Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

sábado, setembro 17, 2016

Clássicos e divisão da torcida: de novo

Sempre que se aproxima um clássico de ampla rivalidade, inicia-se o debate sobre a divisão dos ingressos.
A grande justificativa para a torcida única ou a divisão não equânime entre as torcidas é a questão da violência.
É imprescindível uma análise mais profunda nos contextos históricos, políticos e sociais para que se identifique as reais causas da violência.
Entretanto, não se pode, contudo, afastar que as causas da violência provem da própria sociedade.
“as causas da violência no esporte devem ser buscadas na sociedade. E aqui não há como escapar ou negar que a exclusão social é um fator preponderante dentre as múltiplas causas da violência. A pobreza, as péssimas condições de vida, o desemprego, a falta de escola, de moradia, de cultura, de lazer, etc”¹.
A violência relacionada ao esporte deve ser compreendida em um sistema de metabolismo social contemporâneo.
Os episódios de violência veiculados pela mídia, na maioria das vezes, envolvem confrontos diretos entre torcedores rivais, o que acaba por gerar perplexidade e disseminar a sensação de insegurança entre a população e os pacatos frequentadores de jogos em estádios de futebol.
Na tentativa de minorar o lastimável quadro de violência em jogos de futebol, o Poder Público passou a sugerir a realização de jogos com torcida única como forma preventiva diante dos latentes riscos de segurança e ordem pública.
A medida, entretanto, divide opiniões²:
Uma das vozes mais atuantes neste sentido é a do Promotor do Ministério Público de SP, Dr. Paulo Castilho. Para ele trata-se de “uma medida transitória e emergencial para conter esta onda de violência, até conseguirmos estabilizar a situação”.
Também favorável à medida, o ex-ministro do Esporte, Orlando Silva, menciona que “não faz sentido futebol sem público, mas é hora da torcida única como medida emergencial nas decisões”.
Segundo Irinaldo Pacheco, o Nadinho - diretor-geral da Fanáutico, principal torcida do Náutico. “A única torcida visitante que vai ao estádio é a organizada, e sempre tem confusão. Por isso, sou a favor da torcida única”.
Metodologia
Na esteira dos contrários a torcida única, pondera o Cel. Marcos Marinho, ex-comandante da PM de SP que “a sensação de segurança fica maior, e os riscos menores, mas acho que ainda não é o momento”.
Para o diretor da Mancha Alviverde, Rafael Scarlatti, torcida única seria “uma vitória da violência, já que as torcidas terão de pagar por uma ineficiência do Estado”. “Quem quer brigar vai para a 'pista' de todo jeito. A violência em Pernambuco é fora dos estádios, e isso só vai fazer com que as brigas mudem de local. O que é preciso fazer é interditar as vias de acesso aos estádios, em dia de clássicos, e dividi-las entre as torcidas dos dois times”, avalia o Vice-presidente da Torcida Jovem do Sport, Marcelo Domingues.
O Deputado paulista Federal Silvio Torres afirma que “iremos escamotear o problema, deixar de nos atentar para as causas envolvidas e confessar a impotência das autoridades”.
Na opinião do saudoso jurista desportivo, Marcilio Krieger, a medida “é uma forma de segregação que a constituição não permite, além de ser uma declaração da falência do estado para manter a tranquilidade social. Essa é uma briga de gato e rato, mas não será com torcida única que a violência será coibida. Isso tira o direito de um inocente assistir a um jogo, embora ele não tenha agido de forma contrária à lei”.
Vale ressaltar que o fenômeno da violência envolvendo futebol não ocorre apenas no Brasil, mas em vários países, especialmente da América Latina, como é o caso da Argentina, que instituíram jogos com torcida única como medida preventiva a segurança contra as temidas barra bravas.
A medida adotada pela Argentina, assim como no Brasil, também é bastante debatida.
Em matéria datada de 28/08/2013, sobre torcida única, o jornal LANACION em sua coluna “canchallena”, destacou o posicionamento do presidente da AFA – Associação do Futebol Argentino, em que mencionou terem sido decisões pouco inteligentes.³
No Brasil, do ponto de vista jurídico, a adoção de torcida única encontra um de seus fundamentos, o disposto no art. 17 da Lei nº 10.671/2003 conhecida como Estatuto do Torcedor, que prevê dentre outras ações, medidas preventivas de segurança em partidas com excepcional expectativa de público.
Art. 17. É direito do torcedor a implementação de planos de ação referentes à segurança, transporte e contingências que possam ocorrer durante a realização de eventos esportivos. § 2o Planos de ação especiais poderão ser apresentados em relação a eventos esportivos com excepcional expectativa de público.
Mas afinal, considerando que o futebol é um patrimônio cultural brasileiro reconhecido mundialmente, a adoção de torcida única estaria ligada ao despreparo ou incompetência pública?
Em um primeiro momento, poderia se arguir se o artigo citado não fere diretamente disposições constitucionais, pois conforme já se verificou neste estudo, o dever de segurança pública, tanto no âmbito preventivo quanto repressivo, é de competência da  administração pública, ou seja, do Estado.
A grande questão que se coloca é qual o limite da responsabilidade dos atores elencados no referido artigo para que de fato se produzam os efeitos preventivos desejados. A questão é muito discutida tanto pela jurisprudência quanto pela doutrina especializada.
Deve-se atuar de forma repressiva, punitiva e, ainda, preventiva.  Documentos do Conselho da Europa concluíram que a deterioração das instalações dos estádios pode vir a ser um fator gerador de violência envolvendo espectadores de futebol dentro dos estádios, assim como a má organização do futebol e de seu espetáculo.
Tal como ocorreu na proibição do consumo de bebidas alcoólicas,  na ânsia de dar uma reposta à sociedade e apontar soluções para a crescente violência nos estádios de futebol, escolheu-se a rivalidade como vilã.
Assim, deve haver um conjunto coordenado de ações entre entidades privadas e o Poder Público para atacar a violência no futebol, especialmente com a maior qualidade dos produtos de entretenimento esportivo".
Diante de todo exposto conclui-se que resta evidente a urgente necessidade de se encontrar caminhos alternativos que garantam o pleno exercício de direitos fundamentais constante na Carta Magna que se encontra em rota de colisão. Ou seja, é preciso garantir o direito às liberdades individuais e coletivas alinhadas à segurança e ordem pública.
Urge destacar que mediante o quadro de violência que tomou conta do futebol, o Estado, clubes e federações têm se mostrado despreparado e por vezes incompetentes, o que acaba por legitimar, dado os anseios da sociedade, a adoção da medida de torcida única. O que nos dizeres Marcos Lopes, da Tribuna do Norte, “é o atestado de falência da segurança pública de um estado, é o atestado da perda de espaço dos bons, a vitória dos maus, a consolidação da violência e – insisto – a prova definitiva da incompetência do estado em garantir a segurança do bom torcedor”.
A Inglaterra, por exemplo, após a morte de 96 torcedores em Hillsborough, realizou profundo estudo conhecido como “Report Taylor” que apontou as causas da tragédia e, sugeriu uma série de medidas a serem adotadas, como as destacadas por Luiz César Cunha Lima:
Revisão da capacidade de público de todos os estádios; instalação de assentos numerados em todos os setores dos estádios; novas provisões a respeito de primeiros socorros e serviços de emergência em todos os campos de futebol; estabelecimento de grupos locais encarregados de fornecer conselhos sobre a segurança nos estádios; retirada dos alambrados e monitoramento do público na arena desportiva. (LIMA, 2008). ⁴
Por fim, importante destacar a atuação do Poder Público espanhol, no qual as medidas de segurança adotadas pela Comissão Nacional contra a Violência nos Espetáculos Esportivos fizeram com que o corpo de segurança do Estado tivesse plena fiscalização e controle dos espectadores dentro dos estádios e em suas imediações, por meio de câmeras de vídeo e um trabalho sincronizado entre os diferentes corpos de segurança que trabalham durante um evento futebolístico.

[1] CHINAGLIA, A. “A violência nos estádios de futebol: sua origem prevenção e repressão”. In: SÃO PAULO (Estado). A violência no esporte. Secretaria de Estado da Justiça e Defesa da Cidadania, São Paulo.
[2] UOL ESPORTE. Disponível em http://esporte.uol.com.br/futebol/violencia-no-futebol/contra.jhtm#. Acesso em 26 de dezembro de 2014.
[3] LANACION. Disponível em: <http://canchallena.lanacion.com.ar/1614659-vuelven-los-visitantes-al-futbol-pero-solo-plateistas&gt;. Acesso em 26 de dezembro de 2014.
[4] - LIMA, Luiz César Cunha. O relatório Taylor. Brasília-DF: Clubjus, 10 nov. 2007. Disponível em: <http://www.clubjus.com.br/?artigos&ver=2.11535&gt;. Acesso em: 27 set. 2008.

segunda-feira, setembro 12, 2016

Federação Pernambucana de Futebol apresenta novo Sistema Integrado de Gestão

EVANDRO CARVALHO, PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO PERNAMBUCANA DE FUTEBOL (TERCEIRO DA ESQUERDA PARA A DIREITA) / Créditos: Divulgação FPF


O presidente da Federação Pernambucana de Futebol (FPF), Evandro Carvalho, apresentou, em coletiva de imprensa realizada nesta sexta-feira (09), o novo Sistema Integrado de Gestão Empresarial interligado à Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Estiveram presentes no evento, o presidente da Associação dos Cronistas Desportivos de Pernambuco (ACDP), Iranildo Silva, a vice-presidente de administração e finanças Maria Dorgivânia, o presidente do Conselho Regional de Contabilidade de Pernambuco, José Campos, o auditor do Tribunal Desportiva de Pernambuco (TJD-PE), Felipe Rêgo Barros, e o representante da TOTVs em Pernambuco, Salomão Ribeiro.
A implantação do sistema vem somar esforços para que a entidade continue trabalhando de forma transparente e tenha todo o controle possível do departamento financeiro, além de todo o controle do patrimônio. A FPF hoje é a primeira e única Federação que está online com os servidores da CBF, mostrando transparência e a troca de informações que a Federação Pernambucana abre para o mercado junto a CBF e abre também espaço para as outras federações do país.
O presidente Evandro Carvalho falou sobre o sistema. “O motivo dessa apresentação é prestar contas para todos os torcedores pernambucanos, além de mostrar que nós somos a primeira Federação do Brasil a implantar e operacionalizar o sistema TOTVs a nível nacional. O que, de fato, é muito importante para nós porque mostra o crescimento do futebol pernambucano para todo o país.”
“Nós fizemos essa implantação na CBF em 2013, e o sistema vem rodando desde essa data. Esse sistema tem uma consistência e uma marca consolidada no mercado, além de ter um retorno através de relatórios gerenciais que facilitam na tomada de decisões. Mediante o sucesso que foi obtido com a implantação na CBF, nós apresentamos essa proposta na Federação Pernambucana e eles entenderam qual era o sentido da implantação e resolveram agregar valores”, falou o representante da TOTVs em Pernambuco, Salomão Ribeiro.
Após a coletiva, Evandro Carvalho levou os jornalistas para conhecerem o novo sistema de informatização do TJD-PE. O Tribunal ganhou novos computadores que facilitarão o trabalho dos auditores e advogados nos processos gerados pelo órgão. 
.
(Fonte: CBF)

quarta-feira, setembro 07, 2016

Brasil 2 x 1 Colômbia - o poder da ideia

Tite pediu equilíbrio após suas duas vitórias na Seleção. Equilíbrio para a imprensa e torcedores, justo os setores com maior dificuldade de manter as chuteiras no chão. O Brasil não era o pior do mundo quando perdeu para o Peru e não virou o melhor do mundo agora. Enxergar o meio-termo para evitar euforias e dramalhões - o famoso EMPOLGOU - é fundamental num país que gosta de extremismos emocionais que prejudicam uma visão crítica das coisas.

Mantendo os pézinhos no chão, a evolução é nítida. Nem Tite imaginava que a Seleção iria responder tão bem às suas ideias em tão pouco tempo. Discurso calmo, confiança e serenidade. Depois, horas e horas de estudos e jogos in loco para ver qual função cada jogadores realiza em seu clube. Por fim, trazer um pouco disso dentro da ideia já estabelecida de 4-1-4-1 que Tite tem como base.

Veja bem: estamos falando de ideias. Se essa Seleção é muito diferente da de Dunga ou de Felipão, é pelo poder que a conceito tem no futebol. O conceito de como se deve atacar, como se deve defender, nunca esquecendo que futebol é um esporte que vai do coletivo para as ações individuais.

Basta ver aqui o tal do “jogo apoiado” que o Galvão falou tanto. Quem está perto do jogador com a bola precisa aproximar para oferecer linhas de passe, melhor ainda se for em espaços vazios do campo, onde quem receber vai chamar a atenção de um marcador e abrir espaços lá na frente. Esse é o conceito. Treinado, ele passa a ser repetido até começarem a “jogar sem pensar”. Se deu certo uma vez, a confiança vai lá em cima, os jogadores acreditam e passam a confiar e tentar cada vez mais.

E nós que pensávamos que essa geração era fraca e mimada…pobre visão conservadora de futebol, ainda colocando em caixinhas pré-determinadas o que acontece no jogo e esquecendo de todo o resto. Vamos para uma dessas caixinhas, o camisa 10. Com vocês, Renato Augusto ensina como armar o jogo de trás, construindo as jogadas para que os mais velozes e driblares consigam acelerar o jogo e desorganizar a defesa rival, contando novamente com a aproximação. Não existe camisa 10 que resolva sozinho porque não existe futebol jogado individualmente. Veja a imagem. Não fica mais fácil para o Neymar acertar um passe com tanta gente oferecendo apoio para ele do que antes, longe de todos?O Brasil finalmente é uma equipe que tem conceitos. Se eles vão ganhar a Copa do Mundo de 2018, é outra história. Se eles vão colocar o Brasil em outro patamar, não sabemos. Mas com ideias do que fazer, o talento aparece. Talento também precisa de tática. 
.

domingo, agosto 28, 2016

Instalações olímpicas custam R$ 59 milhões por ano

Parque Olímpico da Barra ficará a cargo da prefeitura e o Parque de Deodoro, do governo federal
Manter funcionando as instalações do Parque Olímpico da Barra e do Parque de Deodoro usadas nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio custará R$ 59 milhões por ano aos cofres públicos. Essa é a previsão calculada pela prefeitura do Rio e pelos ministérios do Esporte e da Defesa, responsáveis pela administração dos locais.
A maior parte desses gastos – R$ 46 milhões por ano – será bancada pelo Ministério do Esporte e pelas Forças Armadas, que cuidarão da manutenção dos equipamentos esportivos de Deodoro. Já a prefeitura do Rio terá de arcar com R$ 13 milhões por ano para fazer a gestão e operação do Parque Olímpico da Barra em parceria com a iniciativa.   
Transformação das arenas olímpicas 
Para construir os equipamentos usados nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, o Governo Federal e a Prefeitura gastaram juntos R$ 2,8 bilhões. A União bancou R$ 2,09 bilhões e a prefeitura R$ 732 milhões. A iniciativa privada gastou R$ 4,2 bilhões para levantar as Arenas Carioca 1, 2 e 3, o Centro de Imprensa, o hotel de mídia, a Vila Olímpica e o campo de golfe.


A partir de 2017, em Deodoro, os estádios de hóquei sobre grama, tiro esportivo, rúgbi, pentatlo moderno e hipismo e a Arena da Juventude serão usados em conjunto com as confederações para o esporte de alto rendimento e treinamento de equipes do Exército. O projeto de legado também prevê como uso secundário desses espaços o aluguel para entidades esportivas. As instalações serão integradas através da Rede Nacional de Treinamento, criada pelo Ministério do Esporte.


O Parque Olímpico da Barra possui uma “arquitetura nômade”, que permite adaptações às estruturas do local. A Arena Carioca 1, palco dos os jogos de basquete na Olimpíada, por exemplo, será transformada em um centro de treinamento do boxe e tae-kwon-do e também sofrerá mudanças para poder receber shows e eventos. A ideia é transformar o local em uma arena multifuncional. 


Já a Arena Carioca 2 será exclusiva para treinamento. Dez modalidades devem passar a usar o local a partir do ano que vem. A Arena Carioca 3 passará a ser uma escola com capacidade para até mil alunos. A meta do prefeito Eduardo Paes é terminar as obras de adaptação ainda este para fazer a inauguração antes do fim do seu mandato.


A Arena do Futuro, onde foram disputadas as partidas de handebol nos Jogos Olímpicos, será desmontada. O material da arena será utilizado para construir quatro escolas municipais três na região da Barra e Jacarepaguá, zona oeste do Rio, e uma em São Cristóvão, zona norte. Cada escola terá capacidade para até 500 alunos.


Multiuso. Como as piscinas são desmontáveis, o Estádio Aquático Olímpico também será desfeito para a construção de dois centros de treinamento. A princípio, esses novos espaços ficariam no Parque Madureira, na zona norte, e em Campo Grande, na zona oeste.Mas, outras cidades demonstraram interesse em contar com as piscinas e, como a obra foi bancada pelo Governo Federal, o Rio pode ficar com apenas uma delas. Palmas, capital do Tocantins, poderá ficar com um dos equipamentos.


O Velódromo e o Centro de Tênis se tornarão centros de treinamento para atletas. Para o velódromo, onde foram quebrados 26 recordes mundiais e olímpicos durante os Jogos, os dirigentes buscam montar plano para manter o local ativo com eventos internacionais e base de treinamento de ciclistas da América do Sul, que não precisariam mais viajar até a Europa, onde hoje estão as melhores pistas do mundo. 
.

sábado, agosto 20, 2016

A necessidade de resiliência do futebol brasileiro

Ser resiliente não significa perder sua essência, suas raízes, mas entender como é a melhor forma de otimizar suas características no cenário atual

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças. ”
Leon C. Megginson
Olá!
Em minha primeira coluna “Crise Técnica do Futebol Brasileiro” busquei instigar os leitores a refletirem sobre o atual momento do nosso futebol, aproveitando a recorrente ideia de que “não possuímos mais tão bons jogadores como antigamente”, presente na maioria das discussões sobre o futebol brasileiro dos dias de hoje. A participação dos leitores tanto no site da Universidade do Futebol, como em sua página no Facebook, foi muito bacana, e a maioria dos comentários levam à conclusão de que nosso futebol necessita de mudanças em toda a sua estrutura.
Nestes tempos em que os Jogos Olímpicos têm dominado todas as mídias, me deparei com um vídeo muito interessante. Este apresentava a diferença entre as competições de ginástica da década de 1950 para a Olímpiada do Rio de Janeiro 2016.
Segue o vídeo:  Ginástica antes e agora  
A diferença entre a ginástica praticada há mais de 60 anos para a atual é gigante! Ao longo dos anos a modalidade foi ganhando mais dinâmica, novos movimentos, novos métodos de treino, etc. Tudo conduziu para a modalidade se tornar o que é hoje, e a tendência é que ela continue se modificando…
Motivado por esse vídeo, decidi fazer o mesmo com o futebol, porém em um espaço de tempo de 20 anos. Para isso, resolvi assistir às finais das Copas de 1970, de 1990 e de 2010 para buscar identificar as mudanças mais visíveis na modalidade.
Seguem os vídeos:
1970            1990           2010    

Ficam visíveis algumas diferenças no modo de jogo em cada um deles.


Além destes aspectos, destaco também:
  • Em 1970 são raras as marcações de impedimento, mais comuns em 1990 e 2010.
  • O contato físico entre os jogadores aumenta bastante em 1990 e 2010.
  • Os jogadores de defesa utilizam-se bastante da vantagem de poder recuar a bola, com os pés, para o goleiro pegar com as mãos em 1970 e 1990.
  • A distância entre as linhas das equipes, tanto para atacar quanto para defender, é muito grande em 1970, menor em 1990 e diminui muito em 2010. Os jogadores passam a estar mais próximos e as equipes mais compactas.
  • O jogo de hoje exige maior versatilidade dos jogadores.
  • As situações de 1×1 são menos constantes em 2010 do que em 1990 e 1970.
Uma análise mais profunda e detalhada poderia identificar outras inúmeras diferenças. Destaco estas por serem de mais simples visualização a partir dos vídeos e ficarem bem claras a qualquer um. Um dado interessante que se pode verificar em estudos científicos e na base de dados do site da FIFA, reforçando a crescente dinâmica do jogo, é o aumento da distância média percorrida pelos atletas e pelas equipes, o tempo efetivo de jogo (bola rolando) e a quantidade de passes trocados. 
A intenção aqui não é julgar valor, não é dizer que o jogo de hoje ou de ontem é melhor, mas sim entender que o jogo mudou e continua mudando, este é o fato que não se pode negar. Sendo assim, estando o jogo em constante mutação, aqueles que não souberem acompanhar e se adaptar a estas mudanças, terão grandes dificuldades em se manter competitivos, aí entra a necessidade de resiliência do futebol brasileiro que mencionei no título desta coluna. 
Ser resiliente não significa perder sua essência, suas raízes, mas entender como é a melhor forma de otimizar suas características no cenário atual. Acredito que nosso futebol tem sido pouco resistente à muitas mudanças que ocorreram no futebol, principalmente no que tange a métodos de treinamento, capacitação profissional e gestão esportiva. O Brasil não acompanhou com a mesma velocidade estas mudanças no jogo, mas felizmente ainda é tempo, ainda possuímos matéria prima suficiente para sermos extremamente competitivos e vitoriosos e, como alguns leitores comentaram, não é simplesmente copiando o que se faz lá fora, mas entendendo e adaptando as nossas demandas, as nossas necessidades e capacidades. Isso é o que nossos adversários fizeram e continuam fazendo. O Brasil não pode ficar estagnado na ideia de que vivemos uma “crise técnica”, todo brasileiro aprecia um jogo plástico, com refino técnico, e esse jogo é possível de ser praticado! 
Se desejamos continuar a ostentar a alcunha de “País do Futebol”, precisamos acompanhar e nos adaptar às mudanças do esporte e, para isso, não é necessário perdermos nossa essência, a qual esteve ao longo dos anos e ainda continua presente desde a Champions League até o famoso dez minutos ou dois gols. 

quinta-feira, agosto 18, 2016

Coaching Esportivo - O treinamento mental aplicado ao futebol


O futebol é um dos esportes mais popular do mundo e, com o desenvolvimento e os investimentos financeiros que estão caracterizando o movimento em terra chinesa, a tendência é de se consolidar cada dia mais como o esporte mais amado do mundo. Isto aumentará os interesses econômicos e teremos cada dia mais treinadores preparados e profissionais que trabalharão no ambiente do futebol. 

Se hoje a prioridade é atribuída pela preparação técnica e tática, no próximo futuro será fundamental cuidar também da preparação mental do atleta que tem o desejo de entrar na lista dos melhores 30 jogadores do mundo.

O Mental Coach, profissional que hoje na verdade é pouco considerada e bastante desvalorizado, será fundamental para ajudar a evolução profissional dos atletas. 

Apesar de ser muito comum encontrar Mental Coaches que trabalham com qualquer atleta, independente do esporte que praticam, para o ajudar a vencer, a tendência do próximo futuro será a especialização, isso é se dedicar a treinar mentalmente atletas de um esporte porque cada esporte tem as próprias caraterísticas e, por isso os atletas precisam de uma preparação mental diferente e especifica. 

Um jogador de futebol e um nadador não têm quase nada em comum e, portanto, precisam ser treinados de forma diferente.

Para satisfazer completamente as exigências dos atletas o Mental Coach precisa ser adequadamente preparado para enfrentar esse desafio de alto nível e ajudar o esportista a manter uma performance excelente ao longo do tempo.

O Coach que deseja trabalhar no mundo do futebol precisa saber que um jogador, dependendo da posição que ocupa no “onze” precisa de um treinamento detalhado e especifico e também de uma preparação “básica” comum a todo futebolista. 

O futebol é um esporte de equipe onde resistência atlética, velocidade, técnica, capacidade tática e jogo de equipe se juntam no espaço de 95 minutos. O jogo é a cada ano mais rápido e por isso o jogador precisa pensar e agir rapidamente.
Sendo um esporte de equipe a vitória do time depende de muitos fatores, alguns incontroláveis, mas também neste caso, muitas vezes, o placar final depende da forma que o atleta soube treinar (tecnicamente, taticamente e mentalmente) diariamente durante a semana. 
Atualmente durante o jogo são utilizados geralmente 14 (11+3) jogadores que ocupam posições diferentes no terreno de jogo e, portanto, existem caraterísticas e comportamentos diferentes que o Mental Coach precisa fortalecer garantindo para cada um deles o treinamento mental mais eficaz e produtivo para que cada atleta possa ter o melhor desempenho e mantê-lo ao longo de toda a competição. 

Acontece frequentemente de ver jogadores e times com um rendimento muito inconstante durante o campeonato, ou mesmo dentro do jogo e isto é explicável com uma palavra: estresse. Hoje em dia a incapacidade de baixar os níveis de stress depois do jogo e produzir a adrenalina necessária antes da performance é a principal causa da queda vertical de prestação de atletas e times de futebol.



Geralmente cada jogador precisa:

1) Manter elevada a concentração durante os 95 minutos de jogo.

2) Ser mentalmente “presente” (poder do agora) para ter a lucidez mental necessária, saber o que fazer e como fazê-lo.

3) Ter a consciência de possuir capacidades técnicas e táticas suficientes para lhe garantir o melhor desempenho possível.

4) Saber gerenciar o relacionamento com os companheiros de time, inclusive aqueles que jogam pouco.

5) Saber gerenciar o relacionamento com os adversários sem cair nas provocações e perder o foco, sendo isso um grande perigo que pode prejudicar um excelente desempenho.

6) Saber gerenciar o relacionamento com o juiz que no futebol tem um papel tão importante que pode, com suas decisões, influenciar a lucidez e a concentração do jogador. 

Se estas caraterísticas precisam ser treinadas com todos os jogadores existem áreas mais especificas que o Mental Coach deve “trabalhar” com cada atleta dependendo da posição que ele ocupa no terreno de jogo.

Por exemplo um goleiro necessita de: 

- Saber gerenciar as emoções e a tensão do jogo porque, ao contrário dos jogadores de movimento, não tem a possibilidade de descarregar fisicamente a tensão acumulada durante o jogo.

- Ter um elevado nível de concentração porque muitas vezes precisa estar preparado para fazer 1 / 2 defesas fundamentais a cada jogo.

- Estar sempre presente (poder do agora) evitando todas as possíveis distrações e mantendo a lucidez para saber “ler a ação” antes da mesma acontecer.

- Ter plena consciência de suas capacidades para aproveitar 100% todas as qualidades técnicas e atléticas.

- Desenvolver capacidades de liderança para poder guiar os próprios zagueiros e, de certo modo, contribuir a organizar a defesa do time. 

- Ter plena confiança em si próprio para transmitir confiança e segurança a todos os companheiros do time.

Os zagueiros por sua vez precisam:

- Desenvolver uma grande confiança em relação a suas capacidades táticas e físicas.

- Manter um elevadíssimo nível de atenção durante 95 minutos de jogo.

- Possuir a capacidade de se adaptar rapidamente aos movimentos dos adversários para ter segurança, decisão e prontidão em todas as ações defensivas. 

- Precisam controlar as emoções para passar segurança aos companheiros e garantir uma excelente saída de bola.

Desde sempre se diz que os jogos se ganham no meio campo, portanto quem joga nesta posição deve desenvolver:
- Uma presença mental extremamente ativa para tomar decisões de jogo rápidas e eficazes.

- A capacidade de gerenciar os espaços para se mover com proveito em todas as direções otimizando os esforços, “fazendo correr a bola” e “dirigindo o time”.

- Liderança acentuada.

- Lucidez mental e intensidade que garantam intervenções eficazes, rápidas e dentro do regulamento do jogo.

- Capacidade mental de saber quando atacar, defender e impostar o jogo (calibrando os passes).

- Capacidade de gerenciar as faltas (feitas e recebidas).

- Capacidade de conversar com o juiz de forma construtiva.

Muitas vezes é fundamental para ganhar o jogo a prestação do atacante que, algumas vezes, pode permanecer muitos minutos sem nem tocar a bola e por isso precisa desenvolver capacidades especificas que o tornem infalível na hora de aproveitar a única oportunidade de marcar um gol.

Um atacante precisa ter:

- Força mental para permanecer concentrado durante um jogo onde pode receber somente uma bola útil. 

- Capacidade de controlar o instinto egoísta para poder fazer em cada jogada a escolha melhor para o time.

- Intuição aguçada perto do gol para aproveitar as fraquezas do adversário. 

- Plena consciência do próprio potencial para aproveitar todas suas qualidades em qualquer momento do jogo. 

- Capacidade de gerenciar as faltas recebidas mantendo alta a concentração e o foco no objetivo principal.

O Mental Coach deve mostrar aos jogadores quais são os desafios dos companheiros dentro do campo porque desta forma o time conseguirá jogar com uma “única mente coletiva” que levará cada um dos protagonistas dentro do campo a utilizar sempre o máximo potencial.

Quando o jogador de futebol alcança o equilíbrio técnico, tático e mental as prestações irão melhorar constantemente e conseguirá a controlar um dos maiores inimigos que um jogador profissional precisa enfrentar: a tensão nervosa pré e pós jogo. 

É fundamental lembrar que antes de ser um grande atleta, o jogador (ou jogadora) de futebol deve ser um homem (ou mulher) consciente das suas capacidades, deve conhecer quais são seus valores que determinam todas suas escolhas, dever saber qual é sua missão e ter sempre claro quais são seus objetivos a curto, médio e longo prazo.

Como em qualquer atividade da vida quem possui um alto nível de autoconhecimento, é consciente do próprio valor e sabe onde quer chegar, tem grandes possibilidades de alcançar o sucesso que deseja e merece.

P.S. Se achar que esta postagem possa ser útil para seus amigos, utilize os botões aqui em baixo para a compartilhar nas redes sociais. O apreciaria muito, obrigado.

®© Diego Trambaioli
Foto: Google Search