Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
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terça-feira, fevereiro 24, 2015

Ceará Sporting parte na frente e obtém certificação como clube formador

Alvinegro cearense obtém diploma que nenhum dos grandes cariocas possui

Certificado CSC

Por: Benê Lima

O Ceará Sporting Club é o primeiro clube cearense a receber a certificação de Clube Formador - Categoria "A", da CBF.

A homologação contou com o parecer favorável da Federação Cearense de Futebol (FCF), conforme prevê a regulamentação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

A certificação dá ao clube que a obtém algumas seguranças e até garantias jurídicas, além de conferir-lhe status de organização e profissionalismo, aduzindo novo corolário à sua imagem.

O grau de dificuldade para a obtenção da referida certificação é relativamente elevado, e o exemplo disso é que no estado do Rio de Janeiro apenas um clube, o Nova Iguaçu, do interior daquele estado, o havia conseguido.

Das exigências

Para a obtenção da certificação de Clube Formador, o clube precisa apresentar toda a documentação dentro dos padrões legais exigidos, sendo ainda submetido à inspeção de suas dependências a fim de que seja comprovado que não há nenhuma desconformidade com as exigências e pré-requisitos indispensáveis.

Desse modo, caracterizando-se a perfeita conformidade quanto ao preenchimento do que é requerido, torna-se assim viável e factível a obtenção do Certificado.

Ceten (1) cCETEN – centro de treinamento e formação do Ceará Sporting Club

 

Para a obtenção das vantagens da certificação, o papel da federação à qual o clube é filiado é de vital importância, uma vez que cabe à entidade de administração no estado a avaliação prévia para atestar que o clube que a requer tem cumprido as exigências previstas em lei, dentre as quais constam:

- Em linhas gerais, manter nas dependências do Centro de Formação, equipe multidisciplinar;
- Proporcionar assistência clínica aos atletas;
- Manter a presença de um médico junto a eles;
- Dar provimento a atendimento odontológico;                                 

- Manter assistência social para os mesmos;
- Dotar o ambiente de um psicólogo(a) à disposição deles;
- Prover-lhes de assistência educacional e pedagógica;
- Disponibilizar um(a) nutricionista;
- Manter um centro de reabilitação com fisioterapeuta como responsável;
- Fornecer programas de treinamentos diversificados;
- Manter alojamentos em boas condições;
- Fornecer transporte e alimentação aos atletas;
- Proceder a manutenção e adequação das instalações;
- Manter corpo de profissionais com especialização e treinados;
- Fazer a adequação entre o horário de treino e o estudo dos atletas, entre outros.

Vale lembrar que o certificado é válido por dois anos, e quando vencido deve ser renovado. 

Clique AQUI e veja o certificado

> Crédito: Benê Lima

segunda-feira, julho 29, 2013

CBF realiza mais uma seletiva em busca de talentos

Treinador da Seleção Brasileira, Márcio Oliveira, e sua comissão técnica, acompanhando a Seletiva cearense

      SELETIVA DO FF EM AQUIRAZ 045

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF), tendo a representa-la uma comissão técnica constituída para a finalidade de promover avaliações de jogadoras em alguns locais do território nacional, cumpriu mais uma etapa itinerante à cata de atletas com potencial para cumprirem estágio nos selecionados nacionais da modalidade.

      SELETIVA DO FF EM AQUIRAZ 072SELETIVA DO FF EM AQUIRAZ 107SELETIVA DO FF EM AQUIRAZ 085

A etapa agendada para o estado do Ceará contou com a presença do técnico da Seleção Brasileira Principal, Márcio Oliveira, além do preparador de goleiras da Seleção sub-17, Paulo César Silva,  e do auxiliar técnico da Seleção sub-20, Jeferson Felix.

As atividades aconteceram  em duas localidades distintas, sendo que no sábado, 27, a cidade de Fortaleza e o Estádio Murilão abrigaram a primeira fase, que contou com a participação de 142 atletas. A fase seguinte aconteceu no Estádio Municipal Alberto Targino, município de Aquiraz, região metropolitana de Fortaleza, no domingo, 28, com a inscrição de 112 atletas.

      SELETIVA DO FF EM AQUIRAZ 091SELETIVA DO FF EM AQUIRAZ 132

A Seletiva do Futebol Feminino destinou-se a meninas com idade compatíveis com as categorias Sub-15, Sub-17, Sub-20 e adulta.

O evento contou com o apoio da Federação Cearense de Futebol (FCF) em parceria com a Liga Cearense de Futebol Feminino (LCFF), parceira da entidade e que também coopera na realização do Campeonato Cearense Feminino. 

      SELETIVA DO FF EM AQUIRAZ 133

Ainda participaram da organização da Seletiva, Renezito Junior, Diretor do Departamento de Futebol Feminino da Federação e coordenador do evento, o Presidente da Liga Cearense de Futebol Feminino, Benê Lima, além do vice-presidente, Sérgio Ricardo, bem como da diretora superintendente, Daiany França.

Para o estado Ceará ficou a satisfação do sucesso dessa iniciativa, que tem alcance nos aspectos esportivos e social, sem contar a visibilidade que dela emana para a modalidade.

Veja link do álbum de fotos

segunda-feira, julho 11, 2011

Derrota feminina faz CBF amargar mais um ano de jejum

DE SÃO PAULO

A queda da seleção feminina na Copa é só a última de uma série de fracassos das equipes da CBF em mundiais, tanto na base quanto com adultos.

Johannes Eisele/France Presse
Marta sofre pênalti de Buehler na Copa do MundoMarta sofre pênalti de Buehler na Copa do Mundo
 

Desde que as equipes masculinas sub-17 e sub-20 venceram os Mundiais de 2003, o Brasil disputou 18 torneios da Fifa e falhou em todos. O ouro olímpico continua sendo um sonho.

O atual jejum é o maior desde a criação dos Mundiais de base, a partir do final da década de 70. O recorde anterior havia acontecido entre 1985 e 1993.

No fim do mês, a seleção sub-20 terá a chance de encerrar o jejum, no Mundial da Colômbia.

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  • COMENTÁRIO. Jejum natural, se considerarmos a evolução de muitos países no futebol. Embora correndo o risco de se dizer que pensamos pequeno, é inegável a evolução no âmbito do futebol feminino brasileiro na década passada e na atual. O processo de renovação também vem sendo observado. Resta-nos colocar o conhecimento técnico e científico à disposição desta modalidade, bem como implementar políticas de estímulo a seu crescimento, pois, seguramente, será da quantidade de praticantes que advirá a qualidade. (Benê Lima).

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quinta-feira, junho 30, 2011

Luis Acosta, treinador da equipe sub-14 do Olimpia, do Paraguai

Técnico explica uma das chaves para o sucesso da maior formação jovem do país: “paraguaios se distinguem pelo seu poder de cabeceio”
Jorrit Smink*

O Olimpia é um dos maiores clubes no Paraguai e possui uma excelente categoria de base. A "cantera" fornece jovens talentos para o time principal regularmente. Os maiores talentos geralmente fazem sua estreia na competição européia um ano após serem descobertos. 

O treinador da equipe sub-14 Luis Acosta explica uma das chaves para o sucesso da maior equipe jovem do Paraguai: “paraguaios se distinguem pelo seu poder de cabeceio.”

“Cabeceio não deve ser uma arma subestimada”


Cabeceio e Paraguai são sinônimos. O atacante Roque Santa Cruz (Manchester City, Blackburn Rovers, Bayern de Munique, e formado no Olimpia) é visto como um dos melhores do mundo usando a cabeça, mas não existe jogador paraguaio que não saiba cabecear. “No Paraguai todas as academias focam muito no cabeceio, especialmente na categoria que eu coordeno, o sub-14. Nesta idade, jogadores já dominam a bola, então você pode começar a lapidar os fundamentos,” diz Luis Acosta.


Planejamento para jovens

Diferentemente da maioria das categorias de base no Paraguai, o Olimpia trabalha com um planejamento estruturado para sua juventude. “Todos os dias do ano, para todas as categorias, isso foi trabalhado. Eu adentro o campo com meu planejamento e sei exatamente o que eu tenho de fazer e falar”.


Vencendo

“Somos diferentes da maioria dos outros clubes paraguaios, mas também dos outros sul-americanos quando se trata de ganhar. Somos focados em educar, não nos resultados. Outros clubes focam na vitória, inclusive no sub-14”.


Bola

A equipe de Acosta treina quatro dias por semana. “Nós fazemos tudo com a bola, até os treinos físicos. Integramos exercício aeróbico com exercícios táticos e técnicos. Isso é feito pelo nosso preparador físico. Para mim, como treinador, a atenção maior fica em desenvolver o jogo tático e a cabeçada. Cabecear pode ser transformado em uma arma, quando você consegue dominar o fundamento. Muitos treinadores e jogadores subestimam isso. Cabecear é muito mais do que tocar a bola com sua cabeça, assim como existe uma técnica refinada para chutar a bola”.


Ataque

“Tome o cabeceio ofensivo por exemplo. Nós treinamos seguidamente. Primeiro sem um marcador, depois com um marcador (veja os exercícios 2 e 3). Geralmente fazemos ambos na mesma sessão.

O motivo pelo qual começamos sem o oponente é para que os atletas foquem e dominem o fundamento primeiro. Quando você coloca um adversário imediatamente, o jogador vai lidar com esse marcador utilizando os recursos técnicos que ele já possui e domina. Mas um jovem jogador deve aprender a fazer coisas que ele ainda não adquiriu ou melhorar as características que ele já possui. Isso funciona melhor quando se começa sem um adversário.


Saltando

“Um importante aspecto do cabeceio é o salto. Jogadores usualmente utilizam sua perna forte para saltar. Paraguaios devem ser capazes de saltar com as duas pernas. Nós iniciamos isso no aquecimento (veja o exercício 1). Deste modo jogadores aprenderam a cabecear melhor quando, por exemplo, estiverem saltando para trás.

A postura das costas é outro aspecto importante. O cabeceio vem das suas costas, se você quer cabecear com potência. Se você está mais interessado em colocação, então a potência, bem pequena, vem de sua cabeça e seu pescoço.

Em nossa faixa etária de trabalho é importante que os jogadores aprendam a engajar a bola de modo diagonal e a olharem para a bola quando a cabeceiam ofensivamente. Muitos jogadores fecham os olhos nesta idade quando estão com a cabeça na bola.

Progredimos gradualmente até chegarmos ao exercício 4. Este inclui um cruzamento de um lateral e os atacantes devem marcar com a cabeça, enquanto são marcados por defensores rivais. Isso simula uma situação real de jogo quando a técnica do cabeceio se faz necessária.


Defensivamente

“Cabeceio defensivo necessita de uma técnica diferente da ofensiva. Com o cabeceio defensivo você salta com as duas pernas ao mesmo tempo parado ou indo para trás. Prestamos também muita atenção a este fator nos nossos treinamentos (exercício 5).

Geralmente fazemos isso em combinação com exercícios táticos defensivos de marcação em zona e trocas de posição. Você pode observar isso claramente na seleção paraguaia. Eles são mortais quando o assunto é cabeceio. A técnica de cabeçadas deles é fenomenal, devido à atenção prestada a este fundamento em suas academias. Além disso, a maioria dos jogadores paraguaios consegue saltar muito alto. Logicamente, seus músculos foram treinados para isso desde muito cedo”.


Exercício 1: melhorar o cabeceio em uma área restrita

Organização:

*6 jogadores (amarelo) têm a bola em suas mãos, os em azul não
*Os jogadores azuis se movem pela área e pedem a bola aos amarelos
*Os amarelos lançam a bola aos azuis, que a cabeceiam de volta
* Os azuis devem prestar atenção ao seu salto. Coordenadamente devem alterar o salto com a esquerda, com a direita, e com ambas



 

Exercício 2: cabeceio ofensivo sem resistência

Organização:

* A bola é passada do lado para o jogador na linha de fundo
* Esse jogador recebe a bola e a cruza para os dois atacantes que estão entrando na área
* Estes atletas cabeceiam a bola ao gol, sem a marcação de um defensor
* Jogadores se mantém nestas posições



 

Exercício 3: cabeceio ofensivo com resistência

Organização:

* A bola é passada do lado para o jogador na linha de fundo
* Esse jogador recebe a bola e a cruza para os dois atacantes que estão entrando na área
* Estes atletas cabeceiam a bola ao gol, com a marcação de um defensor



 

Exercício 4: ataque ao longo dos flancos com cruzamento

Organização:

* Em meio-campo de jogo o segundo atacante recebe a bola, alternando entre o lado esquerdo e o lado direito (jogando como em um 1:4:4:2). O ala ou lateral corre pelo flanco até a linha de fundo e recebe a bola de volta.
* Ele cruza em direção à marca do pênalti
* Dois defensores tentam evitar o gol cabeceando a bola para longe



 

Exercício 5: melhorar o cabeceio defensivo enquanto caminhando para trás

Organização:

* A bola é passada de longe de um dos flancos aos dois atacantes
* Os zagueiros centrais tentam defender cabeceando a bola para longe (caminhando para trás e cabeceando defensivamente)
* Os laterais defensivos providenciam cobertura
* A jogada continua no chão até o ataque ser concluído

Variação:
* Este exercício também pode ser treinado com três atacantes



 

*Contribuição da revista Soccer Coaching International, parceira da Universidade do Futebolwww.soccercoachinginternational.com

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sábado, junho 04, 2011

Entrevista com o coordenador técnico da base do Grêmio

Thiago Corrêa, coordenador técnico das categorias de base do Grêmio
Profissional fala sobre o D.O.M., modelo de formação baseado na filosofia e cultura do clube gaúcho
Equipe Universidade do Futebol

Planejamento das atividades voltadas para o alto rendimento esportivo, controle rigoroso, individual e coletivo, dos profissionais envolvidos nesse processo e busca constante da melhoria das ações que conduzem a ótima performance. Em linhas gerais, o coordenador técnico, função cada vez mais consolidada no ambiente de futebol profissional moderno, é o articulador primordial desse ambiente.

Tal profissional deve facilitar e fazer funcionar, na forma e no conteúdo, cada aspecto do trabalho técnico esportivo de modo integrado, com diretrizes e princípios uniformes, instigando o desempenho e a produtividade de todos os envolvidos no complexo funcionamento de um departamento de futebol. No Grêmio Foot Ball Porto Alegrense, Thiago Corrêa Duarte é quem responde pela tarefa.

Arquitetado por preceitos científicos e metodológicos que conseguem ser, de maneira simultânea, coerentes com o ideal de jogo de treinador e o ideal de jogo do clube, enquanto cultura e filosofia, esse papel se reflete de maneira mais abrangente na criação do D.O.M. (Documento Orientador Metodológico). Trata-se de um modelo de formação baseado na filosofia e cultura do tradicional clube gaúcho.

“Esse ciclo do trabalho deve se caracterizar por uma organização dos aspectos da Metodologia do Processo de Ensino que dê conta da forma de jogar da equipe, ou seja, que leve uma verdadeira congruência que represente o ‘modo de jogar do Grêmio’”, explica Thiago, nesta entrevista àUniversidade do Futebol.

Formado em Educação Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ele se especializou em Portugal, na área de Treino de Alto Rendimento, onde teve contato com professores do gabarito de Júlio Garganta, Vitor Frade, José Guilherme, além de André Villas-Boas, treinador que se destacou na atual temporada européia comandando o FC Porto.

Os estudos focados na forma de jogar, na análise e síntese de jogo, e em tudo que envolve o treino e a sua periodização no futebol, capacitaram Thiago em seu trabalho como analista de desempenho da equipe principal gremista. Ao lado de Rafael Vieira e Mano Menezes, teve participação decisiva no desenvolvimento da Central de Dados Digitais do Grêmio (CDD).

“É comum no futebol as opiniões subjetivas sobre os motivos e acontecimentos perante uma observação momentânea. Nesse aspecto tendemos a ter julgamentos sobre os fatos/fatores determinantes para com o resultado do jogo. E desta forma as conclusões variam constantemente entre os observadores”, avalia.

Para Thiago, mesmo treinadores mais experientes e de alto nível absorvem pouco das peculiaridades que interferem de forma significativa no resultado do jogo de futebol. Assim, apenas com a observação complementar e de apoio que se aprende o que necessita melhorar, detectando-se como orientar e o que treinar.

Quando apresentou um projeto para as categorias de base com o intuito de buscar um modo de jogar das diversas equipes de formação, ele foi questionado. “Na verdade, muitos clubes brasileiros não têm uma forma de jogar definida nos diversos momentos do jogo e/ou não têm uma organização pré-estabelecida. De fato não só os brasileiros, mas poucos clubes no mundo têm uma forma de jogar concreta e uma organização de jogo pré-estabelecidas”, acredita Thiago.

Porém, o coordenador enxerga uma identidade, uma cultura de jogo, uma filosofia que precisa ser resgatada, resultado de um comportamento padrão, que não tem relação direta com o treinador que está comandando determinada equipe. “O Grêmio possui uma cultura e uma filosofia muito concretas. Independentemente de quem seja treinador e atletas, a equipe tem uma forma de jogar muito particular. Esse ‘modo de jogar’ emana das paredes de seu estádio, do grito e da paixão de seus adeptos, ou seja, de sua cultura”.

E o clube, diz Thiago, procura seguir essa orientação metodológica mais sistêmica, apesar de ser um projeto árduo e de longo prazo. Cabe a ele, integrante de uma estrutura cuja cultura educacional dificulta a implantação disso, atuar com o respaldo político. “Meu objetivo é organizar a base do Grêmio a tal ponto que ela tenha uma filosofia de jogo e de treino. É um processo que vai levar anos, mas temos que começar por algum ponto”.

Universidade do Futebol – Você é o novo coordenador técnico das categorias de base do Grêmio. Anteriormente desenvolvia a função de analista de desempenho. Como foi esta passagem e quais as diferenças entre estas duas importantes funções?

Thiago Corrêa – O trabalho desenvolvido no Departamento de Análise de Performance do Grêmio FBPA propicia uma ampla vivência voltada para a questão da compreensão do jogo, da organização dos sistemas, das equipes e entre as equipes, que por si só é algo muito complexo.

Aliado com minha experiência em Portugal no mestrado de Treino de Alto Rendimento, onde tive aulas com os Profs. Júlio Garganta, Vitor Frade, José Guilherme, (André) Villas-Boas, Tavares, Paulo Colaço, etc. que se preocupam com a questão da Metodologia do Processo de Ensino-Treino, da forma de jogar, da análise de jogo, da síntese de jogo e de tudo que envolve o treino e a sua periodização no futebol.

Com os conhecimentos adquiridos consegui chamar a atenção do gerente executivo do clube, Cícero Souza, que me convidou para exercer a função de coordenador técnico das categorias de base. Esta tarefa tem um alto grau dificuldade, além do desafio de ter que substituir o professor Édson Aguiar, profissional extremamente competente e capacitado, com larga experiência no futebol em diversas áreas do treino.

Ser analista de desempenho é analisar e sintetizar o desempenho da sua equipe, da equipe adversária, do seu atleta e do atleta adversário, repassando todas estas informações sobre o jogo de futebol em todas suas nuances.

Ser coordenador técnico é planejar, capacitar, controlar e orientar todo o trabalho realizado pelas categorias de base. Porém, quero salientar aqui que esse ciclo do trabalho deve se caracterizar por uma organização dos aspectos da Metodologia do Processo de Ensino que dê conta da forma de jogar da equipe, ou seja, que leve uma verdadeira congruência que represente o “modo de jogar do Grêmio”.



"Criador e criatura": Mourinho e Villas-Boas, dois exemplares formados na Universidade do Porto; Thiago Corrêa buscou a qualificação na mesma escola

 

Universidade do Futebol – O Grêmio possui uma “Central de Dados Digitais” criada com o propósito de se melhorar o desempenho e rendimento de seus atletas e suas equipes. Conte-nos um pouco sobre o que é e como funciona este trabalho.

Thiago Corrêa – O jogo de futebol está arquitetado em um conjunto de ações e elementos oriundos da relação de cooperação e oposição entre os participantes. Nesta perspectiva se faz necessária uma melhor compreensão e explanação desses fatos a fim de se interpretar melhor o jogo, e consequentemente possibilitando uma melhor interferência e regulação da metodologia do processo de ensino.

Desta forma, a maneira mais adequada de analisar e interpretar o jogo de futebol é através da análise de jogo, seja por intermédio de vídeos (análise qualitativa), ou por intermédio de dados em forma de números (análise quantitativa). Portanto, perante a caracterização do fenômeno futebol, têm-se como obrigatórias a compreensão e a interrogação de seus eventos na própria competição. Tendo em vista essa preocupação, o departamento profissional do Grêmio vem estruturando e instrumentalizando a sua “Central de Dados Digitais” para a devida análise do jogo do Grêmio e mapeamento de seus atletas e adversários.

Em nossa perspectiva, o sucesso deste trabalho no futebol se caracteriza pela mensuração e interpretação adequada dos resultados. Para os atletas atingirem grande performance é necessário um conjunto de princípios bem desenvolvidos nos treinamentos. Nesse sentido, quanto maior for a capacidade de antecipação dos acontecimentos, melhores serão as probabilidades de sucesso.

Em minha visão, o analista de desempenho deve desenvolver um ambiente condutivo de informação que permita o desenvolvimento de aprendizagem através do feedback que os atletas recebem diariamente. Este processo constituído pela observação de ações de jogo, pelo armazenamento das observações, pelo tratamento das observações e, finalmente, pela avaliação/valoração dos elementos de jogo.

É comum no futebol as opiniões subjetivas sobre os motivos e acontecimentos perante uma observação momentânea. Nesse aspecto tendemos a ter julgamentos sobre os fatos/fatores determinantes para com o resultado do jogo. E desta forma as conclusões variam constantemente entre os observadores.

Por sua vez, a observação se caracteriza por ser um procedimento que nos permite analisar e refletir sobre a realidade do jogo. Porém, a observação do jogo ao vivo possui algumas restrições com relação à qualidade da informação. Em virtude de o jogo ser constituído por uma sequência de acontecimentos complexos, que ocorrem ao longo da partida, se torna inviável a memorização e a análise, de forma precisa, de todas as ocorrências em campo.

Sabe-se que mesmo os treinadores mais experientes e de alto nível absorvem apenas cerca de 30% das peculiaridades que interferem de forma significativa no resultado do jogo de futebol. Sendo assim, seria através da observação complementar e de apoio que se aprende o que se necessita melhorar, detecta-se como se deve orientar e o que se tem que treinar a fim de se obter a meta desejada na próxima partida. Assim, toda e qualquer estruturação e modificação do treinamento necessita ser arquitetada e estruturada com preceitos advindos das informações extraídas do jogo.



Por conta das dificuldades de avaliação no momento do jogo, ferramentas de análise se tornam primordiais para o desenvolvimento de atividades e prospecção de talentos

 

Universidade do Futebol – Em sua opinião, como deve ser a relação do coordenador técnico com o treinador e demais membros da comissão técnica?

Thiago Corrêa – O coordenador técnico está para os gestores de campo (treinador e demais membros da comissão técnica), assim como o treinador está para seus atletas. Ou seja, é preciso que exista uma relação de liderança, de cooperação, de amizade e de profissionalismo. Claro que a relação entre seres humanos é algo muito complexo e exige muitos cuidados. Neste sentido penso que devemos ser profissionais antes de sermos amigos. Quando há critérios bem claros e definidos, há uma relação muito mais presumível de sucesso.

Como falei antes, o coordenador técnico deve planejar, capacitar, controlar e orientar o trabalho de seus coordenados principalmente em relação aos treinamentos e aos jogos das diversas categorias. Esta minha tarefa está arquitetada por preceitos científicos e metodológicos que conseguem ao mesmo tempo ser coerentes com o ideal de jogo de treinador e o ideal de jogo do clube, enquanto cultura e filosofia. Foi por isso que criamos o D.O.M. (Documento Orientador Metodológico), um modelo de formação baseado na filosofia e cultura do Grêmio, a fim de se garantir o “modo de jogar do Grêmio”.
 


 

Universidade do Futebol – Como se dá a integração do trabalho desenvolvido nas categorias de base com a equipe principal? A coordenação técnica da equipe principal tem semelhanças com a coordenação da base?

Thiago Corrêa – O clube deve ser um só, tanto em termos de metodologia do processo de ensino-treino, como na forma de jogar da equipe, claro que respeitando suas peculiaridades. Justifica-se, com isso, a elaboração do D.O.M.

Entendo que as categorias de base dos clubes devem exercer um trabalho formativo visando ao aproveitamento do atleta na equipe principal. Devem ter um trabalho de longo prazo desde sua iniciação (6, 7 e 8 anos) até as categorias profissionais (16, 17, 18, 19 e 20 anos), a fim de que o atleta vá gradativamente se adaptando à forma de jogar da equipe principal. Vejo aí um dos principais objetivos a serem perseguidos pelo coordenador técnico.

Quando apresentei o meu projeto para as categorias de base fui questionado sobre o porquê de se buscar um modo de jogar das nossas diversas equipes quando. Na verdade, muitos clubes brasileiros não têm uma forma de jogar definida nos diversos momentos do jogo e/ou não têm uma organização pré-estabelecida. De fato não só os brasileiros, mas poucos clubes no mundo têm uma forma de jogar concreta e uma organização de jogo pré-estabelecidas.

Porém há uma identidade, uma cultura de jogo, uma filosofia que precisa ser resgatada. Trata-se de uma cultura e uma filosofia que resultam em um comportamento padrão independentemente do treinador que está comandando. Há que se considerar as influências do ambiente, dos torcedores, dos dirigentes, entre outros aspectos que caracterizam fielmente o clube.

O Grêmio possui uma cultura e uma filosofia muito concretas. Independentemente de quem seja o treinador e atletas, a equipe tem uma forma de jogar muito particular. Esse “modo de jogar” emana das paredes de seu estádio, do grito e da paixão de seus adeptos, ou seja, de sua cultura. Com isso, respeitando os preceitos científicos e metodológicos para os treinos e jogos é que formulamos um documento orientador para este “modo de jogar” que denominamos de “Jogar ao Grêmio”.

E cabe também aqui destacar que o Grêmio possui hoje no elenco de sua equipe principal quase 50% de atletas oriundos de sua base. Dentre os times da Séria A do Campeonato Brasileiro, não há outro que tenha maior percentual.



Documento criado pelo coordenador técnico tem como alvo estabelecer uma metodologia específica de treino para cada equipe de formação "Jogar ao Grêmio"

 

Universidade do Futebol – Como os equipamentos e aparatos tecnológicos podem auxiliar na qualidade dos trabalhos realizados pelas comissões técnicas? Como se estabelece uma relação adequada de custo–benefício nesta área?

Thiago Corrêa – Todo e qualquer equipamento que possa auxiliar no desenvolvimento de um trabalho de mais qualidade é sempre benvindo. Porém, penso que não devemos nos deixar levar pela obrigação da tecnologia que o meio até certo ponto nos impõe. O equipamento só será útil se for funcional, ou seja, se tiver utilidade prática. Neste caso é preciso sempre avaliar a relação custo e benefício para qualquer inovação tecnológica.



"Equipamento só será útil se for funcional, ou seja, se tiver utilidade prática", sintetiza Thiago Corrêa, que participou do processo de confecção da CDD do Grêmio

 

Universidade do Futebol – Você é mestrando da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Qual o diferencial da formação acadêmica em termos da pedagogia do esporte de Portugal em relação ao Brasil? Quais as principais diferenças entre a formação do treinador em Portugal comparadas ao treinador brasileiro?

Thiago Corrêa – Em termos de formação acadêmica, Portugal se destaca por aprofundar mais as questões ligadas à complexidade do futebol do que no Brasil. Minha experiência está ligada à Universidade do Porto, que influenciou a formação de treinadores como José Mourinho e mais recentemente André Villas-Boas (treinador do Porto), entre outros. Lá se fala muito mais sobre a complexidade do jogo, sobre o confronto entre dois sistemas dinâmicos, construídos por partes complexas (seres humanos), por exemplo, do que aqui no Brasil.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde me formei, a ênfase ainda recai muito sobre os aspectos biológicos do entendimento do jogo de futebol. Embora a evolução física e fisiológica desta modalidade seja de extrema importância para o seu desenvolvimento, penso que deveríamos passar para um novo estágio da compreensão do fenômeno.

Universidade do Futebol – O Prof. Vitor Frade, destacado estudioso do futebol, afirma que “formar um equipe de futebol está no ato de criar situações (ambientes de aprendizagem) para que ela própria possa formar sua identidade.” O Grêmio procura seguir esta orientação metodológica? Ou este é um processo ainda distante dos clubes brasileiros?

Thiago Corrêa – Quero destacar em primeiro lugar que existem dois tipos de identidade: a identidade da forma de jogar da equipe e a identidade do clube de futebol em que essa equipe está inserida. Isto deve ficar bem claro. A equipe por si só cria uma identidade conforme sua habituação e sua vivência. Um grupo de atletas ou uma equipe ao treinar extensivamente juntos por longo período de tempo, através de experiências qualitativas e quantitativas, criam uma forma de jogar que é o resultado da interação entre todos que fazem parte da equipe. Ou seja, isto identifica uma forma ideal de jogar para aquele conjunto de atletas ou equipe.

Já o clube, enquanto entidade tem uma cultura e uma filosofia muito próprias (com exceção daqueles clubes novos, sem muita história). Muitas vezes dizemos que determinado atleta não tem a “cara do clube”, ou não se encaixa com o perfil da instituição. Por isso temos que tomar cuidado ao montarmos e treinarmos uma equipe de futebol.

Devemos, portanto, ter a habilidade de perceber a identidade da equipe, a identidade do clube e o que se pensa (treinador, coordenador) que é certo para jogar futebol. Mas atenção, pois invariavelmente a equipe forma sua própria identidade!

O Grêmio procura, sim, seguir essa orientação metodológica mais sistêmica. Mas reconheço é uma tarefa árdua e de longo prazo. Nossa cultura educacional, onde treinadores e atletas estão inseridos, dificulta a implantação deste pressuposto. Por isso buscamos tomar algumas medidas que, em longo prazo, possa obter esse resultado. Uma delas é o D.O.M. Meu objetivo é organizar a base do Grêmio a tal ponto que ela tenha uma filosofia de jogo e de treino. É um processo que vai levar anos, mas temos que começar por algum ponto.

Universidade do Futebol – Em se pensando o futebol no aspecto humano e social, você acredita que a influência da cultura condiciona um determinado tipo de comportamento? É possível se falar em escolas regionais de futebol?

Thiago Corrêa – O Vitor Frade em suas aulas sempre falou que o Brasil não tem um estilo de jogo próprio, pois ele é muito grande. No Sul não se joga da mesma forma que se joga no Centro ou no Norte. A partir daí podemos perguntar: como se pode ter uma forma particular de jogar em um determinado clube se a grande maioria dos seus atletas vem de outras regiões? Eu diria que é por causa da cultura e da filosofia do clube. Acredito muito nisso!

Os nossos comportamentos são extremamente influenciados pela cultura do ambiente onde estamos. Como falei antes, os comportamentos que temos durante uma situação, ou até mesmo o nosso comportamento para executar uma forma de jogar, não necessariamente é algo previamente descrito e treinado – pode ser “algo” que emana do ambiente onde estamos. “Algo” que nos influencia de alguma maneira a executarmos certa ação.
 


 

Universidade do Futebol – Em um de seus artigos, você sinaliza para a existência de uma identidade dentro do “Sistema Futebol” e outra fora do “Sistema Futebol”. Quais atividades e exercícios podem ser desenvolvidos no treinamento para que o atleta mantenha sua identidade própria, mas participe, concomitantemente, da identidade da equipe, na perspectiva do jogar que se pretende?

Thiago Corrêa – Gosto de dizer que a equipe é sempre mais que a soma de seus atletas, mas os atletas, por vezes, são mais e/ou menos que a própria equipe. Ou seja, quando há organização, há regras, e onde há regras, há restrições. Assim, de uma forma ou outra, restringimos em algo a manifestação de nossos atletas. A grande questão é encontrarmos um equilíbrio entre a ordem e desordem da organização, para não termos equipes muito mecânicas e limitadas.

A identidade do atleta tem que ser um fractal (*) da identidade da equipe. O atleta representa a equipe, em menor escala. A identidade da equipe é uma manifestação, também, da identidade do atleta e dos atletas. Para conseguirmos o equilíbrio ideal, precisamos acima de tudo saber contratar os atletas certos para montar a nossa equipe. Se formos treinadores de categorias de base, temos que saber montar a equipe ideal com os atletas que temos. Mas para as duas situações precisamos entender o atleta, interpretar sua personalidade, seu comportamento, sua identidade.

Creio que não há exercícios/meios ideais para que os atletas mantenham sua identidade equivalente com a identidade da equipe. O que há é a ocorrência frequente do comportamento coletivo e individual, e é isso que devemos ter em mente ao elaborar os exercício/meios a serem utilizados. Elaborar exercícios/meios que busquem padrões de comportamentos individuais e coletivos coerentes com a identidade do indivíduo, da equipe e principalmente do clube.

(*) Ou seja, o atleta (parte) por sua característica e funcionalidade, consegue representar a equipe (todo).

 

Reflexões sobre a organização no jogo de futebol 

 

Universidade do Futebol – Como coordenador técnico das categorias de base, de que modo você pensa capacitar os membros de suas comissões técnicas (treinadores, assistentes, preparadores etc.) no sentido de integrar o processo metodológico previsto em seu planejamento?

Thiago Corrêa – Gosto de oferecer periodicamente artigos, capítulos de livros, matérias esportivas etc., para estimular a reflexão e desenvolver a capacidade intelectual dos nossos profissionais, além de termos reuniões sistemáticas visando dar seguimento ao D.O.M., para que ao longo do processo possamos estabelecer e estruturar o “Jogar ao Grêmio”.

Promovemos também encontros mais ampliados como o Seminário de Futebol - Desafios do Alto Rendimento. A primeira edição foi em 2010 e contou com a presença dos professores Julio Garganta e José Guilherme, falando um pouco da metodologia de futebol e da periodização tática. Ajudou e muito a fazer com que os nossos treinadores e profissionais de campo percebessem um pouco mais sobre os aspectos mais evolutivos do treino e jogo do futebol.

Queremos fazer esse seminário anualmente, para que possamos capacitar cada vez mais nossos profissionais.



Cartaz da primeira edição do Seminário de Futebol - Desafios do Alto Rendimento: intenção do clube é promover eventos desse tipo sistematicamente

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