Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
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quinta-feira, fevereiro 19, 2015

“Não há mágica para resolver a violência entre torcedores”, diz especialista

ALEX SABINO / Folha de S. Paulo

Uma das metáforas mais usadas a respeito do futebol é compará-lo a uma guerra. Marco Aurelio Klein, 64, não vê o assunto desta forma. Primeiro porque é especialista em violência no esporte. Mas também por ser um estudioso da 2ª Guerra Mundial.

Autor de documento inspirado no Relatório Taylor, que praticamente erradicou o fenômeno dos hooligans nos estádios ingleses a partir da década de 1990, ele trabalha atualmente na atualização do texto a pedido do ministro George Hilton (Esporte).

"O meu relatório é de 2006. O ministro ficou impressionado. Estou animado que seja posto em prática", disse.

Em entrevista à Folha, ele chegou a uma conclusão de que a violência no futebol nacional não será resolvida de um dia para o outro. "Não tem mágica", constata.

PÓS-COPA DO MUNDO
O Mundial no Brasil trouxe legado importante: os estádios sem alambrados. Mesmo no clássico entre Corinthians e Palmeiras em que aconteceu aquela confusão toda [tumulto entre palmeirenses e a PM] e com a derrota do time da casa, ninguém invadiu o campo. Alambrado não segura ninguém que quer invadir. Eu já vi torcedor pular alambrado que tinha arame farpado. Outra herança importante é o sistema de monitoramento dos estádios. E este deve ser ostensivo. A sala do monitoramento deve ser visível a todos. As pessoas precisam saber que o Big Brother está ali, presente.

SOLUÇÕES E ERROS
Parece que no Brasil, nessa questão da violência no futebol, há muita tentativa e erro. Cada hora existe uma ideia mágica que vai resolver o problema... Isso não existe. Todas as ideias são com boas intenções, mas não vão resolver. Não existe uma solução da noite para o dia. A solução é longa, difícil e custosa.

ESPÍRITO DE GUERRA
Antes do último clássico entre Corinthians e Palmeiras, eu li que a polícia estava preparando uma operação de guerra. Quando vi aquilo, pensei: "acabou". Como operação de guerra? Uma família não vai para um estádio que tem operação de guerra. O vândalo adora. Quando a polícia diz que é operação de guerra, esses vândalos ganham condição de combatentes do Estado Islâmico.

LIÇÕES DO RELATÓRIO TAYLOR
O que inspirou o Relatório Taylor foi [a tragédia de] Hillsborough, em que morreram 96 pessoas na cidade de Sheffield [em 1989]. Não houve briga. Nem tinha torcida organizada. Houve desorganização, despreparo, superlotação. Não existiam protocolos de emergência.
Não esqueço quando tive reunião com os ingleses. Eles disseram que levaram anos para aprender que a questão não era repressão. Era organização. É o grande clássico na final? Depende do histórico. Ponte Preta e Paulista de Jundiaí, por exemplo, é jogo para 4 mil pessoas, mas são torcedores dos mais perigosos da América porque há um histórico de conflito.

PROPOSTAS
É preciso criar protocolos de segurança. Eu sugiro classificar as partidas em três níveis, sendo "A" a de maior risco, "B" a de risco médico e "C" as de pequeno risco. Os ingleses se organizaram criando unidades de polícia para o futebol. A Scotland Yard, que nem arma usa, tem uma unidade de futebol. Não vejo trabalhando na partida o policial que passou a noite anterior atendendo ocorrências, perseguindo ladrões e depois vai para o enfrentamento com um moleque que está disposto a provocá-lo...

CAMPANHA DE PAZ
Não tem o menor fundamento. Não resolve. Só ajuda se vier como parte de um conjunto de ações. No primeiro momento, a resolução dos ingleses foi: nós não precisamos prender o vândalo. Nós precisamos tirá-lo do estádio.
Ele destrói o espetáculo. E eles nunca tiveram torcida organizada, apenas pequenos grupos que envolviam criminalidade, pequenos furtos ou a destruição pelo prazer da destruição. Conseguiram criar uma coisa na legislação que era preciso tirar o cara do estádio. O articulador nem sempre é o sujeito que dá a porrada, que quebra a cadeira. Pode não ser o pensador.

DIÁLOGO
Minha recomendação, como estudioso, é ouvir as pessoas, mesmo que isso implique algum investimento do governo. Não dá é para transformar isso em competição de quem bate mais, se a torcida ou a polícia. O cidadão é que está no meio É preciso combater a pequena violência. O xingamento é origem do conflito. Uma briga sempre começa pela agressão verbal. Os ingleses perceberam que era preciso mudar o comportamento do torcedor. O torcedor comum entra na balada do xingamento. Quando um cara xinga o outro, depois tem quatro, oito, dez fazendo o mesmo. O perdedor do jogo tem uma frustração imensa para descontar em alguém.

Eduardo Knapp/Folhapress

Marco Aurelio Klein, presidente da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem, durante palestra
Marco Aurelio Klein, autor de relatório federal sobre violência de torcidas, durante palestra

PERCEPÇÃO
A luta maior não é física, de repressão. É de percepção. As pessoas precisam voltar a ir ao futebol como um momento de lazer. Um momento de muita emoção, mas de lazer. Se o seu time ganhar, seu momento de lazer foi premiado com muita alegria, mas pode ser que não. Quando você vai ao cinema ver uma comédia, sai muito alegre. Vê uma tragédia, sai impressionado. No Brasil, o futebol é o único evento de lazer em que a pessoa sai de casa com sua pior roupa.
Ninguém se arruma para o futebol, vai o mais desleixado possível porque a percepção que temos é que se trata de uma coisa desleixada. Não tem o menor sentido porque é o espetáculo mais glorioso que temos. Olhe os números da Liga dos Campeões da Europa, da Copa do Mundo, do Campeonato Inglês...

REPRESSÃO
É preciso tomar mais cuidado na organização do caminho do metrô para o estádio. Aquela cena da torcida do Corinthians agredindo dois torcedores do São Paulo porque estavam com a camisa do clube é absurda. Não pode acontecer. Aí é punição.
Os ingleses tomaram cuidado, entenderam qual era o trânsito, proibiram bebida dentro do metrô. O cara não podia chegar, quebrar o trem e achar que ia para casa sem problema algum. Vamos pegar o Pacaembu de exemplo. É um estádio bacana. As ruas laterais são escuras. Aquela imagem de escuridão passa a imagem de abandono e da terra de ninguém. É preciso pensar no processo todo.

CUSTO DA POLÍCIA
A Inglaterra vai no caminho inverso ao do Brasil. Eles têm cada vez menos polícia. Sabe por quê? Porque a polícia custa caro lá. Aqui no Brasil é de graça em vários estádios. Ou é muito barato e o organizador do jogo, se acha que tem problema, quer muito mais polícia e cria muito mais polícia. Isso não é jeito de fazer um evento.

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RAIO-X
MARCO AURÉLIO KLEIN

IDADE
64

CARGO
Autor do relatório final da Comissão Paz no Esporte e secretário nacional da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem

CARREIRA
Professor da FGV (2001 a 2009), responsável por futebol no Ministério do Esporte (2004 a 2007), diretor da Federação Paulista de Futebol (1993 a 1994 e 2008 a 2009), diretor de Alto Rendimento do Ministério do Esporte (2009 a 2012) e autor de três livros sobre o futebol brasileiro

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RELATÓRIO TAYLOR TRANSFORMOU FUTEBOL INGLÊS

Apontado por Marco Aurelio Klein como modelo de inspiração no combate à violência nos estádios, o Relatório Taylor revolucionou o futebol da Inglaterra e abriu espaço para que sua liga nacional se tornasse a número um do planeta.

O estudo foi realizado e adotado no país a partir do começo dos anos 1990, como resposta à tragédia de Hillsborough, ocorrida em 1989, quando 96 torcedores morreram pisoteados e esmagados contra grades de proteção devido ao excesso de público na partida entre Liverpool e Nottingham Forest, pela semifinal da Copa da Inglaterra.

Entre as medidas adotadas. que ajudaram conter os hooligans, protagonistas de algumas das maiores confusões no futebol europeu durante a década de 1980, estavam o treinamento de uma polícia especializada, a obrigatoriedade de assentos para todos os pagantes (o que pôs fim à tradição de se torcer em pé) e o fim das grades de proteção para os gramados de futebol.

O relatório também sugeriu a criação de leis específicas para crimes e contravenções praticadas por grupos de torcedores.

Para se adequar a esse novo cenário, os 27 principais estádios da Inglaterra precisaram ser reconstruídos ou passaram por reformas. 

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segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Os estádios e arenas são dos povos

“De maneira convicta, somos conscientemente a favor da retirada de parte das cadeiras…”


É uma tarefa desafiadora explicar algo de tamanha complexidade e que merece um generoso espaço em poucas linhas. Contudo, é importante revelar que a retirada das cadeiras dos nossos estádios públicos, não é uma reivindicação que tenha nascido dos dirigentes de clubes. Na verdade, é uma antiga solicitação das Organizadas que ganhou corpo a partir do intercâmbio Brasil/Alemanha, gestado pela Coordenadoria de Juventude de Fortaleza, em parceria com a Agência de Cooperação Internacional de Políticas Públicas do Governo Alemão (GIZ). A ideia do intercâmbio é mostrar que as torcidas organizadas não são só violência como se apregoa. 
Gremio-Arena-Foto-Eduardo-Moura_LANIMA20121208_0109_47Arena Grêmio e o local sem cadeiras 
Por ocasião do I Encontro sobre Cultura de Futebol e Torcidas, realizado em 25 de novembro de 2014, como parte integrante do projeto Nossa Torcida é pela Juventude, com as presenças dos secretários de esporte do município de Fortaleza e do Estado do Ceará, além do assessor da Secretaria do Futebol do Ministério do Esporte, Helvécio Araújo, a solicitação de retirada das cadeiras, tanto do Estádio Presidente Vargas quanto do Castelão, foi recebida pelos secretários da Secel e da Sesporte, que ficaram de avaliar a reivindicação das Organizadas. 
7698771.us_omnilife_chivas_estadio_ig_esporte_350_500Local sem cadeiras no Chivas Estádio 
Como se pode notar, juntou-se a fome com a vontade comer. O pedido dos torcedores das organizadas despertou nos gestores públicos e privados a oportunidade de sanarem, pelo menos parcialmente, o antigo problema da quebra das cadeiras e do prejuízo dos clubes. Assim, a ideia ganhou força. Restava, como ainda resta, o desafio do convencimento da opinião pública, discussão que vem sendo realizada. 
estadio-dortmund--644x362Estádio Dortmund e seu local sem cadeiras 
De maneira convicta, somos conscientemente a favor da retirada de parte das cadeiras, e não enxergamos nenhuma razão substancial para que não se dê guarida aos protagonistas de algo que pode voltar a ser outro espetáculo dentro do espetáculo maior que é o jogo. O arcabouço das razões alegadas para o não atendimento do que virou um coro de torcedores organizados e dirigentes, mostra-se fragilíssimo, além de um arrazoado frívolo e preconceituoso. Afinal, as opiniões precisam levar em conta as variáveis de um problema, bem como as implicações da decisão tomada a guisa de solução, seja a favor, seja contra. É importante que seja considerado que nos estádios e arenas multiuso, lugares há em que a estética pode ser privilegiada, mas não se deve impor nem privilegiar nos demais locais desses equipamentos, especialmente quando públicos, nem a priorização da visão estética nem a do elitismo. Desse ponto de vista, vale lembrar que é função desses equipamentos públicos serem funcionais e inclusivos, até porque não lhes são finalidades últimas a contemplação e a ostentação. Essencial é que eles expressem a pluralidade de classes sociais existentes em nossa sociedade, posto que esta é a concepção para os quais foram concebidos. 
Outro fator que devemos levar em conta, é que as atuais praças esportivas ou arenas pré Copa, deveriam ter passado por um processo de adequação ou readequação à nossa cultura futebolística, possibilidade teorizada, mas não implementada. E se consentimos que elas temporariamente fossem da Fifa, por que não podemos retomá-las para nós, adequando-as às nossas realidades e idiossincrasias?
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terça-feira, agosto 05, 2014

Globo exige ibope e alerta clubes: futebol na TV aberta vai morrer

DANIEL AUGUSTO JR./AG. CORINTHIANSO meia corintiano Renato Augusto domina bola contra o Coritiba em partida que rendeu só 13 pontos à Globo

Por DANIEL CASTRO

Em reuniões com os 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, marcadas a partir da próxima quinta-feira (7), a Globo vai exigir melhor qualidade do futebol e fará um alerta: se os espetáculos não melhorarem e a audiência não subir, dentro de alguns anos o esporte deixará de ser interessante para a TV aberta.

A emissora apresentará aos dirigentes dos times um estudo que mostra que o futebol vem perdendo cerca de 10% da audiência a cada ano. Se continuar assim, em dez anos passará a ser um produto relevante apenas para a TV paga. Vai "morrer" na TV aberta, sua principal fonte de sustento atualmente.

No último domingo, Coritiba e Corinthians rendeu apenas 13 pontos à emissora, audiência considerada baixa. Cinco anos atrás, o futebol aos domingos dava mais de 20 pontos.

A Globo fará uma série de reuniões a pedido dos próprios clubes. Em encontro na semana passada na CBF (Confederação Brasileira de Futebol), as agremiações pediram a antecipação das cotas e reclamaram que a emissora paga muito a clubes como Corinthians e Flamengo e pouco a times de menor torcida.

O Notícias da TV apurou que a Globo responderá que remunera os clubes conforme o número de jogos transmitidos e a audiência. E vai exigir dos reclamantes mais investimentos em futebol. No e-mail enviado aos times convocando as reuniões, Marcelo Campos Pinto, principal executivo da Globo nas negociações de direitos de futebol, adiantou que as reuniões visam "estreitar nosso diálogo com vistas à melhoria do futebol e, em especial, da capacidade de investimento dos clubes na formação de jogadores".

Segundo a Folha de S.Paulo, o tema causou estranhamento entre os cartolas. Eles argumentam que não é da alçada da emissora discutir a formação de jogadores. A Globo discorda. Diz que tem o direito de discutir tudo o que diz respeito à qualidade do espetáculo que transmite.

Nas reuniões, a Globo irá propor também mudanças no calendário nacional do futebol e melhorias no "processo de gestão dos clubes e das entidades de organização do desporto, equação financeira e oportunidades de novas receitas nos estádios".

As reuniões acontecerão na sede da Globo em São Paulo. Além de Marcelo Campos Pinto, estarão Renato Ribeiro (responsável pelas transmissões e jornalismo esportivo), Anco Saraiva (diretor de marketing), Pedro Garcia (diretor dos canais Sportv) e Roberto Marinho Neto (diretor de projetos esportivos especiais).

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domingo, julho 21, 2013

Padrão tático e cultura tática

Veja <COMENTÁRIOS>

Benê - CópiaPor Benê Lima

O padrão tático é a fotografia de uma equipe, e sua leitura depende fundamentalmente da cultura tática de quem o lê, assim como na fotografia

Tenho resistido em ceder ao impulso de escrever sobre o tema, primeiro porque não me considero a pessoa ideal para sobre ele ditar cátedra, depois pela descrença da maioria das pessoas sobre o tema. Os mais velhos porque não possuíram nem viveram o boom da cultura tática, os mais jovens porque a veem como mero exercício de dissuasão da complexidade, querendo torná-la a todos acessível e usando-a para tentarem abalar a importância dos técnicos de futebol, desse modo mantendo a ideia vigente de que a onda mudancista que sobrevive em torno da troca do técnico, sustentará os times e suas direções, salvando também os jogadores.

Padrão de jogo

É o mais geral e abrangente modelo de uma equipe, visto que representa o seu todo, englobando tanto o padrão tático quanto o padrão técnico. Portanto, desse ponto de vista, não é aceitável confundi-lo com padrão tático, embora seja este o que mais influencia o padrão geral de jogo das equipes.

Padrão técnico

O padrão técnico, em tese, é o que menos depende da atuação do treinador, em razão de boa parte dele ter origem na formação do atleta e especialmente na sua capacidade individual de habilidade e talento, bem como da compreensão do aspectos técnicos de sua expressão com a bola. Ele pode ser melhorado, posto que passes, chutes, recepção e condução de bola, drible e finta, todos estes elementos da técnica podem ser aperfeiçoados.

Padrão tático 

Aqui é onde o técnico exerce maior influência coletiva sobre a operacionalização do jogo e sobre o desempenho coletivo da equipe. É nesse estágio que o planejamento de jogo, como um dos pressupostos da formação do padrão tático entra em cena, mas muito mais como modelagem do padrão tático e não a ele se sobrepondo.

É ainda neste estágio que identificamos mais facilmente a plataforma estática de jogo com suas dinâmicas e variações, onde podemos também observar as transições defensivas e ofensivas, o nível da compactação, a geometria no desenvolvimento das jogadas, a profundidade ofensiva de seu jogo, entre outras situações.

Aqui também, desde que o observador possua acuidade e sensibilidade em sua cultura tática, pode-se ter vislumbres até mesmo do tipo de periodização tática utilizada, bem como lampejos dos elementos do plano tático maior, aquele que contempla princípios, subprincípios e sub-subprincípios e seus derivativos.


Com o objetivo de facilitar o entendimento e propor uma compreensão de modelos de padrão tático, tratamos aqui de uma questão pungente para uma de nossas equipes cearenses – o Fortaleza –, cujo comandante técnico é Hélio dos Anjos, experiente e detentor de inegáveis conhecimentos. Claro que ele pode discordar de alguns elementos que aqui propomos, e terá dupla autoridade para isso. Primeiro porque é o autor da “fotografia” que sua equipe nos passa; depois porque pode ter a sua mercê maiores melhores elementos do tecnicismo e do cientificismo que nós. Natural.

Na figura abaixo, podemos observar um instantâneo da plataforma tática do Fortaleza, que principia o funcionamento de seu padrão tático. Na figura há uma disposição um tanto frouxa dos jogadores, mas cada um deles cumpre funções e posicionamentos que se complementam e se completam entre si, por isso preferi não dispo-los em figuras geométricas perfeitas, exatamente para lembrar que cada um deles tem funções similares, mas também distintas a cumprir.

Outro fator que merece ser observado com atenção, são as peculiaridades relativas a determinados jogadores, como um meia canhoto que se posiciona mais pela direita (Guaru), são volantes que usualmente não jogam em linha (Jaílton e Esley), é um meia híbrido que tem de meia e de volante (Jackson) e que transita da esquerda para o meio, é um segundo volante que tanto faz a sobra quanto sai para dar apoio ao ataque como armador (Esley), são atacantes que se alternam como referência e que também jogam abertos, enfim.

FOR - Padrão tático defensivo

A imagem meramente ilustrativa abaixo, no que pese sua singeleza, creio que expressa uma ideia da dinâmica da movimentação da equipe do Fortaleza, donde podemos inferir certos elementos do plano tático e de algumas estratégias de jogo. É evidente que nenhuma equipe consegue tamanha compactação em circunstâncias normais de jogo, mas esta é a figura idealizada de uma situação pontual que assistimos neste domingo (21) frente ao Brasiliense, embora os jogadores envolvidos já não tivessem exatamente esta numeração.

Nesta situação típica de uma potente transição ofensiva, observamos não o pressing (coisa rara entre nossos times), mas uma pressão vertical e certa pressão na recuperação da bola, o que permitiu posse e domínio.

O que muitas vezes as pessoas se perguntam, é por que tal situação não se traduz em gols. Mas não vejo dificuldade em compreendermos essa questão. Afinal, como um processo de interação, o jogo precisa de um encaixe em suas diferentes fases (construção, elaboração, semifinalização e finalização), sem o quê o adversário assimila a pressão e consegue fazê-la eficiente, mas sem eficácia. Hoje vimos isto.

FOR - Padrão tático ofensivo

A questão aqui proposta é mais de valorizar o aspecto tático do futebol, e menos de provar a competência ou incompetência de quem que seja. Sem presunção alguma, seria fácil apontar alguns equívocos do técnico Hélio dos Anjos, mas não vejo relevância nisto pela consciência que tenho da importância de seu trabalho.

Como disse noutro artigo, Ceará e Fortaleza precisam encarar suas situações contraproducentes e tentar interagir com elas e com seus responsáveis, a fim de que suas equipes possam incorporar um melhor padrão técnico, tático e de jogo.

(Ilustração do 4-4-2 diamante, também conhecido como 4-1-2-1-2)

Tática - 4-4-2_diamond

(Não há bibliografia a citar, haja vista que nada do que aqui está é fruto de pesquisa.)

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sábado, julho 20, 2013

Os prós e contras de Sérgio Guedes

Por Benê Lima

O respeito ao trabalho dos técnicos e comissões técnicas e seus treinadores deve fazer parte da análise de qualquer cronista

Evito o expediente de atribuir nota ao trabalho do técnico de futebol , visto que isso nos coloca, pelo menos aparentemente, numa desconfortável condição de pretendermos saber mais que eles. E isto nem condiz com nossa pretensão nem reflete a realidade dos fatos. Afinal, o mais natural é que mesmo teoricamente os técnicas saibam mais que nós. Portanto, separemos aqui o que é a seara do técnico do que é a do analista. Neste ponto, vale dizer que não é lícito exigir de nós cronistas que concorramos com os técnicos e treinadores na aplicação dos treinamentos. Afinal, não é esta nossa missão. O exercício do nosso papel portanto, restringe-se a tentarmos identificar as nuances daquilo que pode ou não resultar do trabalho da comissão técnica. Nada mais.

O que pode ser acrescentado a essa análise, provém da condição do analista de possuir em sua formação uma bagagem de conhecimento que perpasse diferentes aspectos culturais e intelectuais, o que lhe permite uma mais rica abordagem do futebol, à luz das ciências humanas.

Considero irrelevante determinadas preferências do técnico – seja ele quem for - por esse ou aquele jogador. O que me parece relevante é se as atribuições confiadas ao atleta foram por ele cumpridas no limite de sua capacidade. A propósito, sabe-se que Sérgio Guedes há demonstrado, pelo menos por enquanto, preferência pelo atacante Macena em detrimento a Lulinha. Do ponto de vista da confiança, não vejo dificuldade em compreender a posição do técnico. O que é inaceitável é que não se tente integrar Lulinha por inteiro ao bloco dos essenciais ao grupo, a fim de torná-lo verdadeiramente uma opção tática relevante.

É líquido e certo que Sérgio Guedes equivocou-se em suas opções para enfrentar o Bragantino. Havíamos alertado em nosso programa diário de rádio – o Companhia do Esporte - para o fato de que Benazzi havia dado a este time a característica da pegada. Outra característica usual às equipes de Benazzi é a preferência por três zagueiros. Levados estes dois fatores na devida conta, o que se viu foi o poder de fogo do Ceará praticamente anulado pelo adversário. Portanto, eis a caracterização do erro conceitual de Guedes.

Todavia, vendo cair por terra seu planejamento tático, Sérgio Guedes teve o mérito de uma reação imediata, não esperando sequer o intervalo da partida para promover a primeira substituição em sua equipe. Sacou o meio-campista Eusébio, completamente perdido e inoperante em campo, colocando o atacante Adriano Pardal em seu lugar. Em tese, isso tornaria a equipe mais ofensiva, além de modificar sua estrutura tática e sua dinâmica, passando de uma plataforma tática 1-4-3-1-2 para 1-4-2-1-3. Outra providência que havia sido tomada foi a mudança de posicionamento entre João Marcos e Diogo Orlando, em razão do gol sofrido pelo setor direito da defesa alvinegra. Diogo não dava conta da velocidade do armador Thiaguinho, apoiado pelo lateral Rafael Costa. Como João Marcos tem mais velocidade e consegue diminuir os espaços e fazer uma marcação mais próxima, passou a cair pelo setor.

(A imagem abaixo ilustra a facilidade do sistema de marcação do Bragantino até a saída de Eusébio.)

Tática - Bragantino x Ceará 01

Após a entrada de Adriano Pardal, o Ceará passou a jogar com três atacantes, desse modo eliminando a sobra da zaga do Bragantino, que teve de recuar um volante para voltar a ter o homem da sobra. Isso também equilibrou a disputa no meio-campo e o Ceará pode transitar com um pouco mais de desenvoltura naquele setor, transferindo um pouco mais de força ofensiva à equipe.

(Veja na imagem abaixo o quanto o Ceará ganhou taticamente em seu repertório de jogadas, em profundidade e na amplitude das mesmas.)

Tática - Bragantino x Ceará 01[56]-MOTION

Podemos dizer portanto, que o equívoco em sua atitude proativa tirou pontos do desempenho do técnico Sérgio Guedes, sobretudo pelo gol sofrido antes que a correção viesse. No entanto, temos que considerar a atitude reativa relativamente rápida do técnico, que ainda na primeira etapa, por volta dos 35 minutos, trocou  uma peça, mudou o esquema tático e reposicionou sua equipe.

Vale registrar que fora da alçada do técnico alvinegro, o grosso do desempenho técnico individual da equipe ficou abaixo da média e do potencial dos jogadores, situação que, ao contrário de maximizar o trabalho do técnico, acabou por minimizar seus efeitos.


ENTENDA A FUNÇÃO TÁTICA DE UM JOGADOR

RichelyAtleta: Richely

Tem a função de puxar os contra-ataques, ajudando a fazer a transição ofensiva pelo setor direito; marcar a saída do zagueiro da esquerda e do volante do mesmo lado; dar apoio defensivo ao lateral-direito na ausência do volante e com ele (lateral) dialogar na jogada ofensiva, além de fazer a aproximação com o Magno.


Autor: Benê Lima

quinta-feira, dezembro 27, 2012

‘Companhia do Esporte’ se insurge contra a violência verbal dos programas esportivos segmentados

Por: Benê Lima / Companhia do Esporte

No que concerne a programas de torcida, não quero separar o joio do trigo, porque não vou perder tempo para estabelecer gradações entre a violência verbal que é tão comum a esse tipo de programa. Neste particular, até diria que uns são piores que os outros. Não falo do conteúdo noticioso e informativo desses programas, que na verdade não são perniciosos até pela fragilidade do jornalismo que praticam. É claro que há os que são quase especialistas neste tipo de violência, e o que é pior, é que essa forma de violência verbal está atrelada à negação de valores e de direitos, já que são usados sofismas, mistificação, suposições, ou seja, falsas verdades, que em última análise acabam por configurar-se como verdadeiras calúnias, portanto, crimes contra a honra das pessoas.

Como nós podemos, pois, compactuar com esse tipo de programa? E vou mais além: para quê se presta uma linha de programação com esse fim? No quê isso ajuda o futebol, os clubes e ao próprio torcedor? Dois grandes presidentes de clubes, Ribamar Bezerra e Evandro Leitão, já cometeram o equívoco de dar apoio a esse tipo de iniciativa numa versão que se dizia de programas oficiais de seus clubes, e isso não deu em nada. Os programas não tinham identidade jornalística, não tinham um modelo preconcebido, desenvolvido e planejado, e se prestavam apenas a criarem problemas de relacionamento para os clubes, para o objetivo menor e deplorável de blindar dirigentes, e para amesquinharem a imagem dos clubes, como se eles fossem torcidas organizadas. Aliás, a gente costuma ouvir com frequência o argumento de que esses programas se prestam à defesa dos clubes, como se Ceará e Fortaleza precisassem desse tipo de muleta e dessa força reacionária que no fundo serve mais para envergonhar e às vezes até constranger os clubes que auxiliá-los.


Jarbas Oliveira/UOL

Na verdade, estamos diante de um novo tempo, de uma nova realidade em nosso futebol, e nós precisamos interagir com ela da melhor maneira que pudermos. Ontem senti não só um pouco de orgulho pela obra monumental que é o Novo Castelão, mas por ver corroborada nossa opinião que aqui [no programa Cia do Esporte] temos expressado em um grande portal nacional. E a matéria que vimos tratava dos estádios brasileiros, sobretudo de três deles (Castelão, Mineirão e arena do Grêmio), como o ponto de partida para um novo conceito de como potencializar o uso desses extraordinários equipamentos. E, claro, eu fiquei feliz por ver a nossa visão corroborada por quem de fato pensa grande, por quem enxerga o futebol como o meganegócio que é. No entanto, no mesmo dia em que isso acontece, eu escuto um programa desses de torcida vomitar e ruminar uma série de ideias malucas de conspiração, de movimentos mafiosos, de esquemas mirabolantes envolvendo clubes, federação, CBF e até a presidente Dilma Rousseff. E não contentes com isso, ainda conclamaram com extrema veemência os torcedores a não comparecerem ao Castelão. E o que é ainda mais grave: isso tudo produzido sob um clima de instauração do terror. E aí pergunto: isso é a primeira vez? Qual a novidade nisto que estou a relatar? Mas aqui também cabe outro tipo de pergunta, outro tipo de questionamento. Ou seja: até quando nós teremos que conviver com esse tipo de programa, com esse tipo de profissional, com esse tipo de gente, com esse tipo de atitude que envergonha a democracia e que, em última análise, é alimento para os golpistas? E na verdade, a gente já pode perceber alguns pontos de recrudescimento da velha rivalidade entre os nossos dois maiores clubes, é só prestamos atenção nas recentes declarações de alguns de seus dirigentes.

Não por acaso, o presidente da federação [cearense], já cansado de ouvir tantas acusações levianas, mandou recado para um programa esportivo, onde ele dizia que não era torcedor e sim presidente de todos os seus filiados, e que seu time era a FCF. Certamente, o que ele quis dizer é que sua simpatia por um desses filiados nada representava diante da grandeza do cargo que ele ocupa, no que está coberto de razão.

Eu não tenho dúvida de que o chefe da nossa comissão de arbitragem, o presidente da FCF, o presidente do TJDF, sabem da importância dos cargos que eles exercem, e tem a exata noção de que o produto futebol precisa que eles sejam isentos, honestos, pois sem isso não há como formatarmos um produto com credibilidade. E nós precisamos dessa credibilidade, o futebol precisa dessa credibilidade para se afirmar e para dar provimento à grande demanda por recursos que ele requer.

Portanto, fica aqui, mais uma vez, o meu protesto, a minha indignação e o meu repúdio a programas esportivos que não servem para nada, a não ser armar espíritos, fomentando a violência, seja de maneira aberta e cínica, seja de maneira velada e subliminar. Se o secretário Ferruccio teve a coragem de vir a público para cogitar até mesmo o fim das organizadas, que tanto ele quanto o ministério público, bem como o sindicato dos radialistas, também reflitam sobre que medidas devemos tomar para pelo menos exercermos algum controle sobre essa situação.
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domingo, junho 26, 2011

Entrevista com o diretor da Havas Sport & Entertainment no Brasil

Eduardo Corch, diretor da agência Havas Sport & Entertainment no Brasil
Especialista em marketing explica planos da companhia, que vão além da Copa-14 e dos Jogos-16 no país
Equipe Universidade do Futebol

Não é simplesmente pelo fato de o Brasil ser o atual foco de ação de novos negócios ligados ao esporte que a Havas, com a subdivisão Sport & Entertainment do grupo focado em mídia, decidiu desembarcar no Brasil. Os projetos da agência global de comunicação e publicidade são diversos e contemplarão o público nacional depois da realização dos Jogos Olímpicos de 2016. Quem garante é Eduardo Corch.

Pós graduado em marketing esportivo e com experiência em diversas empresas, como Compaq, Dupont e Adidas, ele é o responsável pelas operações do novo escritório da companhia no Brasil.

“Apesar de ser um grupo multinacional, presente em mais de 20 países, somente um executivo local conhece as particularidades e as peculiaridades do país, oportunidades, desafios, riscos, forma de negociação, players, etc.”, sinalizou Corch.

Para ele, a combinação do expertise e da experiência internacional com o conhecimento dos executivos locais é uma fórmula de sucesso do grupo Havas em outras localidades. Projeta-se que a Havas Sport & Entertainment responda por 5% do faturamento da companhia em 2011. E o início da atividade do escritório brasileiro compõe essa sustentação profissional.

Um dos principais desafios é que, como o mercado brasileiro de marketing esportivo é incipiente em se comparando com outras realidades, Corch terá de lidar com a falta de habilidade de alguns clubes e entidades. Apesar dos avanços já observados.

“O fato de o país sediar Copa e Olimpíada pesou na decisão, mas nós viemos para ficar. Certamente após 2016 continuaremos no Brasil. A vinda neste momento reflete o excelente momento que o grupo passa no mundo, bem como o amadurecimento das operações de esporte e entretenimento”, garantiu Corch.

O posicionamento do grupo Havas não é focado no futebol: o esporte é tratado como um todo, e a divisão brasileira tem a responsabilidade de desenvolver negócios também na área de entretenimento, em se considerando aspectos artísticos e tecnológicos.

Preparado para atender às demandas de negócios do país, competindo em pé de igualdade com outros importantes players, Corch explicou nesta entrevista concedida à Universidade do Futebol mais detalhadamente suas funções, a importância da qualificação de jovens que pretendem ingressar na esfera do marketing esportivo e por que confia no sucesso dos megaeventos próximos.

Universidade do Futebol – Quais são os benefícios de a Havas ter um executivo brasileiro conduzindo o processo de entrada da empresa no país?

Eduardo Corch - Apesar de ser um grupo multinacional, presente em mais de 20 países, somente um executivo local conhece as particularidades e as peculiaridades do país, oportunidades, desafios, riscos, forma de negociação, players, etc.

A combinação do expertise e da experiência global com o conhecimento dos executivos locais é uma fórmula de sucesso do grupo Havas em outros países.

Um dos principais desafios é que como o mercado brasileiro de marketing esportivo é incipiente em se comparando com outros mercados; temos de lidar com a falta de profissionalismo de algumas entidades, alguns clubes.

Estou sendo muito cuidadoso com o que estou falando, até porque é um cenário em desenvolvimento, que vem melhorando pouco a pouco, mas se comparar com mercados mais maduros, percebemos as grandes diferenças. Esse é o principal ponto.

O grande benefício de ter um profissional brasileiro tocando um grupo estrangeiro é a compreensão e o domínio dessa particularidade. Algo que se representa em outros mercados emergentes da América Latina.

Há um grande caminho a ser traçado e o grupo, de maneira global, é ciente disso. Trata-se de um processo de maturação.

Universidade do Futebol – Que tipo de preparação você fez para chegar a esse cargo?

Eduardo Corch - Primeiro, capacitação. Sou pós graduado em marketing esportivo nos Estados Unidos. Depois, experiência na área. Já são mais de 10 anos neste mercado.

Trabalhei na Adidas, como head de marketing esportivo, além de passagens em agências como TopSports (Esporte Interativo), Off Field e PeléPro.

Universidade do Futebol – Como você avalia o processo de qualificação no Brasil? Ainda encontramos muitos gargalos?

Eduardo Corch - Eu acredito que sim. Quando converso com jovens que querem entrar no mercado do marketing esportivo e eles me pedem conselho, digo que a capacitação é o primeiro passo para ter êxito – não basta ser um fanático por esporte e saber a escalação do Palmeiras de 1951. Não é isso que buscamos em um profissional.

Além disso, digo para que estes jovens comecem a ver os jogos e eventos esportivos com outros olhos. Sem se ater apenas ao duelo técnico em campo, mas a todo o entorno, a questão de logística, administração, ambiente, preparação, conforto, geração de negócios. Um olhar um pouco mais crítico.

Outra recomendação é a questão de benchmarking. Todas as vezes que as pessoas estiverem fora do país, não perderem a oportunidade de ir a uma arena multiuso, a um museu esportivo, a um jogo de basquete ou de tênis, por exemplo. Ter esse contato com o mundo real, em consonância com o mundo dos livros, da academia, é muito importante.

O mercado hoje não está à busca de teóricos, mas de pessoas que queiram apostar, crescer e vencer com inovação nos próximos anos.



 

Universidade do Futebol – E a mídia esportiva ligada ao esporte consegue conferir a este jovem uma informação relevante e um conteúdo integrado a esse pensamento, ou o tipo de discussão levantado em grandes mídias é pormenorizado?

Eduardo Corch - Acho que há dois universos distintos. O do jornalismo tradicional, que trata o esporte como ele é, com suas notícias, fofocas, causos, escândalos e furos, onde se encontra vinculada boa parte da mídia, e alguns poucos veículos que tentam pensar o esporte de uma maneira mais ampla, passando aos profissionais e aos seus leitores uma visão ligada ao marketing, à gestão e aos novos negócios – vocês se inserem nesse contexto, assim como a Máquina do Esporte, do Erich Beting.

Universidade do Futebol – Trabalhar em uma empresa de fora é uma realidade muito diferente do que você vivenciou em agências nacionais?

Eduardo Corch - Sim, o principal benefício é contar com a experiência global do grupo e fazer parte de uma rede. Hoje, já são mais de 400 pessoas no mundo, trocando experiências, melhores práticas e desenvolvendo projetos em conjunto. Temos condição de atender demandas de clientes em todas as regiões no mundo

Universidade do Futebol – A Havas teve ações pontuais na França, com a Federação Francesa de Futebol, e em Portugal, com a seleção de futebol principal. Quais foram os desafios em questão e as respostas fornecidas pelo grupo?

Eduardo Corch - Na verdade, temos cases mais interessantes e recentes. Na última Copa do Mundo, por exemplo, realizamos uma ação com a Louis Vuitton juntamente com a Fia. À ocasião, o Canavarro, capitão da seleção italiana, entrou em campo com uma mala de viagem daquela marca trazendo a taça. É um caso emblemático.

Além disso, trabalhamos com a Coca-Cola há mais de dez anos, principalmente ligado à ativação com futebol. O grupo está envolvido desde a Copa da França, em 1998. Na Alemanha, em 2006, fizemos todo o gerenciamento dos Fan Parks da Hyundai na Espanha, em oito cidades simultaneamente.

O grupo tem esse expertise de consultoria e ativação de grandes eventos, seja de patrocinadores ou não patrocinadores. Além de outras ações com Carrefour e Yahoo.

Houve, também com destaque, um reality show com a Coca-Cola na Argentina, veiculado em horário nobre na Telefe. Uma espécie de Joga Bonito. Foi muito interessante.

 

 
Capitão da seleção italiana, Canavarro apresenta a taça da Copa, dentro de uma mala estilizada; ação pensada pela parceria com o grupo Havas
 

Universidade do Futebol – Qual é o interesse da empresa no mercado brasileiro?

Eduardo Corch - Desde o início das suas operações, há mais de 10 anos atrás, a Havas Sports & Entertainment está sempre atenta a oportunidades de mercado. O Brasil, assim como a China, Índia e Rússia, oferece grandes oportunidades de geração de negócios, tanto no esporte como no entretenimento.

Estamos fazendo o planejamento com alguns de nossos clientes, visando Copa e Olimpíadas, mas ainda não podemos revelar. É importante também deixar claro que acreditamos muito em vida inteligente antes e depois dos eventos em questão. Não viemos para o país apenas por conta disso.

Existe muita coisa a ser feita de 2011 até 2014 e nosso posicionamento não é focado no futebol – tratamos o esporte como um todo, e minha divisão tem a responsabilidade de desenvolver negócios também na área de entretenimento (música, cinema, artes, celebridades, games, etc.).

O fato de o país sediar Copa e Olimpíada pesou na decisão, mas nós viemos para ficar. Certamente após 2016 continuaremos no Brasil. A vinda agora reflete o excelente momento que o grupo passa no mundo, bem como o amadurecimento das operações de esporte e entretenimento.

Agora, sim, estamos preparados para atender às demandas de negócios do país, competindo de igual para igual com outros importantes players.

Universidade do Futebol – Como será feito o processo de entrada no país? Quanto tempo a empresa levará até consolidar a operação aqui?

Eduardo Corch - Iniciamos nossas operações em setembro do ano passado. Apresentamos a divisão a mais de 40 empresas e tivemos excelente receptividade. Já estamos colhendo alguns frutos, alguns formatos foram testados e aprovados, outros reformulados, mas estamos confiantes que a operação brasileira será uma das principais no mundo.

Universidade do Futebol – Quais são as diferenças entre trabalhar no mercado brasileiro e trabalhar no restante do planeta?

Eduardo Corch - O Brasil é um país continental, com diversas particularidades. Além disso, importantes agências de marketing esportivo e entretenimento já estão no país e trabalham com grande competência. Fora os novos players que estão chegando. O mercado é bastante competitivo, mas conquistaremos nosso espaço.

Universidade do Futebol – No caso do futebol, de maneira geral, os clubes têm plena noção de quanto representam as suas marcas próprias? É possível realizar mensuração de resultados nesse contexto?

Eduardo Corch - Acredito que é possível, sim, e um de nossos expertises é a mensuração de resultados, mas o trabalho cultural que deve ser feito é: a mensuração não está ligada apenas à visibilidade.

As empresas devem enxergar o esporte com a possibilidade de outras entregas que não apenas a visibilidade – contato direto com o target, ações de hospitalidade, relacionamento, venda de produtos.

Ainda há uma etapa por trás e, claro, para isso existe outras formas de fazer medição que não apenas a famosa centimetragem, ligada a aspectos qualitativos (pesquisas, geralmente).



 

Universidade do Futebol – Você citou o caso da hospitalidade. A realidade brasileira, em que a construção dos estádios está atrasada, e a Copa do Mundo está cada vez mais perto, permitirá criar uma mudança cultural nesse tratamento do público esportivo até 2014?

Eduardo Corch - Nós temos uma chance de ouro com esses dois grandes eventos. No próximo século, não teremos provavelmente um cenário tão favorável quanto. Se não aproveitarmos essa chance para mudar tal situação, dificilmente teremos outra possibilidade de sucesso.

Se vai acontecer? Eu acho que sim. Historicamente, na preparação para os Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, e mesmo na preparação para a Copa na África do Sul, houve processos traumáticos, complicados, com os estádios ficando prontos muito perto da data de realização. Acho que há vontade política, do povo, e pelo momento econômico que o país atravessa, dará certo no fim das contas.



Povo brasileiro comemora vitória na disputa pela sede dos Jogos Olímpicos: para Corch, outra oportunidade como esta não se repetirá no próximo século...

 

Universidade do Futebol – Em que pontos os modelos de negócio usados em outras partes do planeta podem beneficiar o trabalho aqui no Brasil?

Eduardo Corch - Nosso posicionamento será ligado a marcas. Oferecemos alguns serviços como consultoria a empresas que queiram investir em esporte e entretenimento, ativação (criação de eventos, conteúdo, promoção, ações de relações públicas, etc.), e mensuração de resultados.

Universidade do Futebol – Como você avalia o esporte como mote de sociabilização, diferenciado na relação entre negócio e manifestação artística?

Eduardo Corch - É um pouco complicado, pois obviamente o esporte tem suas peculiaridades. Ele desperta algo nas pessoas que outros territórios não conseguem – a catarse, o amor, às vezes até para o mal, especialmente o futebol.

Hoje, cada vez mais, os esportistas estão sendo encarados como celebridades, VIPs, entrando na mesma categoria de modelos, cantores, atores. Vemos mundialmente grandes jogadores na passarela, como Beckham, Kaká, que fazem campanha de marcas não ligadas ao esporte. Essa não é mais uma tendência, é uma realidade.

Hoje o esporte está muito misturado com o entretenimento. Trata-se de um processo irreversível, até pelo fato do culto ao corpo. E o esportista tem um biotipo físico diferenciado. Será normal vermos essa fusão entre esporte e moda. Grandes marcas de artigos esportivos, como Adidas, Puma e Nike, inclusive, fazem isso, já.



Kaká ao lado de esposa e Yan Acioli, estilista encarregado de dar ao jogador um visual mais despojado; moda e esporte andando juntos 

 

Universidade do Futebol – Os profissionais que a sua empresa usará no Brasil têm formação aqui mesmo?

Eduardo Corch - Teremos um modelo misto, com a contratação de profissionais brasileiros, trabalhando diretamente com nossa rede de colaboradores espalhados no mundo. Frequentemente, recebemos a visita dos principais executivos internacionais para o desenvolvimento de projetos, estratégicas e geração de novos negócios.

Universidade do Futebol – Qual é o budget que a agência pretende trabalhar no mercado brasileiro?

Eduardo Corch - Não podemos divulgar.

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