Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
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domingo, fevereiro 08, 2015

Ciência no Futebol e outras coisas mais...

FUTEBOL - Mabnuel Sergio Professor Catedratico, nas Conferencias Professor Manuel Sergio, realizada no Museu do Desporto no Palacio Foz, em Lisboa. Quarta feira 29 de Maio de 2013. (RUI RAIMUNDO/ASF)

Por: Manuel Sérgio

1. Não quero erguer-me nos bicos dos pés para estabelecer com qualquer outra pessoa um forçado confronto, de todo desnecessário e inútil, mas não me é possível esconder, ao fim de mais de 40 anos de estudo, de investigação e de aprendizagem com muitos “agentes do futebol” e colegas meus universitários, que não falta conhecimento no futebol – falta, frequentemente, a tecnociência que o pode tornar mais eficaz, mais produtivo, mais competitivo, sem macular, ao de leve que seja, o respeito que é devido a um ser humano, para muitos criatura de Deus. Mas... a que ciência me refiro, neste momento? Indubitavelmente, uma ciência hermenêutico-humana, que nos ensina que o mais importante, num jogo de futebol, não é a tática, mas o homem (o jogador) que concretiza a tática. Tenhamos em conta o seguinte: não há saltos, há mulheres e homens que saltam; não há chutos, há mulheres e homens que chutam; não há fintas, há mulheres e homens que fintam. Se não compreender as mulheres e os homens que saltam e chutam e fintam, não compreenderei forçosamente os saltos, os chutos e as fintas. Venho aconselhando alguns treinadores de futebol que de mim se aproximam (e que mais me ensinam do que aprendem) que, antes de cada um dos treinos devem levantar dentro si mesmos esta questão: “Qual é o tipo de homem que eu quero que nasça do treino que vou orientar?”. É que sem homens inteiriços, de antes quebrar que torcer; com a altivez e a inteligência das pessoas livres e a generosidade dos crentes – a tática não resulta. No “desporto-rei”, o homem está antes da tática, mesmo que incansavelmente se diga que “o futebol é um desporto predominantemente tático”. A periodização tática, expressão que tem por si uma vasta galeria de adeptos, resulta da firme convicção que, no futebol, “no princípio, é a tática”. Prefiro a expressão periodização antropológica e tática. É que, para mim, o futebol (como o desporto) não é só uma atividade física, é verdadeiramente uma atividade humana. No futebol (como no desporto) no princípio está o Homem, a tática vem depois. “Mutatis mutandis”, foi o que afirmou ao Nuno Delgado o treinador principal da seleção norte-americana de basquetebol, medalha-de ouro nos últimos Jogos Olímpicos, se bem interpreto o que o diretor do jornal A Bola fez o favor de me informar. Fiquei satisfeito com a “boa nova” - é que defendo isto mesmo, há um bom par de anos. Julgo que o dr. Jorge Araújo, um dos nomes maiores da história do basquetebol português e autor que muito me ensina, nos seus livros, faz suas estas minhas palavras...

2. Éramos três, à hora do almoço das quartas-feiras, no Estádio do Restelo: o Homero Serpa, o Jorge Jesus e eu. O atual treinador do Benfica trabalhava então no Belenenses e com brilho inapagável: finalista da Taça de Portugal e, durante dois anos consecutivos, um quinto lugar, no campeonato. Com o “plantel” que tinha às suas ordens, parecia fazer milagres. Será por acaso que o Garay compara Jesus a Mourinho? (cfr. A Bola, 2013/12/28). Um dia, o Homero que, de quando em vez, olhava, com olhar longo, as águas chãs do Tejo, questionou o “nosso” treinador: “O que vê, quando vê um jogo de futebol?”. O Homero era um homem culto e portanto denunciava, em cada momento, uma busca nunca apaziguada do conhecimento. O Jorge Jesus não esperava a pergunta mas, vivo e sagaz que é, redarguiu prontamente: “Quando vejo um jogo de futebol, tenho a sensação que vejo diferente das outras pessoas”. Ocorreu-me, se bem me lembro, uma conversa que mantivera com o Dr. Sócrates (em Setembro de 1983, frequentava ele o terceiro ano da Faculdade de Medicina da USP e defendia, com vigor, a “democracia corintiana” ). Aí estão as palavras do Magrão: “Ao contrário do que a torcida entende, para mim um jogo de futebol é uma festa, não é aquilo que eles pensam”. E, naquele ano longínquo de 1983, antecipou a convicção de Jorge Jesus: “Para mim, o futebol é outra coisa!”. Já na década de 70, eu aprendi com A. Sedas Nunes que “a ciência representa uma outra maneira de ler o real, diferente da do senso-comum (…). A ciência pressupõe ruptura com as evidências do senso comum” (Questões Preliminares sobre as Ciências Sociais, Cadernos GIS, p. 25). Partindo deste pressuposto, poderei adiantar que um treinador de futebol é um trabalhador do conhecimento, quero eu dizer: um especialista, numa área científica autónoma? Se, como quer a UNESCO, o conhecimento é uma informação que resulta na prática, tendo em conta o desenvolvimento humano, por que não hão-de ser “trabalhadores do conhecimento” os treinadores dos principais clubes de futebol, singulares figuras com insubstituível lugar, no panorama do futebol mundial? Há por aí uns eurocratas que nunca foram sazonados por uma vida desabrida e dura e se julgam, quando chegam a Portugal, no país mais recuadamente provinciano de que a História reza, que só encontram saber nos doutorados por universidades de cultura e língua anglo-saxónicas. Se assim fosse, o Edgar Morin, que só escreve em francês, não seria, como é, um dos autores mais lidos no mundo todo. É verdade que também nem sempre é famoso o contributo dos grandes treinadores, no domínio das belas letras. Mas não é isso o que se lhes pede, nem que tenha nenhum parentesco íntimo com a cultura e a língua inglesas – o que se lhes pede, de facto, é que saibam construir e liderar uma equipa de futebol!

3. Sem citar o José Mourinho, o Carlos Queirós, o António Oliveira, o Manuel Jesualdo Ferreira, o Leinardo Jardim, o Manuel Machado, o Vítor Pereira, o Manuel Fernandes, o Nelo Vingada, o José Peseiro, o Rui Vitória, o Daúto Faquirá, o Jorge Castelo, o Rolão Preto, etc., etc., todos eles com licenciatura universitária (o Jorge Castelo e o José Mourinho são doutores pela UTL) – o Manuel José, o Toni, o Jorge Jesus, o Paulo Bento, o Jaime Pacheco, o Manuel Cajuda, o André Villas-Boas, o Domingos Paciência, o Ulisses Morais, o João de Deus, o Paulo Fonseca, o Marco Silva, o Nuno Espírito Santo e mais alguns (sem licenciatura universitária) são também para mim profissionais de verdadeiro conhecimento científico e, se os principais clubes de futebol, em Portugal, convivessem com as universidades como parceiras na produção de conhecimento, seriam, mais tarde ou mais cedo, inevitavelmente, equiparados à licenciatura em Desporto. Ser o treinador principal de um grande clube de futebol é uma empresa de enorme envergadura. E se, sobre o mais, os jogadores e os restantes elementos da equipa técnica ainda o reconhecem como o mestre incontestado, não sei como não ver nele uma destacada individualidade, na sua profissão. Quando era professor na Universidade Estadual de Campinas, ouvi um dia do Darcy Ribeiro que, no Brasil, só existiam três coisas sérias: a cachaça, o jogo do bicho e o futebol. Que o futebol é também “coisa séria”, no nosso país, creio que ninguém o põe em dúvida, a começar pela FIFA que nos dá um honroso lugar, no ranking dos melhores do mundo – o que significa que esta classificação muito deve ao trabalho competente dos treinadores portugueses. “A seleção de Portugal chegou ao lugar mais alto de sempre da sua história, no ranking FIFA, o terceiro lugar, igualando o feito alcançado, em abril e maio de 2010” informou A Bola de 2012/10/3. Hoje, é o quinto o seu lugar, no ranking. Mas tudo isto só prova que o trabalho do treinador de futebol é predominantemente intelectual. A sua tarefa (se posso aqui empregar as palavras de Althusser) é uma “prática teórica”. E portanto o mais importante, para a sua profissão, não é a força do seu remate, nem a imaginação das suas fintas, nem o insólito dos seus passes (isso é com os jogadores) – mas a liderança que é tanto saber e sabedoria, como capacidade para emocionar e gestão de relações. O líder, no meio dos seus jogadores (ou até no meio da multidão) está sempre com a sua gente. Possui-o não sei que euforia superior a ele próprio, toma-o uma ebriedade espiritual, feita de linguagem incisiva, de orgulho, de suficiência, de convicção - que o tornam irresistível. O treinador deve saber de futebol? Muito! Deve saber ser líder? Muito mais! O que não é fácil! Em 2005, dos 31 jogadores contemplados com o Ballon d`Or, apenas 4 (quatro) exerciam a profissão de treinador de futebol: Ruud Gullit, Lothar Mathaus, Jean-Pierre Papin e Marco van Basten. Repensar a ciência no futebol passa por valorizar as pessoas face à tática. É que a ciência onde o futebol se fundamenta é uma nova ciência hermenêutico-humana. Passo a palavra a Edgar Morin: “Cada ser humano carrega em si a condição humana. Portanto, nunca esquecer as singularidades e que elas existem num tronco comum” (Inteligência da Complexidade, Instituto Piaget, Lisboa, 2009, p. 75).

4. “Nunca esquecer as singularidades” aconselha Edgar Morin. Não há grandes equipas, sem grandes jogadores, como não há grandes orquestras sem grandes intérpretes. O Real Madrid de Di Stéfano, o Santos de Pelé, o Benfica de Eusébio, o Ajax de Cruyff, o Bayern de Beckenbauer e, nos dias de hoje, o Real de Cristiano Ronaldo, o Barcelona do Messi, o Bayern do Ribéry ilustram o que venho de afirmar e que assim resumo: ninguém é ato se, em primeiro lugar, não for potência. Mas o jogador de classe incontestada é também o resultado da sua história de vida. Na VIII Tese sobre Feuerbach, Marx afirma que “a vida social é essencialmente prática”. Ou seja, o jogador nasce, mas aprimora, aperfeiçoa o que é, através do treino, das competições, da solidariedade dos colegas e da sabedoria e liderança do seu treinador. Nenhum treinador sabe fazer um Pelé, um Maradona, um Eusébio, um Cristiano Ronaldo, um Messi, etc., etc. Eles nasceram com as potencialidades do “craque” (potencialidades físicas, intelectuais, espirituais) e o líder, ao construir uma equipa, maximizou-lhes as virtualidades – nada mais! Uma equipa de futebol (como de qualquer outra modalidade desportiva) é um laboratório da complexidade onde se encontram em dialética incessante, imediatamente, os jogadores, a direção do Clube, a equipa técnica e médica e, mediatamente, a Comunicação Social e os sócios. Nos êxitos ou nos inêxitos de uma equipa não está só o treinador, como se vê – está a totalidade de que o treinador é um dos elementos! Cito aqui, a propósito, Didier Drogba, no livro do Prof. Luís Lourenço, Mourinho – a descoberta guiada (Prime Books, 2010): “O Mourinho não me ensinou a jogar futebol. Eu sei jogar futebol. Ele ensinou-me foi a jogar em equipa, o que é algo diferente. E é por isso que onde quer que ele se encontre atinge o sucesso”. Em La Méthode, I (Seuil, Paris) Edgar Morin assinala que a organização é capital, “dado que é através da organização das partes num todo que aparecem as qualidades emergentes e desaparecem as qualidades inibidas”(p. 151). E continua: “O que é importante na emergência é o fato de ser não dedutível das qualidades das partes (…), aparece somente a partir da organização do todo”. Um exemplo: a molécula da água, OH2, tem qualidades que o hidrogénio e o oxigénio, por si sós, não possuem. O Messi tem uma eficiência no Barça que não apresenta na seleção argentina – é que ele é elemento da organização do Barcelona e não o é da seleção do seu país. E aqui podemos relembrar o Ortega Y Gasset: “eu sou eu e a minha circunstância”. Por seu turno, o treinador, ao saber que não faz jogadores, mas ajuda os jogadores a fazerem-se a si mesmos, passa a medir o seu êxito pelo êxito dos seus jogadores. O sucesso do líder avalia-se pelo sucesso dos seus jogadores. E, porque o futebol é uma Atividade Humana e não é só uma Atividade Física, a preparação dos jogadores situa-se ao nível do quantitativo e do qualitativo, deverá preocupar-se com o como e com o porquê.

5. Suscitam reservas, objeções e reticências as minhas ideias sobre a epistemologia do futebol, designadamente em pessoas que pensam, como há cem anos atrás, que só é científico o que é quantitativo e previsível. De facto, a esmagadora maioria dos manuais ditos “científicos” do treino carecem de reflexão antropológica. Que o futebolista (ou o praticante de qualquer outra modalidade) é um ser de sentimentos, emoções e desejos; que o futebol tem mesmo a sua expressividade corpórea – são temas que não interessam a estes “cientistas” do treino. Recordo Wittgenstein, neste passo: os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo. Para estes “cientistas”, portanto, um treinador eficaz domina os aspetos vincadamente técnicos e táticos do futebol e não precisa de mais nada para ser um profissional de prestígio. A totalidade que a equipa é observam-na como um mero somatório de indivíduos, todos semelhantes, com os mesmos interesses e reagindo de modo idêntico diante dos mesmos estímulos. Bem ao contrário, cada um dos jogadores é uma surpresa, porque é uma personalidade singular, uma parcela de humanidade, que não se confundem com as características psicológicas, culturais, morais de qualquer um dos seus colegas de equipa. Consulto o livro de Jorge Araújo, Gerir é Treinar: “Os jogadores não são máquinas programáveis, mas sim seres humanos que pensam, interpretam e se emocionam” Que o mesmo é dizer: é preciso organizar o todo, sem esquecer o micro-universo que é cada um dos jogadores, ou seja, o treino individual, para que eles encontrem espaço a manifestar-se e desenvolver-se. A noção de organização é capital, dado que é através da organização das partes num todo que aparecem as qualidades emergentes e vão desaparecendo as limitações e as deficiências.

6. Num célebre discurso, pronunciado, na Sorbona, em 1946, sobre o homem e a cultura artística, Malraux via, na vontade de consciência e de descoberta, a tradução dos dois maiores valores europeus. Também, hoje, em que a ideia de história se distingue por inesperados ritmos de mudança (cfr., a propósito, de Anthony Giddens The Consequences of Modernity, que eu li em tradução da UNESP, Universidade Estadual Paulista) esse processo e essa vocação de consciência deverão alertar-nos contra uma imagem secundária do ser humano. Na Motricidade Humana, de que o Desporto é um dos subsistemas, a imagem de Homem resiste ao saber massificado, gerador de submissão, de passividade e corrosivo do espírito crítico. Porque no movimento intencional da transcendência (ou superação), o desportista tende a não abrandar no ímpeto de superar-se, de ampliar os seus horizontes de vida, de avivar o que nele brota das zonas mais profundas de si mesmo: o movimento do mais ser! Dobrará o cabo da irreflexão aquele que se sobrepõe à torrente de palavras, de modelos, de imagens que, numa neblina de confusão, ainda fazem do atleta uma “besta esplêndida” e do treinador desportivo um repetidor de ideias feitas e do licenciado em Desporto um simples professor de ginástica. Levemos as questões até ao fim e um sentido para o Desporto que nos tocou viver e digamos sem receio: o atleta é um ser humano que temporaliza a transcendência e o seu treinador o mais sábio companheiro de jornada e o licenciado (ou mestre, ou doutor em Desporto) o que diz ao treinador e ao atleta, como o Sartre da Vérité et Existence que “a verdade está continuamente em perigo” e que é preciso mais trabalho que não deixe de ser também organização, reflexão e estudo, no espaço de uma ética onde eu sou um de nós. Não me canso de falar do José Mourinho. No dia em que lhe foi outorgado o grau de doutor “honoris causa”, ele afirmou publicamente que fundamentava o seu trabalho profissional num paradigma científico. Será por acaso que o José Mourinho é o melhor treinador do mundo? É preciso ciência no futebol. Mas é preciso saber de que ciência se fala. No dia em que, na passada época de futebol, o Vitória de Guimarães venceu a Taça de Portugal, recebi um telefonema de Rui Vitória: “Professor, se só tivesse falado de futebol aos meus jogadores, a Taça não seria nossa”. O Rui Vitória, meu antigo aluno, entendeu as minhas aulas. Aliás, só se entende aquilo que já se sabe.

7. No entanto, só sabe inovar quem antes se inovou, pelo trabalho, pela curiosidade, pela humildade, pelo estudo. É que tudo é história: para o conhecimento científico e para o cientista. E o que ontem foi novidade, hoje parece velho. No departamento de futebol do futuro, organizado em função de uma equipa de especialistas, em trabalho interdisciplinar, o caos é o modo de produção da informação. O líder, o treinador principal decide, mas o que lhe chega é caótico. E onde procura ele o lugar mais próximo da verdade? Na prática! Não sou eu a dizê-lo tão-só: “A prática não significa apenas o momento de aplicação. É sobretudo a razão de ser da teoria, como a teoria (…) é a razão de ser da prática. Teorizar a prática e praticar a teoria são movimentos mutuamente implicados e complementares” (Pedro Demo, Conhecimento Moderno, Vozes, Rio de Janeiro, p. 67). Mas, dentro de um espaço devidamente organizado, já que a autoridade não é, não pode ser argumento científico. As ciências procuram a certeza, com a certeza que nunca serão certas, dado que todas as metodologias, mesmo as mais óbvias, sofrem de inúmeras limitações. No futebol, deve evitar-se também saber só de futebol (saber tudo de nada) ou um erro em que tombam alguns jornalistas e comentadores: especializar-se em generalidades de caráter demasiado impreciso e incerto (saber nada de tudo). Cada vez mais o treinador há-de ter do exercício da sua profissão uma noção essencialmente humanista e com sabedoria e bom senso. Sabedoria, onde a experiência se casa com um estudo constante: e bom senso, onde sabedoria é também equilíbrio, ordem, medida e, se possível, com um tolerante esprit de finesse. Enfim, um departamento de futebol de altos desempenhos deve saber transformar-se numa réplica de um centro científico de excelência, dando às qualidades humanas, à organização, à interdisciplinaridade e à Internet lugar de relevo. Há uma “patologia do saber”, no futebol, que se manifesta numa hiper-especialização sem o adequado paradigma. Quero eu dizer: há treinadores que trabalham como se os seus jogadores fossem seres biológicos tão-só e que não se movimentassem num universo de linguagem, de ideias, de consciência. No ser humano (e portanto no desporto) o bios não existe sem o logos. Tudo o que é cultura tem uma raiz biofísica e de tudo o que é biofísico emerge uma raiz cultural. A grande maioria dos problemas científicos, no futebol, ainda não têm resposta científica. E não só em Portugal...

8. No desporto, como em tudo o mais, sem conhecimento, não há intervenção, nem inovação credíveis. O empresário Jorge Mendes prende sobremaneira a atenção, quando se refere a Cristiano Ronaldo: “Em Inglaterra, ninguém tem dúvidas de que foi o melhor jogador de sempre que passou pela Premier League. Durante seis épocas, levou o Manchester United às costas. Nesse período, transformou-se no jogador que é hoje, fruto de muito trabalho (…). Ele chega aos treinos uma hora antes dos colegas e é o último a sair. Vai para casa e dorme a sesta. Depois, vai para o ginásio e é capaz de lá estar duas horas. Conhece-se a si próprio como ninguém. Sabe do que necessita e o que tem a fazer. É verdadeiramente impressionante”. E Jorge Mendes julga não desvirtuar a realidade, ao rematar: “Ele é o melhor jogador de todos os tempos” (A Bola, 2013/12/28). O futebol não se estuda apenas numa pessoa só, mas em muitas pessoas em interação. E todas elas, com a sua ideologia e cultura e vontade. O Ronaldo é ele e a sua circunstância: os seus colegas, os seus treinadores, os seus dirigentes, a sua família, os seus amigos. São palavras de António Damásio: “A emoção e o sentimento desempenham o papel principal, no comportamento social e, por extensão, no comportamento ético” (Ao Encontro de Espinosa, p. 34). Assim, o perfil genético, neurológico, psicológico, social, desportivo do atleta exige a interdisciplinaridade no departamento de futebol e que sejam, a começar no líder, trabalhadores do conhecimento aqueles que o constituem. Por outro lado, um grupo torna-se impossível, sem um certo grau de fidelidade a pessoas, a princípios e até a postulados da existência. A uma entrevista ao jornal A Bola (ibidem) declarou Cristiano Ronaldo: “A minha força vem sempre de dentro de mim. Da minha maneira de ser e de pensar”. Tem razão o CRT. Mas nele há muito mais coisas que o departamento de futebol não pode desconhecer. Um Cristiano Ronaldo não nasce sozinho, nem na família, nem num clube de futebol. Todos somos desejo e relação, desejo de relação e relação de desejo. Não é só um problema técnico e tecnológico a formação de um jogador e a criação de uma equipa. “Professor, dizia-me, há pouco tempo, o José Peseiro, só agora o entendo, quando nas suas aulas nos dizia: leiam os grandes romancistas, os grandes poetas, para compreenderem melhor o desporto”. O futebol não se resume a desempenhos físicos. Um jogo de futebol, de handebol, de basquetebol são pedaços da vida. A ciência faz parte da vida, mas a vida não é ciência tão-só.

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sábado, junho 04, 2011

Entrevista com o coordenador técnico da base do Grêmio

Thiago Corrêa, coordenador técnico das categorias de base do Grêmio
Profissional fala sobre o D.O.M., modelo de formação baseado na filosofia e cultura do clube gaúcho
Equipe Universidade do Futebol

Planejamento das atividades voltadas para o alto rendimento esportivo, controle rigoroso, individual e coletivo, dos profissionais envolvidos nesse processo e busca constante da melhoria das ações que conduzem a ótima performance. Em linhas gerais, o coordenador técnico, função cada vez mais consolidada no ambiente de futebol profissional moderno, é o articulador primordial desse ambiente.

Tal profissional deve facilitar e fazer funcionar, na forma e no conteúdo, cada aspecto do trabalho técnico esportivo de modo integrado, com diretrizes e princípios uniformes, instigando o desempenho e a produtividade de todos os envolvidos no complexo funcionamento de um departamento de futebol. No Grêmio Foot Ball Porto Alegrense, Thiago Corrêa Duarte é quem responde pela tarefa.

Arquitetado por preceitos científicos e metodológicos que conseguem ser, de maneira simultânea, coerentes com o ideal de jogo de treinador e o ideal de jogo do clube, enquanto cultura e filosofia, esse papel se reflete de maneira mais abrangente na criação do D.O.M. (Documento Orientador Metodológico). Trata-se de um modelo de formação baseado na filosofia e cultura do tradicional clube gaúcho.

“Esse ciclo do trabalho deve se caracterizar por uma organização dos aspectos da Metodologia do Processo de Ensino que dê conta da forma de jogar da equipe, ou seja, que leve uma verdadeira congruência que represente o ‘modo de jogar do Grêmio’”, explica Thiago, nesta entrevista àUniversidade do Futebol.

Formado em Educação Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ele se especializou em Portugal, na área de Treino de Alto Rendimento, onde teve contato com professores do gabarito de Júlio Garganta, Vitor Frade, José Guilherme, além de André Villas-Boas, treinador que se destacou na atual temporada européia comandando o FC Porto.

Os estudos focados na forma de jogar, na análise e síntese de jogo, e em tudo que envolve o treino e a sua periodização no futebol, capacitaram Thiago em seu trabalho como analista de desempenho da equipe principal gremista. Ao lado de Rafael Vieira e Mano Menezes, teve participação decisiva no desenvolvimento da Central de Dados Digitais do Grêmio (CDD).

“É comum no futebol as opiniões subjetivas sobre os motivos e acontecimentos perante uma observação momentânea. Nesse aspecto tendemos a ter julgamentos sobre os fatos/fatores determinantes para com o resultado do jogo. E desta forma as conclusões variam constantemente entre os observadores”, avalia.

Para Thiago, mesmo treinadores mais experientes e de alto nível absorvem pouco das peculiaridades que interferem de forma significativa no resultado do jogo de futebol. Assim, apenas com a observação complementar e de apoio que se aprende o que necessita melhorar, detectando-se como orientar e o que treinar.

Quando apresentou um projeto para as categorias de base com o intuito de buscar um modo de jogar das diversas equipes de formação, ele foi questionado. “Na verdade, muitos clubes brasileiros não têm uma forma de jogar definida nos diversos momentos do jogo e/ou não têm uma organização pré-estabelecida. De fato não só os brasileiros, mas poucos clubes no mundo têm uma forma de jogar concreta e uma organização de jogo pré-estabelecidas”, acredita Thiago.

Porém, o coordenador enxerga uma identidade, uma cultura de jogo, uma filosofia que precisa ser resgatada, resultado de um comportamento padrão, que não tem relação direta com o treinador que está comandando determinada equipe. “O Grêmio possui uma cultura e uma filosofia muito concretas. Independentemente de quem seja treinador e atletas, a equipe tem uma forma de jogar muito particular. Esse ‘modo de jogar’ emana das paredes de seu estádio, do grito e da paixão de seus adeptos, ou seja, de sua cultura”.

E o clube, diz Thiago, procura seguir essa orientação metodológica mais sistêmica, apesar de ser um projeto árduo e de longo prazo. Cabe a ele, integrante de uma estrutura cuja cultura educacional dificulta a implantação disso, atuar com o respaldo político. “Meu objetivo é organizar a base do Grêmio a tal ponto que ela tenha uma filosofia de jogo e de treino. É um processo que vai levar anos, mas temos que começar por algum ponto”.

Universidade do Futebol – Você é o novo coordenador técnico das categorias de base do Grêmio. Anteriormente desenvolvia a função de analista de desempenho. Como foi esta passagem e quais as diferenças entre estas duas importantes funções?

Thiago Corrêa – O trabalho desenvolvido no Departamento de Análise de Performance do Grêmio FBPA propicia uma ampla vivência voltada para a questão da compreensão do jogo, da organização dos sistemas, das equipes e entre as equipes, que por si só é algo muito complexo.

Aliado com minha experiência em Portugal no mestrado de Treino de Alto Rendimento, onde tive aulas com os Profs. Júlio Garganta, Vitor Frade, José Guilherme, (André) Villas-Boas, Tavares, Paulo Colaço, etc. que se preocupam com a questão da Metodologia do Processo de Ensino-Treino, da forma de jogar, da análise de jogo, da síntese de jogo e de tudo que envolve o treino e a sua periodização no futebol.

Com os conhecimentos adquiridos consegui chamar a atenção do gerente executivo do clube, Cícero Souza, que me convidou para exercer a função de coordenador técnico das categorias de base. Esta tarefa tem um alto grau dificuldade, além do desafio de ter que substituir o professor Édson Aguiar, profissional extremamente competente e capacitado, com larga experiência no futebol em diversas áreas do treino.

Ser analista de desempenho é analisar e sintetizar o desempenho da sua equipe, da equipe adversária, do seu atleta e do atleta adversário, repassando todas estas informações sobre o jogo de futebol em todas suas nuances.

Ser coordenador técnico é planejar, capacitar, controlar e orientar todo o trabalho realizado pelas categorias de base. Porém, quero salientar aqui que esse ciclo do trabalho deve se caracterizar por uma organização dos aspectos da Metodologia do Processo de Ensino que dê conta da forma de jogar da equipe, ou seja, que leve uma verdadeira congruência que represente o “modo de jogar do Grêmio”.



"Criador e criatura": Mourinho e Villas-Boas, dois exemplares formados na Universidade do Porto; Thiago Corrêa buscou a qualificação na mesma escola

 

Universidade do Futebol – O Grêmio possui uma “Central de Dados Digitais” criada com o propósito de se melhorar o desempenho e rendimento de seus atletas e suas equipes. Conte-nos um pouco sobre o que é e como funciona este trabalho.

Thiago Corrêa – O jogo de futebol está arquitetado em um conjunto de ações e elementos oriundos da relação de cooperação e oposição entre os participantes. Nesta perspectiva se faz necessária uma melhor compreensão e explanação desses fatos a fim de se interpretar melhor o jogo, e consequentemente possibilitando uma melhor interferência e regulação da metodologia do processo de ensino.

Desta forma, a maneira mais adequada de analisar e interpretar o jogo de futebol é através da análise de jogo, seja por intermédio de vídeos (análise qualitativa), ou por intermédio de dados em forma de números (análise quantitativa). Portanto, perante a caracterização do fenômeno futebol, têm-se como obrigatórias a compreensão e a interrogação de seus eventos na própria competição. Tendo em vista essa preocupação, o departamento profissional do Grêmio vem estruturando e instrumentalizando a sua “Central de Dados Digitais” para a devida análise do jogo do Grêmio e mapeamento de seus atletas e adversários.

Em nossa perspectiva, o sucesso deste trabalho no futebol se caracteriza pela mensuração e interpretação adequada dos resultados. Para os atletas atingirem grande performance é necessário um conjunto de princípios bem desenvolvidos nos treinamentos. Nesse sentido, quanto maior for a capacidade de antecipação dos acontecimentos, melhores serão as probabilidades de sucesso.

Em minha visão, o analista de desempenho deve desenvolver um ambiente condutivo de informação que permita o desenvolvimento de aprendizagem através do feedback que os atletas recebem diariamente. Este processo constituído pela observação de ações de jogo, pelo armazenamento das observações, pelo tratamento das observações e, finalmente, pela avaliação/valoração dos elementos de jogo.

É comum no futebol as opiniões subjetivas sobre os motivos e acontecimentos perante uma observação momentânea. Nesse aspecto tendemos a ter julgamentos sobre os fatos/fatores determinantes para com o resultado do jogo. E desta forma as conclusões variam constantemente entre os observadores.

Por sua vez, a observação se caracteriza por ser um procedimento que nos permite analisar e refletir sobre a realidade do jogo. Porém, a observação do jogo ao vivo possui algumas restrições com relação à qualidade da informação. Em virtude de o jogo ser constituído por uma sequência de acontecimentos complexos, que ocorrem ao longo da partida, se torna inviável a memorização e a análise, de forma precisa, de todas as ocorrências em campo.

Sabe-se que mesmo os treinadores mais experientes e de alto nível absorvem apenas cerca de 30% das peculiaridades que interferem de forma significativa no resultado do jogo de futebol. Sendo assim, seria através da observação complementar e de apoio que se aprende o que se necessita melhorar, detecta-se como se deve orientar e o que se tem que treinar a fim de se obter a meta desejada na próxima partida. Assim, toda e qualquer estruturação e modificação do treinamento necessita ser arquitetada e estruturada com preceitos advindos das informações extraídas do jogo.



Por conta das dificuldades de avaliação no momento do jogo, ferramentas de análise se tornam primordiais para o desenvolvimento de atividades e prospecção de talentos

 

Universidade do Futebol – Em sua opinião, como deve ser a relação do coordenador técnico com o treinador e demais membros da comissão técnica?

Thiago Corrêa – O coordenador técnico está para os gestores de campo (treinador e demais membros da comissão técnica), assim como o treinador está para seus atletas. Ou seja, é preciso que exista uma relação de liderança, de cooperação, de amizade e de profissionalismo. Claro que a relação entre seres humanos é algo muito complexo e exige muitos cuidados. Neste sentido penso que devemos ser profissionais antes de sermos amigos. Quando há critérios bem claros e definidos, há uma relação muito mais presumível de sucesso.

Como falei antes, o coordenador técnico deve planejar, capacitar, controlar e orientar o trabalho de seus coordenados principalmente em relação aos treinamentos e aos jogos das diversas categorias. Esta minha tarefa está arquitetada por preceitos científicos e metodológicos que conseguem ao mesmo tempo ser coerentes com o ideal de jogo de treinador e o ideal de jogo do clube, enquanto cultura e filosofia. Foi por isso que criamos o D.O.M. (Documento Orientador Metodológico), um modelo de formação baseado na filosofia e cultura do Grêmio, a fim de se garantir o “modo de jogar do Grêmio”.
 


 

Universidade do Futebol – Como se dá a integração do trabalho desenvolvido nas categorias de base com a equipe principal? A coordenação técnica da equipe principal tem semelhanças com a coordenação da base?

Thiago Corrêa – O clube deve ser um só, tanto em termos de metodologia do processo de ensino-treino, como na forma de jogar da equipe, claro que respeitando suas peculiaridades. Justifica-se, com isso, a elaboração do D.O.M.

Entendo que as categorias de base dos clubes devem exercer um trabalho formativo visando ao aproveitamento do atleta na equipe principal. Devem ter um trabalho de longo prazo desde sua iniciação (6, 7 e 8 anos) até as categorias profissionais (16, 17, 18, 19 e 20 anos), a fim de que o atleta vá gradativamente se adaptando à forma de jogar da equipe principal. Vejo aí um dos principais objetivos a serem perseguidos pelo coordenador técnico.

Quando apresentei o meu projeto para as categorias de base fui questionado sobre o porquê de se buscar um modo de jogar das nossas diversas equipes quando. Na verdade, muitos clubes brasileiros não têm uma forma de jogar definida nos diversos momentos do jogo e/ou não têm uma organização pré-estabelecida. De fato não só os brasileiros, mas poucos clubes no mundo têm uma forma de jogar concreta e uma organização de jogo pré-estabelecidas.

Porém há uma identidade, uma cultura de jogo, uma filosofia que precisa ser resgatada. Trata-se de uma cultura e uma filosofia que resultam em um comportamento padrão independentemente do treinador que está comandando. Há que se considerar as influências do ambiente, dos torcedores, dos dirigentes, entre outros aspectos que caracterizam fielmente o clube.

O Grêmio possui uma cultura e uma filosofia muito concretas. Independentemente de quem seja o treinador e atletas, a equipe tem uma forma de jogar muito particular. Esse “modo de jogar” emana das paredes de seu estádio, do grito e da paixão de seus adeptos, ou seja, de sua cultura. Com isso, respeitando os preceitos científicos e metodológicos para os treinos e jogos é que formulamos um documento orientador para este “modo de jogar” que denominamos de “Jogar ao Grêmio”.

E cabe também aqui destacar que o Grêmio possui hoje no elenco de sua equipe principal quase 50% de atletas oriundos de sua base. Dentre os times da Séria A do Campeonato Brasileiro, não há outro que tenha maior percentual.



Documento criado pelo coordenador técnico tem como alvo estabelecer uma metodologia específica de treino para cada equipe de formação "Jogar ao Grêmio"

 

Universidade do Futebol – Como os equipamentos e aparatos tecnológicos podem auxiliar na qualidade dos trabalhos realizados pelas comissões técnicas? Como se estabelece uma relação adequada de custo–benefício nesta área?

Thiago Corrêa – Todo e qualquer equipamento que possa auxiliar no desenvolvimento de um trabalho de mais qualidade é sempre benvindo. Porém, penso que não devemos nos deixar levar pela obrigação da tecnologia que o meio até certo ponto nos impõe. O equipamento só será útil se for funcional, ou seja, se tiver utilidade prática. Neste caso é preciso sempre avaliar a relação custo e benefício para qualquer inovação tecnológica.



"Equipamento só será útil se for funcional, ou seja, se tiver utilidade prática", sintetiza Thiago Corrêa, que participou do processo de confecção da CDD do Grêmio

 

Universidade do Futebol – Você é mestrando da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Qual o diferencial da formação acadêmica em termos da pedagogia do esporte de Portugal em relação ao Brasil? Quais as principais diferenças entre a formação do treinador em Portugal comparadas ao treinador brasileiro?

Thiago Corrêa – Em termos de formação acadêmica, Portugal se destaca por aprofundar mais as questões ligadas à complexidade do futebol do que no Brasil. Minha experiência está ligada à Universidade do Porto, que influenciou a formação de treinadores como José Mourinho e mais recentemente André Villas-Boas (treinador do Porto), entre outros. Lá se fala muito mais sobre a complexidade do jogo, sobre o confronto entre dois sistemas dinâmicos, construídos por partes complexas (seres humanos), por exemplo, do que aqui no Brasil.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde me formei, a ênfase ainda recai muito sobre os aspectos biológicos do entendimento do jogo de futebol. Embora a evolução física e fisiológica desta modalidade seja de extrema importância para o seu desenvolvimento, penso que deveríamos passar para um novo estágio da compreensão do fenômeno.

Universidade do Futebol – O Prof. Vitor Frade, destacado estudioso do futebol, afirma que “formar um equipe de futebol está no ato de criar situações (ambientes de aprendizagem) para que ela própria possa formar sua identidade.” O Grêmio procura seguir esta orientação metodológica? Ou este é um processo ainda distante dos clubes brasileiros?

Thiago Corrêa – Quero destacar em primeiro lugar que existem dois tipos de identidade: a identidade da forma de jogar da equipe e a identidade do clube de futebol em que essa equipe está inserida. Isto deve ficar bem claro. A equipe por si só cria uma identidade conforme sua habituação e sua vivência. Um grupo de atletas ou uma equipe ao treinar extensivamente juntos por longo período de tempo, através de experiências qualitativas e quantitativas, criam uma forma de jogar que é o resultado da interação entre todos que fazem parte da equipe. Ou seja, isto identifica uma forma ideal de jogar para aquele conjunto de atletas ou equipe.

Já o clube, enquanto entidade tem uma cultura e uma filosofia muito próprias (com exceção daqueles clubes novos, sem muita história). Muitas vezes dizemos que determinado atleta não tem a “cara do clube”, ou não se encaixa com o perfil da instituição. Por isso temos que tomar cuidado ao montarmos e treinarmos uma equipe de futebol.

Devemos, portanto, ter a habilidade de perceber a identidade da equipe, a identidade do clube e o que se pensa (treinador, coordenador) que é certo para jogar futebol. Mas atenção, pois invariavelmente a equipe forma sua própria identidade!

O Grêmio procura, sim, seguir essa orientação metodológica mais sistêmica. Mas reconheço é uma tarefa árdua e de longo prazo. Nossa cultura educacional, onde treinadores e atletas estão inseridos, dificulta a implantação deste pressuposto. Por isso buscamos tomar algumas medidas que, em longo prazo, possa obter esse resultado. Uma delas é o D.O.M. Meu objetivo é organizar a base do Grêmio a tal ponto que ela tenha uma filosofia de jogo e de treino. É um processo que vai levar anos, mas temos que começar por algum ponto.

Universidade do Futebol – Em se pensando o futebol no aspecto humano e social, você acredita que a influência da cultura condiciona um determinado tipo de comportamento? É possível se falar em escolas regionais de futebol?

Thiago Corrêa – O Vitor Frade em suas aulas sempre falou que o Brasil não tem um estilo de jogo próprio, pois ele é muito grande. No Sul não se joga da mesma forma que se joga no Centro ou no Norte. A partir daí podemos perguntar: como se pode ter uma forma particular de jogar em um determinado clube se a grande maioria dos seus atletas vem de outras regiões? Eu diria que é por causa da cultura e da filosofia do clube. Acredito muito nisso!

Os nossos comportamentos são extremamente influenciados pela cultura do ambiente onde estamos. Como falei antes, os comportamentos que temos durante uma situação, ou até mesmo o nosso comportamento para executar uma forma de jogar, não necessariamente é algo previamente descrito e treinado – pode ser “algo” que emana do ambiente onde estamos. “Algo” que nos influencia de alguma maneira a executarmos certa ação.
 


 

Universidade do Futebol – Em um de seus artigos, você sinaliza para a existência de uma identidade dentro do “Sistema Futebol” e outra fora do “Sistema Futebol”. Quais atividades e exercícios podem ser desenvolvidos no treinamento para que o atleta mantenha sua identidade própria, mas participe, concomitantemente, da identidade da equipe, na perspectiva do jogar que se pretende?

Thiago Corrêa – Gosto de dizer que a equipe é sempre mais que a soma de seus atletas, mas os atletas, por vezes, são mais e/ou menos que a própria equipe. Ou seja, quando há organização, há regras, e onde há regras, há restrições. Assim, de uma forma ou outra, restringimos em algo a manifestação de nossos atletas. A grande questão é encontrarmos um equilíbrio entre a ordem e desordem da organização, para não termos equipes muito mecânicas e limitadas.

A identidade do atleta tem que ser um fractal (*) da identidade da equipe. O atleta representa a equipe, em menor escala. A identidade da equipe é uma manifestação, também, da identidade do atleta e dos atletas. Para conseguirmos o equilíbrio ideal, precisamos acima de tudo saber contratar os atletas certos para montar a nossa equipe. Se formos treinadores de categorias de base, temos que saber montar a equipe ideal com os atletas que temos. Mas para as duas situações precisamos entender o atleta, interpretar sua personalidade, seu comportamento, sua identidade.

Creio que não há exercícios/meios ideais para que os atletas mantenham sua identidade equivalente com a identidade da equipe. O que há é a ocorrência frequente do comportamento coletivo e individual, e é isso que devemos ter em mente ao elaborar os exercício/meios a serem utilizados. Elaborar exercícios/meios que busquem padrões de comportamentos individuais e coletivos coerentes com a identidade do indivíduo, da equipe e principalmente do clube.

(*) Ou seja, o atleta (parte) por sua característica e funcionalidade, consegue representar a equipe (todo).

 

Reflexões sobre a organização no jogo de futebol 

 

Universidade do Futebol – Como coordenador técnico das categorias de base, de que modo você pensa capacitar os membros de suas comissões técnicas (treinadores, assistentes, preparadores etc.) no sentido de integrar o processo metodológico previsto em seu planejamento?

Thiago Corrêa – Gosto de oferecer periodicamente artigos, capítulos de livros, matérias esportivas etc., para estimular a reflexão e desenvolver a capacidade intelectual dos nossos profissionais, além de termos reuniões sistemáticas visando dar seguimento ao D.O.M., para que ao longo do processo possamos estabelecer e estruturar o “Jogar ao Grêmio”.

Promovemos também encontros mais ampliados como o Seminário de Futebol - Desafios do Alto Rendimento. A primeira edição foi em 2010 e contou com a presença dos professores Julio Garganta e José Guilherme, falando um pouco da metodologia de futebol e da periodização tática. Ajudou e muito a fazer com que os nossos treinadores e profissionais de campo percebessem um pouco mais sobre os aspectos mais evolutivos do treino e jogo do futebol.

Queremos fazer esse seminário anualmente, para que possamos capacitar cada vez mais nossos profissionais.



Cartaz da primeira edição do Seminário de Futebol - Desafios do Alto Rendimento: intenção do clube é promover eventos desse tipo sistematicamente

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