A sabedoria do mais influente legislador do Ocidente, Moisés, sintetizou uma concepção de mundo em Dez Mandamentos. Como bom educador, o ex-príncipe do Egito sabia que longos códigos são de difícil acesso. Curioso notar que constituições muito breves, como a norte-americana, passam dos dois séculos e constituições prolixas, como todas as brasileiras , caducam em prazos muito curtos.Inspirados neste exemplo, elaboramos os Dez Mandamentos do Professor. Estes dez mandamentos são fruto de uma experiência particular e não se pretendem eternos ou válidos em qualquer ocasião. Gostaria apenas de fornecer a colegas, como você leitor, uma reflexão particular, que possa ser aprofundada, reinterpretada ou rejeitada de acordo com a sua experiência.O que me levou a pensar nestes princípios é a mesma angústia que assola qualquer educador: como ser um bom profissional, ensinar, transformar meu aluno e fazer parte desta transformação? Como superar o tédio dos meus alunos, a indisciplina, a irrelevância de algumas coisas que faço e meu próprio cansaço? Como não considerar a sala um fardo e o relógio um inimigo? Como parar de achar que só vivo a partir do fim-de-semana? A partir destes questionamentos, você está permanentemente convidado a adensar ou criticar, fazer seus outros dez ou sintetizar a dois ou três, pois, quem acha que pode melhorar a aula que dá , já começou a viver educação. E quem não acha que pode? Bem, deixa para lá! Ensinar não é a única profissão do mundo…-PRIMEIRO MANDAMENTO: CORTAR O PROGRAMA!Quase todas as disciplinas foram perdendo aulas ao longo das décadas anteriores. Não obstante, os programas nem sempre acompanharam estes cortes. Pergunte-se: isto é realmente importante? Este conteúdo é essencial? Não seria melhor aprofundar mais tais tópicos e menos outros? Se a justificativa é a pressão do vestibular, ela não pode ocupar 11 anos de Ensino Médio e Fundamental. Se a justificativa é uma regra da escola ou um coordenador obsessivo, lembre-se: o Diário de Classe sempre foi o documento por excelência do estelionato. A coragem da grande tesoura é essencial. Dar tudo equivale a dar nada. Ensinar a pensar não implica esgotar o conhecimento humano.-SEGUNDO MANDAMENTO: SEMPRE PARTIR DO ALUNO!Chega de lamentar o aluno que não temos! Chega de lamentar que eles não lêem, a partir de uma nebulosa memória do aluno perfeito que teríamos sido (nebulosa e duvidosa). Este é o meu aluno real. Se, para ele, Paulo Coelho é superior a Machado de Assis e baile Funk é superior a Mozart, eu preciso saber desta realidade para transformá-la. Se ele é analfabeto devo começar a alfabetizá-lo. Se ele está no Ensino Médio e ainda não domina soma de frações de denominadores diferentes devo estar atento: esta é minha realidade. A partir do zero eu posso sonhar com o cinco ou seis. A partir do imaginário da perfeição é difícil produzir algo. A Utopia, desde Platão e Thomas Morus, tem a finalidade de transformar o real, nunca de impossibilitá-lo.-TERCEIRO MANDAMENTO: PERDER O FETICHE DO TEXTO!Em todas as áreas, em especial nas humanas, os alunos são instigados quase que exclusivamente ao texto. Num mundo imerso na imagem e dominado por sons e cores, tornamos o texto central na sala de aula. Devemos estar atentos ao uso de imagens, música, sensorialidades variadas. O texto é muito importante, nunca deve ser abandonado. Porém, se o objetivo é fazer pensar, o texto é apenas um instrumento deste objetivo maior. Há pessoas que pensam e nunca leram Camões e há quem saiba Os Lusíadas de cor e não pense…Lembre-se de que há outros instrumentos. A sedução das imagens deve ser uma alavanca a nosso favor, nunca contra. Usar filmes, propagandas, caricaturas, desenhos, mapas: tudo pode servir ao único grande objetivo da escola: ajudar a ler o mundo, não apenas a ler letras.-QUARTO MANDAMENTO: POSSIBILITAR O CAOS CRIATIVO.Fomos educados a um ideal de ordem com carteiras emparelhadas e, mesmo no fundo do nosso inconsciente, este ideal persiste. Qual professor já não teve o pesadelo de perder o controle total de uma sala, especialmente na noite mal dormida que antecede o primeiro dia de aula? Devemos estar preparados para o caos criador e para o lúdico. Alunos andando pela sala, trocando fragmentos de textos ou imagens dados pelo professor, discussões, encenações, o professor recitando uma poesia ou mandando realizar um desenho: tudo pode ser canal deste lúdico que detona o caos criativo. Surpreenda seus alunos com uma encenação, com um silêncio, com um grito, com uma máscara. Uma sala pode estar em ordem e ninguém aprendendo e pode estar com muitas vozes e criando ambiente de aprendizado. Lembre-se o silêncio absoluto é mais importante para nós do que para os alunos. É difícil vencer a resistência dos colegas e da própria escola a isto. Lógico que o silêncio também deve ser um espaço de reflexão, mas é possível pensar que há valor num solo gentil de flauta, numa pausa ou num toque retumbante de 200 instrumentos.-QUINTO MANDAMENTO: INTERDISCIPLINAR!Assim mesmo, entendido o princípio como um verbo, como uma ação deliberada. É fundamental fazer trabalhos com todas as áreas. Elaborar temas transversais como o MEC pede e, ao mesmo tempo, libertar o aluno da idéia didática das gavetas de conhecimento. Não apenas áreas afins (como História e Geografia) mas também Literatura e Educação Física, Matemática e Artes, Química e Filosofia. É preciso restaurar o sentido original de conhecimento, que nasceu único e foi sendo fragmentado até perder a noção de todo. O profissional do futuro é muito mais holístico do que nós temos sido até hoje.-SEXTO MANDAMENTO: PROBLEMATIZAR O CONHECIMENTO.Oferecer ao aluno o cerne da ciência e da arte: o problema. Não o problema artificial clássico na área de exatas, mas os problemas que geraram a inquietude que produziu este mesmo conhecimento A chama que vivou os cientistas e artistas é transmitida como um monumento inerte e petrificado. Mostrem as incoerências, as dúvidas, as questões estruturais de cada matéria. Mostrem textos opostos, visões distintas, críticas de um autor ao outro. Nunca fazer um trabalho como: “O Feudalismo” ou “O Relevo do Amapá”; mas problemas para serem resolvidos. Todo animal (e, por extensão, o aluno) é curioso. Porém, é difícil ser curioso com o que está pronto. Sejamos francos: se é tedioso ler um trabalho destes, qual terá sido o tédio em fazê-lo?-SÉTIMO MANDAMENTO: VARIAR AVALIAÇÕES.Provas escritas são válidas, como a vitamina A é válida para o corpo humano. Porém, avaliações variadas ampliam a chance de explorar outros tipos de inteligência na sala. As outras avaliações não devem ser vistas como um trabalhinho para dar nota e ajudar na prova, mas como um processo orgânico de diminuir um pouco a eterna subjetividade da avaliação.
-OITAVO MANDAMENTO: USAR O MUNDO NA SALA DE AULA!O mundo está permeado pela televisão, pela Internet, pelos jornais, pelas revistas, pelas músicas de sucesso. A escola e a sala de aula precisam dialogar com este mundo. Os alunos em geral não gostam do espaço da sala porque ele tem muito de artificial, de deslocado, de fora do seu interesse. Usar o mundo da comunicação contemporânea não significa repetir o mundo da comunicação contemporânea; mas estabelecer um gancho com a percepção do meu aluno.-NONO MANDAMENTO: ANALISAR-SE PESSOALMENTE!A primeira pessoa que deve responder aos questionamentos da educação é o professor. Somos nós que devemos saber qual o motivo de dar tal coisa, qual a relevância, qual a utilidade de tal leitura. O professor é o primeiro que deve saber como tal ciência transformou a sua vida. Isto implica fazer toda espécie de questão, mesmo as incômodas. Se eu não fico lendo tal autor por prazer e nem o levo aos meus passeios como posso exigir que um jovem ou uma criança o façam? Qual a coerência do meu trabalho? Minha irritação com a turma indisciplinada é uma espécie de raiva por saber que eles estão certos? Minha formação permanente me indica novos caminhos? Estou repetindo fórmulas que deram certo quando eu era aluno há 20 ou mais anos? É necessário um exercício analítico-crítico muito denso para que eu enfrente o mais duro olhar do planeta: o do meu aluno.-DÉCIMO MANDAMENTO: SER PACIENTE!Hoje eu acho que ser paciente é a maior virtude do professor. Não a clássica paciência de não esganar um adolescente numa última aula de sexta-feira, mas a paciência de saber que, como dizia Rubem Alves, plantamos carvalhos e não eucaliptos. Nossa tarefa é constante, difícil, com resultados pouco visíveis a médio prazo. Porém, se você está lendo este texto, lembre-se: houve uma professora ou um professor que o alfabetizou, que pegou na sua mão e ensinou, dezenas de vezes, a fazer a simples curva da letra O. Graças a estas paciências, somos o que somos. O modelo da paciência pedagógica é a recomendação materna para escovar os dentes: foi repetida quatro vezes ao dia, durante mais de uma década, com erros diários e recaídas diárias. As mães poderiam dizer: já que vocês não querem nada com o que é melhor para vocês, permaneçam do jeito que estão que eu não vou mais gritar sobre isto (típica frase de sala de aula…) . Sem estas paciências, seríamos analfabetos e banguelas. Não devamos oferecer menos ao nosso aluno, especialmente ao aluno que não merece nem quer esta paciência este é o que necessita urgentemente dela. O doente precisa do médico, não o sadio. O aluno-problema precisa de nós, não o brilhante e limpo discípulo da primeira carteira.Há alguns anos eu falava de alguns destes princípios e uma senhora redargüiu dizendo que ela fazia tudo isto e muito mais e, mesmo assim, os alunos estavam cada vez piores e com menos resultados. Olhei para esta professora e senti nela o reflexo de meus cansaços também. A única coisa que me ocorreu lembrar é uma alegoria, com a qual encerro este texto:Na nossa cultura há um modelo de professor: Jesus. A maioria absoluta das pessoas no Brasil é cristã, mas a alegoria serve também para os que não são. Tomemos a história de Jesus independente da nossa orientação religiosa. Comparemos: Jesus teve 12 alunos escolhidos por ele! Eu tenho 30, 60, 100, escolhidos por um rigoroso processo de seleção: inscreveu, pagou, entrou. Jesus teve alunos em tempo integral por três anos: eu tenho por duas ou quatro aulas semanais, por um período mais curto. Os alunos de Jesus deixaram tudo para segui-lo, o meu não deixa quase nada e não quer acompanhar nem meu pensamento, quanto mais minhas propostas existenciais. Fiel aos novo ditames do MEC, Jesus deu um curso superior em três anos. Para quem acredita, Ele fazia milagres, coisa que nós certamente não fazemos naquele sentido. A aula, de Jesus, assim, era reforçada por work-shops. A auto estima e a confiança de Jesus era enorme: o cara simplesmente dizia que era o Filho de Deus, que ressuscitava mortos, andava sobre as águas, passava quarenta dias sem comer e não tinha medo de ninguém. Eu não tenho esta convicção. Melhor: as aulas eram ao ar livre, sem coordenação, sem direção, sem colegas e os pais dos alunos não apareciam para reclamar! Bem, após 3 anos de curso intenso com todos estes reforços, chegou a prova final. Na agonia do Horto os três melhores alunos dormiram, quando o Mestre estava chorando sangue. O tesoureiro da turma denunciou o professor à Delegacia de Educação por 30 moedas. O líder da classe, Pedro, negou que tivesse tido aula por três vezes diante da supervisora de ensino: nunca vi este cara antes… Outros nove fugiram sem dar notícia e não compareceram à prova final: o Calvário. O mais novo e bobinho, João, foi até lá, mas não fez nada para impedir que os guardas matassem o professor. Se considerarmos João , com boa vontade, o único aprovado, teremos uma média de êxito de 8.33%, baixa demais para os padrões das Delegacias de Ensino e alvo de demissão sumária por justa causa. O professor morreu e, para quem acredita, voltou para uma recuperação de férias. Reuniu os reprovados e disse: mais uma chance. Um dos alunos , Tomé, pediu para colocar o dedo no diploma do professor para ver se era de verdade. Primeira pergunta do líder da turma, Pedro: “Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?” Ou seja, o melhor aluno não aprendeu nada! Esta pergunta mostra o oposto da aula dada, pois ele achou que o curso tinha sido sobre política e, na verdade, tinha sido sobre Teologia… Objetivos não atingidos: 100% ! Novos milagres, mais 40 dias defeedback, apostilas, recuperação, reforço de férias. Final de curso pirotécnico: subiu ao céu entre nuvens e anjos assistentes-pedagógicos disseram que o mestre tinha ido para a sala dos professores eterna e não mais voltaria. O curso estava encerrado, todas as lições tinham sido dadas para aquela nata de 11 homens. O que eles fizeram? Foram se esconder numa casa, todos apavorados. O mestre mandou um módulo auto-instrucional de reforço, o Espírito Santo, um anabolizante. Só então, com uma força externa, eles começaram a entender, e finalmente tiveram aquela famosa reação bovina: HUMMMM…
Bem, eu disse à professora que me questionava: se Jesus teve tantos insucessos apesar de condições tão boas, a senhora quer ser mais do que Ele? Hoje eu diria para qualquer profissional: faça o máximo, mas apenas o máximo, e deixem o resto por conta do resto. A frase parece autista, mas é muito importante. Nós temos um limite: a vontade do aluno, da instituição e da sociedade como um todo. Não transformamos nada sozinhos, mas transformamos. O primeiro passo é a vontade. O segundo começa daqui a pouco, naquela sala difícil, com aquela turma sentada no fundo e naqueles angustiantes dez minutos que você vai levar para conseguir fazer a chamada… Vamos lá?
Sinopse
"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
CALOUROS DO AR FC
quarta-feira, julho 06, 2016
Extra Futebol] "Dez Mandamentos do Professor"
quinta-feira, fevereiro 19, 2015
“Não há mágica para resolver a violência entre torcedores”, diz especialista
ALEX SABINO / Folha de S. Paulo
Uma das metáforas mais usadas a respeito do futebol é compará-lo a uma guerra. Marco Aurelio Klein, 64, não vê o assunto desta forma. Primeiro porque é especialista em violência no esporte. Mas também por ser um estudioso da 2ª Guerra Mundial.
Autor de documento inspirado no Relatório Taylor, que praticamente erradicou o fenômeno dos hooligans nos estádios ingleses a partir da década de 1990, ele trabalha atualmente na atualização do texto a pedido do ministro George Hilton (Esporte).
"O meu relatório é de 2006. O ministro ficou impressionado. Estou animado que seja posto em prática", disse.
Em entrevista à Folha, ele chegou a uma conclusão de que a violência no futebol nacional não será resolvida de um dia para o outro. "Não tem mágica", constata.
PÓS-COPA DO MUNDO
O Mundial no Brasil trouxe legado importante: os estádios sem alambrados. Mesmo no clássico entre Corinthians e Palmeiras em que aconteceu aquela confusão toda [tumulto entre palmeirenses e a PM] e com a derrota do time da casa, ninguém invadiu o campo. Alambrado não segura ninguém que quer invadir. Eu já vi torcedor pular alambrado que tinha arame farpado. Outra herança importante é o sistema de monitoramento dos estádios. E este deve ser ostensivo. A sala do monitoramento deve ser visível a todos. As pessoas precisam saber que o Big Brother está ali, presente.SOLUÇÕES E ERROS
Parece que no Brasil, nessa questão da violência no futebol, há muita tentativa e erro. Cada hora existe uma ideia mágica que vai resolver o problema... Isso não existe. Todas as ideias são com boas intenções, mas não vão resolver. Não existe uma solução da noite para o dia. A solução é longa, difícil e custosa.ESPÍRITO DE GUERRA
Antes do último clássico entre Corinthians e Palmeiras, eu li que a polícia estava preparando uma operação de guerra. Quando vi aquilo, pensei: "acabou". Como operação de guerra? Uma família não vai para um estádio que tem operação de guerra. O vândalo adora. Quando a polícia diz que é operação de guerra, esses vândalos ganham condição de combatentes do Estado Islâmico.LIÇÕES DO RELATÓRIO TAYLOR
O que inspirou o Relatório Taylor foi [a tragédia de] Hillsborough, em que morreram 96 pessoas na cidade de Sheffield [em 1989]. Não houve briga. Nem tinha torcida organizada. Houve desorganização, despreparo, superlotação. Não existiam protocolos de emergência.
Não esqueço quando tive reunião com os ingleses. Eles disseram que levaram anos para aprender que a questão não era repressão. Era organização. É o grande clássico na final? Depende do histórico. Ponte Preta e Paulista de Jundiaí, por exemplo, é jogo para 4 mil pessoas, mas são torcedores dos mais perigosos da América porque há um histórico de conflito.PROPOSTAS
É preciso criar protocolos de segurança. Eu sugiro classificar as partidas em três níveis, sendo "A" a de maior risco, "B" a de risco médico e "C" as de pequeno risco. Os ingleses se organizaram criando unidades de polícia para o futebol. A Scotland Yard, que nem arma usa, tem uma unidade de futebol. Não vejo trabalhando na partida o policial que passou a noite anterior atendendo ocorrências, perseguindo ladrões e depois vai para o enfrentamento com um moleque que está disposto a provocá-lo...CAMPANHA DE PAZ
Não tem o menor fundamento. Não resolve. Só ajuda se vier como parte de um conjunto de ações. No primeiro momento, a resolução dos ingleses foi: nós não precisamos prender o vândalo. Nós precisamos tirá-lo do estádio.
Ele destrói o espetáculo. E eles nunca tiveram torcida organizada, apenas pequenos grupos que envolviam criminalidade, pequenos furtos ou a destruição pelo prazer da destruição. Conseguiram criar uma coisa na legislação que era preciso tirar o cara do estádio. O articulador nem sempre é o sujeito que dá a porrada, que quebra a cadeira. Pode não ser o pensador.DIÁLOGO
Minha recomendação, como estudioso, é ouvir as pessoas, mesmo que isso implique algum investimento do governo. Não dá é para transformar isso em competição de quem bate mais, se a torcida ou a polícia. O cidadão é que está no meio É preciso combater a pequena violência. O xingamento é origem do conflito. Uma briga sempre começa pela agressão verbal. Os ingleses perceberam que era preciso mudar o comportamento do torcedor. O torcedor comum entra na balada do xingamento. Quando um cara xinga o outro, depois tem quatro, oito, dez fazendo o mesmo. O perdedor do jogo tem uma frustração imensa para descontar em alguém.
Eduardo Knapp/Folhapress
Marco Aurelio Klein, autor de relatório federal sobre violência de torcidas, durante palestra PERCEPÇÃO
A luta maior não é física, de repressão. É de percepção. As pessoas precisam voltar a ir ao futebol como um momento de lazer. Um momento de muita emoção, mas de lazer. Se o seu time ganhar, seu momento de lazer foi premiado com muita alegria, mas pode ser que não. Quando você vai ao cinema ver uma comédia, sai muito alegre. Vê uma tragédia, sai impressionado. No Brasil, o futebol é o único evento de lazer em que a pessoa sai de casa com sua pior roupa.
Ninguém se arruma para o futebol, vai o mais desleixado possível porque a percepção que temos é que se trata de uma coisa desleixada. Não tem o menor sentido porque é o espetáculo mais glorioso que temos. Olhe os números da Liga dos Campeões da Europa, da Copa do Mundo, do Campeonato Inglês...REPRESSÃO
É preciso tomar mais cuidado na organização do caminho do metrô para o estádio. Aquela cena da torcida do Corinthians agredindo dois torcedores do São Paulo porque estavam com a camisa do clube é absurda. Não pode acontecer. Aí é punição.
Os ingleses tomaram cuidado, entenderam qual era o trânsito, proibiram bebida dentro do metrô. O cara não podia chegar, quebrar o trem e achar que ia para casa sem problema algum. Vamos pegar o Pacaembu de exemplo. É um estádio bacana. As ruas laterais são escuras. Aquela imagem de escuridão passa a imagem de abandono e da terra de ninguém. É preciso pensar no processo todo.CUSTO DA POLÍCIA
A Inglaterra vai no caminho inverso ao do Brasil. Eles têm cada vez menos polícia. Sabe por quê? Porque a polícia custa caro lá. Aqui no Brasil é de graça em vários estádios. Ou é muito barato e o organizador do jogo, se acha que tem problema, quer muito mais polícia e cria muito mais polícia. Isso não é jeito de fazer um evento.*
RAIO-X
MARCO AURÉLIO KLEINIDADE
64CARGO
Autor do relatório final da Comissão Paz no Esporte e secretário nacional da Autoridade Brasileira de Controle de DopagemCARREIRA
Professor da FGV (2001 a 2009), responsável por futebol no Ministério do Esporte (2004 a 2007), diretor da Federação Paulista de Futebol (1993 a 1994 e 2008 a 2009), diretor de Alto Rendimento do Ministério do Esporte (2009 a 2012) e autor de três livros sobre o futebol brasileiro*
RELATÓRIO TAYLOR TRANSFORMOU FUTEBOL INGLÊS
Apontado por Marco Aurelio Klein como modelo de inspiração no combate à violência nos estádios, o Relatório Taylor revolucionou o futebol da Inglaterra e abriu espaço para que sua liga nacional se tornasse a número um do planeta.
O estudo foi realizado e adotado no país a partir do começo dos anos 1990, como resposta à tragédia de Hillsborough, ocorrida em 1989, quando 96 torcedores morreram pisoteados e esmagados contra grades de proteção devido ao excesso de público na partida entre Liverpool e Nottingham Forest, pela semifinal da Copa da Inglaterra.
Entre as medidas adotadas. que ajudaram conter os hooligans, protagonistas de algumas das maiores confusões no futebol europeu durante a década de 1980, estavam o treinamento de uma polícia especializada, a obrigatoriedade de assentos para todos os pagantes (o que pôs fim à tradição de se torcer em pé) e o fim das grades de proteção para os gramados de futebol.
O relatório também sugeriu a criação de leis específicas para crimes e contravenções praticadas por grupos de torcedores.
Para se adequar a esse novo cenário, os 27 principais estádios da Inglaterra precisaram ser reconstruídos ou passaram por reformas.
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quinta-feira, novembro 20, 2014
Dia histórico: aprovada Lei Estadual de Incentivo ao Esporte
Lei permitirá que pessoas físicas e jurídicas destinem recursos para projetos esportivos
A manhã desta quinta-feira (20/11), entra para a história do esporte cearense como o dia em que foi aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (ALCE) a Lei Estadual de Incentivo ao Esporte.
A votação que foi acompanhada de perto pelo Secretário do Esporte do Estado do Ceará, pelo Conselho do Desporto e por dirigentes de diversas federações esportivas, cria a Lei Nº 97/14 que dispõe sobre a concessão de incentivo fiscal para fomentar projetos de caráter desportivo e paradesportivo, mediante patrocínio ou doação de contribuintes do Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS).
Desta forma, a Lei Estadual de Incentivo ao Esporte deve fortalecer as atividades de caráter desportivo ao permitir que pessoas físicas e jurídicas destinem parte dos tributos para projetos esportivos, em especial, as modalidades já trabalhadas pela Sesporte como, por exemplo, o esporte educacional, de rendimento e de participação.
A aprovação da lei foi saudada pelos deputados presentes na Casa, dentre eles os deputados estaduais Gony Arruda (PSDB), Lula Moraes (PCdoB) e Deputado Estadual Mauro Filho (PROS) que, em fala, ressaltaram o papel da iniciativa de democratização para a promoção do esporte como ferramenta de inclusão.
Para o Secretário do Esporte, Gilvan Paiva, o esporte cearense ganha um importante instrumento legal de fortalecimento da política pública, democratizando os investimentos para atletas, possibilitando assim o fortalecimento do deporto através da formação de toda uma nova geração de esportistas.
Saiba mais
A Secretaria do Esporte do Estado do Ceará (Sesporte) e o Conselho do Desporto realizaram uma série de atividades para discutir a Lei Estadual e a Lei Nacional de Incentivo ao Esporte com o intuito de demonstrar a importância deste instrumento legal para os atletas cearenses.
Informações à imprensa:
Marina Valente
Assessoria de Comunicação da Secretaria do Esporte do Estado do Ceará
quarta-feira, julho 30, 2014
Escola de Árbitros prepara Edital para Curso de Arbitragem
Curso anterior. Arquivo do Sindarf-CearáA Escola de Árbitros com a supervisão da Comissão de Arbitragem da Federação Cearense de Futebol lançará em agosto, o edital para o Curso de Arbitragem, que terá duração mínima de cinco meses. “Será uma oportunidade para que os jovens desportistas interessados possam ingressar na carreira de árbitro de futebol”, disse o presidente da CA, Milton Otaviano.
Os árbitros do quadro cearense contam com o apoio da FCF que fornece instrutores técnico, físico e psicólogo para sua melhor qualificação no âmbito estadual e nacional. “Esses três quesitos são os pilares da arbitragem e por meio dessa qualificação, acreditamos no bom trabalho e sucesso dos nossos árbitros”, pontuou Milton.
“Existe também uma preocupação da Federação na segurança das atividades físicas e também dos treinamentos práticos, que fornece uma ambulância equipada com profissionais de saúde para qualquer necessidade, além de providenciar os locais para os treinamentos técnicos”, afirmou o presidente da CA.
A arbitragem cearense tem revelado novos valores e com a realização do Curso de Arbitragem, os árbitros que se formarão na oportunidade, terão, além do apoio da CA da FCF, a chance de desenvolver uma profissão de grande responsabilidade, mas muito gratificante.
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Manuella Viana / Brenno Rebouças
Assessoria de Comunicação da Federação Cearense de Futebol
(85) 32066505 / 91384545
imprensa@futebolcearense.com.br .
domingo, julho 27, 2014
Nós torcemos pelo estatuto do torcedor!
Fonte: #MudaMais
sexta-feira, dezembro 02, 2011
As 3 coisas que a escola deveria ensinar
.Uma escola que se propusesse ‘ensinar a pensar’, embora seja uma atividade demasiado genérica, nada seria mais importante. (Benê Lima)Se as escolas parassem de perder tempo em ensinar matérias que caem no vestibular prestariam um melhor serviço ao planeta.Minha sugestão de grade curricular (segundo Rubem Alves essa expressão, grade curricular, foi inventada por um carcereiro aposentado) é:
- como se alimentar bem e como bem cuidar do corpo
- como gerir bem as próprias finanças
- como se relacionar bem com as pessoas e consigo mesmo
Estes três segmentos – mais que suficientes para uma vida plena, produtiva, criativa e feliz – envolvem diversos outros conhecimentos mais detalhados, ramificando-se de acordo com as necessidades e interesses individuais de cada aluno.Linha de montagem
Além disso, é ridículo imaginar que todos os alunos aprendem no mesmo ritmo e com o mesmo interesse. Tenho a impressão de que as escolas congelaram-se no tempo e ainda seguem o modelo das linhas de montagem quando nem mesmo as indústrias usam mais esse estilo de produção.Medir um ser humano pelo tempo com que ele aprende algo ou tentar enquadrar o aprendizado em determinado tempo, sejam séries, anos, bimestres ou semestres: nada pode ser menos educativo. Homens e mulheres não são coisas.
quinta-feira, junho 09, 2011
Faculdade poderá contratar docentes sem pós-graduação com 'notório saber'
O projeto foi aprovado para contratos temporários de professores em universidades; para contratações definitivas, permanece o concurso
AGÊNCIA SENADO Veja São Paulo/EXAME.com
O texto aprovado mantém regra em vigor para contração permanente de professor pelas instituições públicas
São Paulo - As instituições de ensino superior públicas e privadas poderão firmar contrato temporário de trabalho com docentes que sejam portadores apenas de diploma de curso de graduação e também com profissionais que comprovarem notório saber na área em que vão lecionar. Projeto nesse sentido foi aprovado nesta terça-feira (7) na Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) e segue para votação em Plenário.
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O texto aprovado mantém regra em vigor para contração permanente de professor pelas instituições públicas, prevendo que seja por concurso e que os candidatos sejam portadores de diploma de doutorado ou mestrado, conforme a complexidade da função.
A comissão aprovou substitutivo de Alvaro Dias (PSDB-PR) ao projeto (PLS 220/2010), de autoria da Comissão de Serviços de Infraestrutura (CI). O texto original restringia aos cursos das áreas tecnológicas e de infraestrutura a possibilidade de aceitação de docentes temporários sem diploma superior que comprovassem relevante experiência profissional.
O relator argumentou que restringir a medida a essas áreas representaria privilégio, optando assim por determinar a flexibilização na contratação de docentes temporários a todos os cursos superiores.
Alvaro Dias também modificou o artigo 66 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LCB - Lei 9.394/1999) para explicitar que "a formação dos docentes dos cursos de graduação e de pós-graduação de nível superior será feita em programas de mestrado e doutorado, exigida, além do estudo e aprofundamento em área de conhecimento científico e tecnológico, capacitação e prática pedagógica, a critério do respectivo sistema de ensino".
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sábado, junho 04, 2011
Entrevista] Interdisciplinaridade e mudança social pelo esporte
Os sinais são claros de que as universidades, muito em razão do momento gerencial prévio da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, que serão realizados em território brasileiro, colocaram o esporte em suas pautas. Ações relacionadas a atividades físicas e modalidades diversas permeiam a academia, com o amparo de algumas grandes empresas especializadas na temática. É o caso da parceria entre a Nike do Brasil e o programa UniSol (Universidade Solidária).
Ambos, juntamente com a Rede Esporte pela Mudança Social (REMS), a partir do ideal de que o esporte pode promover o desenvolvimento social por meio de ações nos âmbitos social, ambiental e econômico, criaram o Prêmio Nike Esporte pela Mudança Social. O alvo é reconhecer e apoiar ações e projetos de extensão universitária, executados por professores e alunos, que utilizem modalidades como mote desenvolvimentista humano.
“O UniSol tem 16 anos de atuação e a proposta fundamental é contribuir para a formação cidadã dos estudantes universitários, colocando-os em contato com a comunidade na qual eles estão inseridos, ou com comunidades menos favorecidas”, explica Daniela Lemos, coordenadora técnica do UniSol.
Ao agregar o que a universidade desenvolve com o conhecimento do estudante universitário ao longo da vida acadêmica, o projeto consegue dar um passo adiante nessa transformação. O programa articula e implementa projetos e ações sociais de instituições de Ensino Superior, em parceria com empresas públicas e privadas, organizações do Terceiro Setor e comunidades.
O UniSol é um programa da AlfaSol, criada por Ruth Cardoso, que estimula a liderança nos jovens universitários e, sobretudo, proporciona uma visão mais apurada da realidade social brasileira, fortalecendo a organização comunitária e a construção de soluções pontuais.
Na segunda edição do Prêmio Nike, concorrem projetos de extensão universitária com foco em esporte e que beneficiem diretamente jovens em situação de vulnerabilidade social, localizados nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. O valor da premiação é de R$ 25 mil, com acompanhamento técnico da equipe do UniSol.
“A universidade tem total autonomia para desenvolver suas atividades. Quando elas apresentam o projeto, há uma pré-definição de roteiro, com orçamento e metas desenhadas para os seis meses de trabalho”, comenta Daniela.
Coordenadora de projetos, ela aponta que o UniSol trabalha para garantir os benefícios e a interação entre universidade e comunidade. Por exemplo, se um professor está tendo alguma dificuldade na implementação de determinado projeto, se a universidade está acompanhando de fato a iniciativa, ou mesmo se as ações estão sendo institucionalizadas para não se tornar algo apenas pontual.
Nesta entrevista à Universidade do Futebol, Daniela fala mais sobre as especificidades do UniSol, o cenário atual propício para projetos ligados ao esporte e como o diálogo entre academia e sociedade pode ser benéfico para a formação dos jovens carentes.
Universidade do Futebol – Você poderia falar sobre sua formação, a trajetória até o ingresso no UniSol e a experiência em lidar com projetos, impactos e inovações na área social?
Daniela Lemos – Comecei no antigo Comunidade Solidária, um programa de governo criado pela doutora Ruth Cardoso. Era estudante da UNB de Administração e estagiei nessa parte administrativa. Lá me deparei com todo o aparato de política social e combate à pobreza.
No Comunidade Solidária, fui apresentada à Universidade Solidária, e passei a atuar como coordenadora de projetos no antigo programa nacional, muito parecido com o Projeto Rondon, em que muitos universitários vão para comunidades distantes fazer um intercâmbio social e discutir as fragilidades desses grupos, ao mesmo tempo em que realizam uma troca cultural.
Passei três anos nesse programa de governo, e em 2003 o UniSol se transformou em uma organização da sociedade civil, e fui coordenar a área de projetos. Minha formação é em assistência social, com especialização em gestão de projetos na área do Terceiro Setor.
Na Alfasol, o Universidade Solidária é um programa que integra todas essas ações criadas pela doutora Ruth, e dentro desses planos há o Prêmio Nike – Esporte pela Mudança Social, cuja primeira edição foi criada em 2008.
Ruth Cardoso, durante Primeiro Comício da Mulher, em campanha eleitoral em São Paulo (1985); foto: Ary Brandi
Universidade do Futebol – O UniSol (Universidade Solidária) é um programa que articula e implementa projetos e ações sociais de Instituições de Ensino Superior (IES), em parceria com empresas públicas e privadas, organizações do Terceiro Setor e comunidades. Fale um pouco mais sobre ele.
Daniela Lemos – O UniSol tem 16 anos de atuação e a proposta fundamental é contribuir para a formação cidadã dos estudantes universitários, colocando-os em contato com a comunidade na qual eles estão inseridos, ou com comunidades menos favorecidas.
A ideia é pegar toda essa expertise – o que a universidade desenvolve mais o conhecimento do estudante universitário ao longo da vida acadêmica – e transformar em uma ação educativa para essas comunidades a partir das potencialidades e das demandas que elas têm.
Temos também uma parceria com o Banco Santander que foca nas questões ambiental e de geração de renda. Na realidade, o UniSol articula o conhecimento acadêmico em prol de comunidades menos favorecidas, mas reconhecendo o conhecimento popular existente nos moradores daqueles ambientes.
Universidade do Futebol – Um dos projetos desenvolvidos é o Prêmio Nike - Esporte pela Mudança Social. Quais as pretensões e os resultados já alcançados por essa empreitada que chega à sua segunda edição?
Daniela Lemos – Em 2007, a Nike começou a articular no Brasil a Rede Esporte pela Mudança Social (REMS) e convidou não apenas as grandes ONGs que atuam com esporte no Brasil, como outras que também trabalham com ações educativas e que lidam com ações de gênero.
O Universidade Solidária entrou no circuito, pois havia também o foco de levar a academia para discutir sobre a forma como o esporte é tratado no país. Não apenas o alto rendimento ou as atividades ligadas à saúde.
Começamos a discutir nos projetos que havíamos feito, e as universidades apresentavam mais o esporte relacionado ao lazer ou em seu aspecto educativo. E surgiu a ideia do primeiro Prêmio Nike – Esporte pela Mudança Social. Tivemos mais de 50 projetos, e cinco deles foram premiados em nível de Brasil – no Rio Grande do Sul, em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Santa Catarina.
Envolvemos mais de 600 crianças e adolescentes, com projetos de empreendedorismo no Rio, com a PUC-RJ, e também em São Carlos, com a UFSCAR.
Rediscutindo as estratégias, pensando em uma continuidade, resolvemos lançar a segunda edição mais focada para jovens e adolescentes, especificamente para as capitais de São Paulo e Rio de Janeiro. O prêmio passou de 15 para 25 mil reais, e as universidades premiadas receberão o acompanhamento técnico do UniSol por seis meses, além de doação de materiais esportivos da Nike.
As universidades, por conta do momento vivido pré-Copa e Olimpíadas, colocaram o esporte em suas pautas, aumentando essas ações relacionadas de uns dois anos para cá.
Universidade do Futebol – O cenário atual do mundo é também inspirar a mudança social por intermédio do esporte?
Daniela Lemos – Sem dúvida alguma. E de várias formas. Tivemos um projeto premiado que, na realidade, o esporte era um meio, e não o fim.
Um jovem skatista do subúrbio do Rio de Janeiro ensinava às crianças no contraturno escolar essa prática, e a universidade viu aquela potencialidade e qualificou o grupo, junto com a Nike do Brasil, e hoje praticamente eles são uma associação que produz shapes, aquela prancha do skate. Chama-se Briza Arte, conduzida pelo Charles Alexandre da Silva.
O que conseguimos perceber e mostrar pelo prêmio é que o esporte pode ser um estímulo, um tema transversal, para que uma ação social ou educativa com diversos públicos seja efetivada. E não necessariamente se apresentar como tema central.
Universidade do Futebol – Em sua opinião, como liberar o potencial de jovens, para que estes fortaleçam suas comunidades, alavanquem o desenvolvimento e promovam mudanças?
Daniela Lemos – Percebo que principalmente por meio do diálogo. E as universidades, no caso com os estudantes universitários, e a UniSol, ao longo desses 16 anos, desenvolveram uma metodologia de conversar com essas instituições para que as mesmas cheguem às comunidades e falem de igual para igual, e não como templo de saber.
O estudante pode ser inserido naquele contexto e falar com outros jovens, se interessando pelo outro, apesar das visões e das realidades distintas.
Levamos, por exemplo, alguns jovens de comunidades para vivenciar o ambiente acadêmico, e a partir desse diálogo horizontal e da troca de conhecimentos, o processo se tornou positivo.
Universidade do Futebol – No esporte, de que modo pode-se trabalhar a questão social sem decair no mero assistencialismo?
Daniela Lemos – Acredito que de forma mais educativa, formando multiplicadores. Na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, o programa Esporte Integral desenvolveu a partir da experiência própria um mini curso de esporte educacional. O professor não necessita ser um profissional de Educação Física, mas pode ser um coordenador de uma ONG de base que trabalha com isso, e ele consegue utilizar qualquer modalidade para falar de cidadania, gênero, e entender o que é o ambiente familiar do jovem.
O UniSol intermedeia e orienta vários processos para estabelecer esse diálogo de uma maneira mais eficaz.
Programa Esporte Integral (PEI) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) em Rio Grande do Sul (RS); foto: Arquivo UniSol
Universidade do Futebol – O esporte já atua efetivamente na promoção de igualdade de gênero e no combate da violência contra mulheres, crianças e jovens, ou as ações ainda caminham a passos muito lentos?
Daniela Lemos – No nosso universo, ainda caminha a passos lentos. Temos de ter uma sutilidade em alguns ambientes para falar sobre determinados temas. Há um projeto que se utiliza da capoeira para falar de questões ligadas à raça.
As universidades não vão tão a fundo nesse tipo de tema, não por escolha, mas por se tratar de um processo de conquista paulatina desses jovens, por meio do esporte.
Universidade do Futebol – Também a partir de sua visão profissional e acadêmica particulares, de que forma o processo da educação auxilia no desenvolvimento do raciocínio, da criatividade e na compreensão dos fatores externos vividos pelos jovens?
Daniela Lemos – No Instituto Briza citado, o simples fato de levar jovens de Irajá para vivenciar um ambiente acadêmico, no caso a PUC-RJ, fez com que cinco dos 10 jovens que participaram no início se interessassem em prestar vestibular.
Isso sem haver qualquer tipo de argumentação sobre a importância de estudar e ter um curso superior. Somente pelo ambiente, percebemos essa vontade e essa transformação.
O UniSol tem um grupo de colaboradores voluntários, entre os especialistas, representantes das REMS, das ONGs, além de acadêmicos, reitores e ex-reitores, que possuem experiência em projetos universitários e sociais.
A universidade tem total autonomia para desenvolver suas atividades. Quando elas apresentam o projeto, há uma pré-definição de roteiro, com orçamento e metas durantes os seis meses de trabalho. Nosso acompanhamento técnico visa garantir os benefícios e a interação entre universidade e comunidade – se o professor está tendo alguma dificuldade na implementação daquele projeto, como a universidade está acompanhando, se as ações estão sendo institucionalizadas para não se tornar algo apenas pontual, etc.
Há necessidade de um compromisso social, a fim de definir também indicadores para uma avaliação de resultados, já que o impacto para a vida do estudante e das práticas universitárias é importante para todos.
Projeto Coletivo do Briza da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; foto: Arquivo UniSol
Universidade do Futebol – Você acredita que é possível pensar a formação de jovens jogadores de futebol sem a criação de um programa que gerencie o crescimento pessoal, social e profissional de modo interdisciplinar?
Daniela Lemos – Não acredito. As universidades estão aí para mostrar. Essa visão sistêmica é fundamental para um atleta, não só consciente do seu papel profissional, mas como cidadão.
Projeto Futsal Social da Universidade Feevale – Novo Hamburgo (RS); foto: Luiz Fernando Framil Fernandes
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