Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
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sexta-feira, julho 11, 2014

Oito lições que o Brasil precisa aprender com os melhores

SIMON KUPER
DO "FINANCIAL TIMES", EM SÃO PAULO

Há exatos dez anos, a seleção alemã estava no fundo do poço. Tinha sido eliminada da Eurocopa 2004 sem derrotar ninguém, nem mesmo a Letônia. Não havia nem mesmo alguém disposto a assumir o comando da seleção como treinador. Naquela semana, perguntei a Jürgen Klinsmann o que havia de errado com a Alemanha. "Não temos um matador no ataque", ele sorriu. "Ainda estamos cometendo o erro de trocar muitos passes laterais. A falta de velocidade pode ser outro motivo". Perguntei se era possível que ele assumisse como treinador da Alemanha: "Não!"

Três semanas mais tarde, Klinsmann se tornou treinador da seleção alemã. Ele e seu assistente Joachim Löw abandonaram a tradição e revolucionaram a maneira pela qual os alemães jogam futebol. Pouco antes desta Copa do Mundo, Klinsmann, hoje treinador da seleção dos Estados Unidos, elogiou a nova equipe alemã para a revista "Elf Freunde": "São jogadores de alta velocidade e muita técnica, que podem jogar um futebol furiosamente ofensivo com mudanças rápidas de posição. Tudo que planejamos em teoria em nossas pranchetas em 2004 se tornou realidade". O massacre do Brasil por sete a um na semifinal pode até se qualificar como hiper-realidade.

Agora o Brasil, no fundo do poço, precisa revolucionar sua maneira de jogar futebol. Eis oito lições que a Alemanha pode ensinar:

1. Não desperdice uma crise. Jamais haverá consenso maior quanto a repensar tudo em seu futebol do que agora. No jargão dos alemães, essa é a "hora zero".

2. O passado é irrelevante. Os cinco títulos mundiais brasileiros nada significam hoje. Só servem para causar a ilusão de que o Brasil continua bom no futebol. O objetivo deve ser jogar como a Alemanha em 2018, e não como o Brasil de 1970.

3. Não culpe indivíduos. Os torcedores brasileiros estavam vaiando o pobre e desavisado Fred, na noite de terça-feira, mas não era sua culpa que ele fosse, talvez, o melhor atacante do país. O sistema falhou. Fred é só um sintoma.

4. A coisa mais importante no futebol é o passe. Não é o drible, a paixão, ou a psicologia. Os alemães são obcecados pela geometria do passe. O Brasil, em contraste, já não pensa seriamente sobre tática, o que é o motivo para que o treinador Luiz Felipe Scolari e a mídia brasileira tenham passado metade do torneio obcecados com a propensão dos jogadores a chorar.

Felipão e Bernard

5. Aprenda com os melhores países. É preciso aceitar que o Brasil já não compreende como jogar futebol. Os alemães de 2004 aprenderam a passar com os holandeses e espanhóis, ritmo de jogo com a Premier League da Inglaterra, recrutamento nas categorias de base com os franceses e condicionamento físico com os norte-americanos.

6. O corolário é que o Brasil provavelmente necessita de um treinador estrangeiro. Klinsmann é alemão mas vive há muito fora de seu país, e foi parar na Califórnia. O Brasil deveria ter convidado o espanhol Pep Guardiola para treinar sua seleção na Copa do Mundo, como sugeriu Ronaldo. É hora de contratar um europeu, e já.

7. Não aceite menos que o primeiro lugar. Para a Alemanha ou o Brasil, o único objetivo é ser o melhor do mundo. Na Eurocopa de 2008, a jovem seleção alemã chegou à final, onde foi destruída pelo passe da seleção espanhola. Löw, o treinador alemão, não se congratulou pelo segundo lugar. Em lugar disso pensou que "quero montar uma seleção como a deles", e começou a trabalhar para tornar seu time mais parecido com a Espanha.

8. Os resultados não serão imediatos, mas é quase certo que o profissionalismo virá imediatamente. A Alemanha lidera o futebol em nutrição, estatística, preparação física e assim por diante. O Brasil precisa ter em mira exatamente a mesma coisa.

O caminho do Brasil para a reforma é mais difícil que o alemão. A federação de futebol da Alemanha tem 6,85 milhões de filiados e é a maior associação esportiva do planeta. O Brasil não tem um poder central comparável para promover mudança em todos os níveis.
O Brasil tem um único gênio, Neymar, que às vezes serve para esconder a doença que assola o futebol brasileiro. (Lionel Messi exerce o mesmo efeito de desaceleração na Argentina.) E geograficamente, o Brasil não está próximo aos países de futebol mais avançado.

Tudo isso dificulta o aprendizado. Mas não há desculpa para chegar à Rússia em 2018 (presumindo que o Brasil se classifique) falando na seleção de 1970 e no jogo bonito. Isso morreu.

Tradução de PAULO MIGLIACCI 

quarta-feira, julho 09, 2014

FUTEBOL NOSSO DE CADA DIA – Parte 1

 
Por: Benê Lima 

O que aconteceu com a Seleção Brasileira não é somente da Seleção, mas de todos nós brasileiros. Mais de uns que de outros, obviamente. 

Mas, se a questão que nos motiva é culpar ou eleger culpados, embora essa facilidade não nos atraia, façamos ao menos um rateio dessa culpa, e nos incluamos a todos, seja pelo nosso componente cultural, seja pela nossa característica intelectual, seja pelo arcabouço da nossa moralidade média, ou seja ainda pela natureza da ética que inspira nossas vidas. 

Portanto, façamos pois essa justa divisão de responsabilidade, mesmo sabendo, reiteramos, que a regra desta igualdade, será distribuir culpa com desigualdade, na exata proporção das diferenças entre as pessoas. Afinal, não se deve, por dever de justiça, desconsiderar o fato de que o Felipão é o retrato de uma sociedade cujos valores em que se tem estruturado, desprestigia a verdade, a complexidade, a interdisciplinaridade, e que trata, por inegável ignorância, o conhecimento como se fora um inimigo ou algo inescrutável. 

Enquanto vemos em muitos dos treinadores que trabalharam e trabalham nessa Copa a face da inovação, o toque da ousadia até, aos treinadores brasileiros parece haver uma proibição ou mesmo um roteiro de ideias preestabelecidas, onde qualquer atitude que pareça fugir da cartilha do habitual ou do conservadorismo encontra-se terminantemente proibido. 

Seria pouco provável vermos um Louis van Gal escalar um atleta e, em não vendo resultado, permanecer com o mesmo em campo, a despeito de todo o prejuízo que isso viesse a causar. Foi assim, por exemplo, o que ocorreu com Bernard, para ficarmos tão somente neste emblemático exemplo. 

Van Gaal x Felipão 
Lamentamos e demos publicidade a isso nas redes sociais, expressando a limitação da visão do treinador brasileiro, que se deixa prender algumas vezes a aspectos típicos de crendice, o que convenhamos, é um atraso, pela negação do conhecimento que isso representa. Falamos isto porque a camisa de Bernard é a de número 20, a mesma utilizada por Amarildo em 62, quando este veio a substituir o gênio Pelé.  
Outra coisa para a qual queremos chamar a atenção é para o caráter atípico da partida de ontem, a fim de que não seja ela o fator determinante para que se operem mudanças na estrutura do futebol brasileiro. 

É mais inteligente admitirmos que a goleada sofrida é apenas algo explosivo para as seguidas ‘implosões organizacionais’ com as quais nosso futebol vem convivendo.
 

Se for para atacar os problemas do nosso futebol de fato e verdadeiramente, que antes de pensarmos em reformular o trabalho de base com os jogadores, pensemos seriamente em fazer acréscimos à formação dos nossos profissionais das comissões técnicas, já que eles são os responsáveis pela formação dos nossos atletas. 
Portanto, é da mais absoluta importância que se dotem esses profissionais formadores de uma melhor e mais ampla formação, sem o quê é impossível iniciar-se o processo de mudança que nosso futebol está a requerer. 

Apesar da acachapante derrota dentro de campo, não deveria ser ela o objeto da vergonha nacional. E enquanto não tivermos capacidade para entender isso, estaremos condenados a repetir os mesmo erros. Ontem, a bola ainda rolava e já era visível o recrudescimento daquilo que nos falta. 

Brasil futebol 
Entendo que nós da imprensa também perdemos junto com nossa Seleção, isso porque boa parte da nossa representação é tão pouco reflexiva como a maioria dos brasileiros. 

Sugiro que não fechemos questão quanto ao ‘cardápio’ para a discussão sobre os rumos do nosso futebol, mas que primeiro estruturemos os ‘pratos’ que devam integrar o ‘cardápio desse grande debate. 

Creio que nem Governo nem CBF sozinhos devem estabelecer o rumo e os temas da prosa. Todos os desportistas que quiserem devem ter participação nesse fórum, mesmo que não haja (como não há) assento para todos. 

Mas o princípio da democracia representativa também nos serve em mais essa questão. 

Não desistamos do bom debate. ∴ 

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Comentário
"OI Benê, Seu comentário é muito adequado ao momento que estamos vivendo. É importante que as pessoas compartilhem as suas percepções para que não fiquemos tão dependentes do que a mídia quer colocar como real. Volte sempre. Um abraço Castilho"
Atenciosamente,
Redação Observatório da Imprensa
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domingo, julho 21, 2013

Padrão tático e cultura tática

Veja <COMENTÁRIOS>

Benê - CópiaPor Benê Lima

O padrão tático é a fotografia de uma equipe, e sua leitura depende fundamentalmente da cultura tática de quem o lê, assim como na fotografia

Tenho resistido em ceder ao impulso de escrever sobre o tema, primeiro porque não me considero a pessoa ideal para sobre ele ditar cátedra, depois pela descrença da maioria das pessoas sobre o tema. Os mais velhos porque não possuíram nem viveram o boom da cultura tática, os mais jovens porque a veem como mero exercício de dissuasão da complexidade, querendo torná-la a todos acessível e usando-a para tentarem abalar a importância dos técnicos de futebol, desse modo mantendo a ideia vigente de que a onda mudancista que sobrevive em torno da troca do técnico, sustentará os times e suas direções, salvando também os jogadores.

Padrão de jogo

É o mais geral e abrangente modelo de uma equipe, visto que representa o seu todo, englobando tanto o padrão tático quanto o padrão técnico. Portanto, desse ponto de vista, não é aceitável confundi-lo com padrão tático, embora seja este o que mais influencia o padrão geral de jogo das equipes.

Padrão técnico

O padrão técnico, em tese, é o que menos depende da atuação do treinador, em razão de boa parte dele ter origem na formação do atleta e especialmente na sua capacidade individual de habilidade e talento, bem como da compreensão do aspectos técnicos de sua expressão com a bola. Ele pode ser melhorado, posto que passes, chutes, recepção e condução de bola, drible e finta, todos estes elementos da técnica podem ser aperfeiçoados.

Padrão tático 

Aqui é onde o técnico exerce maior influência coletiva sobre a operacionalização do jogo e sobre o desempenho coletivo da equipe. É nesse estágio que o planejamento de jogo, como um dos pressupostos da formação do padrão tático entra em cena, mas muito mais como modelagem do padrão tático e não a ele se sobrepondo.

É ainda neste estágio que identificamos mais facilmente a plataforma estática de jogo com suas dinâmicas e variações, onde podemos também observar as transições defensivas e ofensivas, o nível da compactação, a geometria no desenvolvimento das jogadas, a profundidade ofensiva de seu jogo, entre outras situações.

Aqui também, desde que o observador possua acuidade e sensibilidade em sua cultura tática, pode-se ter vislumbres até mesmo do tipo de periodização tática utilizada, bem como lampejos dos elementos do plano tático maior, aquele que contempla princípios, subprincípios e sub-subprincípios e seus derivativos.


Com o objetivo de facilitar o entendimento e propor uma compreensão de modelos de padrão tático, tratamos aqui de uma questão pungente para uma de nossas equipes cearenses – o Fortaleza –, cujo comandante técnico é Hélio dos Anjos, experiente e detentor de inegáveis conhecimentos. Claro que ele pode discordar de alguns elementos que aqui propomos, e terá dupla autoridade para isso. Primeiro porque é o autor da “fotografia” que sua equipe nos passa; depois porque pode ter a sua mercê maiores melhores elementos do tecnicismo e do cientificismo que nós. Natural.

Na figura abaixo, podemos observar um instantâneo da plataforma tática do Fortaleza, que principia o funcionamento de seu padrão tático. Na figura há uma disposição um tanto frouxa dos jogadores, mas cada um deles cumpre funções e posicionamentos que se complementam e se completam entre si, por isso preferi não dispo-los em figuras geométricas perfeitas, exatamente para lembrar que cada um deles tem funções similares, mas também distintas a cumprir.

Outro fator que merece ser observado com atenção, são as peculiaridades relativas a determinados jogadores, como um meia canhoto que se posiciona mais pela direita (Guaru), são volantes que usualmente não jogam em linha (Jaílton e Esley), é um meia híbrido que tem de meia e de volante (Jackson) e que transita da esquerda para o meio, é um segundo volante que tanto faz a sobra quanto sai para dar apoio ao ataque como armador (Esley), são atacantes que se alternam como referência e que também jogam abertos, enfim.

FOR - Padrão tático defensivo

A imagem meramente ilustrativa abaixo, no que pese sua singeleza, creio que expressa uma ideia da dinâmica da movimentação da equipe do Fortaleza, donde podemos inferir certos elementos do plano tático e de algumas estratégias de jogo. É evidente que nenhuma equipe consegue tamanha compactação em circunstâncias normais de jogo, mas esta é a figura idealizada de uma situação pontual que assistimos neste domingo (21) frente ao Brasiliense, embora os jogadores envolvidos já não tivessem exatamente esta numeração.

Nesta situação típica de uma potente transição ofensiva, observamos não o pressing (coisa rara entre nossos times), mas uma pressão vertical e certa pressão na recuperação da bola, o que permitiu posse e domínio.

O que muitas vezes as pessoas se perguntam, é por que tal situação não se traduz em gols. Mas não vejo dificuldade em compreendermos essa questão. Afinal, como um processo de interação, o jogo precisa de um encaixe em suas diferentes fases (construção, elaboração, semifinalização e finalização), sem o quê o adversário assimila a pressão e consegue fazê-la eficiente, mas sem eficácia. Hoje vimos isto.

FOR - Padrão tático ofensivo

A questão aqui proposta é mais de valorizar o aspecto tático do futebol, e menos de provar a competência ou incompetência de quem que seja. Sem presunção alguma, seria fácil apontar alguns equívocos do técnico Hélio dos Anjos, mas não vejo relevância nisto pela consciência que tenho da importância de seu trabalho.

Como disse noutro artigo, Ceará e Fortaleza precisam encarar suas situações contraproducentes e tentar interagir com elas e com seus responsáveis, a fim de que suas equipes possam incorporar um melhor padrão técnico, tático e de jogo.

(Ilustração do 4-4-2 diamante, também conhecido como 4-1-2-1-2)

Tática - 4-4-2_diamond

(Não há bibliografia a citar, haja vista que nada do que aqui está é fruto de pesquisa.)

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sábado, julho 20, 2013

Os prós e contras de Sérgio Guedes

Por Benê Lima

O respeito ao trabalho dos técnicos e comissões técnicas e seus treinadores deve fazer parte da análise de qualquer cronista

Evito o expediente de atribuir nota ao trabalho do técnico de futebol , visto que isso nos coloca, pelo menos aparentemente, numa desconfortável condição de pretendermos saber mais que eles. E isto nem condiz com nossa pretensão nem reflete a realidade dos fatos. Afinal, o mais natural é que mesmo teoricamente os técnicas saibam mais que nós. Portanto, separemos aqui o que é a seara do técnico do que é a do analista. Neste ponto, vale dizer que não é lícito exigir de nós cronistas que concorramos com os técnicos e treinadores na aplicação dos treinamentos. Afinal, não é esta nossa missão. O exercício do nosso papel portanto, restringe-se a tentarmos identificar as nuances daquilo que pode ou não resultar do trabalho da comissão técnica. Nada mais.

O que pode ser acrescentado a essa análise, provém da condição do analista de possuir em sua formação uma bagagem de conhecimento que perpasse diferentes aspectos culturais e intelectuais, o que lhe permite uma mais rica abordagem do futebol, à luz das ciências humanas.

Considero irrelevante determinadas preferências do técnico – seja ele quem for - por esse ou aquele jogador. O que me parece relevante é se as atribuições confiadas ao atleta foram por ele cumpridas no limite de sua capacidade. A propósito, sabe-se que Sérgio Guedes há demonstrado, pelo menos por enquanto, preferência pelo atacante Macena em detrimento a Lulinha. Do ponto de vista da confiança, não vejo dificuldade em compreender a posição do técnico. O que é inaceitável é que não se tente integrar Lulinha por inteiro ao bloco dos essenciais ao grupo, a fim de torná-lo verdadeiramente uma opção tática relevante.

É líquido e certo que Sérgio Guedes equivocou-se em suas opções para enfrentar o Bragantino. Havíamos alertado em nosso programa diário de rádio – o Companhia do Esporte - para o fato de que Benazzi havia dado a este time a característica da pegada. Outra característica usual às equipes de Benazzi é a preferência por três zagueiros. Levados estes dois fatores na devida conta, o que se viu foi o poder de fogo do Ceará praticamente anulado pelo adversário. Portanto, eis a caracterização do erro conceitual de Guedes.

Todavia, vendo cair por terra seu planejamento tático, Sérgio Guedes teve o mérito de uma reação imediata, não esperando sequer o intervalo da partida para promover a primeira substituição em sua equipe. Sacou o meio-campista Eusébio, completamente perdido e inoperante em campo, colocando o atacante Adriano Pardal em seu lugar. Em tese, isso tornaria a equipe mais ofensiva, além de modificar sua estrutura tática e sua dinâmica, passando de uma plataforma tática 1-4-3-1-2 para 1-4-2-1-3. Outra providência que havia sido tomada foi a mudança de posicionamento entre João Marcos e Diogo Orlando, em razão do gol sofrido pelo setor direito da defesa alvinegra. Diogo não dava conta da velocidade do armador Thiaguinho, apoiado pelo lateral Rafael Costa. Como João Marcos tem mais velocidade e consegue diminuir os espaços e fazer uma marcação mais próxima, passou a cair pelo setor.

(A imagem abaixo ilustra a facilidade do sistema de marcação do Bragantino até a saída de Eusébio.)

Tática - Bragantino x Ceará 01

Após a entrada de Adriano Pardal, o Ceará passou a jogar com três atacantes, desse modo eliminando a sobra da zaga do Bragantino, que teve de recuar um volante para voltar a ter o homem da sobra. Isso também equilibrou a disputa no meio-campo e o Ceará pode transitar com um pouco mais de desenvoltura naquele setor, transferindo um pouco mais de força ofensiva à equipe.

(Veja na imagem abaixo o quanto o Ceará ganhou taticamente em seu repertório de jogadas, em profundidade e na amplitude das mesmas.)

Tática - Bragantino x Ceará 01[56]-MOTION

Podemos dizer portanto, que o equívoco em sua atitude proativa tirou pontos do desempenho do técnico Sérgio Guedes, sobretudo pelo gol sofrido antes que a correção viesse. No entanto, temos que considerar a atitude reativa relativamente rápida do técnico, que ainda na primeira etapa, por volta dos 35 minutos, trocou  uma peça, mudou o esquema tático e reposicionou sua equipe.

Vale registrar que fora da alçada do técnico alvinegro, o grosso do desempenho técnico individual da equipe ficou abaixo da média e do potencial dos jogadores, situação que, ao contrário de maximizar o trabalho do técnico, acabou por minimizar seus efeitos.


ENTENDA A FUNÇÃO TÁTICA DE UM JOGADOR

RichelyAtleta: Richely

Tem a função de puxar os contra-ataques, ajudando a fazer a transição ofensiva pelo setor direito; marcar a saída do zagueiro da esquerda e do volante do mesmo lado; dar apoio defensivo ao lateral-direito na ausência do volante e com ele (lateral) dialogar na jogada ofensiva, além de fazer a aproximação com o Magno.


Autor: Benê Lima

Fim dos estaduais por quê?

Por Benê Lima

Benê - Cópia“Não existe uma solução global que seja cem por cento adaptável a problemas locais.”

 

Discutirmos O calendário do futebol brasileiro não é discutirmos UM Calendário para o futebol brasileiro, que contemple as diferenças estaduais, regionais, culturais e econômicas. Portanto, é importante sim discutirmos não só esta, mas outras questões de relevância que se relacionem com o maior ou menor sucesso do futebol. Contudo, é preciso que o debate não tenha como ponto de partida ideias preconcebidas, tidas como acabadas (prontas), sem sequer terem sido submetidas minimamente ao teste pragmático da verdade. 

No Brasil do futebol, vendemos aos torcedores mediocridade pelo preço de celebridade. Esse sofisma acaba por desgastar o produto futebol e não possui auto-sustentabilidade que possa manter o produto no topo da preferência do cliente-torcedor. 

 

 

As figuras abaixo simbolizam a visão dos torcedores destes clubes em relação à importância do Brasileirão

Náutico vê 02

 

 Corinthians vê 02

Não resta dúvida que é bom ver os torcedores buscarem esclarecimento. Porém, nossos clubes deveriam ter mais torcedores para curti-los e menos torcedores-gestores para criticá-los. 

O processo de globalização deve respeitar as vocações regionais, as peculiaridades locais e, sobretudo, as identidades culturais, sem o quê não deveria merecer de nós nenhum respeito. 

O pensador do futebol que desconsidera os aspectos antropológicos e sociológicos para a compreensão do mesmo, também estará na Idade da Pedra. Portanto, não vejo que precisemos ter um modelo único de gestão do futebol para todas as regiões do nosso país. Neste caso, entenda-se por modelo a concepção daquilo que pretendemos para formatação do produto futebol, do ponto de vista de suas competições. 

Do mesmo modo que os campeonatos estaduais são ditos moribundos, podemos assim rotular o Brasileirão, embora concorde que há exagero nisto. O mesmo pode ser dito sobre a Copa do Brasil, onde há equipes programando abdicarem de sua disputa. 

Todo os dias escutamos a imprensa discutindo a falta de motivação de clubes como o Corinthians em relação ao Brasileiro. Já pensaram sobre isto? A propósito, será que o Brasileirão, nossa maior competição e melhor produto futebolístico nacional, tem intrinsecamente o mesmo valor e motivação para Náutico e Corinthians? 

O que dizer da contra tendência que se ergue no futebol pernambucano, de ter seis arenas e um campeonato estadual com sessenta equipes? Não diria nem que estão certos nem que estão errados. Sugiro - isto sim - uma ampla e mais criteriosa discussão sobre o tema, levando em conta o que todo palestrante deveria fazer: considerar as questões de forma contextualizada. 

É mais comum do que se imagina, que as soluções para a casa de A não se apliquem a casa de B.

Linkedin 01

segunda-feira, julho 08, 2013

A hibridez de Scolari é transgênica

Há mais espaço para Parreira influenciar Felipão que para este abalar as convicções daquele


Por Benê Lima


As mudanças observadas no técnico da seleção brasileira não me parecem resultado de uma lavagem cerebral. Prefiro vê-las como um processo de interação entre ele e seu auxiliar técnico. O maior mérito de Scolari é ter sido receptivo à influência de Parreira, visto que da soma dos dois nos parece surgir um mais rico componente metodológico em termos de treinamento desportivo.

Nem Parreira e menos ainda Felipão possuem mentalidade declaradamente neoprogressista, mas é inegável que essa ‘transgenicidade’ tem feito bem aos dois, e de modo mais especial ao escolado Scolari. E essa espécie de subversão auto-imposta ao conservadorismo de ambos, tem resultado num novo ‘genoma’, que tanto em sua expressão verbal quanto em concepções de princípios e subprincípios do jogo tem-se mostrado mais elaborado e eficaz.


E o melhor é que além do parâmetro produtivo que pudemos observar – que de fato é o mais confiável -, viu-se ainda a corroboração deste pela ótica da conquista do título. Isso terá efeito dos mais positivos na preparação da equipe, trazendo de volta a tão necessária confiança nas potencialidades da equipe e a convicção de que o trabalho está no rumo certo.

O próximo desafio que a comissão técnica da seleção brasileira deve colocar para si é o de fazer acréscimo às propostas de jogo, estando atenta não só ao que se passará no futebol mundial, especialmente no europeu (sem perder de vista o asiático), mas também ficar atenta à performance dos brasileiros, sejam os daqui sejam os de fora do país, a fim de que possamos chegar à Copa 2014 mais uma vez renovados pela possibilidade de upgrades e ‘F5’.

Vigiemos e teclemos.
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sábado, junho 04, 2011

Entrevista com o coordenador técnico da base do Grêmio

Thiago Corrêa, coordenador técnico das categorias de base do Grêmio
Profissional fala sobre o D.O.M., modelo de formação baseado na filosofia e cultura do clube gaúcho
Equipe Universidade do Futebol

Planejamento das atividades voltadas para o alto rendimento esportivo, controle rigoroso, individual e coletivo, dos profissionais envolvidos nesse processo e busca constante da melhoria das ações que conduzem a ótima performance. Em linhas gerais, o coordenador técnico, função cada vez mais consolidada no ambiente de futebol profissional moderno, é o articulador primordial desse ambiente.

Tal profissional deve facilitar e fazer funcionar, na forma e no conteúdo, cada aspecto do trabalho técnico esportivo de modo integrado, com diretrizes e princípios uniformes, instigando o desempenho e a produtividade de todos os envolvidos no complexo funcionamento de um departamento de futebol. No Grêmio Foot Ball Porto Alegrense, Thiago Corrêa Duarte é quem responde pela tarefa.

Arquitetado por preceitos científicos e metodológicos que conseguem ser, de maneira simultânea, coerentes com o ideal de jogo de treinador e o ideal de jogo do clube, enquanto cultura e filosofia, esse papel se reflete de maneira mais abrangente na criação do D.O.M. (Documento Orientador Metodológico). Trata-se de um modelo de formação baseado na filosofia e cultura do tradicional clube gaúcho.

“Esse ciclo do trabalho deve se caracterizar por uma organização dos aspectos da Metodologia do Processo de Ensino que dê conta da forma de jogar da equipe, ou seja, que leve uma verdadeira congruência que represente o ‘modo de jogar do Grêmio’”, explica Thiago, nesta entrevista àUniversidade do Futebol.

Formado em Educação Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ele se especializou em Portugal, na área de Treino de Alto Rendimento, onde teve contato com professores do gabarito de Júlio Garganta, Vitor Frade, José Guilherme, além de André Villas-Boas, treinador que se destacou na atual temporada européia comandando o FC Porto.

Os estudos focados na forma de jogar, na análise e síntese de jogo, e em tudo que envolve o treino e a sua periodização no futebol, capacitaram Thiago em seu trabalho como analista de desempenho da equipe principal gremista. Ao lado de Rafael Vieira e Mano Menezes, teve participação decisiva no desenvolvimento da Central de Dados Digitais do Grêmio (CDD).

“É comum no futebol as opiniões subjetivas sobre os motivos e acontecimentos perante uma observação momentânea. Nesse aspecto tendemos a ter julgamentos sobre os fatos/fatores determinantes para com o resultado do jogo. E desta forma as conclusões variam constantemente entre os observadores”, avalia.

Para Thiago, mesmo treinadores mais experientes e de alto nível absorvem pouco das peculiaridades que interferem de forma significativa no resultado do jogo de futebol. Assim, apenas com a observação complementar e de apoio que se aprende o que necessita melhorar, detectando-se como orientar e o que treinar.

Quando apresentou um projeto para as categorias de base com o intuito de buscar um modo de jogar das diversas equipes de formação, ele foi questionado. “Na verdade, muitos clubes brasileiros não têm uma forma de jogar definida nos diversos momentos do jogo e/ou não têm uma organização pré-estabelecida. De fato não só os brasileiros, mas poucos clubes no mundo têm uma forma de jogar concreta e uma organização de jogo pré-estabelecidas”, acredita Thiago.

Porém, o coordenador enxerga uma identidade, uma cultura de jogo, uma filosofia que precisa ser resgatada, resultado de um comportamento padrão, que não tem relação direta com o treinador que está comandando determinada equipe. “O Grêmio possui uma cultura e uma filosofia muito concretas. Independentemente de quem seja treinador e atletas, a equipe tem uma forma de jogar muito particular. Esse ‘modo de jogar’ emana das paredes de seu estádio, do grito e da paixão de seus adeptos, ou seja, de sua cultura”.

E o clube, diz Thiago, procura seguir essa orientação metodológica mais sistêmica, apesar de ser um projeto árduo e de longo prazo. Cabe a ele, integrante de uma estrutura cuja cultura educacional dificulta a implantação disso, atuar com o respaldo político. “Meu objetivo é organizar a base do Grêmio a tal ponto que ela tenha uma filosofia de jogo e de treino. É um processo que vai levar anos, mas temos que começar por algum ponto”.

Universidade do Futebol – Você é o novo coordenador técnico das categorias de base do Grêmio. Anteriormente desenvolvia a função de analista de desempenho. Como foi esta passagem e quais as diferenças entre estas duas importantes funções?

Thiago Corrêa – O trabalho desenvolvido no Departamento de Análise de Performance do Grêmio FBPA propicia uma ampla vivência voltada para a questão da compreensão do jogo, da organização dos sistemas, das equipes e entre as equipes, que por si só é algo muito complexo.

Aliado com minha experiência em Portugal no mestrado de Treino de Alto Rendimento, onde tive aulas com os Profs. Júlio Garganta, Vitor Frade, José Guilherme, (André) Villas-Boas, Tavares, Paulo Colaço, etc. que se preocupam com a questão da Metodologia do Processo de Ensino-Treino, da forma de jogar, da análise de jogo, da síntese de jogo e de tudo que envolve o treino e a sua periodização no futebol.

Com os conhecimentos adquiridos consegui chamar a atenção do gerente executivo do clube, Cícero Souza, que me convidou para exercer a função de coordenador técnico das categorias de base. Esta tarefa tem um alto grau dificuldade, além do desafio de ter que substituir o professor Édson Aguiar, profissional extremamente competente e capacitado, com larga experiência no futebol em diversas áreas do treino.

Ser analista de desempenho é analisar e sintetizar o desempenho da sua equipe, da equipe adversária, do seu atleta e do atleta adversário, repassando todas estas informações sobre o jogo de futebol em todas suas nuances.

Ser coordenador técnico é planejar, capacitar, controlar e orientar todo o trabalho realizado pelas categorias de base. Porém, quero salientar aqui que esse ciclo do trabalho deve se caracterizar por uma organização dos aspectos da Metodologia do Processo de Ensino que dê conta da forma de jogar da equipe, ou seja, que leve uma verdadeira congruência que represente o “modo de jogar do Grêmio”.



"Criador e criatura": Mourinho e Villas-Boas, dois exemplares formados na Universidade do Porto; Thiago Corrêa buscou a qualificação na mesma escola

 

Universidade do Futebol – O Grêmio possui uma “Central de Dados Digitais” criada com o propósito de se melhorar o desempenho e rendimento de seus atletas e suas equipes. Conte-nos um pouco sobre o que é e como funciona este trabalho.

Thiago Corrêa – O jogo de futebol está arquitetado em um conjunto de ações e elementos oriundos da relação de cooperação e oposição entre os participantes. Nesta perspectiva se faz necessária uma melhor compreensão e explanação desses fatos a fim de se interpretar melhor o jogo, e consequentemente possibilitando uma melhor interferência e regulação da metodologia do processo de ensino.

Desta forma, a maneira mais adequada de analisar e interpretar o jogo de futebol é através da análise de jogo, seja por intermédio de vídeos (análise qualitativa), ou por intermédio de dados em forma de números (análise quantitativa). Portanto, perante a caracterização do fenômeno futebol, têm-se como obrigatórias a compreensão e a interrogação de seus eventos na própria competição. Tendo em vista essa preocupação, o departamento profissional do Grêmio vem estruturando e instrumentalizando a sua “Central de Dados Digitais” para a devida análise do jogo do Grêmio e mapeamento de seus atletas e adversários.

Em nossa perspectiva, o sucesso deste trabalho no futebol se caracteriza pela mensuração e interpretação adequada dos resultados. Para os atletas atingirem grande performance é necessário um conjunto de princípios bem desenvolvidos nos treinamentos. Nesse sentido, quanto maior for a capacidade de antecipação dos acontecimentos, melhores serão as probabilidades de sucesso.

Em minha visão, o analista de desempenho deve desenvolver um ambiente condutivo de informação que permita o desenvolvimento de aprendizagem através do feedback que os atletas recebem diariamente. Este processo constituído pela observação de ações de jogo, pelo armazenamento das observações, pelo tratamento das observações e, finalmente, pela avaliação/valoração dos elementos de jogo.

É comum no futebol as opiniões subjetivas sobre os motivos e acontecimentos perante uma observação momentânea. Nesse aspecto tendemos a ter julgamentos sobre os fatos/fatores determinantes para com o resultado do jogo. E desta forma as conclusões variam constantemente entre os observadores.

Por sua vez, a observação se caracteriza por ser um procedimento que nos permite analisar e refletir sobre a realidade do jogo. Porém, a observação do jogo ao vivo possui algumas restrições com relação à qualidade da informação. Em virtude de o jogo ser constituído por uma sequência de acontecimentos complexos, que ocorrem ao longo da partida, se torna inviável a memorização e a análise, de forma precisa, de todas as ocorrências em campo.

Sabe-se que mesmo os treinadores mais experientes e de alto nível absorvem apenas cerca de 30% das peculiaridades que interferem de forma significativa no resultado do jogo de futebol. Sendo assim, seria através da observação complementar e de apoio que se aprende o que se necessita melhorar, detecta-se como se deve orientar e o que se tem que treinar a fim de se obter a meta desejada na próxima partida. Assim, toda e qualquer estruturação e modificação do treinamento necessita ser arquitetada e estruturada com preceitos advindos das informações extraídas do jogo.



Por conta das dificuldades de avaliação no momento do jogo, ferramentas de análise se tornam primordiais para o desenvolvimento de atividades e prospecção de talentos

 

Universidade do Futebol – Em sua opinião, como deve ser a relação do coordenador técnico com o treinador e demais membros da comissão técnica?

Thiago Corrêa – O coordenador técnico está para os gestores de campo (treinador e demais membros da comissão técnica), assim como o treinador está para seus atletas. Ou seja, é preciso que exista uma relação de liderança, de cooperação, de amizade e de profissionalismo. Claro que a relação entre seres humanos é algo muito complexo e exige muitos cuidados. Neste sentido penso que devemos ser profissionais antes de sermos amigos. Quando há critérios bem claros e definidos, há uma relação muito mais presumível de sucesso.

Como falei antes, o coordenador técnico deve planejar, capacitar, controlar e orientar o trabalho de seus coordenados principalmente em relação aos treinamentos e aos jogos das diversas categorias. Esta minha tarefa está arquitetada por preceitos científicos e metodológicos que conseguem ao mesmo tempo ser coerentes com o ideal de jogo de treinador e o ideal de jogo do clube, enquanto cultura e filosofia. Foi por isso que criamos o D.O.M. (Documento Orientador Metodológico), um modelo de formação baseado na filosofia e cultura do Grêmio, a fim de se garantir o “modo de jogar do Grêmio”.
 


 

Universidade do Futebol – Como se dá a integração do trabalho desenvolvido nas categorias de base com a equipe principal? A coordenação técnica da equipe principal tem semelhanças com a coordenação da base?

Thiago Corrêa – O clube deve ser um só, tanto em termos de metodologia do processo de ensino-treino, como na forma de jogar da equipe, claro que respeitando suas peculiaridades. Justifica-se, com isso, a elaboração do D.O.M.

Entendo que as categorias de base dos clubes devem exercer um trabalho formativo visando ao aproveitamento do atleta na equipe principal. Devem ter um trabalho de longo prazo desde sua iniciação (6, 7 e 8 anos) até as categorias profissionais (16, 17, 18, 19 e 20 anos), a fim de que o atleta vá gradativamente se adaptando à forma de jogar da equipe principal. Vejo aí um dos principais objetivos a serem perseguidos pelo coordenador técnico.

Quando apresentei o meu projeto para as categorias de base fui questionado sobre o porquê de se buscar um modo de jogar das nossas diversas equipes quando. Na verdade, muitos clubes brasileiros não têm uma forma de jogar definida nos diversos momentos do jogo e/ou não têm uma organização pré-estabelecida. De fato não só os brasileiros, mas poucos clubes no mundo têm uma forma de jogar concreta e uma organização de jogo pré-estabelecidas.

Porém há uma identidade, uma cultura de jogo, uma filosofia que precisa ser resgatada. Trata-se de uma cultura e uma filosofia que resultam em um comportamento padrão independentemente do treinador que está comandando. Há que se considerar as influências do ambiente, dos torcedores, dos dirigentes, entre outros aspectos que caracterizam fielmente o clube.

O Grêmio possui uma cultura e uma filosofia muito concretas. Independentemente de quem seja o treinador e atletas, a equipe tem uma forma de jogar muito particular. Esse “modo de jogar” emana das paredes de seu estádio, do grito e da paixão de seus adeptos, ou seja, de sua cultura. Com isso, respeitando os preceitos científicos e metodológicos para os treinos e jogos é que formulamos um documento orientador para este “modo de jogar” que denominamos de “Jogar ao Grêmio”.

E cabe também aqui destacar que o Grêmio possui hoje no elenco de sua equipe principal quase 50% de atletas oriundos de sua base. Dentre os times da Séria A do Campeonato Brasileiro, não há outro que tenha maior percentual.



Documento criado pelo coordenador técnico tem como alvo estabelecer uma metodologia específica de treino para cada equipe de formação "Jogar ao Grêmio"

 

Universidade do Futebol – Como os equipamentos e aparatos tecnológicos podem auxiliar na qualidade dos trabalhos realizados pelas comissões técnicas? Como se estabelece uma relação adequada de custo–benefício nesta área?

Thiago Corrêa – Todo e qualquer equipamento que possa auxiliar no desenvolvimento de um trabalho de mais qualidade é sempre benvindo. Porém, penso que não devemos nos deixar levar pela obrigação da tecnologia que o meio até certo ponto nos impõe. O equipamento só será útil se for funcional, ou seja, se tiver utilidade prática. Neste caso é preciso sempre avaliar a relação custo e benefício para qualquer inovação tecnológica.



"Equipamento só será útil se for funcional, ou seja, se tiver utilidade prática", sintetiza Thiago Corrêa, que participou do processo de confecção da CDD do Grêmio

 

Universidade do Futebol – Você é mestrando da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Qual o diferencial da formação acadêmica em termos da pedagogia do esporte de Portugal em relação ao Brasil? Quais as principais diferenças entre a formação do treinador em Portugal comparadas ao treinador brasileiro?

Thiago Corrêa – Em termos de formação acadêmica, Portugal se destaca por aprofundar mais as questões ligadas à complexidade do futebol do que no Brasil. Minha experiência está ligada à Universidade do Porto, que influenciou a formação de treinadores como José Mourinho e mais recentemente André Villas-Boas (treinador do Porto), entre outros. Lá se fala muito mais sobre a complexidade do jogo, sobre o confronto entre dois sistemas dinâmicos, construídos por partes complexas (seres humanos), por exemplo, do que aqui no Brasil.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde me formei, a ênfase ainda recai muito sobre os aspectos biológicos do entendimento do jogo de futebol. Embora a evolução física e fisiológica desta modalidade seja de extrema importância para o seu desenvolvimento, penso que deveríamos passar para um novo estágio da compreensão do fenômeno.

Universidade do Futebol – O Prof. Vitor Frade, destacado estudioso do futebol, afirma que “formar um equipe de futebol está no ato de criar situações (ambientes de aprendizagem) para que ela própria possa formar sua identidade.” O Grêmio procura seguir esta orientação metodológica? Ou este é um processo ainda distante dos clubes brasileiros?

Thiago Corrêa – Quero destacar em primeiro lugar que existem dois tipos de identidade: a identidade da forma de jogar da equipe e a identidade do clube de futebol em que essa equipe está inserida. Isto deve ficar bem claro. A equipe por si só cria uma identidade conforme sua habituação e sua vivência. Um grupo de atletas ou uma equipe ao treinar extensivamente juntos por longo período de tempo, através de experiências qualitativas e quantitativas, criam uma forma de jogar que é o resultado da interação entre todos que fazem parte da equipe. Ou seja, isto identifica uma forma ideal de jogar para aquele conjunto de atletas ou equipe.

Já o clube, enquanto entidade tem uma cultura e uma filosofia muito próprias (com exceção daqueles clubes novos, sem muita história). Muitas vezes dizemos que determinado atleta não tem a “cara do clube”, ou não se encaixa com o perfil da instituição. Por isso temos que tomar cuidado ao montarmos e treinarmos uma equipe de futebol.

Devemos, portanto, ter a habilidade de perceber a identidade da equipe, a identidade do clube e o que se pensa (treinador, coordenador) que é certo para jogar futebol. Mas atenção, pois invariavelmente a equipe forma sua própria identidade!

O Grêmio procura, sim, seguir essa orientação metodológica mais sistêmica. Mas reconheço é uma tarefa árdua e de longo prazo. Nossa cultura educacional, onde treinadores e atletas estão inseridos, dificulta a implantação deste pressuposto. Por isso buscamos tomar algumas medidas que, em longo prazo, possa obter esse resultado. Uma delas é o D.O.M. Meu objetivo é organizar a base do Grêmio a tal ponto que ela tenha uma filosofia de jogo e de treino. É um processo que vai levar anos, mas temos que começar por algum ponto.

Universidade do Futebol – Em se pensando o futebol no aspecto humano e social, você acredita que a influência da cultura condiciona um determinado tipo de comportamento? É possível se falar em escolas regionais de futebol?

Thiago Corrêa – O Vitor Frade em suas aulas sempre falou que o Brasil não tem um estilo de jogo próprio, pois ele é muito grande. No Sul não se joga da mesma forma que se joga no Centro ou no Norte. A partir daí podemos perguntar: como se pode ter uma forma particular de jogar em um determinado clube se a grande maioria dos seus atletas vem de outras regiões? Eu diria que é por causa da cultura e da filosofia do clube. Acredito muito nisso!

Os nossos comportamentos são extremamente influenciados pela cultura do ambiente onde estamos. Como falei antes, os comportamentos que temos durante uma situação, ou até mesmo o nosso comportamento para executar uma forma de jogar, não necessariamente é algo previamente descrito e treinado – pode ser “algo” que emana do ambiente onde estamos. “Algo” que nos influencia de alguma maneira a executarmos certa ação.
 


 

Universidade do Futebol – Em um de seus artigos, você sinaliza para a existência de uma identidade dentro do “Sistema Futebol” e outra fora do “Sistema Futebol”. Quais atividades e exercícios podem ser desenvolvidos no treinamento para que o atleta mantenha sua identidade própria, mas participe, concomitantemente, da identidade da equipe, na perspectiva do jogar que se pretende?

Thiago Corrêa – Gosto de dizer que a equipe é sempre mais que a soma de seus atletas, mas os atletas, por vezes, são mais e/ou menos que a própria equipe. Ou seja, quando há organização, há regras, e onde há regras, há restrições. Assim, de uma forma ou outra, restringimos em algo a manifestação de nossos atletas. A grande questão é encontrarmos um equilíbrio entre a ordem e desordem da organização, para não termos equipes muito mecânicas e limitadas.

A identidade do atleta tem que ser um fractal (*) da identidade da equipe. O atleta representa a equipe, em menor escala. A identidade da equipe é uma manifestação, também, da identidade do atleta e dos atletas. Para conseguirmos o equilíbrio ideal, precisamos acima de tudo saber contratar os atletas certos para montar a nossa equipe. Se formos treinadores de categorias de base, temos que saber montar a equipe ideal com os atletas que temos. Mas para as duas situações precisamos entender o atleta, interpretar sua personalidade, seu comportamento, sua identidade.

Creio que não há exercícios/meios ideais para que os atletas mantenham sua identidade equivalente com a identidade da equipe. O que há é a ocorrência frequente do comportamento coletivo e individual, e é isso que devemos ter em mente ao elaborar os exercício/meios a serem utilizados. Elaborar exercícios/meios que busquem padrões de comportamentos individuais e coletivos coerentes com a identidade do indivíduo, da equipe e principalmente do clube.

(*) Ou seja, o atleta (parte) por sua característica e funcionalidade, consegue representar a equipe (todo).

 

Reflexões sobre a organização no jogo de futebol 

 

Universidade do Futebol – Como coordenador técnico das categorias de base, de que modo você pensa capacitar os membros de suas comissões técnicas (treinadores, assistentes, preparadores etc.) no sentido de integrar o processo metodológico previsto em seu planejamento?

Thiago Corrêa – Gosto de oferecer periodicamente artigos, capítulos de livros, matérias esportivas etc., para estimular a reflexão e desenvolver a capacidade intelectual dos nossos profissionais, além de termos reuniões sistemáticas visando dar seguimento ao D.O.M., para que ao longo do processo possamos estabelecer e estruturar o “Jogar ao Grêmio”.

Promovemos também encontros mais ampliados como o Seminário de Futebol - Desafios do Alto Rendimento. A primeira edição foi em 2010 e contou com a presença dos professores Julio Garganta e José Guilherme, falando um pouco da metodologia de futebol e da periodização tática. Ajudou e muito a fazer com que os nossos treinadores e profissionais de campo percebessem um pouco mais sobre os aspectos mais evolutivos do treino e jogo do futebol.

Queremos fazer esse seminário anualmente, para que possamos capacitar cada vez mais nossos profissionais.



Cartaz da primeira edição do Seminário de Futebol - Desafios do Alto Rendimento: intenção do clube é promover eventos desse tipo sistematicamente

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