ANGELA LACERDA, ESPECIAL PARA O ESTADO - O ESTADO DE S. PAULO
09 Fevereiro 2015 | 14h 26
Mulheres trabalham em jogo na Arena Pernambuco diante do Náutico em iniciativa organizada para tentar diminuir a violência
Vestindo os coletes laranja que identificam os seguranças, 30 mães de torcedores ajudaram a garantir a paz no estádio Arena Pernambuco, no município metropolitano de São Lourenço da Mata, neste domingo, durante clássico do campeonato estadual entre Sport e Náutico.
A iniciativa inédita, do Sport, em parceria com uma agência de publicidade, surtiu efeito e deverá ser repetida em outros jogos em que o rubro-negro tenha mando de campo. "Ainda há muita violência nos estádios, com brigas entre organizadas e vandalismo e esta ação visa a provocar uma reflexão", afirmou o executivo de marketing do Sport, Cid Vasconcelos, ao frisar que os seguranças não foram substituídos pelas mães. A função delas é a de reprimir atos violentos dos filhos diante da sua presença, impondo respeito.
"Se as mães estiverem sempre presentes, não vai ter violência", afirmou Johnatans Santos, 22 anos, integrante de organizada, que ficou surpreso e feliz ao se deparar com a mãe Cristyane. "Tem coisa que torcedor não faz na frente da mãe; brigas em estádios é uma delas", concordou Vasconcelos, confiante que a atitude realmente irá ajudar a levar paz aos estádios.
O time do Sport adentrou o campo com a faixa "Hoje quem faz a segurança são as mães dos torcedores. Respeite", enquanto no telão era apresentado um clipe com elas pedindo paz.
A ideia foi desenvolvida e realizada em parceria com a agência Ogilvy Brasil, que também localizou e recrutou as mães. Elas chegaram mais cedo ao estádio, em vans, e assistiram à palestra feita pelo gestor de segurança da Arena Pernambuco, antes do início do jogo, com vitória do Sport.
Satisfeito com a repercussão da medida, Cid Vasconcelos espera que a partir desta primeira experiência, outras mães irão procurar o clube para contribuir com a campanha pela paz no futebol. "Sozinha esta ação não vai resolver o problema da violência, mas é inovadora, inusitada e tem potencial para gerar reflexão e mudança".
Sinopse
"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
CALOUROS DO AR FC
segunda-feira, fevereiro 09, 2015
Sport planeja repetir estratégia de colocar mães como seguranças
domingo, fevereiro 08, 2015
Marcelo Antonelli, mestre em Educação na Saint Francis University
Brasileiro analisa as características do esporte norte-americano e revela caminho para trabalhar láBruno Camarão / Universidade do Futebol
O “soccer”já é uma realidade nos Estados Unidos há algumas temporadas. Principal esporte por lá em número de praticantes no Ensino Médio, o processo para manter os principais estudantes focados nesta modalidade passa por uma “intervenção gringa”.
“Os jogadores estrangeiros, assim como a população recente de imigrantes, que trazem com eles uma forma de paixão diferente pelo esporte, são muito importantes para fortalecer o nível da liga profissional, tanto dentro de campo como nas arquibancadas”, explica Marcelo Antonelli, brasileiro que atua fora do país natal há mais de uma década.
Depois de se formar em Educação Física na Unicamp, jogou profissionalmente por cinco anos futsal na Itália. Bacharel em treinamento esportivo, partiu para a terra do basquete e do futebol americano para fazer um mestrado em Educação na Saint Francis University, na Pennsylvania. Além disso, fez os cursos residenciais da National Soccer Coaches Association of America (NSCAA, a associação americana de treinadores de futebol).
“Enquanto eu cursava Educação Física na universidade e era treinador da equipe de futebol e futsal feminino do Guarani, várias de nossas atletas foram jogar nos Estados Unidos. Isso despertou a minha curiosidade de ir também, fazer um mestrado e experimentar as oportunidades como treinador de futebol”, relembra o brasileiro.
Nesta entrevista concedida à Universidade do Futebol, durante seu Premier Diploma da NSCAA, Antonelli falou sobre as grandes diferenças culturais entre o local onde vive e o local onde nasceu – algo que se reflete no tratamento de todas as ligas esportivas, profissionais ou não.
Segundo ele, quando se fala em esporte nos Estados Unidos, é importante deixar claro que o esporte universitário, apesar de amador por lei (da própria confederação universitária), muitas vezes atrai quase tanta mídia quanto o esporte profissional.
“Muitos americanos possuem raízes muito fortes com as universidades e preferem seguir as equipes universitárias tanto quanto as equipes profissionais”, completa Antonelli, que ainda dá dicas para os brasileiros que queiram ingressar neste mercado.
Universidade do Futebol – Marcelo, fale um pouco sobre sua formação acadêmica e o início de sua trajetória no futebol.Marcelo Antonelli – Cresci jogando futsal e futebol ao mesmo tempo: inicialmente futsal na Associação Atlética Banco do Brasil (AABB) e campo na escola de futebol Chuteira de Ouro, ambas em Campinas (SP). Durante o ensino médio jogava futsal no campeonato paulista pelo Guarani Futebol Clube e pela seleção de Campinas, representando a cidade nos Jogos Regionais e Abertos. Ao mesmo tempo jogava campo pela AABB. Já durante a faculdade eu era o goleiro da seleção de futebol da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e, simultaneamente, era o treinador da seleção de futsal da mesma instituição. Além disso, jogava a liga de futebol de campo amadora de Campinas pelo Bela Vista. Após a universidade, passei cinco anos jogando futsal profissionalmente na Itália. Joguei por três anos no norte do país, um ano próximo a Roma e um ano na Sicília; o que foi, sem dúvida, uma experiência muito importante na minha vida.
Academicamente, fiz processamento de dados no Colégio Técnico de Campinas (COTUCA) e, em seguida, me formei em Educação Física na UNICAMP: bacharel em treinamento esportivo. Nos Estados Unidos (EUA) fiz meu mestrado em Educação na Saint Francis University, na Pennsylvania. Além disso, fiz os cursos residenciais da National Soccer Coaches Association of America (NSCAA, associação americana de treinadores de futebol).
Universidade do Futebol – Como é a formação do treinador de futebol nos Estados Unidos e de onde surgiu o convite para atuar nesta área de gestão técnica?
Marcelo Antonelli – Nos Estados Unidos duas organizações são as principais responsáveis por pela formação dos treinadores: a NSCAA e a U. S. SOCCER (a confederação americana de futebol).
Cada uma dessas duas organizações possui os próprios cursos e certificados. Os certificados da U. S. SOCCER são as licenças oficiais e boa parte da ênfase está nos testes, enquanto a NSCAA possui um caráter mais educacional.
Enquanto eu cursava Educação Física na universidade e era treinador da equipe de futebol e futsal feminino do Guarani, várias de nossas atletas foram jogar nos Estados Unidos. Isso despertou a minha curiosidade de ir também, fazer um mestrado e experimentar as oportunidades como treinador de futebol. Assim, após a universidade, o meu plano era tentar jogar futsal profissionalmente na Europa (eu já tinha cidadania italiana, o que ajudou muito no processo) e seguir a carreira como treinador nos Estados Unidos após o período como jogador. Felizmente os planos têm dado certo e, após meus anos jogando na Europa, estou há sete anos e meio trabalhando como treinador nos Estados Unidos.
Na convenção anual da NSCAA, na Filadélfia, mais de dez mil treinadores estiveram presentes - entre eles, Antonelli
Universidade do Futebol – De que maneira você avalia a evolução da modalidade nos Estados Unidos e que importância têm os treinadores e jogadores estrangeiros nesse processo de profissionalização?
Marcelo Antonelli – O futebol já é bem profissional nos Estados Unidos. Até mesmo, minha opinião pessoal é que a Major League Soccer (MLS) ? a liga profissional americana de futebol ? é bem mais organizada do que o Campeonato Brasileiro. No entanto, o número de equipes profissionais no Brasil é muito maior, assim como também existe uma diferença salarial considerável entre os jogadores de elite dos dois países (devido ao teto salarial estipulado nos Estados Unidos).
O futebol é o principal esporte dos Estados Unidos em número de praticantes até o ensino médio. A partir daí, o nosso futebol perde espaço para os esportes tipicamente “americanos”: american football, basketball, baseball, ice hockey etc.).
Apesar de participarem dos mundiais há muito tempo, a seleção americana de futebol masculina não tem uma história de muito sucesso. Em um país no qual a maioria da população é apaixonada por outros esportes nos quais os Estados Unidos são umas das principais potencias mundiais, fica difícil, durante o final do processo de iniciação, manter os principais atletas no futebol.
Os jogadores estrangeiros, assim como a população recente de imigrantes dos Estados Unidos, que trazem com eles uma forma de paixão diferente pelo esporte, são muito importantes para fortalecer o nível da liga profissional, tanto dentro de campo como nas arquibancadas.
Como a mentalidade fixa ou a de crescimento pode ser o fator decisivo para o sucesso ou fracasso de um jogador?
Universidade do Futebol – É possível se dizer que já há uma "escola estadunidense de futebol", assim como há um modelo de jogo tipicamente inglês, italiano, brasileiro e argentino, por exemplo? Ou acredita que a globalização estabeleceu parâmetros e aproximou esses estilos?
Marcelo Antonelli – Essa pergunta é bem interessante e complexa. Como recebi as perguntas durante meu Premier Diploma da NSCAA, resolvi repassar essa pergunta e a próxima para dois ícones do futebol nos Estados Unidos, que foram meus instrutores durante o curso.
Para responder com a perspectiva do futebol masculino, repassei as perguntas para Schellas Hyndman (mais de 20 anos como treinador universitário e treinador da equipe profissional FC Dallas por cinco anos). Schellas passou ainda um ano trabalhando como treinador no Brasil.
Para responder a pergunta se referindo ao futebol feminino, repassei também essa pergunta (e a próxima) para Nancy Feldman (por 20 anos treinadora da Boston University). Nancy claramente tem um papel de referência muito importante, principalmente, para jovens treinadoras de todo o país que buscam seguir nesta profissão numericamente dominada pelos homens.
Schellas: “Devido à variedade de lugares de onde nossos atletas vêm, nós não temos um estilo claro de jogo americano. Pessoalmente, acredito que encontrar e seguir um estilo próprio seria importante para o futebol nos Estados Unidos. Apesar de não termos um estilo definido, é importante ressaltar que, no início dos anos 70, quando os EUA contrataram Dettmar Cramer (ex-treinador do Bayern de Munique) para ser o treinador da nossa seleção nacional, ele teve grande influência no desenvolvimento do estilo de treinamento no país, incluindo uma grande influência na nossa metodologia de ensino no futebol.”
Nancy: “Os Estados Unidos não têm uma escola de futebol definida. Algumas das razões são o tamanho do país, a forma como o esporte se espalhou e as diferenças culturais de cada estado. Por exemplo, em Massachussets a influência portuguesa foi muito grande; em Nova Jersey a influência maior foi a italiana; no sul da Califórnia a grande influência foi latina; na Philadelphia a influência alemã foi muito grande.
Quando o esporte começou a ser praticado por garotas, muitos pais que não eram imigrantes não tinham nenhum conhecimento do futebol, e usavam sua base de outros esportes (em geral tipicamente americanos) para dar treinos. Isso gerou, desde o início, uma distância grande entre os estilos praticados pelo país.
A diferença só aumentou considerando-se o estilo “free marking society” dos Estados Unidos: o futebol começou a ser visto como uma boa oportunidade de negócios e diferentes comunidades começaram a “vender” o próprio estilo para montar equipes, clubes, e ganhar dinheiro.”
Treinador brasileiro com Schellas Hyndman e Nancy Feldman, durante o Premier - Diploma da NSCAA, na Flórida
Universidade do Futebol – Em sua opinião, qual é o perfil atual do jogador de futebol dos Estados Unidos?
Marcelo Antonelli – Schellas: “O perfil do jogador americano é o do jogador físico. Forte, veloz, de chegada firme na bola. A mentalidade é aquela de nunca desistir, de dedicação, empenho, coragem. Nós queremos adicionar o componente técnico. Temos alguns dos melhores goleiros do mundo. Se tivéssemos que ranquear, nossa melhor área é a física, seguida da psicológica. As partes técnica e tática ainda precisam evoluir para competir contra as melhores seleções do mundo.”
Nancy: “A típica jogadora de ponta americana tem um ótimo físico, é forte, de classe social média ou média alta e joga com muita garra. A seguir, algumas frases que podem definir um pouco da mentalidade da jogadora americana:
Work for what you want (se empenhe para conseguir o que deseja).
Go get it (vá atrás do que você quer).
If you work hard, you will achieve (se você trabalhar duro, você irá conseguir).Universidade do Futebol – Os Estados Unidos têm uma tradição secular de organização desportiva e tratamento profissional de suas ligas. De maneira geral, como é estruturado o futebol nos Estados Unidos? Há uma diferenciação muito grande entre a categoria profissional masculina e feminina?
Marcelo Antonelli – Existe uma diferença cultural muito grande entre os Estados Unidos e o Brasil, que se reflete no tratamento de todas as ligas esportivas, profissionais ou não. Um simples exemplo: nós agendamos os jogos da minha equipe universitária em média dois anos antes da partida, enquanto no Brasil tantas decisões são feitas de última hora.
Quando falamos em esporte nos Estados Unidos, é importante deixar claro que o esporte universitário, apesar de amador por lei (da própria confederação universitária), muitas vezes atrai quase tanta mídia quanto o esporte profissional.
Muitos americanos possuem raízes muito fortes com as universidades e preferem seguir as equipes universitárias tanto quanto as equipes profissionais.
A liga profissional americana de futebol masculina está melhorando a cada ano, aumentando números como a média de público. Segundo o site “Sporting Intelligence” (www.sportingintelligence.com), a liga americana é a sétima melhor do mundo, a frente de países como Holanda, França, Argentina e Portugal.
Um importante fator a ser considerado é que a liga americana se mantém relativamente equilibrada, com o sistema de teto salarial e “draft” (divisão dos jogadores). Por outro lado, esse sistema não atrai muitas das grandes estrelas mundiais, que não poderiam ganhar nos Estados Unidos o que ganham em outras ligas do mundo. As únicas exceções são os limitados números de jogadores que cada equipe tem direito que não necessitam atender ao teto salarial.O futebol feminino também possui atualmente uma liga profissional. Após tentativas fracassadas de criar e manter uma liga profissional com salários altos e jogando em estádios grandes (que têm aluguel muito caro), os organizadores reformularam o campeonato, com cifras muito mais modestas e jogando em estádios menores. A intenção é fazer o campeonato mais viável e procurar dar continuidade a ele durante os anos seguintes.
Treinadores participam de atividade prática durante o Premier - Diploma da NSCAA
Universidade do Futebol – Qual é o papel dos pais na prática esportiva e, particularmente, do futebol nos EUA? Que diferenças existem em relação ao Brasil?
Marcelo Antonelli – Existem mais de mil equipes universitárias de futebol nos Estados Unidos (considerando todas as confederações, divisões e ambos os sexos). Centenas de milhares de americanos e americanas sonham em jogar futebol universitário, seja pelo status, pela paixão pelo esporte ou principalmente pela busca de bolsa de estudos que ajudam a pagar os caros estudos universitários nos Estados Unidos.
Em grande parte, o papel dos pais é o de tentar oferecer ao filho ou filha a oportunidade de se preparar e se expor para o processo de recrutamento. Isso gera um mercado muito grande, que envolve milhares e milhares de clubes de futebol, “camps” e grandes torneios chamados de “showcases”. Sem falar em hotéis, materiais esportivos etc. É um processo semelhante ao que ocorre com outros esportes universitários.
Universidade do Futebol – Como você vê o "espírito de competição" dos jovens norte-americanos? Eles praticam esporte para ganhar ou apenas praticam como um meio de educação, lazer e/ou saúde?
Marcelo Antonelli – Os americanos são extremamente competitivos! E o fato de, desde cedo, terem a mentalidade de competir para conseguir as bolsas de estudos, faz com que às vezes nem se divirtam tanto jogando durante a adolescência. Muitos encaram quase como uma obrigação, um trabalho. Eu diria que, em geral, eles jogam de forma mais dura que no Brasil, no entanto os brasileiros discutem mais. É só olhar, no Brasil, uma pelada na esquina, cedo ou tarde uma discussão deverá começar… Nos Estados Unidos é um pouco mais raro ocorrer. Claro que depende muito do local. Por exemplo, em Miami tem ligas recreativas quase só formadas de estrangeiros e as partidas são “bem quentes”.
Apesar de serem, em geral, muito competitivos, vale mencionar que se sairmos do ambiente competitivo de elite, muitos jovens americanos, por serem mais “mimados” do que brasileiros que cresceram em ambientes “menos protegidos”, não possuem o mesmo grau de motivação. Acredito que o mesmo ocorra atualmente com parte das gerações brasileiras mais novas de classe social média alta.
Universidade do Futebol – E o mercado de trabalho para profissionais do futebol brasileiro que queiram trabalhar nos EUA? Quais são os principais desafios e dificuldades a serem superados?
Marcelo Antonelli – Eu trabalho no esporte universitário. Claro, considerando os números de posições, o esporte universitário tem muito mais oportunidades que o profissional. Os clubes (equivalentes às escolas de futebol no Brasil) oferecem ainda mais oportunidades, devido ao grande número de clubes de futebol existentes nos Estados Unidos.
Cada uma dessas áreas necessita de um profissional de perfil diferente.
Para trabalhar com esporte universitário aqui nos Estados Unidos, o inglês precisa ser muito bom, e a pessoa tem que ter (na grande maioria dos casos) ensino superior e, se possível, um mestrado. Cerca de 20 a 30% do tempo dedicado ao trabalho, é dentro de campo, dando treinos ou dirigindo a equipe durante os jogos. O resto do tempo é trabalho de campo ou escritório, relacionado à equipe.
Provavelmente, a forma mais fácil de se entrar no mercado de trabalho é estudar por aqui. Um caso típico é o de quem vem fazer faculdade e jogar, e depois começa a trabalhar. Outra forma é o meu caso: vim para os Estados Unidos fazer um mestrado como graduate assistant coach (GA), ou seja, uma posição part-time, onde eu ganhava meu mestrado e uma ajuda de custo em troca de auxiliar no treinamento da equipe.
Esta posição como GA, em geral, dura dois anos (a duração do mestrado) e rende à pessoa o visto para trabalhar por um ano na área de estudo. A partir daí, se a pessoa for contratada poderá conseguir o visto de trabalho, que em geral é de três anos e pode ser renovado por outros três. Existem outras formas para conseguir trabalho e outros tipos de visto, mas as que descrevi estão entre as mais comuns (não considerando quem veio para os Estados Unidos ainda jovem com os pais).
Em resumo, os principais desafios são: o inglês, compreender o sistema por aqui, e conseguir e manter os vistos.
Existem muitas oportunidades, mas o mercado também está muito concorrido, com pessoas do mundo inteiro tentando vir trabalhar nos Estados Unidos. Vale lembrar que a NSCAA é a maior associação de treinadores de futebol do mundo, com dezenas de milhares de treinadores atualmente associados.
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Ciência no Futebol e outras coisas mais...
Por: Manuel Sérgio
1. Não quero erguer-me nos bicos dos pés para estabelecer com qualquer outra pessoa um forçado confronto, de todo desnecessário e inútil, mas não me é possível esconder, ao fim de mais de 40 anos de estudo, de investigação e de aprendizagem com muitos “agentes do futebol” e colegas meus universitários, que não falta conhecimento no futebol – falta, frequentemente, a tecnociência que o pode tornar mais eficaz, mais produtivo, mais competitivo, sem macular, ao de leve que seja, o respeito que é devido a um ser humano, para muitos criatura de Deus. Mas... a que ciência me refiro, neste momento? Indubitavelmente, uma ciência hermenêutico-humana, que nos ensina que o mais importante, num jogo de futebol, não é a tática, mas o homem (o jogador) que concretiza a tática. Tenhamos em conta o seguinte: não há saltos, há mulheres e homens que saltam; não há chutos, há mulheres e homens que chutam; não há fintas, há mulheres e homens que fintam. Se não compreender as mulheres e os homens que saltam e chutam e fintam, não compreenderei forçosamente os saltos, os chutos e as fintas. Venho aconselhando alguns treinadores de futebol que de mim se aproximam (e que mais me ensinam do que aprendem) que, antes de cada um dos treinos devem levantar dentro si mesmos esta questão: “Qual é o tipo de homem que eu quero que nasça do treino que vou orientar?”. É que sem homens inteiriços, de antes quebrar que torcer; com a altivez e a inteligência das pessoas livres e a generosidade dos crentes – a tática não resulta. No “desporto-rei”, o homem está antes da tática, mesmo que incansavelmente se diga que “o futebol é um desporto predominantemente tático”. A periodização tática, expressão que tem por si uma vasta galeria de adeptos, resulta da firme convicção que, no futebol, “no princípio, é a tática”. Prefiro a expressão periodização antropológica e tática. É que, para mim, o futebol (como o desporto) não é só uma atividade física, é verdadeiramente uma atividade humana. No futebol (como no desporto) no princípio está o Homem, a tática vem depois. “Mutatis mutandis”, foi o que afirmou ao Nuno Delgado o treinador principal da seleção norte-americana de basquetebol, medalha-de ouro nos últimos Jogos Olímpicos, se bem interpreto o que o diretor do jornal A Bola fez o favor de me informar. Fiquei satisfeito com a “boa nova” - é que defendo isto mesmo, há um bom par de anos. Julgo que o dr. Jorge Araújo, um dos nomes maiores da história do basquetebol português e autor que muito me ensina, nos seus livros, faz suas estas minhas palavras...
2. Éramos três, à hora do almoço das quartas-feiras, no Estádio do Restelo: o Homero Serpa, o Jorge Jesus e eu. O atual treinador do Benfica trabalhava então no Belenenses e com brilho inapagável: finalista da Taça de Portugal e, durante dois anos consecutivos, um quinto lugar, no campeonato. Com o “plantel” que tinha às suas ordens, parecia fazer milagres. Será por acaso que o Garay compara Jesus a Mourinho? (cfr. A Bola, 2013/12/28). Um dia, o Homero que, de quando em vez, olhava, com olhar longo, as águas chãs do Tejo, questionou o “nosso” treinador: “O que vê, quando vê um jogo de futebol?”. O Homero era um homem culto e portanto denunciava, em cada momento, uma busca nunca apaziguada do conhecimento. O Jorge Jesus não esperava a pergunta mas, vivo e sagaz que é, redarguiu prontamente: “Quando vejo um jogo de futebol, tenho a sensação que vejo diferente das outras pessoas”. Ocorreu-me, se bem me lembro, uma conversa que mantivera com o Dr. Sócrates (em Setembro de 1983, frequentava ele o terceiro ano da Faculdade de Medicina da USP e defendia, com vigor, a “democracia corintiana” ). Aí estão as palavras do Magrão: “Ao contrário do que a torcida entende, para mim um jogo de futebol é uma festa, não é aquilo que eles pensam”. E, naquele ano longínquo de 1983, antecipou a convicção de Jorge Jesus: “Para mim, o futebol é outra coisa!”. Já na década de 70, eu aprendi com A. Sedas Nunes que “a ciência representa uma outra maneira de ler o real, diferente da do senso-comum (…). A ciência pressupõe ruptura com as evidências do senso comum” (Questões Preliminares sobre as Ciências Sociais, Cadernos GIS, p. 25). Partindo deste pressuposto, poderei adiantar que um treinador de futebol é um trabalhador do conhecimento, quero eu dizer: um especialista, numa área científica autónoma? Se, como quer a UNESCO, o conhecimento é uma informação que resulta na prática, tendo em conta o desenvolvimento humano, por que não hão-de ser “trabalhadores do conhecimento” os treinadores dos principais clubes de futebol, singulares figuras com insubstituível lugar, no panorama do futebol mundial? Há por aí uns eurocratas que nunca foram sazonados por uma vida desabrida e dura e se julgam, quando chegam a Portugal, no país mais recuadamente provinciano de que a História reza, que só encontram saber nos doutorados por universidades de cultura e língua anglo-saxónicas. Se assim fosse, o Edgar Morin, que só escreve em francês, não seria, como é, um dos autores mais lidos no mundo todo. É verdade que também nem sempre é famoso o contributo dos grandes treinadores, no domínio das belas letras. Mas não é isso o que se lhes pede, nem que tenha nenhum parentesco íntimo com a cultura e a língua inglesas – o que se lhes pede, de facto, é que saibam construir e liderar uma equipa de futebol!
3. Sem citar o José Mourinho, o Carlos Queirós, o António Oliveira, o Manuel Jesualdo Ferreira, o Leinardo Jardim, o Manuel Machado, o Vítor Pereira, o Manuel Fernandes, o Nelo Vingada, o José Peseiro, o Rui Vitória, o Daúto Faquirá, o Jorge Castelo, o Rolão Preto, etc., etc., todos eles com licenciatura universitária (o Jorge Castelo e o José Mourinho são doutores pela UTL) – o Manuel José, o Toni, o Jorge Jesus, o Paulo Bento, o Jaime Pacheco, o Manuel Cajuda, o André Villas-Boas, o Domingos Paciência, o Ulisses Morais, o João de Deus, o Paulo Fonseca, o Marco Silva, o Nuno Espírito Santo e mais alguns (sem licenciatura universitária) são também para mim profissionais de verdadeiro conhecimento científico e, se os principais clubes de futebol, em Portugal, convivessem com as universidades como parceiras na produção de conhecimento, seriam, mais tarde ou mais cedo, inevitavelmente, equiparados à licenciatura em Desporto. Ser o treinador principal de um grande clube de futebol é uma empresa de enorme envergadura. E se, sobre o mais, os jogadores e os restantes elementos da equipa técnica ainda o reconhecem como o mestre incontestado, não sei como não ver nele uma destacada individualidade, na sua profissão. Quando era professor na Universidade Estadual de Campinas, ouvi um dia do Darcy Ribeiro que, no Brasil, só existiam três coisas sérias: a cachaça, o jogo do bicho e o futebol. Que o futebol é também “coisa séria”, no nosso país, creio que ninguém o põe em dúvida, a começar pela FIFA que nos dá um honroso lugar, no ranking dos melhores do mundo – o que significa que esta classificação muito deve ao trabalho competente dos treinadores portugueses. “A seleção de Portugal chegou ao lugar mais alto de sempre da sua história, no ranking FIFA, o terceiro lugar, igualando o feito alcançado, em abril e maio de 2010” informou A Bola de 2012/10/3. Hoje, é o quinto o seu lugar, no ranking. Mas tudo isto só prova que o trabalho do treinador de futebol é predominantemente intelectual. A sua tarefa (se posso aqui empregar as palavras de Althusser) é uma “prática teórica”. E portanto o mais importante, para a sua profissão, não é a força do seu remate, nem a imaginação das suas fintas, nem o insólito dos seus passes (isso é com os jogadores) – mas a liderança que é tanto saber e sabedoria, como capacidade para emocionar e gestão de relações. O líder, no meio dos seus jogadores (ou até no meio da multidão) está sempre com a sua gente. Possui-o não sei que euforia superior a ele próprio, toma-o uma ebriedade espiritual, feita de linguagem incisiva, de orgulho, de suficiência, de convicção - que o tornam irresistível. O treinador deve saber de futebol? Muito! Deve saber ser líder? Muito mais! O que não é fácil! Em 2005, dos 31 jogadores contemplados com o Ballon d`Or, apenas 4 (quatro) exerciam a profissão de treinador de futebol: Ruud Gullit, Lothar Mathaus, Jean-Pierre Papin e Marco van Basten. Repensar a ciência no futebol passa por valorizar as pessoas face à tática. É que a ciência onde o futebol se fundamenta é uma nova ciência hermenêutico-humana. Passo a palavra a Edgar Morin: “Cada ser humano carrega em si a condição humana. Portanto, nunca esquecer as singularidades e que elas existem num tronco comum” (Inteligência da Complexidade, Instituto Piaget, Lisboa, 2009, p. 75).
4. “Nunca esquecer as singularidades” aconselha Edgar Morin. Não há grandes equipas, sem grandes jogadores, como não há grandes orquestras sem grandes intérpretes. O Real Madrid de Di Stéfano, o Santos de Pelé, o Benfica de Eusébio, o Ajax de Cruyff, o Bayern de Beckenbauer e, nos dias de hoje, o Real de Cristiano Ronaldo, o Barcelona do Messi, o Bayern do Ribéry ilustram o que venho de afirmar e que assim resumo: ninguém é ato se, em primeiro lugar, não for potência. Mas o jogador de classe incontestada é também o resultado da sua história de vida. Na VIII Tese sobre Feuerbach, Marx afirma que “a vida social é essencialmente prática”. Ou seja, o jogador nasce, mas aprimora, aperfeiçoa o que é, através do treino, das competições, da solidariedade dos colegas e da sabedoria e liderança do seu treinador. Nenhum treinador sabe fazer um Pelé, um Maradona, um Eusébio, um Cristiano Ronaldo, um Messi, etc., etc. Eles nasceram com as potencialidades do “craque” (potencialidades físicas, intelectuais, espirituais) e o líder, ao construir uma equipa, maximizou-lhes as virtualidades – nada mais! Uma equipa de futebol (como de qualquer outra modalidade desportiva) é um laboratório da complexidade onde se encontram em dialética incessante, imediatamente, os jogadores, a direção do Clube, a equipa técnica e médica e, mediatamente, a Comunicação Social e os sócios. Nos êxitos ou nos inêxitos de uma equipa não está só o treinador, como se vê – está a totalidade de que o treinador é um dos elementos! Cito aqui, a propósito, Didier Drogba, no livro do Prof. Luís Lourenço, Mourinho – a descoberta guiada (Prime Books, 2010): “O Mourinho não me ensinou a jogar futebol. Eu sei jogar futebol. Ele ensinou-me foi a jogar em equipa, o que é algo diferente. E é por isso que onde quer que ele se encontre atinge o sucesso”. Em La Méthode, I (Seuil, Paris) Edgar Morin assinala que a organização é capital, “dado que é através da organização das partes num todo que aparecem as qualidades emergentes e desaparecem as qualidades inibidas”(p. 151). E continua: “O que é importante na emergência é o fato de ser não dedutível das qualidades das partes (…), aparece somente a partir da organização do todo”. Um exemplo: a molécula da água, OH2, tem qualidades que o hidrogénio e o oxigénio, por si sós, não possuem. O Messi tem uma eficiência no Barça que não apresenta na seleção argentina – é que ele é elemento da organização do Barcelona e não o é da seleção do seu país. E aqui podemos relembrar o Ortega Y Gasset: “eu sou eu e a minha circunstância”. Por seu turno, o treinador, ao saber que não faz jogadores, mas ajuda os jogadores a fazerem-se a si mesmos, passa a medir o seu êxito pelo êxito dos seus jogadores. O sucesso do líder avalia-se pelo sucesso dos seus jogadores. E, porque o futebol é uma Atividade Humana e não é só uma Atividade Física, a preparação dos jogadores situa-se ao nível do quantitativo e do qualitativo, deverá preocupar-se com o como e com o porquê.
5. Suscitam reservas, objeções e reticências as minhas ideias sobre a epistemologia do futebol, designadamente em pessoas que pensam, como há cem anos atrás, que só é científico o que é quantitativo e previsível. De facto, a esmagadora maioria dos manuais ditos “científicos” do treino carecem de reflexão antropológica. Que o futebolista (ou o praticante de qualquer outra modalidade) é um ser de sentimentos, emoções e desejos; que o futebol tem mesmo a sua expressividade corpórea – são temas que não interessam a estes “cientistas” do treino. Recordo Wittgenstein, neste passo: os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo. Para estes “cientistas”, portanto, um treinador eficaz domina os aspetos vincadamente técnicos e táticos do futebol e não precisa de mais nada para ser um profissional de prestígio. A totalidade que a equipa é observam-na como um mero somatório de indivíduos, todos semelhantes, com os mesmos interesses e reagindo de modo idêntico diante dos mesmos estímulos. Bem ao contrário, cada um dos jogadores é uma surpresa, porque é uma personalidade singular, uma parcela de humanidade, que não se confundem com as características psicológicas, culturais, morais de qualquer um dos seus colegas de equipa. Consulto o livro de Jorge Araújo, Gerir é Treinar: “Os jogadores não são máquinas programáveis, mas sim seres humanos que pensam, interpretam e se emocionam” Que o mesmo é dizer: é preciso organizar o todo, sem esquecer o micro-universo que é cada um dos jogadores, ou seja, o treino individual, para que eles encontrem espaço a manifestar-se e desenvolver-se. A noção de organização é capital, dado que é através da organização das partes num todo que aparecem as qualidades emergentes e vão desaparecendo as limitações e as deficiências.
6. Num célebre discurso, pronunciado, na Sorbona, em 1946, sobre o homem e a cultura artística, Malraux via, na vontade de consciência e de descoberta, a tradução dos dois maiores valores europeus. Também, hoje, em que a ideia de história se distingue por inesperados ritmos de mudança (cfr., a propósito, de Anthony Giddens The Consequences of Modernity, que eu li em tradução da UNESP, Universidade Estadual Paulista) esse processo e essa vocação de consciência deverão alertar-nos contra uma imagem secundária do ser humano. Na Motricidade Humana, de que o Desporto é um dos subsistemas, a imagem de Homem resiste ao saber massificado, gerador de submissão, de passividade e corrosivo do espírito crítico. Porque no movimento intencional da transcendência (ou superação), o desportista tende a não abrandar no ímpeto de superar-se, de ampliar os seus horizontes de vida, de avivar o que nele brota das zonas mais profundas de si mesmo: o movimento do mais ser! Dobrará o cabo da irreflexão aquele que se sobrepõe à torrente de palavras, de modelos, de imagens que, numa neblina de confusão, ainda fazem do atleta uma “besta esplêndida” e do treinador desportivo um repetidor de ideias feitas e do licenciado em Desporto um simples professor de ginástica. Levemos as questões até ao fim e um sentido para o Desporto que nos tocou viver e digamos sem receio: o atleta é um ser humano que temporaliza a transcendência e o seu treinador o mais sábio companheiro de jornada e o licenciado (ou mestre, ou doutor em Desporto) o que diz ao treinador e ao atleta, como o Sartre da Vérité et Existence que “a verdade está continuamente em perigo” e que é preciso mais trabalho que não deixe de ser também organização, reflexão e estudo, no espaço de uma ética onde eu sou um de nós. Não me canso de falar do José Mourinho. No dia em que lhe foi outorgado o grau de doutor “honoris causa”, ele afirmou publicamente que fundamentava o seu trabalho profissional num paradigma científico. Será por acaso que o José Mourinho é o melhor treinador do mundo? É preciso ciência no futebol. Mas é preciso saber de que ciência se fala. No dia em que, na passada época de futebol, o Vitória de Guimarães venceu a Taça de Portugal, recebi um telefonema de Rui Vitória: “Professor, se só tivesse falado de futebol aos meus jogadores, a Taça não seria nossa”. O Rui Vitória, meu antigo aluno, entendeu as minhas aulas. Aliás, só se entende aquilo que já se sabe.
7. No entanto, só sabe inovar quem antes se inovou, pelo trabalho, pela curiosidade, pela humildade, pelo estudo. É que tudo é história: para o conhecimento científico e para o cientista. E o que ontem foi novidade, hoje parece velho. No departamento de futebol do futuro, organizado em função de uma equipa de especialistas, em trabalho interdisciplinar, o caos é o modo de produção da informação. O líder, o treinador principal decide, mas o que lhe chega é caótico. E onde procura ele o lugar mais próximo da verdade? Na prática! Não sou eu a dizê-lo tão-só: “A prática não significa apenas o momento de aplicação. É sobretudo a razão de ser da teoria, como a teoria (…) é a razão de ser da prática. Teorizar a prática e praticar a teoria são movimentos mutuamente implicados e complementares” (Pedro Demo, Conhecimento Moderno, Vozes, Rio de Janeiro, p. 67). Mas, dentro de um espaço devidamente organizado, já que a autoridade não é, não pode ser argumento científico. As ciências procuram a certeza, com a certeza que nunca serão certas, dado que todas as metodologias, mesmo as mais óbvias, sofrem de inúmeras limitações. No futebol, deve evitar-se também saber só de futebol (saber tudo de nada) ou um erro em que tombam alguns jornalistas e comentadores: especializar-se em generalidades de caráter demasiado impreciso e incerto (saber nada de tudo). Cada vez mais o treinador há-de ter do exercício da sua profissão uma noção essencialmente humanista e com sabedoria e bom senso. Sabedoria, onde a experiência se casa com um estudo constante: e bom senso, onde sabedoria é também equilíbrio, ordem, medida e, se possível, com um tolerante esprit de finesse. Enfim, um departamento de futebol de altos desempenhos deve saber transformar-se numa réplica de um centro científico de excelência, dando às qualidades humanas, à organização, à interdisciplinaridade e à Internet lugar de relevo. Há uma “patologia do saber”, no futebol, que se manifesta numa hiper-especialização sem o adequado paradigma. Quero eu dizer: há treinadores que trabalham como se os seus jogadores fossem seres biológicos tão-só e que não se movimentassem num universo de linguagem, de ideias, de consciência. No ser humano (e portanto no desporto) o bios não existe sem o logos. Tudo o que é cultura tem uma raiz biofísica e de tudo o que é biofísico emerge uma raiz cultural. A grande maioria dos problemas científicos, no futebol, ainda não têm resposta científica. E não só em Portugal...
8. No desporto, como em tudo o mais, sem conhecimento, não há intervenção, nem inovação credíveis. O empresário Jorge Mendes prende sobremaneira a atenção, quando se refere a Cristiano Ronaldo: “Em Inglaterra, ninguém tem dúvidas de que foi o melhor jogador de sempre que passou pela Premier League. Durante seis épocas, levou o Manchester United às costas. Nesse período, transformou-se no jogador que é hoje, fruto de muito trabalho (…). Ele chega aos treinos uma hora antes dos colegas e é o último a sair. Vai para casa e dorme a sesta. Depois, vai para o ginásio e é capaz de lá estar duas horas. Conhece-se a si próprio como ninguém. Sabe do que necessita e o que tem a fazer. É verdadeiramente impressionante”. E Jorge Mendes julga não desvirtuar a realidade, ao rematar: “Ele é o melhor jogador de todos os tempos” (A Bola, 2013/12/28). O futebol não se estuda apenas numa pessoa só, mas em muitas pessoas em interação. E todas elas, com a sua ideologia e cultura e vontade. O Ronaldo é ele e a sua circunstância: os seus colegas, os seus treinadores, os seus dirigentes, a sua família, os seus amigos. São palavras de António Damásio: “A emoção e o sentimento desempenham o papel principal, no comportamento social e, por extensão, no comportamento ético” (Ao Encontro de Espinosa, p. 34). Assim, o perfil genético, neurológico, psicológico, social, desportivo do atleta exige a interdisciplinaridade no departamento de futebol e que sejam, a começar no líder, trabalhadores do conhecimento aqueles que o constituem. Por outro lado, um grupo torna-se impossível, sem um certo grau de fidelidade a pessoas, a princípios e até a postulados da existência. A uma entrevista ao jornal A Bola (ibidem) declarou Cristiano Ronaldo: “A minha força vem sempre de dentro de mim. Da minha maneira de ser e de pensar”. Tem razão o CRT. Mas nele há muito mais coisas que o departamento de futebol não pode desconhecer. Um Cristiano Ronaldo não nasce sozinho, nem na família, nem num clube de futebol. Todos somos desejo e relação, desejo de relação e relação de desejo. Não é só um problema técnico e tecnológico a formação de um jogador e a criação de uma equipa. “Professor, dizia-me, há pouco tempo, o José Peseiro, só agora o entendo, quando nas suas aulas nos dizia: leiam os grandes romancistas, os grandes poetas, para compreenderem melhor o desporto”. O futebol não se resume a desempenhos físicos. Um jogo de futebol, de handebol, de basquetebol são pedaços da vida. A ciência faz parte da vida, mas a vida não é ciência tão-só.
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segunda-feira, fevereiro 02, 2015
Os estádios e arenas são dos povos
“De maneira convicta, somos conscientemente a favor da retirada de parte das cadeiras…”
É uma tarefa desafiadora explicar algo de tamanha complexidade e que merece um generoso espaço em poucas linhas. Contudo, é importante revelar que a retirada das cadeiras dos nossos estádios públicos, não é uma reivindicação que tenha nascido dos dirigentes de clubes. Na verdade, é uma antiga solicitação das Organizadas que ganhou corpo a partir do intercâmbio Brasil/Alemanha, gestado pela Coordenadoria de Juventude de Fortaleza, em parceria com a Agência de Cooperação Internacional de Políticas Públicas do Governo Alemão (GIZ). A ideia do intercâmbio é mostrar que as torcidas organizadas não são só violência como se apregoa.
Por ocasião do I Encontro sobre Cultura de Futebol e Torcidas, realizado em 25 de novembro de 2014, como parte integrante do projeto Nossa Torcida é pela Juventude, com as presenças dos secretários de esporte do município de Fortaleza e do Estado do Ceará, além do assessor da Secretaria do Futebol do Ministério do Esporte, Helvécio Araújo, a solicitação de retirada das cadeiras, tanto do Estádio Presidente Vargas quanto do Castelão, foi recebida pelos secretários da Secel e da Sesporte, que ficaram de avaliar a reivindicação das Organizadas.
Como se pode notar, juntou-se a fome com a vontade comer. O pedido dos torcedores das organizadas despertou nos gestores públicos e privados a oportunidade de sanarem, pelo menos parcialmente, o antigo problema da quebra das cadeiras e do prejuízo dos clubes. Assim, a ideia ganhou força. Restava, como ainda resta, o desafio do convencimento da opinião pública, discussão que vem sendo realizada.
De maneira convicta, somos conscientemente a favor da retirada de parte das cadeiras, e não enxergamos nenhuma razão substancial para que não se dê guarida aos protagonistas de algo que pode voltar a ser outro espetáculo dentro do espetáculo maior que é o jogo. O arcabouço das razões alegadas para o não atendimento do que virou um coro de torcedores organizados e dirigentes, mostra-se fragilíssimo, além de um arrazoado frívolo e preconceituoso. Afinal, as opiniões precisam levar em conta as variáveis de um problema, bem como as implicações da decisão tomada a guisa de solução, seja a favor, seja contra. É importante que seja considerado que nos estádios e arenas multiuso, lugares há em que a estética pode ser privilegiada, mas não se deve impor nem privilegiar nos demais locais desses equipamentos, especialmente quando públicos, nem a priorização da visão estética nem a do elitismo. Desse ponto de vista, vale lembrar que é função desses equipamentos públicos serem funcionais e inclusivos, até porque não lhes são finalidades últimas a contemplação e a ostentação. Essencial é que eles expressem a pluralidade de classes sociais existentes em nossa sociedade, posto que esta é a concepção para os quais foram concebidos.
Outro fator que devemos levar em conta, é que as atuais praças esportivas ou arenas pré Copa, deveriam ter passado por um processo de adequação ou readequação à nossa cultura futebolística, possibilidade teorizada, mas não implementada. E se consentimos que elas temporariamente fossem da Fifa, por que não podemos retomá-las para nós, adequando-as às nossas realidades e idiossincrasias?.
domingo, fevereiro 01, 2015
Equipe cearense do Juventus faz seu début nacional
Por: Benê Lima
O Centro Esportivo Juventus/Faculdade Ateneu, ou simplesmente Juventus/Ateneu,ou ainda Juventus, faz sua estreia em competições nacionais de futebol feminino na próxima quarta-feira (4), dia em que também teremos em Fortaleza o Clássico Rei cearense na Arena Castelão, valendo pela Copa do Nordeste.
O Juventus e a Faculdade Ateneu tem protagonizado uma parceria que tem dado muito certo, tanto pela expertise que a Faculdade transfere para o clube, quanto pelo apoio e todo o suporte necessário para a boa prática da modalidade.
A Faculdade Ateneu com seu Projeto Aluno/Atleta, oferece bolsas de estudos para as jogadoras, subvencionando na sua totalidade o pagamento das mensalidades. Além disso, a entidade de ensino superior ainda cede espaço físico para as diversas atividades esportivas.
O Projeto Aluno/Atleta FATE foi idealizado pelo professor Renezito Junior, atual coordenador do Núcleo de Esporte Fate, que teve seu nascedouro no ano de 2007, contemplando as modalidades esportivas tanto masculinas como femininas.
A Faculdade Ateneu é pentacampeã de futebol feminino universitário e tricampeã de futebol masculino universitário, além de se sagrar no ano de 2014, campeã no handebol feminino nos JUB’s.
No surf a entidade acumula a participação em campeonatos estaduais, nacionais e internacionais com os aluno/atleta Phelipe Mais e Raphaela Bahia.
Preparativos
A equipe de futebol feminino iniciou sua preparação nos primeiros dias de janeiro deste ano, e não vê a hora da estreia na Copa do Brasil da modalidade, que acontecerá na próxima quarta-feira (4), às 16 horas, na Lagoa Redonda, no Estádio Antônio Cruz, de propriedade do Uniclinic.
Com uma base de atletas com alguma experiência e relativo entrosamento, as meninas esperam fazer uma boa campanha na competição. Para tanto, sabem que um resultado positivo frente ao Vitória da Bahia é de suma importância para que possam passar de fase.
(Fonte: Renezito Jr.)