Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
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domingo, março 08, 2015

Futebol na Europa sofre com onda de violência

RAFAEL REIS
DE SÃO PAULO

Para quem pensa que a violência dos torcedores é exclusividade brasileira e que a Europa estava livre desse flagelo, os últimos dez dias foram bastante reveladores.

O continente, marcado por episódios trágicos especialmente nos anos 1980, conseguiu amenizar a violência nos estádios com leis rígidas e rigor no cumprimento delas.

Mas acontecimentos recentes fizeram os sinais de alerta voltarem a se acender.

O episódio mais emblemático é o da Grécia. O governo do país suspendeu por tempo indeterminado o campeonato local devido à violência de torcedores do Panathinaikos no jogo contra o Olympiakos no domingo (22).

Enquanto isso, na França, apoiadores do inglês Chelsea impediram um homem negro de entrar no metrô de Paris em meio a cânticos racistas. Na Inglaterra, torcedores do West Ham entoaram cantos antissemitas ao Tottenham, clube de origem judaica.

A Itália não escapou. Roma viu fãs do Feyenoord (HOL) depredarem uma de suas praças mais importantes antes de jogo da Liga Europa.

"Há muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo na Europa, e o futebol é reflexo de tudo isso", disse à Folha Piara Powar, diretor-executivo da rede de ONGs Fare (Futebol Contra o Racismo na Europa, em tradução livre).

"A Grécia tem a crise econômica. Notamos ainda um aumento da intolerância com a tensão entre Rússia e Ucrânia e o crescimento da xenofobia contra os imigrantes."

A Fare trabalha em parceria com a Fifa em iniciativas de prevenção contra qualquer preconceito no futebol.

Os ultras, responsáveis por boa parte dos tumultos no Velho Continente, normalmente estão ligados a pensamentos da extrema direita, como o neonazismo. Ou seja, na Europa, preconceito e violência no futebol são partes de um só problema.

"Os jogos têm menos violência do que no passado. Mas esse comportamento ultrapassado de alguns europeus resiste e é uma ameaça ao ambiente familiar nos estádios", disse Powar.

Editoria de arte/Folhapress

'MEDO PESADO'

"A gente já vai para o clássico sabendo que o clima será de guerra. Mas, desta vez, foi demais. Quando pisamos no campo para o aquecimento, fomos recebidos com uma chuva de isqueiros e sinalizadores. Eles invadiram o gramado e, então, começou a briga. Tivemos que sair correndo. Deu um medo pesado."

O relato é do lateral direito brasileiro Leandro Salino, 29, que esteve em campo na derrota por 2 a 1 do seu Olympiakos para o Panathinaikos.

O episódio levou à terceira paralisação do campeonato local por conta de episódios de violência só nesta temporada -as outras pausas ocorreram devido a morte de um torcedor e a atentado contra um dos chefes da arbitragem.

Até a reunião da liga para discutir medidas para conter a violência terminou em briga. Um dirigente do Panathinaikos acusou o segurança do presidente do Olympiakos de agredi-lo com soco.
desejo de vingança

Na Holanda, a polícia de Roterdã, casa do Feyenoord, teme que torcedores da Roma aproveitem o jogo de volta do mata-mata da Liga Europa, nesta quinta (26), para se vingarem dos fãs holandeses.

Nos últimos dias, nas redes sociais, ultras do clube italiano têm falado em dar o troco aos torcedores rivais. 

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sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Sociedade] Temor e impunidade

ceará-e-fortaleza1

Foto: Nodge Nogueira

 

A expectativa por mais um Fortaleza x Ceará faz ressurgir a expectativa pelo duelo e o medo por novos atos de violência

À véspera de Ceará e Fortaleza voltarem a duelar na temporada, dessa vez pelo Campeonato Cearense, a Capital começa a respirar ares de Clássico-Rei. Momento máximo da rivalidade entre os clubes, o embate motiva o torcedor a exalar paixão e amor ao clube, mas também revela faces de uma sociedade violenta e que ignora o espírito da esportividade. A cidade volta a pulsar, sim, ainda há gana para motivar tricolores e alvinegros, mas a razão de tamanha comoção não é mais o futebol e sim, o temor pela violência, que permeia o encontro dos arquirrivais.

No domingo, as manchetes voltarão a se repetir. Juntamente com o placar da partida, estará estampado também o resultado do quebra-quebra promovido por toda Capital. Para o doutor em sociologia e pesquisador do Laboratório e Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), Luís Fábio Paiva, a obviedade do que deve ocorrer se deve alguns fatores, principalmente a impunidade, mas lembra que o futebol não é causa de nada.

"O que acontece em dia de jogo é um reflexo da sociedade, pouco tem a ver com o futebol. Falando de grupos organizados que em muitos casos recebem integrantes de gangues e que não têm nenhuma motivação futebolística para promover a violência. Em um confronto, há rivalidades de todos os tipos e o futebol é a menor delas", disse Paiva.

Poder público

Uma vez sendo uma questão social, as atenções se voltam para o poder público e é justamente esse ponto que desagrada "gregos e troianos". As partes envolvidas responsabilizam as esferas de poder pela falha ao combate da violência, principalmente quando se trata da impunidade, como Jey, presidente da Cearamor.

"A violência no futebol é horrível; não era para acontecer. Achamos que o combate também depende muito do poder público. É preciso ter mais punição e rigor com rigor os vândalos. A instituição não pode ser prejudicada por causa de um pequeno grupo", salientou Jey.

O sociólogo Luís Fábio Paiva, por sua vez, concorda que há deficiência na punição, mas não isenta as torcidas organizadas de responsabilidade.

"As organizadas são coniventes com os atos ilícitos promovidos por seus integrantes e devem responder por isso. Essa conivência existe quando se tem uma Justiça que para ser ruim tem que melhorar muito. O judiciário presta o pior serviço para a população, e muitas vezes a culpa pela deficiência recai sobre a polícia. Este poder é o culpado por toda a impunidade existente e, assim, um incentivador da violência", completa o doutor em sociologia da UFC.

Tolerância zero para os maus torcedores

Praticamente todos os envolvidos no evento, que envolve os dois maiores time de futebol do Estado, concordam em dizer que o problema da violência em dia de jogos se dá pela infiltração dos vândalos dentro dos grandes grupos de torcida.

O Tenente-Coronel Aginaldo, do Batalhão de Policiamento de Eventos da Polícia Militar, afirma que essas pessoas usam do anonimato para praticar os atos de vandalismo, forçando a Polícia a agir. "O grande problema são os maus torcedores que se infiltram nas torcidas organizadas. Eles são um grupo pequeno, mas que fazem estragos. Temos que ter tolerância zero com esses indivíduos", acrescenta.

O Tenente-Coronel considera importante a iniciativa que parte dos próprios torcedores, na tentativa de minimizar os efeitos da violência. Porém, ele afirma que a educação é a maior arma para reduzir esse quadro negativo que sempre vem à tona quando Ceará e Fortaleza se enfrentam.image (1)

"Acredito que tudo passa pela educação. Os torcedores precisam se comportar dentro dos estádios. Esse sim é um ponto fundamental. O estatuto do torcedor também é importante, pois possui medidas que restringe os responsáveis pelos atos desordeiros e violentos", finaliza.

Efetivo policial

Para fazer a segurança no segundo Clássico-Rei, que ocorre amanhã, na Arena Castelão, pelo Campeonato Cearense, a Polícia Militar terá o efetivo de 400 policiais. Os PMs estarão distribuídos entre os grupos do BP Raio, Batalhão de Choque, Cavalaria e Batalhão de Eventos.

Força e ação das organizadas

Quando Ceará e Fortaleza medem forças, as atenções não se limitam só ao futebol. Existe sempre um certo anseio na cidade, e sempre motivado pela violência e briga entre torcidas.

Nos próximos 20 dias, Leão e Vovô vão se enfrentar três vezes. E para tentar mudar essa realidade negativa que vem das arquibancadas, as torcidas organizadas dos dois clubes buscam dar um pontapé inicial para mudar essa realidade.

Está cada vez mais comum os encontros entre as maiores torcidas organizadas do Estado, em dias que antecede um Clássico-Rei. Segundo o presidente da Cearamor, 'Jey', a finalidade desses encontros é mapear pontos de brigas e confrontos entre torcedores rivais. "Antes do primeiro jogo entre Ceará e Fortaleza, participei de uma reunião com os representantes da TUF, Mofi e JGT. Propomos levar a discussão para as lideranças de torcidas de alguns bairros da Capital. O objetivo foi mapear os pontos críticos que a gente acha que possa ter confrontos e repassar para a Polícia Militar", explica. De acordo com Jey, a ação foi bem sucedida, já que o registro de confusões no último no jogo entre os maiores times da Capital foi mínimo. "Pedimos que a Polícia trabalhe em parceria conosco para tentar punir de fato os vândalos", acrescenta ele.

Integrante da TUF, Reinaldo Bruno, reitera essa ação e diz que as torcidas organizadas não podem pagar o preço.

"Ocorre que a vagabundagem se infiltra na torcida. Eles não estão no dia a dia da gente. Nós vamos para o estádio para fazer festa e apoiar o nosso time. Esses encontros com as maiores torcidas do Estado são importantes para tentar eliminar esses baderneiros", conclui.

Diário do Nordeste -Eduardo Buchholz/Wilton Rodrigues
Repórter/ Especial para o Jogada

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terça-feira, fevereiro 26, 2013

COM PÉ E CABEÇA: A Coluna – fevereiro 2013-2

Por: Benê Lima

 

ABORDAGEM DA VIOLÊNCIA NO FUTEBOL: UMA MIXÓRDIA

 

“Enquanto não buscarmos entender a maneira de abordar e enfrentar a violência das uniformizadas, vulgo ‘organizadas’, não sairemos do confuso discurso antiviolência.” (Benê Lima)

 

Torcedores da Gaviões presos na Bolívia. Foto: Portal Uol

 

Ao acompanharmos os desdobramentos do episódio no qual estiveram envolvidos integrantes da torcida corintiana Gaviões da Fiel, que culminou com a morte de um menor boliviano, deparamos-nos com um variado repertório de abordagem da questão, com algumas opiniões abalizadas e com um sentimento generalizado de repúdio das pessoas à violência em torno do futebol. Por outro lado, também temos nos deparado com uma desorganização mental e de ideias que beiram o caos verbal, e que em nada contribuem para a evolução do debate a respeito do tema violência.

 

Ninguém é obrigado a ter conhecimento do direito ao ponto de firmar posição segura e contributiva nesse debate. No entanto, há que se ter um mínimo de organização em termos do que se quer comunicar, e para isso não se pode prescindir de grau relevante de raciocínio lógico e analítico. Se não for assim, não vale a pena repercutir ideias que só confundem e nada esclarecem. Portanto, a visão crítica que tanto clarifica e esteriliza o debate, deve permear a tudo que esteja direto ou indiretamente ligado ao caso, bem como a todos que dele se apropriem como fonte de atuação, seja para opinar seja para sobre ele deliberar.

 

Violência contra o patrimônio público em 11 de novembro de 2012 – Foto: Globo.com

 

Não vejo dificuldade em se traçar uma linha lógica e estratégica para apuração deste caso, que passe pela definição e delimitação do que seja a abordagem técnico-científica da investigação policial, e do que seja da competência da Justiça Desportiva. E, neste particular, a própria CONMEBOL precisa deixar de lado o oportunismo e o casuísmo de decisões pretensamente moralizadoras, para ater-se a corrigir sua histórica omissão, sobretudo em relação aos meandros da longeva Libertadores. A esse respeito, neste mesmo evento tivemos uma série de irregularidades para as quais não vimos a merecida repercussão, em razão de um incidente reconhecidamente de maior proporção, mas que não deveria estar ofuscando a sabida omissão da entidade de administração do futebol na América do Sul.

 

A justiça não está para ser movida por software. A condição humana sempre será fator essencial e insubstituível na tomada de suas decisões. Logo, há que se refletir, analisar, interpretar e deliberar com todo o conteúdo multidisciplinar que envolve qualquer decisão. Para que haja delito ou infração, há que estar presente o fator da pessoalidade. Portanto, qualquer punição que alcance a totalidade de uma agremiação é, por sua natureza de generalidade, excessiva, exagerada, configurando assim não justiça, mas injustiça.

 

Em contraposição ao que sustentamos, precisamos aperfeiçoar e melhor contextualizar as medidas punitivas às pessoas físicas, bem como nos livrar do fantasma da impunidade oriunda na falta de operacionalização da justiça. Contudo, não devemos confundir combate à impunidade com a proliferação de medidas (penas) que sirvam apenas de atendimento a uma satisfação doentia de parte da sociedade.

 

Já não é um vislumbre a necessidade de qualificação da imprensa esportiva. Ela é real. À medida que as exigências de um esporte globalizado e ‘complexizado’ se fazem sentir, nada mais essencial para os profissionais que fazem essa cobertura do que contarem com o apoio multidisclinar. E isto não precisa se dar pela especialização. A extensão já seria suficiente.

 

Todo discurso com mediano embasamento retórico, independente de sua fragilidade dialética, já carrega em sua entranha certo poder de persuasão e uma pitada potencial e sub-reptícia de tentativa de alienação. Portanto, são tarefa e precondição da comunicação social e não favor, o exercício de um jornalismo em que a informação seja verdadeira, esclarecedora e axiologicamente relevante, e não geradora de conflitos e do caos verborrágico.

 

Todo veículo de comunicação, a partir dos de médio porte, deveriam prover suas redações de pelo menos um profissional que se dedicasse à compreensão e análise dos temas de maior complexidade à luz das ciências humanas, para que deles pudéssemos obter clarificação e maior depuração dessas complexidades. Assim, evitar-se-ia o surgimento de falsas eminências pardas nos veículos de comunicação. Embora tal medida não resolvesse de todo tais problemas, em razão da prática do colunismo, ainda assim diminuiria o caos verbal que o meio virtual ‘subutilizado’ tem ajudado a construir.

 

Saudemos a boa comunicação, e nos insurjamos contra a comunicação ruim e seus efeitos.

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