LANCEPRESS! - 24/02/2015 - 10:56 Rio de Janeiro
Uma alternativa mais inteligente para os grandes clubes do Rio e de São Paulo que os campeonatos estaduais
Não é novidade para as pessoas que acompanham o futebol brasileiro que o calendário de nosso futebol é uma ofensa à inteligência de todos. Melhorar o calendário de nosso futebol é uma necessidade absoluta da prestigiada atividade esportiva.
No entanto, cabe ressaltar que, mesmo se mantendo a péssima estrutura do calendário atual, melhorias podem ser feitas. Por exemplo: por que os grandes clubes de São Paulo e do Rio de Janeiro são obrigados a dispor 19 datas para disputar enfadonhos e desinteressantes campeonatos estaduais?
Não seria mais interessante os clubes do eixo Rio/São Paulo utilizarem essas mesmas 19 datas para disputarem uma atrativa Copa Rio/São Paulo?
Poderia acontecer o seguinte:
a) Seria criada a Liga Rio / São Paulo de Clubes, composta de oito clubes fixos: os quatro grandes do Rio de Janeiro (Flamengo, Vasco da Gama, Fluminense, Botafogo) e os quatro grandes de São Paulo (São Paulo, Santos, Corinthians, Palmeiras).
b) Estes oito clubes jogariam a Copa da Liga Rio / São Paulo, em 19 datas. Assim, utilizariam as 19 datas dedicadas ao certame, não aos campeonatos estaduais.
c) O certame teria a Taça Guanabara, ou primeiro turno (nove datas), a Taça Bandeirante, ou segundo turno (nove datas), e a disputa do título (uma data).
d) Na Taça Guanabara, ou primeiro turno, os oito clubes jogariam entre si, classificando-se os quatro melhores para a semifinal (sete datas). Na semifinal, primeiro da fase classificatória jogaria contra quarto da fase classificatória, da mesma forma que segundo da fase classificatória jogaria contra terceiro da fase classificatória, em jogo único (uma data). Os vencedores da semifinal fariam a final em jogo único (uma data).
e) Na Taça Bandeirante, ou segundo turno, os oito clubes jogariam novamente entre si (com o mando de campo invertido em relação ao primeiro turno), classificando-se os quatro melhores para a semifinal (sete datas). Na semifinal, primeiro da fase classificatória jogaria contra quarto da fase classificatória, da mesma forma que segundo da fase classificatória jogaria contra terceiro da fase classificatória, em jogo único (uma data). Os vencedores da semifinal fariam a final em jogo único (uma data).
f) Se algum clube vencesse os dois turnos, seria proclamado campeão. Caso clubes distintos vencessem cada turno, haveria um jogo decisivo entre eles, pela disputa do título (uma data).
Como se vê, com as mesmas 19 datas que hoje os grandes clubes dedicam à disputa de enfadonhos campeonatos estaduais, poderiam jogar uma Copa da Liga Rio / São Paulo, atraente, competitiva e lucrativa. Por que não fazem isso? Quem conhece a estrutura do futebol brasileiro sabe a resposta.
Luis Filipe Chateaubriand é Membro do Bom Senso Futebol Clube e Autor da Obra “Um Calendário de Bom Senso para o Futebol Brasileiro”.
Sinopse
"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
CALOUROS DO AR FC
terça-feira, fevereiro 24, 2015
L!OPINA: Uma sugestão interessante contra o confuso calendário do futebol
O que o novo contrato de TV da Premier League tem a nos ensinar
Desde o nascimento da Liga até os dias atuais, o foco sempre foi transformar a competição em um grande produto televisivo global
Amir Somoggi / Academia LANCE!
O mundo do futebol ficou surpreso com o novo contrato assinado pela Premier League pelos direitos de transmissão da competição mais valiosa do futebol mundial. Para quem acompanha o trabalho dos ingleses, não foi tão surpreendente o crescimento de 70% nos valores, um contrato que supera 5 bilhões de libras.
A Liga, criada em 1992 se transformou em uma potência comercial global, com seus jogos assistidos por bilhões de telespectadores todos os finais de semana. Segundo dados da Liga 645 milhões de casas em 175 países do mundo acompanham as partidas, metade dos fãs globais de futebol.
A Premier League conta com 1,16 bilhão de fãs no mundo e mais de 4 bilhões de telespectadores. O site da Liga tem 13,4 milhões de unique users, conta com 25 milhões de fãs nas redes sociais e seu Fantasy Game tem 3,2 milhões de usuários.
Desde o nascimento da Liga até os dias atuais, o foco sempre foi transformar a competição em um grande produto televisivo global. Em 1992 o primeiro contrato de TV da Premier League totalizou 15 milhões de libras, para ser dividido entre os 20 clubes. Cinco anos depois já estava em 100 milhões de libras, quase 7 vezes mais.
O valor não parou de subir e em 2008 deu um grande salto de 64% em comparação com o ano anterior, quando passou de 503 milhões de libras para 825 milhões de libras . Atualmente o valor recebido pelos clubes é 104 vezes maior que o primeiro contrato assinado 22 anos atrás. E com o novo valor assinado será ainda maior.
Todas as vezes que o contrato cresceu, os novos valores beneficiaram todos os clubes, grandes, médios e pequenos. Os clubes têm o mesmo peso nas decisões da Liga e na discussão sobre a divisão das receitas. Essa regra criada pelos americanos e seguida pelos ingleses,tem como objetivo a busca por um equilíbrio entre os times, por meio de um justo sistema de divisão das receitas da TV.
Na temporada 2013-14 a Premier League repassou 1,56 bilhão de libras aos clubes pelos direitos de TV. Todos os clubes iniciam a temporada com um mínimo garantido idêntico de 52 milhões de libras, pelos direitos domésticos, internacionais e patrocínios, que representam 67% do contrato total. Os 33% restantes são os ganhos variáveis.
Do volume total, 433 milhões de libras são referentes aos diretos domésticos e outros 611 milhões pelos direitos internacionais e acordos comerciais da Liga com patrocinadores. Os 519 milhões de libras restantes são repassados como em remuneração variável do contrato pelo desempenho dos times e pelos jogos transmitidos.
O clube que menos recebeu por participar da Premier League na última temporada foi o Cardiff com ganhos de 62 milhões de libras e o clube que mais recebeu, o Liverpool somou 97,5 milhões de libras. A diferença do que mais recebe para o último é de apenas 1,57 vezes e a cada ano o volume aumenta e esse índice é reduzido, com menos diferenças entre os clubes.
No Brasil o valor passa de 6 vezes e na Espanha quase 8 vezes. A Inglaterra já mostrou que o caminho que o futebol brasileiro está seguindo seguramente é o equivocado.
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quinta-feira, fevereiro 19, 2015
Vandrigo Lugarezi, educador e membro da ONG Ação Educativa
"Por meio do futebol, é possível formar cidadãos capazes de serem protagonistas de suas próprias vidas", diz
Guilherme Yoshida / Universidade do Futebol
Muitas das pessoas que acompanham o futebol de alto rendimento atual, com frequência, se esquecem ou não têm o conhecimento que este esporte pode ser utilizado também na formação e na educação de novos cidadãos sem retirar o sonho de meninos e meninas que pretendem ser jogadores no Brasil.
Além da possibilidade de ser um meio importante para se ensinar disciplinas como matemática, história, geografia, entre outras, o futebol pode ser utilizado como meio educativo e socializador, proporcionando benefícios como senso coletivo, solidariedade, responsabilidade, superação, valores que fazem as crianças desenvolverem a cidadania desde cedo.
Pensando nisso, foi criado o projeto Fútbol Callejero, ou Futebol de Rua, uma prática esportiva e sociopedagógica idealizada por Fabian Ferraro, ex-jogador de futebol argentino, que busca usar o futebol como uma estratégia para gerar processos de aprendizagem e impulsionar o desenvolvimento de lideranças nos praticantes.
Atualmente, esta rede latino-americana já tem participação em 12 países e mais de 200 organizações em todo o mundo que praticam o Futebol de Rua, mobilizando cerca de 100 mil crianças, adolescentes e jovens.
Com isso, surgiu a ideia do Mundial de Futebol de Rua, evento que teve a sua terceira edição em São Paulo no ano passado, entre os dias 1 e 12 de julho, concomitantemente ao período que ocorreu a Copa do Mundo no Brasil. Neste evento, dois times mistos entram em campo, mas não há um juiz, e sim um mediador. Além disso, há três tempos técnicos: no primeiro, os times e o mediador definem as regras básicas do jogo. No segundo, a bola rola levando em conta as regras que foram definidas anteriormente, enquanto a terceira etapa é dedicada à reflexão, em que os participantes conversam sobre a partida. Também é neste momento em que ocorre um diálogo sobre os valores e a atribuição de pontos.
“O Futebol de Rua oportuniza a formação de cidadãos sem retirar o sonho de meninos e meninas que pretendem ser jogadores. Procuramos sempre contextualizar os acontecimentos da sociedade e do futebol, mostrar para eles histórias de sucesso, mas também o outro lado da moeda, como os casos do Adriano, Garrincha, Heleno, Paul Gascoigne, entre outros”, relata Vandrigo Lugarezi, educador e membro da ONG Ação Educativa, um dos polos que desenvolve o Futebol de Rua no país.
Nesta entrevista à Universidade do Futebol, ele ainda fala sobre como enxerga o papel dos clubes sobre a responsabilidade social do futebol e como o projeto poderia ajudar na formação dos jogadores. Confira:
Universidade do Futebol - Como e por que você decidiu trabalhar com o futebol na sua carreira?
Vandrigo Lugarezi - O futebol sempre foi meu esporte e minha brincadeira favorita desde criança. Ainda em minha adolescência, eu tentei ser jogador e cheguei jogar federado no futsal, mas não deu certo. Hoje, vejo que tudo tem seu tempo, pois consegui conciliar a minha carreira profissional na área da Educação com uma das atividades que mais me dá prazer.
Comecei a trabalhar como educador universitário no Programa Escola da Família, em 2005, quando iniciei com turmas femininas e masculinas. Neste período, participava de capacitações oferecidas pelo Programa, inclusive do Premier Skill (projeto em parceria com a Barclays Premier League). Depois, quando terminei a minha primeira licenciatura, já assumi a coordenação de uma escola para realizar projetos pelo Programa Escola da Família e mantive esse contato forte com o futebol, mas sempre focando muito mais na formação pessoal dos participantes do que a formação de atletas.
A partir destes projetos, foram aparecendo outras oportunidades para trabalhar no terceiro setor, até conhecer a metodologia do Fútbol Callejero, que complementou os meus ideais, um casamento de poucos anos, porém de muitas conquistas.
As partidas não têm juiz, os participantes constroem as regras no primeiro tempo em uma roda de conversa organizada por dois mediadores. Estes precisam estabelecer o diálogo das equipes em caso de idiomas diferentes e possuem uma planilha na qual são anotadas as regras propostas para a realização do jogo
Universidade do Futebol - Por favor, nos descreva como é desenvolvido o seu trabalho no Mundial de Futebol de Rua? E na ONG Ação Educativa?Vandrigo Lugarezi - Meu primeiro contato com a Ação Educativa foi em uma reunião das parceiras que foram convidadas a formar polos do Futebol de Rua em suas respectivas comunidades. Nesta reunião, eu conheci o Rodrigo e o Eleílson quando estava representando o CEDECA Sapopemba. Demonstramos interesse em participar do projeto, mas para mim seria apenas como oficineiro de um polo. No entanto, após as visitas nas oficinas, o Rodrigo me convidou para fazer parte da equipe responsável, tanto pela formação da delegação brasileira quanto dos preparativos para o Mundial de Futebol de Rua. Assim iniciei minha trajetória na ONG, na qual realizo as visitas nos polos para realizar o acompanhamento das turmas, a formação dos adolescentes mediadores e a organização dos encontros dos polos.
Durante o Mundial, eu fiquei junto com as duas delegações de São Paulo que representaram o Brasil, meu papel foi muito além de um técnico para o grupo, pois formamos as duas equipes com jovens de seis polos em um período de quinze dias. Até então, eles praticavam o Fútbol Callejero em suas comunidades, não tinham jogado juntos, as rodas de conversas eram constantes para podermos controlar esse lado competitivo e individual de cada um. Acredito que formamos uma família, na qual há brigas, sorrisos e muitas emoções.
Com certeza, a maior dificuldade é encontrar parceiros que acreditem na ideia, hoje eu garanto que muitos que deixaram de apostar nesse projeto se arrependeram, pois a visibilidade do Mundial foi o máximo. Durante quinze dias, estávamos na cobertura de todos os telejornais, recorda Vandrigo Lugarezi
Universidade do Futebol - Por favor, explique um pouco mais sobre o Mundial de Futebol de Rua, suas regras, sua história, e como acontece a disputa.Vandrigo Lugarezi - O Mundial foi um desafio que a Ação Educativa, junto com a FUDE e suas parceiras, realizou em São Paulo simultaneamente a Copa do Mundo. Vejo como uma conquista de todos que lutaram para que esse sonho se tornasse realidade, foi o primeiro Mundial independente, sem a participação da Fifa. As organizações conseguiram participar sem depender das promessas, que nem sempre eram cumpridas da instituição máxima do futebol. Mostramos que, com um bom planejamento, é possível realizar um evento em âmbito internacional.
Foi posto em prática a metodologia que propicia a interação dos participantes dos quatro cantos do mundo e a equipe vencedora provou que, para ser campeã, é preciso equilibrar a vontade de vencer com os valores que são pautados no terceiro tempo. As partidas não têm juiz, os participantes constroem as regras no primeiro tempo em uma roda de conversa organizada por dois mediadores. Estes precisam estabelecer o diálogo das equipes em caso de idiomas diferentes e possuem uma planilha na qual são anotadas as regras propostas para a realização do jogo.
No segundo tempo, a bola rola durante vinte minutos e, após o fim do jogo, a partida tem continuidade no terceiro tempo, quando são discutidos os valores que pontuam mais três pontos para cada equipe. Respeito: se a equipe cumpriu as regras propostas e respeitou os participantes. Cooperatividade: se houve o trabalho em grupo e se todos participaram do jogo ativamente. Solidariedade: este item não nos dá regras específicas para avaliar, pois a solidariedade deve ser uma atitude espontânea do ser humano e esse momento depende muito mais do que cada um sentiu durante a partida individualmente ou como um grupo.
A responsabilidade social deve começar dentro da sua própria casa, temos bons exemplos na Europa como o Barcelona e o Porto, eles não promovem apenas ações sociais externas, o trabalho inicia dentro do clube, dando aos atletas das categorias de base toda estrutura para sua formação pessoal. Isso é ter um compromisso com a sociedade, independente se o garoto ou a garota será jogador ou não. O papel dos clubes é fundamental para o futuro desses jovens, aponta o educador
Universidade do Futebol - Quais as principais dificuldades para se organizar um evento deste porte? Quais as contribuições e incentivos que tiveram?Vandrigo Lugarezi - Com certeza, [a maior dificuldade] é encontrar parceiros que acreditem na ideia, hoje eu garanto que muitos que deixaram de apostar nesse projeto se arrependeram, pois a visibilidade do Mundial foi o máximo. Durante quinze dias, estávamos na cobertura de todos os telejornais.
Aqueles que procuraram formar uma parceria apenas para promover suas marcas não tiveram as portas abertas, não era essa a nossa intenção. A equipe da Ação Educativa criou diversas estratégias para capitalizar recursos para que o Mundial acontecesse e ainda viabilizar as viagens de algumas delegações que não tinham condições de vir para o Brasil. O Sindicato dos Trabalhadores da Volkswagen e a Petrobras foram algumas parceiras que ajudaram, além de todo apoio que recebemos da vice-prefeita de São Paulo e algumas secretarias.
Se um atleta tem o suporte necessário fora dos gramados, a tendência é a sua carreira deslanchar. Eu insisto muito em dizer que é preciso preparar esses jovens para a sociedade e não para o clube, pois a vivência no clube é passageira, já a sociedade é permanente em suas vidas, afirma Vandrigo Lugarezi
Universidade do Futebol - Em sua opinião, quais as características que um esporte como o futebol possui que são mais benéficas para um projeto social?Vandrigo Lugarezi - O futebol, em nosso país, é cultural, há toda uma atmosfera que envolve essa modalidade esportiva. Mas não basta construir quadras e campos espalhados pelas cidades, o espaço por si só não promove a atividade, é preciso se apropriar desses espaços para fazer algo diferente que deixa uma semente plantada na comunidade.
E é por isso que eu acredito no Fútbol Callejero, o projeto não tem uma visão assistencialista e sim busca a transformação, o futebol torna o pretexto para reunirmos um grupo e, a partir disso, discutirmos valores e direitos.
É preciso focar na transformação, não podemos dar o peixe pra pessoa comer, temos de ensinar a pescar. Esse ditado é tão velho quanto à falta de estratégia de alguns órgãos e instituições que se autorrotulam defensores de direitos, porém não conseguem contribuir de maneira positiva para o protagonismo dos jovens brasileiros, avalia
Universidade do Futebol - Já o Futebol de Rua tem valores fortes em relação à cidadania e ao respeito. Infelizmente no futebol profissional não vemos muito esses valores. Você acha que o Futebol de Rua poderia ajudar na formação dos nossos jogadores, trabalhando esses valores que são fundamentais na vida de um profissional?Vandrigo Lugarezi - Isso é fato, se um atleta tem o suporte necessário fora dos gramados, a tendência é a sua carreira deslanchar. Eu insisto muito em dizer que é preciso preparar esses jovens para a sociedade e não para o clube, pois a vivência no clube é passageira, já a sociedade é permanente em suas vidas.
Quantos jovens ficam no anonimato das categorias de base e veem seus sonhos não se realizarem? E aí vem a questão do quer adiante. O Brasil ainda está atrasado em relação à infraestrutura oferecida aos jovens que buscam essa carreira, e não podemos acusar os empresários porque muitas vezes são eles que assumem o papel do clube em dar um suporte aos atletas fora de campo.
O Futebol de Rua oportuniza a formação de cidadãos sem retirar o sonho de meninos e meninas que pretendem ser jogadores. Procuramos sempre contextualizar os acontecimentos da sociedade e do futebol, mostrar para eles histórias de sucesso, mas também o outro lado da moeda, como os casos do Adriano, Garrincha, Heleno, Paul Gascoigne, entre outros.
No terceiro tempo, são conversados sobre três valores. Respeito: se a equipe cumpriu as regras propostas e respeitou os participantes. Cooperatividade: se houve o trabalho em grupo e se todos participaram do jogo ativamente. Solidariedade: este item não nos dá regras específicas para avaliar, pois a solidariedade deve ser uma atitude espontânea do ser humano e esse momento depende muito mais do que cada um sentiu durante a partida individualmente ou como um grupo
Universidade do Futebol - A Lei de Incentivo ao Esporte é favorável ou não para a utilização do futebol como promoção de desenvolvimento social no Brasil? Por que?Vandrigo Lugarezi - Acredito que [é favorável] sim, porém as instituições precisam cumprir o que está no papel. É preciso ter um acompanhamento do governo para ver se realmente o investimento trará bons frutos. Os projetos devem ser analisados com coerência para atender a demanda conforme a realidade. Se for tratada com seriedade, a Lei de Incentivo contribui para o desenvolvimento social.
Universidade do Futebol - No esporte, de que modo pode-se trabalhar a questão social sem decair no mero assistencialismo?Vandrigo Lugarezi - Como disse anteriormente, é preciso focar na transformação, não podemos dar o peixe pra pessoa comer, temos de ensinar a pescar. Esse ditado é tão velho quanto à falta de estratégia de alguns órgãos e instituições que se autorrotulam defensores de direitos, porém não conseguem contribuir de maneira positiva para o protagonismo dos jovens brasileiros.
O esporte possibilita essa aproximação dos profissionais com os jovens, porque alguns não têm uma referência, mas para isso acontecer, esses profissionais devem estar aptos a abordar temas que ultrapassam o ambiente esportivo e que ajudam na formação social.
Por onde passamos, identificamos que essa metodologia contagia. Somos cientes que temos muito trabalho pela frente e precisamos adequar e inovar para não deixar o Fútbol Callejero cair no marasmo. A intenção agora é formar uma Rede de Futebol de Rua para que os jovens mediadores possam se apropriar ainda mais do projeto e multiplicar essa semente, prevê o membro da ONG Ação Educativa e organizador do Mundial de Futebol de Rua
Universidade do Futebol - Como você enxerga o papel dos clubes sobre a responsabilidade social do futebol?Vandrigo Lugarezi - Leio muito sobre as ações sociais que os clubes brasileiros promovem, entretanto, vejo isso mais como uma autopromoção. A responsabilidade social deve começar dentro da sua própria casa, temos bons exemplos na Europa como o Barcelona e o Porto, eles não promovem apenas ações sociais externas, o trabalho inicia dentro do clube, dando aos atletas das categorias de base toda estrutura para sua formação pessoal. Isso é ter um compromisso com a sociedade, independente se o garoto ou a garota será jogador ou não. O papel dos clubes é fundamental para o futuro desses jovens.
O futebol, em nosso país, é cultural, há toda uma atmosfera que envolve essa modalidade esportiva. Mas não basta construir quadras e campos espalhados pelas cidades, o espaço por si só não promove a atividade, é preciso se apropriar desses espaços para fazer algo diferente que deixa uma semente plantada na comunidade, analisa Vandrigo Lugarezi
Universidade do Futebol – Em sua opinião, qual o perfil profissional adequado para pessoas que desejam trabalhar com projetos sociais como o de vocês?Vandrigo Lugarezi – Precisam ser pessoas que acreditam que, por meio do futebol, é possível formar cidadãos capazes de serem protagonistas de suas próprias vidas dentro da sociedade, profissionais que buscam desafios que vão além do futebol por rendimento, que estejam dispostos a encontrar o equilíbrio do espírito competitivo com a empatia pelo próximo.
Por onde passamos para relatar um pouco desse projeto, identificamos que essa metodologia contagia. Somos cientes que temos muito trabalho pela frente e precisamos adequar e inovar para não deixar o Fútbol Callejero cair no marasmo. A intenção agora é formar uma Rede de Futebol de Rua para que os jovens mediadores possam se apropriar ainda mais do projeto e multiplicar essa semente.
“Não há mágica para resolver a violência entre torcedores”, diz especialista
ALEX SABINO / Folha de S. Paulo
Uma das metáforas mais usadas a respeito do futebol é compará-lo a uma guerra. Marco Aurelio Klein, 64, não vê o assunto desta forma. Primeiro porque é especialista em violência no esporte. Mas também por ser um estudioso da 2ª Guerra Mundial.
Autor de documento inspirado no Relatório Taylor, que praticamente erradicou o fenômeno dos hooligans nos estádios ingleses a partir da década de 1990, ele trabalha atualmente na atualização do texto a pedido do ministro George Hilton (Esporte).
"O meu relatório é de 2006. O ministro ficou impressionado. Estou animado que seja posto em prática", disse.
Em entrevista à Folha, ele chegou a uma conclusão de que a violência no futebol nacional não será resolvida de um dia para o outro. "Não tem mágica", constata.
PÓS-COPA DO MUNDO
O Mundial no Brasil trouxe legado importante: os estádios sem alambrados. Mesmo no clássico entre Corinthians e Palmeiras em que aconteceu aquela confusão toda [tumulto entre palmeirenses e a PM] e com a derrota do time da casa, ninguém invadiu o campo. Alambrado não segura ninguém que quer invadir. Eu já vi torcedor pular alambrado que tinha arame farpado. Outra herança importante é o sistema de monitoramento dos estádios. E este deve ser ostensivo. A sala do monitoramento deve ser visível a todos. As pessoas precisam saber que o Big Brother está ali, presente.SOLUÇÕES E ERROS
Parece que no Brasil, nessa questão da violência no futebol, há muita tentativa e erro. Cada hora existe uma ideia mágica que vai resolver o problema... Isso não existe. Todas as ideias são com boas intenções, mas não vão resolver. Não existe uma solução da noite para o dia. A solução é longa, difícil e custosa.ESPÍRITO DE GUERRA
Antes do último clássico entre Corinthians e Palmeiras, eu li que a polícia estava preparando uma operação de guerra. Quando vi aquilo, pensei: "acabou". Como operação de guerra? Uma família não vai para um estádio que tem operação de guerra. O vândalo adora. Quando a polícia diz que é operação de guerra, esses vândalos ganham condição de combatentes do Estado Islâmico.LIÇÕES DO RELATÓRIO TAYLOR
O que inspirou o Relatório Taylor foi [a tragédia de] Hillsborough, em que morreram 96 pessoas na cidade de Sheffield [em 1989]. Não houve briga. Nem tinha torcida organizada. Houve desorganização, despreparo, superlotação. Não existiam protocolos de emergência.
Não esqueço quando tive reunião com os ingleses. Eles disseram que levaram anos para aprender que a questão não era repressão. Era organização. É o grande clássico na final? Depende do histórico. Ponte Preta e Paulista de Jundiaí, por exemplo, é jogo para 4 mil pessoas, mas são torcedores dos mais perigosos da América porque há um histórico de conflito.PROPOSTAS
É preciso criar protocolos de segurança. Eu sugiro classificar as partidas em três níveis, sendo "A" a de maior risco, "B" a de risco médico e "C" as de pequeno risco. Os ingleses se organizaram criando unidades de polícia para o futebol. A Scotland Yard, que nem arma usa, tem uma unidade de futebol. Não vejo trabalhando na partida o policial que passou a noite anterior atendendo ocorrências, perseguindo ladrões e depois vai para o enfrentamento com um moleque que está disposto a provocá-lo...CAMPANHA DE PAZ
Não tem o menor fundamento. Não resolve. Só ajuda se vier como parte de um conjunto de ações. No primeiro momento, a resolução dos ingleses foi: nós não precisamos prender o vândalo. Nós precisamos tirá-lo do estádio.
Ele destrói o espetáculo. E eles nunca tiveram torcida organizada, apenas pequenos grupos que envolviam criminalidade, pequenos furtos ou a destruição pelo prazer da destruição. Conseguiram criar uma coisa na legislação que era preciso tirar o cara do estádio. O articulador nem sempre é o sujeito que dá a porrada, que quebra a cadeira. Pode não ser o pensador.DIÁLOGO
Minha recomendação, como estudioso, é ouvir as pessoas, mesmo que isso implique algum investimento do governo. Não dá é para transformar isso em competição de quem bate mais, se a torcida ou a polícia. O cidadão é que está no meio É preciso combater a pequena violência. O xingamento é origem do conflito. Uma briga sempre começa pela agressão verbal. Os ingleses perceberam que era preciso mudar o comportamento do torcedor. O torcedor comum entra na balada do xingamento. Quando um cara xinga o outro, depois tem quatro, oito, dez fazendo o mesmo. O perdedor do jogo tem uma frustração imensa para descontar em alguém.
Eduardo Knapp/Folhapress
Marco Aurelio Klein, autor de relatório federal sobre violência de torcidas, durante palestra PERCEPÇÃO
A luta maior não é física, de repressão. É de percepção. As pessoas precisam voltar a ir ao futebol como um momento de lazer. Um momento de muita emoção, mas de lazer. Se o seu time ganhar, seu momento de lazer foi premiado com muita alegria, mas pode ser que não. Quando você vai ao cinema ver uma comédia, sai muito alegre. Vê uma tragédia, sai impressionado. No Brasil, o futebol é o único evento de lazer em que a pessoa sai de casa com sua pior roupa.
Ninguém se arruma para o futebol, vai o mais desleixado possível porque a percepção que temos é que se trata de uma coisa desleixada. Não tem o menor sentido porque é o espetáculo mais glorioso que temos. Olhe os números da Liga dos Campeões da Europa, da Copa do Mundo, do Campeonato Inglês...REPRESSÃO
É preciso tomar mais cuidado na organização do caminho do metrô para o estádio. Aquela cena da torcida do Corinthians agredindo dois torcedores do São Paulo porque estavam com a camisa do clube é absurda. Não pode acontecer. Aí é punição.
Os ingleses tomaram cuidado, entenderam qual era o trânsito, proibiram bebida dentro do metrô. O cara não podia chegar, quebrar o trem e achar que ia para casa sem problema algum. Vamos pegar o Pacaembu de exemplo. É um estádio bacana. As ruas laterais são escuras. Aquela imagem de escuridão passa a imagem de abandono e da terra de ninguém. É preciso pensar no processo todo.CUSTO DA POLÍCIA
A Inglaterra vai no caminho inverso ao do Brasil. Eles têm cada vez menos polícia. Sabe por quê? Porque a polícia custa caro lá. Aqui no Brasil é de graça em vários estádios. Ou é muito barato e o organizador do jogo, se acha que tem problema, quer muito mais polícia e cria muito mais polícia. Isso não é jeito de fazer um evento.*
RAIO-X
MARCO AURÉLIO KLEINIDADE
64CARGO
Autor do relatório final da Comissão Paz no Esporte e secretário nacional da Autoridade Brasileira de Controle de DopagemCARREIRA
Professor da FGV (2001 a 2009), responsável por futebol no Ministério do Esporte (2004 a 2007), diretor da Federação Paulista de Futebol (1993 a 1994 e 2008 a 2009), diretor de Alto Rendimento do Ministério do Esporte (2009 a 2012) e autor de três livros sobre o futebol brasileiro*
RELATÓRIO TAYLOR TRANSFORMOU FUTEBOL INGLÊS
Apontado por Marco Aurelio Klein como modelo de inspiração no combate à violência nos estádios, o Relatório Taylor revolucionou o futebol da Inglaterra e abriu espaço para que sua liga nacional se tornasse a número um do planeta.
O estudo foi realizado e adotado no país a partir do começo dos anos 1990, como resposta à tragédia de Hillsborough, ocorrida em 1989, quando 96 torcedores morreram pisoteados e esmagados contra grades de proteção devido ao excesso de público na partida entre Liverpool e Nottingham Forest, pela semifinal da Copa da Inglaterra.
Entre as medidas adotadas. que ajudaram conter os hooligans, protagonistas de algumas das maiores confusões no futebol europeu durante a década de 1980, estavam o treinamento de uma polícia especializada, a obrigatoriedade de assentos para todos os pagantes (o que pôs fim à tradição de se torcer em pé) e o fim das grades de proteção para os gramados de futebol.
O relatório também sugeriu a criação de leis específicas para crimes e contravenções praticadas por grupos de torcedores.
Para se adequar a esse novo cenário, os 27 principais estádios da Inglaterra precisaram ser reconstruídos ou passaram por reformas.
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segunda-feira, fevereiro 16, 2015
Futebol de gêneros: uma ferramenta do novo tempo
Trabalhar as questões de gênero implicaria otimizar a emancipação da mulher
Por: Benê Lima
Fico a me perguntar quando e que ‘autoridade’ nos legou como premissa que a sociedade foi feita para competir.
Não sei se foi somente o tempo vivido ou a forma como encarei a experiência de vida que me fez alterar por conta e risco esse paradigma, não o desprezando totalmente, mas também não o elegendo como a prioridade das prioridades.
Seja qual for a área de atividade, percebo que não mais condiz com um já não tão novo papel da mulher na sociedade a tentativa de mantê-la afastada de certas atividades, mesmo que seja daquelas que tradicionalmente sejam desempenhadas pelo gênero oposto – o homem.
Programas e projetos que arejam
Por estarmos afeitos a uma série de projetos, como os da rede streetfootballworld, encontramos maior facilidade em conjugar uma visão democrática e inovadora de gênero, bem como em lidar com os aspectos igualmente inovadores e direi, até transcendentes, do football3, como uma de suas plataformas.
Dentro dessa ótica, assistimos a uma iniciativa de uma igreja do bairro do Itambé, em Caucaia, que me inspirou a enxergar que podemos fazer um pouco mais por nossa juventude, ao criarmos oportunidades de integração sadia dos gêneros. Meninos e meninas precisam de uma convivência mais harmônica, lúdica e cooperativa entre si, e o esporte possui todas as precondições e ferramentas para o incremento dessa adaptação e interatividade.
Ao vermos uma experiência de futebol de gêneros, de imediato vislumbramos uma possibilidade que, além de integrativa, pode render dividendos para o crescimento da prática do futebol feminino.Em um breve diálogo com o monitor da experiência, fizemos ver ao mesmo as possibilidades que poderiam ser criadas a partir daquele experimento, e percebemos o quanto nosso depoimento o impressionou. Na verdade, ele não se dava conta da importância do que estava sendo feito, até que o fizemos despertar para a natureza social, cultural e educacional da atividade, além do seu caráter desportivo.
Portanto, ficam o depoimento e a ideia, a fim de que possamos multiplicar ações como a que vimos, que muitas vezes se iniciam despretensiosamente, mas pela importância de que se revestem acabam consolidando-se como iniciativas e ações relevantes.
COMENTÁRIO. A discussão, a conversa, o entendimento, o pacto fazem parte do processo e da proposta do futebol de gêneros..