Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
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quinta-feira, fevereiro 19, 2015

“Não há mágica para resolver a violência entre torcedores”, diz especialista

ALEX SABINO / Folha de S. Paulo

Uma das metáforas mais usadas a respeito do futebol é compará-lo a uma guerra. Marco Aurelio Klein, 64, não vê o assunto desta forma. Primeiro porque é especialista em violência no esporte. Mas também por ser um estudioso da 2ª Guerra Mundial.

Autor de documento inspirado no Relatório Taylor, que praticamente erradicou o fenômeno dos hooligans nos estádios ingleses a partir da década de 1990, ele trabalha atualmente na atualização do texto a pedido do ministro George Hilton (Esporte).

"O meu relatório é de 2006. O ministro ficou impressionado. Estou animado que seja posto em prática", disse.

Em entrevista à Folha, ele chegou a uma conclusão de que a violência no futebol nacional não será resolvida de um dia para o outro. "Não tem mágica", constata.

PÓS-COPA DO MUNDO
O Mundial no Brasil trouxe legado importante: os estádios sem alambrados. Mesmo no clássico entre Corinthians e Palmeiras em que aconteceu aquela confusão toda [tumulto entre palmeirenses e a PM] e com a derrota do time da casa, ninguém invadiu o campo. Alambrado não segura ninguém que quer invadir. Eu já vi torcedor pular alambrado que tinha arame farpado. Outra herança importante é o sistema de monitoramento dos estádios. E este deve ser ostensivo. A sala do monitoramento deve ser visível a todos. As pessoas precisam saber que o Big Brother está ali, presente.

SOLUÇÕES E ERROS
Parece que no Brasil, nessa questão da violência no futebol, há muita tentativa e erro. Cada hora existe uma ideia mágica que vai resolver o problema... Isso não existe. Todas as ideias são com boas intenções, mas não vão resolver. Não existe uma solução da noite para o dia. A solução é longa, difícil e custosa.

ESPÍRITO DE GUERRA
Antes do último clássico entre Corinthians e Palmeiras, eu li que a polícia estava preparando uma operação de guerra. Quando vi aquilo, pensei: "acabou". Como operação de guerra? Uma família não vai para um estádio que tem operação de guerra. O vândalo adora. Quando a polícia diz que é operação de guerra, esses vândalos ganham condição de combatentes do Estado Islâmico.

LIÇÕES DO RELATÓRIO TAYLOR
O que inspirou o Relatório Taylor foi [a tragédia de] Hillsborough, em que morreram 96 pessoas na cidade de Sheffield [em 1989]. Não houve briga. Nem tinha torcida organizada. Houve desorganização, despreparo, superlotação. Não existiam protocolos de emergência.
Não esqueço quando tive reunião com os ingleses. Eles disseram que levaram anos para aprender que a questão não era repressão. Era organização. É o grande clássico na final? Depende do histórico. Ponte Preta e Paulista de Jundiaí, por exemplo, é jogo para 4 mil pessoas, mas são torcedores dos mais perigosos da América porque há um histórico de conflito.

PROPOSTAS
É preciso criar protocolos de segurança. Eu sugiro classificar as partidas em três níveis, sendo "A" a de maior risco, "B" a de risco médico e "C" as de pequeno risco. Os ingleses se organizaram criando unidades de polícia para o futebol. A Scotland Yard, que nem arma usa, tem uma unidade de futebol. Não vejo trabalhando na partida o policial que passou a noite anterior atendendo ocorrências, perseguindo ladrões e depois vai para o enfrentamento com um moleque que está disposto a provocá-lo...

CAMPANHA DE PAZ
Não tem o menor fundamento. Não resolve. Só ajuda se vier como parte de um conjunto de ações. No primeiro momento, a resolução dos ingleses foi: nós não precisamos prender o vândalo. Nós precisamos tirá-lo do estádio.
Ele destrói o espetáculo. E eles nunca tiveram torcida organizada, apenas pequenos grupos que envolviam criminalidade, pequenos furtos ou a destruição pelo prazer da destruição. Conseguiram criar uma coisa na legislação que era preciso tirar o cara do estádio. O articulador nem sempre é o sujeito que dá a porrada, que quebra a cadeira. Pode não ser o pensador.

DIÁLOGO
Minha recomendação, como estudioso, é ouvir as pessoas, mesmo que isso implique algum investimento do governo. Não dá é para transformar isso em competição de quem bate mais, se a torcida ou a polícia. O cidadão é que está no meio É preciso combater a pequena violência. O xingamento é origem do conflito. Uma briga sempre começa pela agressão verbal. Os ingleses perceberam que era preciso mudar o comportamento do torcedor. O torcedor comum entra na balada do xingamento. Quando um cara xinga o outro, depois tem quatro, oito, dez fazendo o mesmo. O perdedor do jogo tem uma frustração imensa para descontar em alguém.

Eduardo Knapp/Folhapress

Marco Aurelio Klein, presidente da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem, durante palestra
Marco Aurelio Klein, autor de relatório federal sobre violência de torcidas, durante palestra

PERCEPÇÃO
A luta maior não é física, de repressão. É de percepção. As pessoas precisam voltar a ir ao futebol como um momento de lazer. Um momento de muita emoção, mas de lazer. Se o seu time ganhar, seu momento de lazer foi premiado com muita alegria, mas pode ser que não. Quando você vai ao cinema ver uma comédia, sai muito alegre. Vê uma tragédia, sai impressionado. No Brasil, o futebol é o único evento de lazer em que a pessoa sai de casa com sua pior roupa.
Ninguém se arruma para o futebol, vai o mais desleixado possível porque a percepção que temos é que se trata de uma coisa desleixada. Não tem o menor sentido porque é o espetáculo mais glorioso que temos. Olhe os números da Liga dos Campeões da Europa, da Copa do Mundo, do Campeonato Inglês...

REPRESSÃO
É preciso tomar mais cuidado na organização do caminho do metrô para o estádio. Aquela cena da torcida do Corinthians agredindo dois torcedores do São Paulo porque estavam com a camisa do clube é absurda. Não pode acontecer. Aí é punição.
Os ingleses tomaram cuidado, entenderam qual era o trânsito, proibiram bebida dentro do metrô. O cara não podia chegar, quebrar o trem e achar que ia para casa sem problema algum. Vamos pegar o Pacaembu de exemplo. É um estádio bacana. As ruas laterais são escuras. Aquela imagem de escuridão passa a imagem de abandono e da terra de ninguém. É preciso pensar no processo todo.

CUSTO DA POLÍCIA
A Inglaterra vai no caminho inverso ao do Brasil. Eles têm cada vez menos polícia. Sabe por quê? Porque a polícia custa caro lá. Aqui no Brasil é de graça em vários estádios. Ou é muito barato e o organizador do jogo, se acha que tem problema, quer muito mais polícia e cria muito mais polícia. Isso não é jeito de fazer um evento.

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RAIO-X
MARCO AURÉLIO KLEIN

IDADE
64

CARGO
Autor do relatório final da Comissão Paz no Esporte e secretário nacional da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem

CARREIRA
Professor da FGV (2001 a 2009), responsável por futebol no Ministério do Esporte (2004 a 2007), diretor da Federação Paulista de Futebol (1993 a 1994 e 2008 a 2009), diretor de Alto Rendimento do Ministério do Esporte (2009 a 2012) e autor de três livros sobre o futebol brasileiro

*

RELATÓRIO TAYLOR TRANSFORMOU FUTEBOL INGLÊS

Apontado por Marco Aurelio Klein como modelo de inspiração no combate à violência nos estádios, o Relatório Taylor revolucionou o futebol da Inglaterra e abriu espaço para que sua liga nacional se tornasse a número um do planeta.

O estudo foi realizado e adotado no país a partir do começo dos anos 1990, como resposta à tragédia de Hillsborough, ocorrida em 1989, quando 96 torcedores morreram pisoteados e esmagados contra grades de proteção devido ao excesso de público na partida entre Liverpool e Nottingham Forest, pela semifinal da Copa da Inglaterra.

Entre as medidas adotadas. que ajudaram conter os hooligans, protagonistas de algumas das maiores confusões no futebol europeu durante a década de 1980, estavam o treinamento de uma polícia especializada, a obrigatoriedade de assentos para todos os pagantes (o que pôs fim à tradição de se torcer em pé) e o fim das grades de proteção para os gramados de futebol.

O relatório também sugeriu a criação de leis específicas para crimes e contravenções praticadas por grupos de torcedores.

Para se adequar a esse novo cenário, os 27 principais estádios da Inglaterra precisaram ser reconstruídos ou passaram por reformas. 

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quarta-feira, julho 09, 2014

FUTEBOL NOSSO DE CADA DIA – Parte 1

 
Por: Benê Lima 

O que aconteceu com a Seleção Brasileira não é somente da Seleção, mas de todos nós brasileiros. Mais de uns que de outros, obviamente. 

Mas, se a questão que nos motiva é culpar ou eleger culpados, embora essa facilidade não nos atraia, façamos ao menos um rateio dessa culpa, e nos incluamos a todos, seja pelo nosso componente cultural, seja pela nossa característica intelectual, seja pelo arcabouço da nossa moralidade média, ou seja ainda pela natureza da ética que inspira nossas vidas. 

Portanto, façamos pois essa justa divisão de responsabilidade, mesmo sabendo, reiteramos, que a regra desta igualdade, será distribuir culpa com desigualdade, na exata proporção das diferenças entre as pessoas. Afinal, não se deve, por dever de justiça, desconsiderar o fato de que o Felipão é o retrato de uma sociedade cujos valores em que se tem estruturado, desprestigia a verdade, a complexidade, a interdisciplinaridade, e que trata, por inegável ignorância, o conhecimento como se fora um inimigo ou algo inescrutável. 

Enquanto vemos em muitos dos treinadores que trabalharam e trabalham nessa Copa a face da inovação, o toque da ousadia até, aos treinadores brasileiros parece haver uma proibição ou mesmo um roteiro de ideias preestabelecidas, onde qualquer atitude que pareça fugir da cartilha do habitual ou do conservadorismo encontra-se terminantemente proibido. 

Seria pouco provável vermos um Louis van Gal escalar um atleta e, em não vendo resultado, permanecer com o mesmo em campo, a despeito de todo o prejuízo que isso viesse a causar. Foi assim, por exemplo, o que ocorreu com Bernard, para ficarmos tão somente neste emblemático exemplo. 

Van Gaal x Felipão 
Lamentamos e demos publicidade a isso nas redes sociais, expressando a limitação da visão do treinador brasileiro, que se deixa prender algumas vezes a aspectos típicos de crendice, o que convenhamos, é um atraso, pela negação do conhecimento que isso representa. Falamos isto porque a camisa de Bernard é a de número 20, a mesma utilizada por Amarildo em 62, quando este veio a substituir o gênio Pelé.  
Outra coisa para a qual queremos chamar a atenção é para o caráter atípico da partida de ontem, a fim de que não seja ela o fator determinante para que se operem mudanças na estrutura do futebol brasileiro. 

É mais inteligente admitirmos que a goleada sofrida é apenas algo explosivo para as seguidas ‘implosões organizacionais’ com as quais nosso futebol vem convivendo.
 

Se for para atacar os problemas do nosso futebol de fato e verdadeiramente, que antes de pensarmos em reformular o trabalho de base com os jogadores, pensemos seriamente em fazer acréscimos à formação dos nossos profissionais das comissões técnicas, já que eles são os responsáveis pela formação dos nossos atletas. 
Portanto, é da mais absoluta importância que se dotem esses profissionais formadores de uma melhor e mais ampla formação, sem o quê é impossível iniciar-se o processo de mudança que nosso futebol está a requerer. 

Apesar da acachapante derrota dentro de campo, não deveria ser ela o objeto da vergonha nacional. E enquanto não tivermos capacidade para entender isso, estaremos condenados a repetir os mesmo erros. Ontem, a bola ainda rolava e já era visível o recrudescimento daquilo que nos falta. 

Brasil futebol 
Entendo que nós da imprensa também perdemos junto com nossa Seleção, isso porque boa parte da nossa representação é tão pouco reflexiva como a maioria dos brasileiros. 

Sugiro que não fechemos questão quanto ao ‘cardápio’ para a discussão sobre os rumos do nosso futebol, mas que primeiro estruturemos os ‘pratos’ que devam integrar o ‘cardápio desse grande debate. 

Creio que nem Governo nem CBF sozinhos devem estabelecer o rumo e os temas da prosa. Todos os desportistas que quiserem devem ter participação nesse fórum, mesmo que não haja (como não há) assento para todos. 

Mas o princípio da democracia representativa também nos serve em mais essa questão. 

Não desistamos do bom debate. ∴ 

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Comentário
"OI Benê, Seu comentário é muito adequado ao momento que estamos vivendo. É importante que as pessoas compartilhem as suas percepções para que não fiquemos tão dependentes do que a mídia quer colocar como real. Volte sempre. Um abraço Castilho"
Atenciosamente,
Redação Observatório da Imprensa
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