Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
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quinta-feira, fevereiro 19, 2015

“Não há mágica para resolver a violência entre torcedores”, diz especialista

ALEX SABINO / Folha de S. Paulo

Uma das metáforas mais usadas a respeito do futebol é compará-lo a uma guerra. Marco Aurelio Klein, 64, não vê o assunto desta forma. Primeiro porque é especialista em violência no esporte. Mas também por ser um estudioso da 2ª Guerra Mundial.

Autor de documento inspirado no Relatório Taylor, que praticamente erradicou o fenômeno dos hooligans nos estádios ingleses a partir da década de 1990, ele trabalha atualmente na atualização do texto a pedido do ministro George Hilton (Esporte).

"O meu relatório é de 2006. O ministro ficou impressionado. Estou animado que seja posto em prática", disse.

Em entrevista à Folha, ele chegou a uma conclusão de que a violência no futebol nacional não será resolvida de um dia para o outro. "Não tem mágica", constata.

PÓS-COPA DO MUNDO
O Mundial no Brasil trouxe legado importante: os estádios sem alambrados. Mesmo no clássico entre Corinthians e Palmeiras em que aconteceu aquela confusão toda [tumulto entre palmeirenses e a PM] e com a derrota do time da casa, ninguém invadiu o campo. Alambrado não segura ninguém que quer invadir. Eu já vi torcedor pular alambrado que tinha arame farpado. Outra herança importante é o sistema de monitoramento dos estádios. E este deve ser ostensivo. A sala do monitoramento deve ser visível a todos. As pessoas precisam saber que o Big Brother está ali, presente.

SOLUÇÕES E ERROS
Parece que no Brasil, nessa questão da violência no futebol, há muita tentativa e erro. Cada hora existe uma ideia mágica que vai resolver o problema... Isso não existe. Todas as ideias são com boas intenções, mas não vão resolver. Não existe uma solução da noite para o dia. A solução é longa, difícil e custosa.

ESPÍRITO DE GUERRA
Antes do último clássico entre Corinthians e Palmeiras, eu li que a polícia estava preparando uma operação de guerra. Quando vi aquilo, pensei: "acabou". Como operação de guerra? Uma família não vai para um estádio que tem operação de guerra. O vândalo adora. Quando a polícia diz que é operação de guerra, esses vândalos ganham condição de combatentes do Estado Islâmico.

LIÇÕES DO RELATÓRIO TAYLOR
O que inspirou o Relatório Taylor foi [a tragédia de] Hillsborough, em que morreram 96 pessoas na cidade de Sheffield [em 1989]. Não houve briga. Nem tinha torcida organizada. Houve desorganização, despreparo, superlotação. Não existiam protocolos de emergência.
Não esqueço quando tive reunião com os ingleses. Eles disseram que levaram anos para aprender que a questão não era repressão. Era organização. É o grande clássico na final? Depende do histórico. Ponte Preta e Paulista de Jundiaí, por exemplo, é jogo para 4 mil pessoas, mas são torcedores dos mais perigosos da América porque há um histórico de conflito.

PROPOSTAS
É preciso criar protocolos de segurança. Eu sugiro classificar as partidas em três níveis, sendo "A" a de maior risco, "B" a de risco médico e "C" as de pequeno risco. Os ingleses se organizaram criando unidades de polícia para o futebol. A Scotland Yard, que nem arma usa, tem uma unidade de futebol. Não vejo trabalhando na partida o policial que passou a noite anterior atendendo ocorrências, perseguindo ladrões e depois vai para o enfrentamento com um moleque que está disposto a provocá-lo...

CAMPANHA DE PAZ
Não tem o menor fundamento. Não resolve. Só ajuda se vier como parte de um conjunto de ações. No primeiro momento, a resolução dos ingleses foi: nós não precisamos prender o vândalo. Nós precisamos tirá-lo do estádio.
Ele destrói o espetáculo. E eles nunca tiveram torcida organizada, apenas pequenos grupos que envolviam criminalidade, pequenos furtos ou a destruição pelo prazer da destruição. Conseguiram criar uma coisa na legislação que era preciso tirar o cara do estádio. O articulador nem sempre é o sujeito que dá a porrada, que quebra a cadeira. Pode não ser o pensador.

DIÁLOGO
Minha recomendação, como estudioso, é ouvir as pessoas, mesmo que isso implique algum investimento do governo. Não dá é para transformar isso em competição de quem bate mais, se a torcida ou a polícia. O cidadão é que está no meio É preciso combater a pequena violência. O xingamento é origem do conflito. Uma briga sempre começa pela agressão verbal. Os ingleses perceberam que era preciso mudar o comportamento do torcedor. O torcedor comum entra na balada do xingamento. Quando um cara xinga o outro, depois tem quatro, oito, dez fazendo o mesmo. O perdedor do jogo tem uma frustração imensa para descontar em alguém.

Eduardo Knapp/Folhapress

Marco Aurelio Klein, presidente da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem, durante palestra
Marco Aurelio Klein, autor de relatório federal sobre violência de torcidas, durante palestra

PERCEPÇÃO
A luta maior não é física, de repressão. É de percepção. As pessoas precisam voltar a ir ao futebol como um momento de lazer. Um momento de muita emoção, mas de lazer. Se o seu time ganhar, seu momento de lazer foi premiado com muita alegria, mas pode ser que não. Quando você vai ao cinema ver uma comédia, sai muito alegre. Vê uma tragédia, sai impressionado. No Brasil, o futebol é o único evento de lazer em que a pessoa sai de casa com sua pior roupa.
Ninguém se arruma para o futebol, vai o mais desleixado possível porque a percepção que temos é que se trata de uma coisa desleixada. Não tem o menor sentido porque é o espetáculo mais glorioso que temos. Olhe os números da Liga dos Campeões da Europa, da Copa do Mundo, do Campeonato Inglês...

REPRESSÃO
É preciso tomar mais cuidado na organização do caminho do metrô para o estádio. Aquela cena da torcida do Corinthians agredindo dois torcedores do São Paulo porque estavam com a camisa do clube é absurda. Não pode acontecer. Aí é punição.
Os ingleses tomaram cuidado, entenderam qual era o trânsito, proibiram bebida dentro do metrô. O cara não podia chegar, quebrar o trem e achar que ia para casa sem problema algum. Vamos pegar o Pacaembu de exemplo. É um estádio bacana. As ruas laterais são escuras. Aquela imagem de escuridão passa a imagem de abandono e da terra de ninguém. É preciso pensar no processo todo.

CUSTO DA POLÍCIA
A Inglaterra vai no caminho inverso ao do Brasil. Eles têm cada vez menos polícia. Sabe por quê? Porque a polícia custa caro lá. Aqui no Brasil é de graça em vários estádios. Ou é muito barato e o organizador do jogo, se acha que tem problema, quer muito mais polícia e cria muito mais polícia. Isso não é jeito de fazer um evento.

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RAIO-X
MARCO AURÉLIO KLEIN

IDADE
64

CARGO
Autor do relatório final da Comissão Paz no Esporte e secretário nacional da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem

CARREIRA
Professor da FGV (2001 a 2009), responsável por futebol no Ministério do Esporte (2004 a 2007), diretor da Federação Paulista de Futebol (1993 a 1994 e 2008 a 2009), diretor de Alto Rendimento do Ministério do Esporte (2009 a 2012) e autor de três livros sobre o futebol brasileiro

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RELATÓRIO TAYLOR TRANSFORMOU FUTEBOL INGLÊS

Apontado por Marco Aurelio Klein como modelo de inspiração no combate à violência nos estádios, o Relatório Taylor revolucionou o futebol da Inglaterra e abriu espaço para que sua liga nacional se tornasse a número um do planeta.

O estudo foi realizado e adotado no país a partir do começo dos anos 1990, como resposta à tragédia de Hillsborough, ocorrida em 1989, quando 96 torcedores morreram pisoteados e esmagados contra grades de proteção devido ao excesso de público na partida entre Liverpool e Nottingham Forest, pela semifinal da Copa da Inglaterra.

Entre as medidas adotadas. que ajudaram conter os hooligans, protagonistas de algumas das maiores confusões no futebol europeu durante a década de 1980, estavam o treinamento de uma polícia especializada, a obrigatoriedade de assentos para todos os pagantes (o que pôs fim à tradição de se torcer em pé) e o fim das grades de proteção para os gramados de futebol.

O relatório também sugeriu a criação de leis específicas para crimes e contravenções praticadas por grupos de torcedores.

Para se adequar a esse novo cenário, os 27 principais estádios da Inglaterra precisaram ser reconstruídos ou passaram por reformas. 

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domingo, fevereiro 08, 2015

Ciência no Futebol e outras coisas mais...

FUTEBOL - Mabnuel Sergio Professor Catedratico, nas Conferencias Professor Manuel Sergio, realizada no Museu do Desporto no Palacio Foz, em Lisboa. Quarta feira 29 de Maio de 2013. (RUI RAIMUNDO/ASF)

Por: Manuel Sérgio

1. Não quero erguer-me nos bicos dos pés para estabelecer com qualquer outra pessoa um forçado confronto, de todo desnecessário e inútil, mas não me é possível esconder, ao fim de mais de 40 anos de estudo, de investigação e de aprendizagem com muitos “agentes do futebol” e colegas meus universitários, que não falta conhecimento no futebol – falta, frequentemente, a tecnociência que o pode tornar mais eficaz, mais produtivo, mais competitivo, sem macular, ao de leve que seja, o respeito que é devido a um ser humano, para muitos criatura de Deus. Mas... a que ciência me refiro, neste momento? Indubitavelmente, uma ciência hermenêutico-humana, que nos ensina que o mais importante, num jogo de futebol, não é a tática, mas o homem (o jogador) que concretiza a tática. Tenhamos em conta o seguinte: não há saltos, há mulheres e homens que saltam; não há chutos, há mulheres e homens que chutam; não há fintas, há mulheres e homens que fintam. Se não compreender as mulheres e os homens que saltam e chutam e fintam, não compreenderei forçosamente os saltos, os chutos e as fintas. Venho aconselhando alguns treinadores de futebol que de mim se aproximam (e que mais me ensinam do que aprendem) que, antes de cada um dos treinos devem levantar dentro si mesmos esta questão: “Qual é o tipo de homem que eu quero que nasça do treino que vou orientar?”. É que sem homens inteiriços, de antes quebrar que torcer; com a altivez e a inteligência das pessoas livres e a generosidade dos crentes – a tática não resulta. No “desporto-rei”, o homem está antes da tática, mesmo que incansavelmente se diga que “o futebol é um desporto predominantemente tático”. A periodização tática, expressão que tem por si uma vasta galeria de adeptos, resulta da firme convicção que, no futebol, “no princípio, é a tática”. Prefiro a expressão periodização antropológica e tática. É que, para mim, o futebol (como o desporto) não é só uma atividade física, é verdadeiramente uma atividade humana. No futebol (como no desporto) no princípio está o Homem, a tática vem depois. “Mutatis mutandis”, foi o que afirmou ao Nuno Delgado o treinador principal da seleção norte-americana de basquetebol, medalha-de ouro nos últimos Jogos Olímpicos, se bem interpreto o que o diretor do jornal A Bola fez o favor de me informar. Fiquei satisfeito com a “boa nova” - é que defendo isto mesmo, há um bom par de anos. Julgo que o dr. Jorge Araújo, um dos nomes maiores da história do basquetebol português e autor que muito me ensina, nos seus livros, faz suas estas minhas palavras...

2. Éramos três, à hora do almoço das quartas-feiras, no Estádio do Restelo: o Homero Serpa, o Jorge Jesus e eu. O atual treinador do Benfica trabalhava então no Belenenses e com brilho inapagável: finalista da Taça de Portugal e, durante dois anos consecutivos, um quinto lugar, no campeonato. Com o “plantel” que tinha às suas ordens, parecia fazer milagres. Será por acaso que o Garay compara Jesus a Mourinho? (cfr. A Bola, 2013/12/28). Um dia, o Homero que, de quando em vez, olhava, com olhar longo, as águas chãs do Tejo, questionou o “nosso” treinador: “O que vê, quando vê um jogo de futebol?”. O Homero era um homem culto e portanto denunciava, em cada momento, uma busca nunca apaziguada do conhecimento. O Jorge Jesus não esperava a pergunta mas, vivo e sagaz que é, redarguiu prontamente: “Quando vejo um jogo de futebol, tenho a sensação que vejo diferente das outras pessoas”. Ocorreu-me, se bem me lembro, uma conversa que mantivera com o Dr. Sócrates (em Setembro de 1983, frequentava ele o terceiro ano da Faculdade de Medicina da USP e defendia, com vigor, a “democracia corintiana” ). Aí estão as palavras do Magrão: “Ao contrário do que a torcida entende, para mim um jogo de futebol é uma festa, não é aquilo que eles pensam”. E, naquele ano longínquo de 1983, antecipou a convicção de Jorge Jesus: “Para mim, o futebol é outra coisa!”. Já na década de 70, eu aprendi com A. Sedas Nunes que “a ciência representa uma outra maneira de ler o real, diferente da do senso-comum (…). A ciência pressupõe ruptura com as evidências do senso comum” (Questões Preliminares sobre as Ciências Sociais, Cadernos GIS, p. 25). Partindo deste pressuposto, poderei adiantar que um treinador de futebol é um trabalhador do conhecimento, quero eu dizer: um especialista, numa área científica autónoma? Se, como quer a UNESCO, o conhecimento é uma informação que resulta na prática, tendo em conta o desenvolvimento humano, por que não hão-de ser “trabalhadores do conhecimento” os treinadores dos principais clubes de futebol, singulares figuras com insubstituível lugar, no panorama do futebol mundial? Há por aí uns eurocratas que nunca foram sazonados por uma vida desabrida e dura e se julgam, quando chegam a Portugal, no país mais recuadamente provinciano de que a História reza, que só encontram saber nos doutorados por universidades de cultura e língua anglo-saxónicas. Se assim fosse, o Edgar Morin, que só escreve em francês, não seria, como é, um dos autores mais lidos no mundo todo. É verdade que também nem sempre é famoso o contributo dos grandes treinadores, no domínio das belas letras. Mas não é isso o que se lhes pede, nem que tenha nenhum parentesco íntimo com a cultura e a língua inglesas – o que se lhes pede, de facto, é que saibam construir e liderar uma equipa de futebol!

3. Sem citar o José Mourinho, o Carlos Queirós, o António Oliveira, o Manuel Jesualdo Ferreira, o Leinardo Jardim, o Manuel Machado, o Vítor Pereira, o Manuel Fernandes, o Nelo Vingada, o José Peseiro, o Rui Vitória, o Daúto Faquirá, o Jorge Castelo, o Rolão Preto, etc., etc., todos eles com licenciatura universitária (o Jorge Castelo e o José Mourinho são doutores pela UTL) – o Manuel José, o Toni, o Jorge Jesus, o Paulo Bento, o Jaime Pacheco, o Manuel Cajuda, o André Villas-Boas, o Domingos Paciência, o Ulisses Morais, o João de Deus, o Paulo Fonseca, o Marco Silva, o Nuno Espírito Santo e mais alguns (sem licenciatura universitária) são também para mim profissionais de verdadeiro conhecimento científico e, se os principais clubes de futebol, em Portugal, convivessem com as universidades como parceiras na produção de conhecimento, seriam, mais tarde ou mais cedo, inevitavelmente, equiparados à licenciatura em Desporto. Ser o treinador principal de um grande clube de futebol é uma empresa de enorme envergadura. E se, sobre o mais, os jogadores e os restantes elementos da equipa técnica ainda o reconhecem como o mestre incontestado, não sei como não ver nele uma destacada individualidade, na sua profissão. Quando era professor na Universidade Estadual de Campinas, ouvi um dia do Darcy Ribeiro que, no Brasil, só existiam três coisas sérias: a cachaça, o jogo do bicho e o futebol. Que o futebol é também “coisa séria”, no nosso país, creio que ninguém o põe em dúvida, a começar pela FIFA que nos dá um honroso lugar, no ranking dos melhores do mundo – o que significa que esta classificação muito deve ao trabalho competente dos treinadores portugueses. “A seleção de Portugal chegou ao lugar mais alto de sempre da sua história, no ranking FIFA, o terceiro lugar, igualando o feito alcançado, em abril e maio de 2010” informou A Bola de 2012/10/3. Hoje, é o quinto o seu lugar, no ranking. Mas tudo isto só prova que o trabalho do treinador de futebol é predominantemente intelectual. A sua tarefa (se posso aqui empregar as palavras de Althusser) é uma “prática teórica”. E portanto o mais importante, para a sua profissão, não é a força do seu remate, nem a imaginação das suas fintas, nem o insólito dos seus passes (isso é com os jogadores) – mas a liderança que é tanto saber e sabedoria, como capacidade para emocionar e gestão de relações. O líder, no meio dos seus jogadores (ou até no meio da multidão) está sempre com a sua gente. Possui-o não sei que euforia superior a ele próprio, toma-o uma ebriedade espiritual, feita de linguagem incisiva, de orgulho, de suficiência, de convicção - que o tornam irresistível. O treinador deve saber de futebol? Muito! Deve saber ser líder? Muito mais! O que não é fácil! Em 2005, dos 31 jogadores contemplados com o Ballon d`Or, apenas 4 (quatro) exerciam a profissão de treinador de futebol: Ruud Gullit, Lothar Mathaus, Jean-Pierre Papin e Marco van Basten. Repensar a ciência no futebol passa por valorizar as pessoas face à tática. É que a ciência onde o futebol se fundamenta é uma nova ciência hermenêutico-humana. Passo a palavra a Edgar Morin: “Cada ser humano carrega em si a condição humana. Portanto, nunca esquecer as singularidades e que elas existem num tronco comum” (Inteligência da Complexidade, Instituto Piaget, Lisboa, 2009, p. 75).

4. “Nunca esquecer as singularidades” aconselha Edgar Morin. Não há grandes equipas, sem grandes jogadores, como não há grandes orquestras sem grandes intérpretes. O Real Madrid de Di Stéfano, o Santos de Pelé, o Benfica de Eusébio, o Ajax de Cruyff, o Bayern de Beckenbauer e, nos dias de hoje, o Real de Cristiano Ronaldo, o Barcelona do Messi, o Bayern do Ribéry ilustram o que venho de afirmar e que assim resumo: ninguém é ato se, em primeiro lugar, não for potência. Mas o jogador de classe incontestada é também o resultado da sua história de vida. Na VIII Tese sobre Feuerbach, Marx afirma que “a vida social é essencialmente prática”. Ou seja, o jogador nasce, mas aprimora, aperfeiçoa o que é, através do treino, das competições, da solidariedade dos colegas e da sabedoria e liderança do seu treinador. Nenhum treinador sabe fazer um Pelé, um Maradona, um Eusébio, um Cristiano Ronaldo, um Messi, etc., etc. Eles nasceram com as potencialidades do “craque” (potencialidades físicas, intelectuais, espirituais) e o líder, ao construir uma equipa, maximizou-lhes as virtualidades – nada mais! Uma equipa de futebol (como de qualquer outra modalidade desportiva) é um laboratório da complexidade onde se encontram em dialética incessante, imediatamente, os jogadores, a direção do Clube, a equipa técnica e médica e, mediatamente, a Comunicação Social e os sócios. Nos êxitos ou nos inêxitos de uma equipa não está só o treinador, como se vê – está a totalidade de que o treinador é um dos elementos! Cito aqui, a propósito, Didier Drogba, no livro do Prof. Luís Lourenço, Mourinho – a descoberta guiada (Prime Books, 2010): “O Mourinho não me ensinou a jogar futebol. Eu sei jogar futebol. Ele ensinou-me foi a jogar em equipa, o que é algo diferente. E é por isso que onde quer que ele se encontre atinge o sucesso”. Em La Méthode, I (Seuil, Paris) Edgar Morin assinala que a organização é capital, “dado que é através da organização das partes num todo que aparecem as qualidades emergentes e desaparecem as qualidades inibidas”(p. 151). E continua: “O que é importante na emergência é o fato de ser não dedutível das qualidades das partes (…), aparece somente a partir da organização do todo”. Um exemplo: a molécula da água, OH2, tem qualidades que o hidrogénio e o oxigénio, por si sós, não possuem. O Messi tem uma eficiência no Barça que não apresenta na seleção argentina – é que ele é elemento da organização do Barcelona e não o é da seleção do seu país. E aqui podemos relembrar o Ortega Y Gasset: “eu sou eu e a minha circunstância”. Por seu turno, o treinador, ao saber que não faz jogadores, mas ajuda os jogadores a fazerem-se a si mesmos, passa a medir o seu êxito pelo êxito dos seus jogadores. O sucesso do líder avalia-se pelo sucesso dos seus jogadores. E, porque o futebol é uma Atividade Humana e não é só uma Atividade Física, a preparação dos jogadores situa-se ao nível do quantitativo e do qualitativo, deverá preocupar-se com o como e com o porquê.

5. Suscitam reservas, objeções e reticências as minhas ideias sobre a epistemologia do futebol, designadamente em pessoas que pensam, como há cem anos atrás, que só é científico o que é quantitativo e previsível. De facto, a esmagadora maioria dos manuais ditos “científicos” do treino carecem de reflexão antropológica. Que o futebolista (ou o praticante de qualquer outra modalidade) é um ser de sentimentos, emoções e desejos; que o futebol tem mesmo a sua expressividade corpórea – são temas que não interessam a estes “cientistas” do treino. Recordo Wittgenstein, neste passo: os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo. Para estes “cientistas”, portanto, um treinador eficaz domina os aspetos vincadamente técnicos e táticos do futebol e não precisa de mais nada para ser um profissional de prestígio. A totalidade que a equipa é observam-na como um mero somatório de indivíduos, todos semelhantes, com os mesmos interesses e reagindo de modo idêntico diante dos mesmos estímulos. Bem ao contrário, cada um dos jogadores é uma surpresa, porque é uma personalidade singular, uma parcela de humanidade, que não se confundem com as características psicológicas, culturais, morais de qualquer um dos seus colegas de equipa. Consulto o livro de Jorge Araújo, Gerir é Treinar: “Os jogadores não são máquinas programáveis, mas sim seres humanos que pensam, interpretam e se emocionam” Que o mesmo é dizer: é preciso organizar o todo, sem esquecer o micro-universo que é cada um dos jogadores, ou seja, o treino individual, para que eles encontrem espaço a manifestar-se e desenvolver-se. A noção de organização é capital, dado que é através da organização das partes num todo que aparecem as qualidades emergentes e vão desaparecendo as limitações e as deficiências.

6. Num célebre discurso, pronunciado, na Sorbona, em 1946, sobre o homem e a cultura artística, Malraux via, na vontade de consciência e de descoberta, a tradução dos dois maiores valores europeus. Também, hoje, em que a ideia de história se distingue por inesperados ritmos de mudança (cfr., a propósito, de Anthony Giddens The Consequences of Modernity, que eu li em tradução da UNESP, Universidade Estadual Paulista) esse processo e essa vocação de consciência deverão alertar-nos contra uma imagem secundária do ser humano. Na Motricidade Humana, de que o Desporto é um dos subsistemas, a imagem de Homem resiste ao saber massificado, gerador de submissão, de passividade e corrosivo do espírito crítico. Porque no movimento intencional da transcendência (ou superação), o desportista tende a não abrandar no ímpeto de superar-se, de ampliar os seus horizontes de vida, de avivar o que nele brota das zonas mais profundas de si mesmo: o movimento do mais ser! Dobrará o cabo da irreflexão aquele que se sobrepõe à torrente de palavras, de modelos, de imagens que, numa neblina de confusão, ainda fazem do atleta uma “besta esplêndida” e do treinador desportivo um repetidor de ideias feitas e do licenciado em Desporto um simples professor de ginástica. Levemos as questões até ao fim e um sentido para o Desporto que nos tocou viver e digamos sem receio: o atleta é um ser humano que temporaliza a transcendência e o seu treinador o mais sábio companheiro de jornada e o licenciado (ou mestre, ou doutor em Desporto) o que diz ao treinador e ao atleta, como o Sartre da Vérité et Existence que “a verdade está continuamente em perigo” e que é preciso mais trabalho que não deixe de ser também organização, reflexão e estudo, no espaço de uma ética onde eu sou um de nós. Não me canso de falar do José Mourinho. No dia em que lhe foi outorgado o grau de doutor “honoris causa”, ele afirmou publicamente que fundamentava o seu trabalho profissional num paradigma científico. Será por acaso que o José Mourinho é o melhor treinador do mundo? É preciso ciência no futebol. Mas é preciso saber de que ciência se fala. No dia em que, na passada época de futebol, o Vitória de Guimarães venceu a Taça de Portugal, recebi um telefonema de Rui Vitória: “Professor, se só tivesse falado de futebol aos meus jogadores, a Taça não seria nossa”. O Rui Vitória, meu antigo aluno, entendeu as minhas aulas. Aliás, só se entende aquilo que já se sabe.

7. No entanto, só sabe inovar quem antes se inovou, pelo trabalho, pela curiosidade, pela humildade, pelo estudo. É que tudo é história: para o conhecimento científico e para o cientista. E o que ontem foi novidade, hoje parece velho. No departamento de futebol do futuro, organizado em função de uma equipa de especialistas, em trabalho interdisciplinar, o caos é o modo de produção da informação. O líder, o treinador principal decide, mas o que lhe chega é caótico. E onde procura ele o lugar mais próximo da verdade? Na prática! Não sou eu a dizê-lo tão-só: “A prática não significa apenas o momento de aplicação. É sobretudo a razão de ser da teoria, como a teoria (…) é a razão de ser da prática. Teorizar a prática e praticar a teoria são movimentos mutuamente implicados e complementares” (Pedro Demo, Conhecimento Moderno, Vozes, Rio de Janeiro, p. 67). Mas, dentro de um espaço devidamente organizado, já que a autoridade não é, não pode ser argumento científico. As ciências procuram a certeza, com a certeza que nunca serão certas, dado que todas as metodologias, mesmo as mais óbvias, sofrem de inúmeras limitações. No futebol, deve evitar-se também saber só de futebol (saber tudo de nada) ou um erro em que tombam alguns jornalistas e comentadores: especializar-se em generalidades de caráter demasiado impreciso e incerto (saber nada de tudo). Cada vez mais o treinador há-de ter do exercício da sua profissão uma noção essencialmente humanista e com sabedoria e bom senso. Sabedoria, onde a experiência se casa com um estudo constante: e bom senso, onde sabedoria é também equilíbrio, ordem, medida e, se possível, com um tolerante esprit de finesse. Enfim, um departamento de futebol de altos desempenhos deve saber transformar-se numa réplica de um centro científico de excelência, dando às qualidades humanas, à organização, à interdisciplinaridade e à Internet lugar de relevo. Há uma “patologia do saber”, no futebol, que se manifesta numa hiper-especialização sem o adequado paradigma. Quero eu dizer: há treinadores que trabalham como se os seus jogadores fossem seres biológicos tão-só e que não se movimentassem num universo de linguagem, de ideias, de consciência. No ser humano (e portanto no desporto) o bios não existe sem o logos. Tudo o que é cultura tem uma raiz biofísica e de tudo o que é biofísico emerge uma raiz cultural. A grande maioria dos problemas científicos, no futebol, ainda não têm resposta científica. E não só em Portugal...

8. No desporto, como em tudo o mais, sem conhecimento, não há intervenção, nem inovação credíveis. O empresário Jorge Mendes prende sobremaneira a atenção, quando se refere a Cristiano Ronaldo: “Em Inglaterra, ninguém tem dúvidas de que foi o melhor jogador de sempre que passou pela Premier League. Durante seis épocas, levou o Manchester United às costas. Nesse período, transformou-se no jogador que é hoje, fruto de muito trabalho (…). Ele chega aos treinos uma hora antes dos colegas e é o último a sair. Vai para casa e dorme a sesta. Depois, vai para o ginásio e é capaz de lá estar duas horas. Conhece-se a si próprio como ninguém. Sabe do que necessita e o que tem a fazer. É verdadeiramente impressionante”. E Jorge Mendes julga não desvirtuar a realidade, ao rematar: “Ele é o melhor jogador de todos os tempos” (A Bola, 2013/12/28). O futebol não se estuda apenas numa pessoa só, mas em muitas pessoas em interação. E todas elas, com a sua ideologia e cultura e vontade. O Ronaldo é ele e a sua circunstância: os seus colegas, os seus treinadores, os seus dirigentes, a sua família, os seus amigos. São palavras de António Damásio: “A emoção e o sentimento desempenham o papel principal, no comportamento social e, por extensão, no comportamento ético” (Ao Encontro de Espinosa, p. 34). Assim, o perfil genético, neurológico, psicológico, social, desportivo do atleta exige a interdisciplinaridade no departamento de futebol e que sejam, a começar no líder, trabalhadores do conhecimento aqueles que o constituem. Por outro lado, um grupo torna-se impossível, sem um certo grau de fidelidade a pessoas, a princípios e até a postulados da existência. A uma entrevista ao jornal A Bola (ibidem) declarou Cristiano Ronaldo: “A minha força vem sempre de dentro de mim. Da minha maneira de ser e de pensar”. Tem razão o CRT. Mas nele há muito mais coisas que o departamento de futebol não pode desconhecer. Um Cristiano Ronaldo não nasce sozinho, nem na família, nem num clube de futebol. Todos somos desejo e relação, desejo de relação e relação de desejo. Não é só um problema técnico e tecnológico a formação de um jogador e a criação de uma equipa. “Professor, dizia-me, há pouco tempo, o José Peseiro, só agora o entendo, quando nas suas aulas nos dizia: leiam os grandes romancistas, os grandes poetas, para compreenderem melhor o desporto”. O futebol não se resume a desempenhos físicos. Um jogo de futebol, de handebol, de basquetebol são pedaços da vida. A ciência faz parte da vida, mas a vida não é ciência tão-só.

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terça-feira, agosto 05, 2014

A Globo e o futuro do futebol brasileiro

Depois dos 7 a 1 na semifinal da Copa do Mundo Fifa Brasil 2014, o tema para o qual o jornalismo esportivo se voltou foi a necessidade de renovação geral do futebol brasileiro. Passando das categorias de base até o pagamento das dívidas dos clubes com a União, cujo debate no Congresso já estava presente no primeiro semestre, mas que ganhou mais importância depois da Copa.

Thomas Mueller of Germany celebrates scoring his team's first goal with teammates during the 2014 FIFA World Cup Brazil Semi Final match between Brazil and Germany at Estadio Mineirao on July 8, 2014 in Belo Horizonte, Brazil.

7 alemães comemoram contra 1 brasileiro

Em meio a isso, li muitos comentários sobre a responsabilidade das Organizações Globo nesta fase crítica, por ser a detentora dos direitos de transmissão dos campeonatos do país. O grupo foi um dos protagonistas da implosão do Clube dos 13 em 2011, aumentou o fosso entre o que os times recebem do broadcasting, com destaque para Corinthians e Flamengo, e mantinha a situação do futebol nacional como está por meio da dependência econômica destes e da ligação com a direção da CBF.

Incomodou-me tal situação, ainda que o que consta no parágrafo acima seja verdade – tendo eu, inclusive, escrito uma dissertação de mestrado sobre esse processo. Porém, apontar apenas um culpado, ou o principal deles, é tratar dirigentes, empresários e até mesmo os políticos brasileiros (ou ninguém nunca ouviu falar da “Bancada da Bola”?) como inocentes perante tal situação.

Se a renovação precisa ser geral, é necessário entender as condições legais em torno do assunto que proíbem, por exemplo, interferência estatal em associações privadas e dá à CBF o poder de definir o regulamento dos torneios. E a CBF tem eleições a cada quatro anos, mas para se candidatar é necessário o apoio de pelo menos oito federações e cinco clubes da Série A.

CBF lucra milhões todos os anos

Enfim, o intuito deste texto nem é discutir isso, até porque este autor concorda com a necessidade de se repensar a estrutura do futebol brasileiro e as relações de poder nela situadas, ainda que seja pessimista quanto a isso devido à prática político-boleira que se observa no país. Trataremos de como a Globo vem assumindo esta responsabilidade.

Em meio a discussões sobre as dívidas dos clubes, puxadas pelos jogadores por intermédio do Bom Senso FC a partir do ano passado, porém agora apropriadas pelos patrões que atrasam os salários, duas notícias me chamaram a atenção. Ambas publicadas na sexta-feira (1/8) com a participação do Globo Esporte, braço das Organizações Globo responsável por negociar os direitos de transmissão dos eventos esportivos.

Guilherme Costa e Vinicius Kochinski escreveram no UOL sobre uma reunião da CBF com clubes e Marcelo Campos Pinto, diretor do Globo Esporte, para discutir a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte. A proposta da lei é financiar a dívida dos clubes com a União num prazo de 30 anos, só que com contrapartidas, com punições a serem aplicadas em caso de erros ou novos atrasos de pagamento numa avaliação anual das contas dos clubes.

Já seria estranha a presença de Campos Pinto nesta discussão por se tratar de dívidas dos clubes com a União. Até mesmo a presença da CBF como organizadora, já que enquanto a confederação lucra milhões todos os anos, os clubes seguem no vermelho, mesmo com a entidade organizando os campeonatos nacionais, ao contrário de outros países.

A implosão do Clube dos 13

O único argumento possível para o caso da Globo é que os recursos oriundos do broadcasting são a principal fonte de receita dos times e, geralmente, são adiantados, o que garante um respiro num futebol brasileiro perto de estourar uma bolha, com salários altos e alto volume de importação de jogadores, especialmente da América Latina, em troca de certa dependência na manutenção do status quo. Entretanto, em vez de tratar sobre a proposta de lei que tramita no Congresso, alguns times aproveitaram para pressionar o diretor sobre os valores pagos para a cessão dos direitos.

É preciso explicar que dentre os 40 clubes da Série A e da Série B, 18 negociam por valores maiores e com contratos alongados, garantindo a receita para três ou quatro anos, podendo inclusive antecipar a cota de um período seguinte. Enquanto isso, os demais ficam com um valor menor. No caso dos que estão na primeira divisão, pode-se chegar à metade do que o pior grupo dos 18 – divididos de acordo com o número de torcedores – recebe. Para quem participa da Série B, então, é mais difícil. Para a temporada atual, receberam 2,7 milhões anuais; enquanto o Vasco pode ter recebido mais que 30 vezes disso por estar entre os 18 e este ser o primeiro ano na segunda divisão – a partir do segundo ano o valor é reduzido pela metade.

Os clubes menores, então, resolveram pedir pela criação de um fórum exclusivo sobre o assunto. É preciso explicar, entretanto, que se não mudar a forma de gerenciamento do futebol nacional, como mostram os últimos anos, não adianta ter mais dinheiro à disposição se não se saberá gastar.

Além disso, os clubes brasileiros foram vanguarda no cenário mundial ao criar o Clube dos 13 e organizarem a Copa União em 1987, mas em vez de entenderem o papel de protagonismo no negócio que virou o futebol televisionado brasileiro a partir de então, perderam-se em administrações que tornaram os times tão dependentes do líder comunicacional que, quando a situação podia mudar, recebendo mais de uma concorrente deste grupo, houve a implosão da associação de times.

A negociação individual é a pior forma quando se trata de eventos esportivos. Para ficar no caso brasileiro, a EA Sports anunciou na semana passada que não terá clubes do país no Fifa 2015, um dos principais games de futebol, porque seria muito difícil negociar com cada um para a cessão dos direitos. Ainda que os valores não sejam altos, isso representa uma perda para a imagem dos clubes, já que o jogo pode ser disputado por pessoas de várias partes do mundo. Além de fazer com que os torcedores locais tenham que escolher grandes times estrangeiros na hora da diversão.

Mudança adiou o início dos Estaduais

A segunda matéria foi publicada na Folha de S.Paulo. Bernardo Itri e Dani Blaschkauer informam que a Rede Globo convocou representantes dos 20 clubes da Série A para discutir o futuro do futebol nacional em reuniões a ocorrerem a partir do dia 7. O convite assinado por Campos Pinto tem como pauta do calendário até a formação de jogadores, assuntos a serem discutidos pelos clubes, separados por grupos, com os integrantes do Comitê de Esportes da Globo: Renato Ribeiro (diretor da Central Globo de Esportes), Anco Márcio Saraiva (diretor de Marketing da Rede Globo), Roberto Marinho Neto (diretor de Projetos Esportivos Especiais), Pedro Garcia e Eduardo Gabbay.

Segundo os jornalistas, “o convite causou estranhamento em presidentes de clubes que não viram sentido em a emissora convocar uma reunião para tratar da formação de atletas”. Entretanto, não teriam visto problemas, provavelmente, para discutir com o grupo comunicacional o processo de gestão dos clubes e das entidades de organização dos esportes, a equação financeira e as oportunidades de novas receitas nos estádios. Sobre o calendário, é a emissora quem define a quantidade de datas que terá para transmitir jogos no ano, tendo que passar por ela mudanças como a deste ano, que adiou o início dos Estaduais para que os jogadores tivessem férias após pressão do movimento Bom Senso FC.

Um dos problemas que isso reflete é a mistura entre os interesses de mercado do grupo, com a preocupação com o produto que irá oferecer ao público; e o jornalismo do grupo, que se beneficia historicamente do fato de ter boas relações, e pagar pelos direitos de transmissão, para ter facilidades como a de poder ter acesso a espaços que nenhuma outra emissora de TV possui – ou fazer com que um apresentador pare um treino de helicóptero para gravar um quadro em meio à preparação para uma Copa do Mundo.

Relações de protagonismo

O aparecimento de culpabilidade ao grupo e a necessidade de melhorar o produto, que na Copa gerou boa audiência, esta vem sendo menor a cada ano na transmissão dos jogos locais, fez com que as Organizações Globo resolvessem discutir assuntos cuja chamada não lhe caberia. Assume-se como o “parceiro histórico do futebol brasileiro” para desviar-se das críticas apresentadas até aqui, tentando se mostrar protagonista em possíveis alterações do futebol nacional, perpetuando-se como um dos principais membros da organização do jogo no Brasil.

Não será a partir de um grupo comunicacional que a estrutura do futebol nacional vai mudar, ainda que este seja um dos principais atores das relações políticas que estão engendradas ao esporte brasileiro e que dificultam quaisquer avanços reais. Ampliar a “culpa” é destacar um poder que pode vir a ser bem maior. Deixar que o Globo Esporte chame a si o processo é melhorar ainda menos dentro do que deveria ser mudado e inverter as relações de protagonismo de quem faz o futebol neste país.

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Anderson David Gomes dos Santos é jornalista e mestre em Ciências da Comunicação

quarta-feira, julho 30, 2014

Escola de Árbitros prepara Edital para Curso de Arbitragem

 
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Curso anterior. Arquivo do Sindarf-Ceará
 
A Escola de Árbitros com a supervisão da Comissão de Arbitragem da Federação Cearense de Futebol lançará em agosto, o edital para o Curso de Arbitragem, que terá duração mínima de cinco meses. “Será uma oportunidade para que os jovens desportistas interessados possam ingressar na carreira de árbitro de futebol”, disse o presidente da CA, Milton Otaviano.

Os árbitros do quadro cearense contam com o apoio da FCF que fornece instrutores técnico, físico e psicólogo para sua melhor qualificação no âmbito estadual e nacional. “Esses três quesitos são os pilares da arbitragem e por meio dessa qualificação, acreditamos no bom trabalho e sucesso dos nossos árbitros”, pontuou Milton.

“Existe também uma preocupação da Federação na segurança das atividades físicas e também dos treinamentos práticos, que fornece uma ambulância equipada com profissionais de saúde para qualquer necessidade, além de providenciar os locais para os treinamentos técnicos”, afirmou o presidente da CA.

A arbitragem cearense tem revelado novos valores e com a realização do Curso de Arbitragem, os árbitros que se formarão na oportunidade, terão, além do apoio da CA da FCF, a chance de desenvolver uma profissão de grande responsabilidade, mas muito gratificante.
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Manuella Viana / Brenno Rebouças
Assessoria de Comunicação da Federação Cearense de Futebol

(85) 32066505 / 91384545
imprensa@futebolcearense.com.br 
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domingo, julho 27, 2014

E você, já escolheu o seu lado?

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POR PAULO ANDRÉ, do Bom Senso FC

Vou explicar porque sou CONTRA o projeto de lei de responsabilidade fiscal do esporte que propõe parcelar a dívida dos clubes. Do jeito que está, ele exige apenas a apresentação da CND (Certidão Negativa de Débito), uma vez por ano, como garantia “inquestionável” de uma gestão transparente no futebol nacional. Isso é uma vergonha e justifica o desespero dos dirigentes e a pressão da “bancada da bola” para aprová-lo urgentemente, como ficou claro na última sexta feira, quando os presidentes de clubes se encontraram com a Presidente Dilma.

Além disso, dói só de pensar que mais de R$ 4 bilhões sumiram no futebol e nenhuma alma será punida (exceção aos torcedores que são punidos diariamente por verem seus times capengando por aí). No caso específico dos débitos de que trata a LRFE, se o Governo aceitar parcelar a dívida, os dirigentes que cometeram irregularidades não mais poderão ser acionados por crime de apropriação indébita. Traduzindo burramente, se alguém deve dinheiro ao banco e a entidade, sabendo da dificuldade do devedor em quitar a dívida, resolver parcela-la, assunto encerrado. Basta a pessoa cumprir as condições propostas e o pagamento em dia que ninguém poderá acusá-la posteriormente.

Então é essa a discussão que você precisa entender.

Se o Congresso Nacional e a Presidente Dilma, que representam o povo nesse debate, optarem por tomar o caminho de parcelar a dívida e consequentemente isentar os dirigentes pela infração, que a decisão seja tomada pela certeza da GARANTIA de contrapartidas claras e severas, cuja fiscalização seja eficaz e a punição aos clubes e aos dirigentes seja direta.

Não caiam no papo do Sr. Vilson de Andrade, espertalhão, que diz que eles (dirigentes de clubes) defendem uma punição mais dura do que a que propõe o Bom Senso. “90% da proposta deles (jogadores) está incluída na dos clubes. Eles falam em perda de pontos, nós falamos em rebaixamento. Essa é a grande diferença”, disse, com gigantesca cara de pau, o atual presidente do Coritiba. Ele sabe que, do jeito que está, a LRFE não punirá ninguém. Dizer que há severidade em apresentar a CND uma vez por ano para garantir que os clubes que não pagarem em dia as parcelas do “financiamento” sejam rebaixados de divisão é coisa de quem está mal intencionado. E achar que isso é suficiente para moralizar o futebol brasileiro é uma ofensa à inteligência alheia.

Sr. Vilson, cadê o controle de déficit sob pena de punição esportiva? Cadê a garantia do cumprimento dos contratos de trabalho sob pena de punição esportiva? Cadê o limite do custo futebol sob pena de punição esportiva? Cadê a padronização das demonstrações financeiras e a reavaliação do endividamento sob pena de punição esportiva? Cadê o parcelamento da dívida trabalhista já transitada sob pena de punição esportiva? (Desculpe os termos técnicos mas são cinco pontos imprescindíveis, propostos pelo Bom Senso F.C e ausentes no projeto dos clubes).

Ora, chega de enrolação! Tratemos o assunto com a seriedade com que ele deve ser tratado. Vocês são presidentes de clubes de futebol, não estão acima do bem e do mal!

Então, amigo, Secretário do Ministério do Esporte, Toninho Nascimento, temos que correr para quê? “Tem clube que não chega ao final do ano se esse projeto não for aprovado”, disse ele. E daí? Há clubes que estão há sei lá quantos anos se apropriando do IR e INSS de atletas, usando esse dinheiro “sujo” para contratar mais jogadores e aumentar suas dívidas à espera do “perdão” do Governo e somos nós que temos que correr? O clube escocês do Glasgow Rangers, mais vezes campeão nacional no planeta, quebrou, recomeçou na quarta divisão e sua torcida não o abandonou por isso. O Napoli, a Fiorentina e o Racing também.

Se querem moralizar, façam direito. Parem de correr e pensem. Não é isso que se pede aos jogadores “brucutus”? Estamos tratando com alguns dirigentes “brucutus” então chegou a nossa vez de lhes pedir: Parem de correr e pensem. Será que vale tudo nesta terra de ninguém? É preciso restringir a possibilidade de erro, de corrupção e defender melhores práticas de gestão que refletirão diretamente na qualidade do produto final, dos clubes e do espetáculo do futebol brasileiro.

A Presidente e o Congresso Nacional estão entre a cruz e a espada: Ou se apoiam numa possível benção do voto do torcedor apaixonado (desprovido de razão) e deixam passar tudo como está (inclusive via MP – um absurdo), ou se aproveitam da maior oportunidade de se reformar e de se modernizar o futebol brasileiro, optando por incluir as emendas levantadas pelo Bom Senso à LRFE para garantir de verdade uma gestão melhor e mais transparente no nosso futebol. Esta decisão deverá sair esta semana e nós acompanharemos de perto para saber quem está jogando para quem. Que cada um escolha o seu lado, porque o meu, já escolhi.

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domingo, julho 21, 2013

Padrão tático e cultura tática

Veja <COMENTÁRIOS>

Benê - CópiaPor Benê Lima

O padrão tático é a fotografia de uma equipe, e sua leitura depende fundamentalmente da cultura tática de quem o lê, assim como na fotografia

Tenho resistido em ceder ao impulso de escrever sobre o tema, primeiro porque não me considero a pessoa ideal para sobre ele ditar cátedra, depois pela descrença da maioria das pessoas sobre o tema. Os mais velhos porque não possuíram nem viveram o boom da cultura tática, os mais jovens porque a veem como mero exercício de dissuasão da complexidade, querendo torná-la a todos acessível e usando-a para tentarem abalar a importância dos técnicos de futebol, desse modo mantendo a ideia vigente de que a onda mudancista que sobrevive em torno da troca do técnico, sustentará os times e suas direções, salvando também os jogadores.

Padrão de jogo

É o mais geral e abrangente modelo de uma equipe, visto que representa o seu todo, englobando tanto o padrão tático quanto o padrão técnico. Portanto, desse ponto de vista, não é aceitável confundi-lo com padrão tático, embora seja este o que mais influencia o padrão geral de jogo das equipes.

Padrão técnico

O padrão técnico, em tese, é o que menos depende da atuação do treinador, em razão de boa parte dele ter origem na formação do atleta e especialmente na sua capacidade individual de habilidade e talento, bem como da compreensão do aspectos técnicos de sua expressão com a bola. Ele pode ser melhorado, posto que passes, chutes, recepção e condução de bola, drible e finta, todos estes elementos da técnica podem ser aperfeiçoados.

Padrão tático 

Aqui é onde o técnico exerce maior influência coletiva sobre a operacionalização do jogo e sobre o desempenho coletivo da equipe. É nesse estágio que o planejamento de jogo, como um dos pressupostos da formação do padrão tático entra em cena, mas muito mais como modelagem do padrão tático e não a ele se sobrepondo.

É ainda neste estágio que identificamos mais facilmente a plataforma estática de jogo com suas dinâmicas e variações, onde podemos também observar as transições defensivas e ofensivas, o nível da compactação, a geometria no desenvolvimento das jogadas, a profundidade ofensiva de seu jogo, entre outras situações.

Aqui também, desde que o observador possua acuidade e sensibilidade em sua cultura tática, pode-se ter vislumbres até mesmo do tipo de periodização tática utilizada, bem como lampejos dos elementos do plano tático maior, aquele que contempla princípios, subprincípios e sub-subprincípios e seus derivativos.


Com o objetivo de facilitar o entendimento e propor uma compreensão de modelos de padrão tático, tratamos aqui de uma questão pungente para uma de nossas equipes cearenses – o Fortaleza –, cujo comandante técnico é Hélio dos Anjos, experiente e detentor de inegáveis conhecimentos. Claro que ele pode discordar de alguns elementos que aqui propomos, e terá dupla autoridade para isso. Primeiro porque é o autor da “fotografia” que sua equipe nos passa; depois porque pode ter a sua mercê maiores melhores elementos do tecnicismo e do cientificismo que nós. Natural.

Na figura abaixo, podemos observar um instantâneo da plataforma tática do Fortaleza, que principia o funcionamento de seu padrão tático. Na figura há uma disposição um tanto frouxa dos jogadores, mas cada um deles cumpre funções e posicionamentos que se complementam e se completam entre si, por isso preferi não dispo-los em figuras geométricas perfeitas, exatamente para lembrar que cada um deles tem funções similares, mas também distintas a cumprir.

Outro fator que merece ser observado com atenção, são as peculiaridades relativas a determinados jogadores, como um meia canhoto que se posiciona mais pela direita (Guaru), são volantes que usualmente não jogam em linha (Jaílton e Esley), é um meia híbrido que tem de meia e de volante (Jackson) e que transita da esquerda para o meio, é um segundo volante que tanto faz a sobra quanto sai para dar apoio ao ataque como armador (Esley), são atacantes que se alternam como referência e que também jogam abertos, enfim.

FOR - Padrão tático defensivo

A imagem meramente ilustrativa abaixo, no que pese sua singeleza, creio que expressa uma ideia da dinâmica da movimentação da equipe do Fortaleza, donde podemos inferir certos elementos do plano tático e de algumas estratégias de jogo. É evidente que nenhuma equipe consegue tamanha compactação em circunstâncias normais de jogo, mas esta é a figura idealizada de uma situação pontual que assistimos neste domingo (21) frente ao Brasiliense, embora os jogadores envolvidos já não tivessem exatamente esta numeração.

Nesta situação típica de uma potente transição ofensiva, observamos não o pressing (coisa rara entre nossos times), mas uma pressão vertical e certa pressão na recuperação da bola, o que permitiu posse e domínio.

O que muitas vezes as pessoas se perguntam, é por que tal situação não se traduz em gols. Mas não vejo dificuldade em compreendermos essa questão. Afinal, como um processo de interação, o jogo precisa de um encaixe em suas diferentes fases (construção, elaboração, semifinalização e finalização), sem o quê o adversário assimila a pressão e consegue fazê-la eficiente, mas sem eficácia. Hoje vimos isto.

FOR - Padrão tático ofensivo

A questão aqui proposta é mais de valorizar o aspecto tático do futebol, e menos de provar a competência ou incompetência de quem que seja. Sem presunção alguma, seria fácil apontar alguns equívocos do técnico Hélio dos Anjos, mas não vejo relevância nisto pela consciência que tenho da importância de seu trabalho.

Como disse noutro artigo, Ceará e Fortaleza precisam encarar suas situações contraproducentes e tentar interagir com elas e com seus responsáveis, a fim de que suas equipes possam incorporar um melhor padrão técnico, tático e de jogo.

(Ilustração do 4-4-2 diamante, também conhecido como 4-1-2-1-2)

Tática - 4-4-2_diamond

(Não há bibliografia a citar, haja vista que nada do que aqui está é fruto de pesquisa.)

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terça-feira, fevereiro 26, 2013

Estudo aponta 554 clubes e 10.309 jogadores sem calendário o ano todo

Pluri Especial

O que fazer com 554 clubes e 10.309 jogadores sem calendário?

Confira o Relatório da PLURI sobre o problema da falta de calendário para os Clubes e jogadores Brasileiros.

Pluri situação dos clubes pequenos 01

Pluri situação dos clubes pequenos 02

Pluri situação dos clubes pequenos 03

Pluri situação dos clubes pequenos 04

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