da comunicação?

Clodoaldo Leme – Percebi que ações diferenciadas, incomuns, de atores do meio futebolístico, são utilizadas pela mídia como elemento de aproximação face ao universo religioso – nesse caso, certas atitudes se tornam “pecados”, certas vitórias “milagres” e certos indivíduos, “santos” (o melhor exemplo é o goleiro do Palmeiras no ano de 1999, quando a equipe conquistou a Copa Libertadores da América: “São” Marcos).



 
Marcos agradece, após defender pênalti e ser agraciado pela torcida palmeirense: jogador virou "santo" ao derrubar maior rival do clube

 

Universidade do Futebol – Como você avalia a questão dos chamados “Atletas de Cristo”, movimento nascido no final dos anos 1970, e, em contrapartida, os denominados “Bad Boys”, simbolizados nas figuras de Afonsinho – em uma noção mais libertária e de luta por democracia – e Edmundo?

Clodoaldo Leme – No que diz respeito ao posicionamento religioso, político, ou qualquer outra convicção relacionada ao rendimento dentro de campo, o que realmente vale é o atleta estar preparado para desempenhar (e bem) a sua função. Se suas atitudes (reacionárias ou libertárias) não interferem em seu rendimento, ele não terá maiores problemas, agora se acontecer o inverso... ele será descartado e condenado pela “sociedade”.

Acrescento: não diferente de pessoas que exercem outras funções sociais, o atleta de futebol busca o reconhecimento social e, para isso, na maioria das vezes, submete-se a situações constrangedoras. O ambiente não é propício a um processo de emancipação (há pouca possibilidade de enfrentamento, de quebra de regras), as reflexões são mínimas, o diálogo praticamente não existe – faça o que eu mando (é um ambiente regulatório, as regras são impostas). Assim, a possibilidade de existir um indivíduo autônomo, é muito difícil. As tradições também não podem ser quebradas – algo de mal pode acontecer. Há o lado bom: a necessidade de ter uma interação com o coletivo a fim de alcançar melhores resultados e a necessidade de ter que existir solidariedade, ou então o caminho se tornará mais penoso, entretanto, limitam-se a aceitar as regras porque elas valem no seu ambiente. Qualquer atitude que saia de um padrão convencional pode fazer com que o jogador seja descartado: tem que apanhar e ficar quieto, não pode criticar um árbitro que cometeu um erro grotesco (e como erram!), quando é sacado do time tem que colocar o rabo no meio das pernas e caminhar para o vestiário sem esboçar qualquer expressão (ai se ele se rebela!).

Não é ele que decide pelo seu próprio futuro. Neste percurso, por serem privados de um olhar crítico (apenas são criticados), por terem poucas possibilidades de aprender e desenvolver formas mais sofisticadas e eficazes de enfrentar dilemas morais ou conflitos sociais, eles se tornam prezas fáceis para as amarras da vida.

Pondero: a atitude libertária (de enfrentamento) pode colaborar mais com a configuração de um ambiente futebolístico digno para seus praticantes do que as atitudes religiosas (na maioria das vezes de aceitação). O assunto é polêmico e precisa ser mais debatido, explorado.

Universidade do Futebol – O atleta Dentinho, do Corinthians, já expressou publicamente ser de uma família budista, e como essa filosofia de vida o auxilia no desempenho do esporte de alto rendimento. Em suas pesquisas, você chegou a se deparar com casos excepcionais como este? O futebol brasileiro, de modo particular, é dominado por cristãos e evangélicos?

Clodoaldo Leme – A sociedade brasileira e, consequentemente, o futebol brasileiro, é composto em sua maioria por cristãos (católicos e protestantes). Sobre o budismo, me deparei com alguns atletas que relataram utilizar a meditação como uma maneira de aprender tranquilizar a mente, relaxar o corpo e desenvolver o poder de concentração. Aliás, a meditação, que não é religião e nem um sistema de crença que coloca um indivíduo contra os seus próprios valores religiosos e pessoais, pode ser de grande utilidade para os atletas, seja ele de alto nível ou não.

Universidade do Futebol – Pelé é “Rei”, expressão que já nos remete a uma ideia religiosa. Maradona, para os argentinos, é “Deus”, sendo representado até em uma igreja própria. É possível afirmar que os ídolos do futebol são construídos como seres sagrados, ou imagens sagradas, dotadas de uma série de características que os distinguem dos demais seres humanos?

Clodoaldo Leme – Em primeiro lugar, como diz Frank Usarski, espera-se um uso mais consciente e cuidadoso da noção do sagrado, pois se trata de uma palavra altamente problemática se aplicada como um termo teórico supostamente consensual ou até mesmo auto-explicativo. Porém, não se tem nada contra uma citação da expressão em prol da descrição de uma determinada crença compartilhada por membros de dada comunidade religiosa. Encontram-se, no mundo religioso, “livros sagrados”, sim. No entanto, afirmando-se isso em um contexto acadêmico, essa não deve ser uma confirmação de que tais textos são “realmente” manifestações do numinoso no mundo relativo. Mas, se for usado como uma referência a crentes que acreditam na qualidade sagrada da sua tradição escrita, o recurso à palavra é legitimo.

Sobre essa leitura no ambiente do futebol, o reconhecimento dos ídolos como seres “sagrados”, pode ser analisado tendo como pano de fundo a socialização do indivíduo. É uma questão psicossocial: quanto maior o significado que algum indivíduo (atleta ou não), ou uma instituição (religiosa ou não), tiver para outro indivíduo, tanto maior a possibilidade de existir, podemos dizer, uma “sacralização” desses seres de grande apelo popular, midiático.



 
Deus na Argentina, Maradona até ganhou uma igreja composta por seus seguidores; Clodoaldo sinaliza uso mais consciente e cuidadoso da noção do sagrado

 

Universidade do Futebol – Uma preparação corporal perfeita pode ser derrubada se não for acompanhada por um trabalho de fortalecimento e estabelecimento espiritual. Você acredita que o futebolista, de maneira geral, trabalha bem no sentido de encontrar o autoconhecimento e determinar suas crenças, demonstrando fé e interagindo com essa energia?

Clodoaldo Leme – Não percebo o trabalho espiritual como imprescindível. Em alguns casos ele pode colaborar e em outros, não. Isso varia de indivíduo para indivíduo. Depende da formação do sujeito; de como ele foi se constituindo. A pessoa pode ser boa naquilo que faz sem o estabelecimento de uma relação com o transcendente. O que acontece, e isso é um problema muito sério, é que os atletas, na maioria das vezes, não contam no decorrer do seu processo de formação (não apenas profissional, é claro) com pessoas que estejam preocupadas com a existência de equilíbrio em suas vidas: ele é preparado apenas para jogar futebol e ponto final.

Enquanto esta lógica continuar existindo neste ambiente, a manutenção de atletas alienados, fragilizados e dependentes continuará a ser percebida em grande escala. Aliás, como foi citado no começo da entrevista, poucos atletas vislumbram um projeto de vida emancipatório em busca de autonomia.

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