Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

sexta-feira, janeiro 20, 2017

Os primeiros conceitos de Rogério Ceni para o São Paulo

Nenhum texto alternativo automático disponível.


A estreia do maior ídolo da história do Tricolor Paulista finalmente aconteceu. O tão aguardado São Paulo de Rogério Ceni se mostrou, nos primeiros 45 minutos do amistoso contra o River, uma equipe com algumas ideias de jogo bem atuais, misturando um pouco do que o ex-goleiro já disse ter como inspiração: Sampaoli, Osorio, Bielsa…

Mas calma! As comparações acabam aqui. Ceni é Ceni. É o M1to e agora o técnico do São Paulo. E como todo técnico, possui suas próprias ideias, suas crenças e também seus defeitos. Dar tempo, saber analisar o contexto e o jogo e deixar a mitologia de um dos maiores ídolos do futebol para trás é fundamental para saber com mais clareza e fidelidade aos fatos o que será o São Paulo de 2017.

Começando pelo modelo de jogo, que é a “maneira” como Ceni pretende que o São Paulo ataque, defesa, faça as transições…esse modelo pode ter diversos esquemas. Contra o River, o time começou num 4-1-4-1, com Rodrigo Caio fazendo esse “1” entre as linhas e Luiz Araújo, Cueva, Thiago Mendes e Wellington Nem como os 4 meias atrás de Chávez. 

 
Um dos primeiros aspectos desse modelo de jogo, que pôde ser visto ontem, foi a forma como o São Paulo inicia suas jogadas ofensivas: Rodrigo Caio se aproxima dos zagueiros e ganha a movimentação de Cueva. Com os laterais avançados, os dois tabelam, criam triangulações e fizeram o Tricolor ter muito volume de jogo, sempre com verticalidade em direção ao gol. 

 
Poucos toques de lado, muitos passes verticais. A imagem abaixo representa como o SP atacou: os laterais tiveram aquela tradicional função de dar amplitude (fazer o campo ficar maior com dois homens abertos nas pontas). Se os lados do campo são ocupados pelos laterais, o que os pontas do 4-1-4-1 fazem? Flutuam por dentro, tabelam pra sair livre na cara do gol ou “prendem” os zagueiros indo lá na área com Chavez. 

 
Sem a bola (e enquanto o físico dos jogadores deixou), o São Paulo mordeu. Mas mordeu mesmo, não deixando o River respirar em nenhuma parte do campo. Um jogador recebe? Então dois correm para tirar o espaço daquele cara, fazendo o adversário perder a bola, recuar pra trás ou até dar um chutão se as coisas ficarem complicadas.

 
São algumas primeiras ideias, apenas. O São Paulo pode mudar, e muito, com o decorrer da temporada, a possível chegada de Jucilei. Se a primeira impressão foi muito positiva, as primeiras ideias de Rogério Ceni para sua primeira equipe como treinador serão vistas ao longo dos primeiros jogos oficiais.
.

Gigante chinesa Alibaba investe quase R$ 2 bi nos Jogos Olímpicos

Logotipo na sede da Alibaba, em Hangzhou, China
Logotipo na sede da Alibaba, em Hangzhou, China

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A DAVOS 


Alibaba, o gigante chinês de comércio eletrônico, anunciou nesta quinta-feira (19) um acordo de US$ 600 milhões (quase R$ 2 bilhões) para entrar como patrocinador não só da próxima Olimpíada (Tóquio-2018) mas também dos cincos Jogos Olímpicos seguintes.

O anúncio foi feito durante o encontro anual-2017 do Fórum Econômico Mundial, o grande convescote da elite empresarial global. Confirma-se, com isso, a ascensão da China nesse universo, já que coube a seu presidente, Xi Jinping, abrir a reunião, na terça-feira (17).

Jack Ma, presidente do grupo, informou também que Alibaba fornecerá serviços de tecnologia aos organizadores dos jogos até 2028. Criará também um Canal Olímpico, serviço digital de TV destinado a promover os jogos para audiências jovens. Será um canal desenhado para chinesas, o que, considerando o tamanho da população (1,3 bilhão), é suficiente em tese para assegurar seu sucesso.

A ideia, diz Ma, é "levar os Jogos Olímpicos à era digital".

O tamanho do investimento fica ainda mais imponente se comparado às receitas que os atuais 12 patrocinadores forneceram aos Jogos de Inverno de Sochi, na Rússia, em 2014, e aos de verão, no Rio de Janeiro, em 2016.

Segundo cálculo do jornal britânico "Financial Times", foi pouco mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 3,2 bilhões), o que significa que o novo patrocinador entrará com mais da metade do que 12 pagaram pelas edições mais recentes.

É verdade que não é a primeira vez que uma firma chinesa patrocina Jogos Olímpicos: a Lenovo (computadores) o fez na Olimpíada de Pequim (2008), mas a iniciativa da Alibaba é claramente uma incursão bem mais potente.

É também a quebra do virtual monopólio que companhias ocidentais exercem sobre os Jogos Olímpicos, com grifes como Visa e Coca-Cola.

Mas é coincide com o desejo manifestado pelo presidente Xi Jinping de transformar a China em "uma grande nação esportiva".

Como o governo manda em tudo no país, até os clubes de futebol, esporte em que os chineses são inexpressivos, estão comprando em penca jogadores estrangeiros.
Só do Brasil há mais de 40 atletas atuando na China, incluindo titulares da seleção de Tite, como Renato Augusto e Paulinho.

A companhia de Jack Ma foi fundada em 1999 e, em menos de 18 anos, tornou-se a maior empresa de comércio eletrônico do mundo e, seu fundador, em pop-star do mundo empresarial. 
.

quinta-feira, janeiro 19, 2017

Estudo da UEFA mostra melhora na gestão do futebol europeu

POR   

Todos os anos a UEFA publica um relatório chamado “Club Licensing Benchmark Report”. Este documento faz parte do processo de controle financeiro criado pela entidade.
Os times, para poderem participar das competições, precisam seguir as regras de licenciamento de clubes e mais recentemente o Fair Play Financeiro.
O relatório apresenta uma série de informações relevantes como aspectos técnicos a respeito de jogadores e treinadores. E principalmente sobre a gestão dos times do Velho Continente, como receitas, custos, lucratividade e dívidas.
Um dado que chamou a atenção foi sobre a origem dos investidores estrangeiros atuais no futebol europeu. Segundo a UEFA, apenas 20% do capital estrangeiro presente nos times é proveniente da Europa.
Os recursos vindos da Ásia representam 39% do investimento, América do Norte 25%, Oriente Médio 9% e outros países 7%.
Receitas
Os times europeus atingiram uma receita recorde de € 16,9 bilhões na temporada 2014-15, frente aos € 15,9 bilhões de 2013-14, um crescimento de 6,3%.

receitas times europeus

Nos últimos 20 anos o crescimento médio do faturamento foi de 9,3% ao ano. Isso representou um aumento nas receitas de quase 600% em duas décadas.
Real Madrid e Barcelona lideram as receitas do futebol europeu. Seguidos de Manchester United, PSG e Bayern de Munique.
Na temporada 2014-15 os direitos de TV movimentaram € 7,3 bilhões, entre os recursos da UEFA e competições nacionais. O marketing faturou € 5,6 bilhões  e os estádios outros € 2,6 bilhões.
De acordo com o estudo, as ligas europeias que mais cresceram em termos percentuais nos últimos seis anos foram a primeira divisão da Inglaterra, seguida das ligas da Turquia, Rússia, Suécia. Suíça, Alemanha, Polônia e Bélgica.
Por outro lado, apenas 46 times já atingiram receitas anuais superiores a € 100 milhões. E apenas 8 times já ultrapassaram € 400 milhões em receitas. O relatório deixa claro que o futebol mundial está cada vez mais concentrado na força dos supertimes.
Custos salariais
Os times europeus apresentaram um total de gastos com salários de  € 10,6 bilhões na temporada 2014-15, representando em média 63% das receitas. Os salários cresceram 7 vezes nos últimos 20 anos e o ritmo médio de crescimento foi de 10,3% ao ano.
A liga com os mais altos salários na Europa é a Premier League com gastos de  € 2,7 bilhões.
Na sequencia vem a Série A com € 1,3 bilhão, Bundesliga  € 1,25 bilhão, La Liga  € 1,24  bilhão, Ligue 1 € 959 milhões, Rússia  € 563 milhões, Turquia  € 520 milhões e Holanda  € 272 milhões.
Os times que concentram os maiores salários são Barcelona com gastos em 2015 de € 340 milhões, Real Madrid  € 289 milhões, Chelsea  € 284 milhões, Manchester City  € 276 milhões, Manchester United  € 266 milhões e PSG  € 255 milhões.
Está claro que muitos clubes comprados por magnatas gastam mais e mais, para tentar equilibrar as forças com as duas maiores superpotências do futebol atual, Barcelona e Real Madrid.
Fair play financeiro funcionou
Segundo dados da UEFA a implantação do Fair Play Financeiro para controlar os excessivos prejuízos no futebol europeu funcionou.
O prejuízo somado dos times europeus em 2011, quando foi criando o novo mecanismo de controle, foi de € -1,67 bilhão. Em 2015 as perdas caíram 81% e atingiram € -323 milhões.
A redução dos prejuízos é uma vitória da UEFA que conseguiu em cinco anos alterar o cenário de perdas astronômicas do futebol na Europa. Nos últimos 7 anos os times da Europa somaram perdas de € -7,1 bilhões.
Prejuizos times europeus
O time mais lucrativo da Europa foi o Liverpool com lucro líquido de € 75 milhões.
Na sequência Newcastle United com € 43 milhões, Real Madrid € 42 milhões, Leicester € 40 milhões e Burnley com € 40 milhões.
.

United desbanca Barça e Real e fecha 2016 como clube mais rico do mundo

Red Devils voltam ao topo após mais de 10 anos com faturamento de 689 milhões de euros (cerca de R$ 2,3 bi) na última temporada. Catalães ocupam segunda posição 


Por Londres, Inglaterra 
Tabela relatório Deloitte Manchester United (Foto: Reprodução/Deloitte)Os 20 clubes mais ricos do mundo: valores em mi de euros e a variação de acordo com a lista do ano passado (Foto: Reprodução/Deloitte)
Após mais de 10 anos, o Manchester United recuperou o status de clube mais rico do mundo. Os Red Devils desbancaram a dupla Barcelona e Real Madrid e fecharam a temporada 2015/16 com o maior faturamento do futebol. Com 689 milhões de euros (cerca de R$ 2,3 bi) nos cofres, os ingleses interromperam oito anos de liderança dos merengues. Os dados são da consultoria Deloitte, que publicou nesta quinta-feira o seu estudo anual “Football Money League”.
A última vez que o United havia aparecido no topo foi na temporada 2003/04. O Real Madrid faturou 620,1 mi de euros (cerca de R$ 2,1 bi) e ficou na terceira posição, atrás do rival Barcelona, que registrou ganhos de 620,2 mi de euros (R$ 2,2 bi). Os três clubes se revezam nas primeiras posições desde a temporada 1996/97. É a primeira vez que as equipes batem a casa dos 600 milhões de euros. Como comparação, o Flamengo, que tem o maior faturamento do futebol brasileiro, deve fechar 2016 com receitas de cerca de R$ 420 milhões.
Para manter a liderança no próximo ano, o Manchester precisará se garantir na Liga dos Campeões da Europa. No momento, o time de José Mourinho ocupa a sexta posição no Campeonato Inglês e não se classificaria para a disputa. Bayern de Munique e Manchester City completam o Top-5.
Dos 10 primeiros, cinco são ingleses, dois são espanhóis, um é alemão, um é francês (PSG) e outro é italiano (Juventus). Os três mais ricos (United, Barça e Real) saíram de um faturamento de pouco mais de 100 mi de euros em 1996/97, quando o estudo começou a ser feito, para mais de 600 mi de euros na última temporada.
Gráfico Deloitte relatório (Foto: Reprodução/Deloitte)A variação dos três mais ricos: saíram de um faturamento de pouco mais de 100 mi de euros em 1996/97 para mais de 600 mi de euros (Foto: Reprodução/Deloitte)

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Organização de jogo e suas alternativas


Organização de jogo e suas alternativas

por Rodrigo Vicenzi Casarin Universidade do Futebol
No decorrer dos anos, diversos paradigmas foram criados e quebrados, e transformações vêm acontecendo especialmente no Brasil. Transformações, se idealizadas corretamente, sem perda do DNA genuíno, proporcionam câmbios evolutivos relevantes. E esse é um período oportuno de crescimento e discussão da nomenclatura organização de jogo.
Organização de jogo, que alguns anos atrás era um estranho nome, um “fantasma europeu”, atualmente passou a ter uma conotação de grande relevância. Construtos teóricos, práticos e discursos de treinadores e gestores reforçam essa tese diariamente. É só pesquisar ou conversar com profissionais da área para notar diversas ideias explícitas, debatidas e especialmente ratificadas pelas numerosas alternativas organizacionais.
O termo organização pode ser tradicionalmente identificado como a coordenação planejada das atividades, tendo em vista uma quantidade de pessoas com o propósito ou objetivo comum, nítido, através da divisão do trabalho, autoridade e responsabilidade (SCHEIN, 1982). Também como um sistema criado ordenadamente para atender objetivos individuais ou coletivos e, com base nesses objetivos, modelar suas estruturas, estratégias, tecnologias, pessoas e processos (ETZIONI, 1973).
Com uma linha investigativa e reflexiva, Morgan (1996) acredita que uma organização deve ser concebida como um sistema vivo, que existe em um ambiente de interdependência-independência, com percepção satisfatória das suas várias necessidades, perspectivada dentro de uma ideia de que é possível planejar seu funcionamento como uma rede capaz de construir significados coletivo-comunicativos. Essa ideia remete ao entendimento da organização como fluxo e transformação, possivelmente o mais próximo da representação atual da cena organizacional, focalizada para as interações, para os círculos, para contradição e a crise.
Mesmo assim, como em qualquer área de conhecimento, existem várias tendências e todas são válidas. A vida organizacional clarificada por metáforas demonstra um pouco disso:
Imagem1
Essas “metáforas organizacionais” automaticamente influenciam o entendimento de “organização de jogo” no futebol. Pensando numa definição simples, clara e aberta às várias tendências, “organização de jogo pode ser entendida como uma relação ou fragmentação de ideias específicas, construídas por interação intencional, recusa intencional ou pela individualidade de um dos componentes do jogo (estrutura, elementos e funcionalidade) distinguidas por nível de entendimento e pertinência, considerando intervenientes gerais e um contexto emergente-adaptativo que busca superar o adversário”.
E as equipes de futebol atuam como sistemas cujos constituintes se organizam com uma lógica particular, em função de ideias, num contexto de oposição e cooperação. No sentido em que as suas partes estão ligadas de certo modo e sob alguma norma, pode-se dizer que são sistemas caracterizados pela sua forma particular de organização. (GARGANTA, 1997)
O jogo de futebol é isso: um confronto de organizações singulares que precisam de uma ordem devidamente abalizada. E essa condição permite diversas formas de se organizar, já que não há nada que impeça a diversidade de expressão conceitual e operacional. Conceber as organizações como “formas Específicas de uma forma específica geral” que é o jogo de futebol, cria códigos intrínsecos de desempenho. Assim, cada organização possui sua identidade, demarcada por ideias, processos mais ou menos elaborados, sendo que o fim é sua eficácia qualitativo-quantitativa, ou seja, a vitória. E muitas vitórias são conquistadas por organizações variadas dentro de perspectivas distintas, seja no futebol formativo ou no futebol profissional. Abaixo algumas possibilidades, de muitas encontradas, dentre as alternativas organizacionais:
Imagem2
Organização Mecânica Numérica e Reatividade Estratégica: procura focar mais na estrutura numérica de jogo. Cria padrões de movimentos rígidos, fechando um pouco a relação interativa do jogo, com exagerada ordem estática. Isola em demasia as tarefas dos jogadores. Também pode mirar exclusivamente na reação dos movimentos do adversário, fazendo a equipe apenas jogar espelhada durante o jogo inteiro, abusando da dimensão estratégica. Sua racionalidade mais formatada faz com que a equipe não se adapte as constantes mudanças que o jogo delineia. É perspicaz na manutenção de uma regularidade, mas pode não sobreviver continuamente ao longo do processo pela rigidez informacional.
Organização Natural dos Jogadores: o jogo possui relações naturais gerais e relações essenciais à interação natural dos jogadores que são capitais. Mas dar demasiada importância, ou deixar exclusivamente para isso, retirando alguns aspectos organizacionais do jogo, pode fazer do jogo um efeito cascata, de um estado caótico desordenado.  Também essa organização está mais baseada no que os jogadores fazem individualmente, dando liberdade excessiva, imprevisibilidade, pouco nível organizacional e escassez informacional. Pela aleatoriedade, dependendo do adversário, pode conseguir fazer prevalecer o estado caótico da estrutura com a combinação do estado caótico do jogo, assim virando um “estado de jogo desordenado cobiçado”.
Organização da Sobrevalorização de um ou dois Momentos do Jogo: os cinco momentos do jogo (ataque-pós-perda-defesa-pós-recuperação-bolas-paradas) estão dentro dos elementos do jogo. Essa organização procura controlar um ou dois desses momentos do jogo, com “eficácia funcional estabelecida”. Trabalha em grande parcela as relações dos jogadores nas ações exclusivas, com preponderância ao momento ou os “momentos fortes” escolhidos para confrontar o jogo. Também pode ter uma forte dominância estratégica. Sua riqueza ou pobreza organizacional e informacional fica suscetível à sistematização e variabilidade da construção processual. Contudo pode ser tonificante, se bem operacionalizada ao longo do ano, devido ao desgaste menor que pode proporcionar.
Organização Conceitual com Excesso Informativo: como o nome já diz, o excesso de informação conceitual, dependendo do grupo de jogadores, e da cultura, pode sobrepor a capacidade de recepção e absorção dos jogadores. Essa informação pode ser passada de diversas formas, mas se passada de forma “copiosa”, com excessos de regras de ação e regras de treino, pode dificultar alguns grupos que não possuem ativação prévia. Esse excesso gera curtos-circuitos internos cognitivos que fazem o conteúdo conceitual ir além das possibilidades dos jogadores. Também pode fazer o jogador apenas jogar pelo conceito, se distanciando dos outros intervenientes da organização do jogo. Porém, se bem equilibrada, pode ser um meio rico para organizar uma equipe.
Organização Interativa: nesse estilo de organização, as várias possibilidades acima podem ser transferidas em uma só, se juntando com outras ideias, e criando uma coordenação interativa de intenções, formando uma rede de interações com demandas interpretativas do jogar que se pretende para enfrentar o jogo. Considera os processos organizacionais relativos às estruturas de jogo, às relações naturais dos jogadores, inter-relações dos momentos do jogo, dimensões do jogo específicas, conjunturas/interações de movimentos, conceitos/princípios, possíveis posturas do adversário e estratégias zonais-coletivas. Se bem operacionalizada pode gerar variações internas que proporcionam uma fluidez de jogo. Aqui entra a ideia de Maturana (2002), a Autopoiese (Autoprodução), entendida como “dinâmica construtiva-interativa de seres-vivos auto-organizados e auto-organizáveis buscando condições e fluidez de equilíbrio-desiquilíbrio-equilíbrio. Ela também precisa ser construída corretamente devido as hierarquias envolta da ideia. Se conter excessos informativosdesconexõesdificuldades de controle ou exacerbação de conteúdos, pode entrar no mesmo panorama da organização conceitual.
Então o que é uma boa organização de jogo? Precisa de rigidez excessiva? Precisa de liberdade excessiva? Mecanizada? Reativa? Formatada? Apenas conceitual? Alguma alternativa que nem está entre as citadas acima? Analisando friamente, organizar o jogo tem um pouco de tudo que foi levantado, então nenhuma perspectiva deve ser pré-julgada ou levada como ópio, apenas norteada com maior identificação.
A questão é criar uma identidade organizacional. Mas como? Somente com reflexões, debates e percepções contextuais. Simplesmente, criar algo próprio, de acordo com a realidade, experiência e conhecimento. Muitas questões no futebol dão certas desacompanhadas, outras conectadas, outras nem estão nas linhas acima, geradas pela sensibilidade individual e imprevisibilidade que cada jogo e cada contexto tem. Por isso, não se pode enxergar apenas uma “Organização da organização”, pois cada novo contexto, cada realidade exige, às vezes, aspectos organizacionais por vezes negligenciados num contexto passado. Não esqueçamos que dentro da cada perspectiva há muita riqueza de conteúdo e reflexões positivas e negativas.
Enfim, o interessante de tudo isso, é ver cada vez mais o crescimento da ideia interativa, que também possui suas diferenciações e alternativas, e que de certa forma, retrata um pouco mais a organização singular de cada equipe, o confronto entre as equipes e a auto-organização provocada.
Abraços a todos e até a próxima quarta!


Referências
ETZIONI, Amitai. Organizações complexas. São Paulo: Atlas, 1973.
GARGANTA, J. M. Modelação tática do jogo de Futebol: estudo da organização da fase ofensiva em equipes de alto rendimento. Tese (Doutorado) - Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física, Universidade do Porto, Porto, 1997.
MATURANA, Humberto. A ontologia da realidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
MORGAN, G. Imagens da Organização. São Paulo: São Paulo: Atlas ,1996.
SCHEIN, H. Edgar. Psicologia Organizacional. Rio de Janeiro: Prentice-Hall do Brasil, 1982.

terça-feira, janeiro 17, 2017

O futebol na maior economia do mundo

Por: Carlos Pereira, 
Sócio-diretor da Campo de Ideias, consultoria em marketing esportivo. Profissional formado em Publicidade pela Universidade Metodista de São Paulo e MBA em Negócios do Esporte pela ESPM. Possui uma visão ampla sobre as potencialidades e fraquezas de cada parte envolvida na área, pela experiência adquirida em diferentes setores, atuando em empresas de consumo, pesquisa, eventos, consultoria e clube de futebol. 

Ao falarmos sobre cases de sucesso no mundo do marketing esportivo que englobe todas as partes envolvidas, nomeadamente fãs, marcas, atletas, times, ligas, eventos e mídia, obrigatoriamente falamos do esporte norte-americano e do enorme sucesso de ligas como a NBA, a NFL, a MLB e a NHL. Não se trata apenas de um jogo de basquete, futebol americano, beisebol ou hóquei, mas sim de verdadeiros espetáculos que exploram, na máxima conotação da palavra, tudo o que possa ser extraído.
Esse fenômeno não ocorreu historicamente com o futebol na mesma intensidade. Muito por conta da cultura esportiva do país, acostumada a ter sempre um vencedor e jogos com placares elevados. O futebol, nesse aspecto, pode sofrer resistência e ser considerado um jogo tedioso, onde é possível passar 90 minutos sem que o momento máximo, o gol, simplesmente não aconteça.
Algumas tentativas de popularização do esporte foram feitas ao longo dos tempos. A primeira mais notável, sem dúvida, ocorreu durante a década de 70, quando houve a criação da NASL (North America Soccer League) e a chegada de uma constelação de grandes craques consagrados, muitos em final de carreira, que desembarcaram para desbravar esse terreno fértil. Verdadeiras celebridades como Pelé, Beckenbauer, Cruyff, Carlos Alberto Torres e Eusébio emprestaram a sua magia em troca de cifras que muitos ainda não tinham conquistado ao longo de suas brilhantes carreiras.  Não podemos dizer que foi um fracasso, pois a repercussão foi gigantesca. Porém, não perdurou e a NASL foi extinta em 1984.
Após mais de uma década sem uma liga profissional, a Major League Soccer foi criada em 1996, como forma de cumprir a promessa feita à FIFA durante a escolha do país como sede da Copa do Mundo de 94. Durante essas últimas duas décadas, tivemos momentos de maior euforia e outros onde imaginou-se que o futebol voltaria ao amadorismo da década de 80. Algumas mudanças de regras foram testadas dentro de campo com o objetivo de agradar ao público acostumado com os esportes mais populares do país, mas não foram suficientes para trazer uma massa de fãs compatível com as expectativas. Logo, foram deixadas de lado e as regras adotadas fora de campo é que começaram a surtir efeito. 

b294e13d1648f44ff2b584be4e460792

O modelo de negócio da MLS merece ser avaliado com atenção. Para os americanos, estamos falando de negócio e, nesse aspecto, eles são imbatíveis. Ao contrário do que foi apresentado no texto da semana passada sobre a China, a MLS preza por um controle bastante rigoroso sobre os gastos. Os investimentos crescem conforme as receitas aumentam, há um total equilíbrio nessa equação.
O grande motivo para que esse controle ocorra é o fato dos clubes, ou melhor dizendo, das franquias, serem sócias da liga, não meramente participantes. Diferente do que acontece no Brasil e também nas grandes ligas europeias, os clubes não são associações sem fins lucrativos ou caprichos de grandes bilionários. São empresas e, como empresas no maior país capitalista do mundo, são geridas para garantir lucro aos seus investidores.
Outra diferença existente em comparação com o Brasil e as ligas europeias é que lá não existe divisões de acesso. As franquias participam do campeonato sem o risco de rebaixamento, fazendo parte de um grupo fechado, como ocorre com as grandes ligas americanas em outros esportes. Em 2016, foram 20 times participantes e o plano de expansão prevê um total de 28 times até 2020.
Para possibilitar o máximo equilíbrio técnico entre as equipes, a MLS realiza o draft para a seleção de novos atletas a cada nova temporada. As equipes com pior desempenho possuem as melhores opções de escolha. Por ano, cada franquia pode gastar US$ 3,66 milhões, valores modestos se compararmos com o que acontece mundo afora. Além disso, cada equipe pode contratar até 3 jogadores chamados "Designated Player", patamar que se enquadram as grandes estrelas do futebol mundial que ganham o valor máximo de US$ 457.500 por mês. São esses jogadores designados que ajudam a divulgar a liga, tanto para o aumento do interesse do público interno, como também para que o mundo enxergue o potencial do futebol nesse mercado.
Essa regra de jogador designado surgiu há dez anos atrás com a chegada do inglês David Beckham ao Los Angeles Galaxy e a liga optou por aumentar o limite para três jogadores ao obter resultados satisfatórios em seu planejamento. De lá para cá, outras grandes estrelas chegaram aos EUA, como Thierry Henry, Pirlo, Drogba, David Villa, Steven Gerrard e o brasileiro Kaká.
O sucesso tem acontecido de forma gradual. Hoje a MLS conta com grandes marcas patrocinadoras. Empresas do porte de Adidas, AT&T, Audi, Coca- Cola, EA Sports, Heineken, Etihad e Johnson & Johnson fazem parte dessa lista. As audiências crescem ano a ano, com os jogos transmitidos pela FOX, ESPN e Univision, além de transmissão internacional para 140 países. Hoje alcança mais de 30 milhões de seguidores em sua audiência televisiva, com crescimento acima de 25% ao ano, atingindo o público mais desejado pelos anunciantes, com idade entre 18 e 34 anos. A presença de torcedores no estádio também está em evolução, sendo hoje a 7º liga do mundo com maior média de público, acima de 21.500 torcedores por jogo.
É notável o avanço técnico do futebol norte-americano, comprovado pelo fortalecimento da seleção nacional que conquistou respeito nas últimas duas décadas após a realização da Copa do Mundo de 94, em seu território. Se ainda não faz parte do primeiro grupo de elite de seleções globais, também não podemos dizer que trata-se de um mero figurante nas competições que participa.
Não causará espanto se a MLS tornar-se uma liga tão forte como as principais europeias, bem como ver a seleção americana chegar ao topo nas próximas décadas. Nada disso será fruto do acaso.
.

quinta-feira, janeiro 05, 2017

Por sonho de presidente, futebol vira política pública na China

Gilles Sabrie/The New York Times
8-year-olds work on their dribbling at the Evergrande Football School in Qingyuan, China, Dec. 6, 2016. As Chinese soccer clubs spend lavishly to lure top players from Europe and South America, an equally ambitious effort is underway to build future generations of homegrown talent via academies like this one, now the the worldÕs biggest soccer boarding school. (Gilles Sabrie/The New York Times)
Garoto de oito anos em escola de futebol na cidade de Qingyuan, na China

CHRIS BUCKLEY
DO "NEW YORK TIMES", EM QINGYUAN, NA CHINA

Os 48 campos de futebol do vasta Escola de Futebol Evergrande, no sul da China, mal parecem suficientes para os 2,8 mil alunos. Diante de um prédio principal da escola os jovens atletas correm para os campos a cada dia, chutando, driblando e passando com a esperança de conquistar a glória e riqueza futebolística no futuro.

"O futebol será minha carreira, quando eu crescer", disse Wang Gai, 13, um menino magro e alto que estuda no colégio interno há três anos, depois de um treino matinal sob o comando de um técnico espanhol. "Quero ser o Cristiano Ronaldo chinês", ele disse, em referência ao superastro português.

Preparar o próximo Ronaldo ou Messi se tornou um projeto nacional na China, onde o torcedor número um do futebol no país, o presidente Xi Jinping, está determinado a transformá-lo em uma grande potência futebolística.

A boy helps two fellow students with their sit-ups at the Evergrande Football School in Qingyuan, China, Dec. 6, 2016. While China has excelled at individual sports that demand intense discipline from an early age, the country has not done as well at fostering group sports, where skills like teamwork and improvisation count as much as personal virtuosity. (Gilles Sabrie/The New York Times)
Crianças chinesas em treinamento de futebol no país

É como uma corrida espacial para a China, cujos times e seleções têm apresentado desempenho entre pobre e mediano nas competições internacionais recentes. Mas o esforço já causou uma onda de gastos e atraiu apoio ao esporte em escala que espantou torcedores, jogadores, técnicos e dirigentes de todo o mundo.

Nas duas últimas semanas, a principal liga do futebol chinês atraiu astros do futebol europeu e sul-americano, e os contratos reportados atingem valores de até US$ 40 milhões (R$ 128 milhões) anuais, o que representa o maior salário mundial para um jogador de futebol. Um clube chinês ofereceu US$ 105 milhões (R$ 337 milhões) anuais a Cristiano Ronaldo, mas ele recusou, disse o agente do futebolista na semana passada.

Esses valores estonteantes estão abalando as fundações do futebol profissional. Antonio Conte, treinador do famoso Chelsea, da Inglaterra, denunciou a onda de contratações chinesas como "um perigo para todos os times do mundo".

A campanha por criar um futebol digno de se equiparar à ascensão econômica da China é um dos símbolos da ambição de Xi, de transformar a China em uma grande potência altamente confiante. "Minha maior esperança para o futebol chinês é que seus times se tornem os melhores do mundo", ele anunciou no ano passado.

Nos dois últimos anos, o governo dedicou ao futebol o esforço concentrado anteriormente devotado à conquista de medalhas olímpicas em modalidades individuais como os saltos ornamentais e a ginástica.

As autoridades prometeram limpar e reorganizar o futebol profissional e criar uma nova geração de jogadores, por meio da construção de dezenas de milhares de campos de futebol e da criação de programas de futebol em dezenas de milhares de escolas. O objetivo é estabelecer um fluxo de grandes jogadores que um dia se tornem capazes de vencer a cobiçada Copa do Mundo masculina, e que restaurem as glórias que a seleção feminina do país conquistou no passado.

(161111) -- BEIJING, Nov. 11, 2016 (Xinhua) -- General Secretary of the Communist Party of China (CPC) Central Committee Xi Jinping, also Chinese President and Chairman of the Central Military Commission, addresses a gathering to commemorate the 150th anniversary of Sun Yat-sen's birth in Beijing, capital of China, Nov. 11, 2016.
Presidente da China, Xi Jinping, é fã de futebol

O esforço encorajou os clubes chineses a gastar dinheiro sem pensar duas vezes. Além de pagar dezenas de milhões por jogadores estrangeiros, os donos de times chineses investiram centenas de milhões de dólares em participações em clubes europeus, na esperança de aproveitar seus conhecimentos nos ramos de preparação de jogadores e marketing.

"Os gastos atuais geraram imensas expectativas", disse Simon Chadwick, professor de empreendedorismo esportivo na Universidade de Salford, no Reino Unido. "Gastar muito na contratação de jogadores também significa adquirir heróis e ícones".

Mas se o futebol destila as ambições nacionais de Xi, também ilustra de que maneira seus planos podem fracassar, como aconteceu em outras arenas, em meio a ordens confusas e metas distorcidas, especialmente em nível local. Há resistência dos pais, preocupados por seus filhos dedicarem menos tempo às atividades acadêmicas, e medo de que os gastos pesados com astros estrangeiros desviem dinheiro e atenção do processo de desenvolvimento de talentos nacionais.

Os problemas do futebol, ao que parece, são parecidos com os da economia mais ampla: o desejo de sucesso rápido e vistoso coloca os objetivos de longo prazo em risco.

O "Diário do Povo", principal jornal do Partido Comunista chinês, alertou na semana passada sobre uma "bolha" de gastos irresponsáveis no futebol profissional chinês que poderia estourar e prejudicar seriamente o esporte. Investidores demais têm expectativas febris, e alguns clubes, autoridades e escolas estão só fingindo trabalhar no desenvolvimento de jovens atletas, afirmou o jornal.

"Um dos maiores problemas é o imediatismo", disse Cameron Wilson, escocês que vive em Xangai e edita o site Wild East Football, que acompanha os esportes na China. "Há todos esses grandes planos e ideias, mas quando o assunto é o trabalho de base, nas províncias, cada um faz o que quer".

Os apaixonados torcedores de futebol chineses adorariam ter seleções nacionais competitivas, em lugar das equipes medíocres que têm agora. A seleção masculina recentemente foi classificada no 83º posto do ranking da Fifa, logo acima das Ilhas Faroe, um remoto território associado da Dinamarca que só tem 50 mil habitantes, e é pouco provável que a China conquiste vaga na Copa do Mundo de 2018.

A seleção feminina - o orgulho do futebol chinês em décadas passadas - vem tropeçando. Em 1999, ela conquistou o segundo lugar na Copa do Mundo feminina, mas caiu ao 13º posto no mais recente ranking da modalidade.

"A seleção nacional é uma piada", disse Xu Yujun, 16, que foi ao Estádio dos Trabalhadores, em Pequim, para assistir ao seu time favorito na cidade demolir um adversário inepto da província de Henan. "Creio que serão precisas décadas para resolver o problema; não é só questão de dinheiro, mas de atitude".

Por anos, o futebol profissional masculino sofreu seriamente com problemas de corrupção, ultrajantes até mesmo para um país onde a corrupção é tão comum como a China. Desde que revelações sobre resultados arranjados de partidas causaram escândalo nacional, em 2009, o pior das trapaças foi eliminado. "Ainda existe corrupção", disse Wilson. "Ela só não é tão gritante".

Para Xi, o futebol é paixão desde a infância. Suas viagens ao exterior incluíram poses para fotos ao lado de David Beckham e outras celebridades do futebol. Na Irlanda, em 2012, houve um famoso momento no qual ele tentou entusiasticamente chutar uma bola, mas demonstrou estar fora de forma.
Em setembro, o presidente visitou a escola na qual estudou em Pequim, onde aprendeu a jogar futebol e se tornou torcedor, de acordo com as memórias de um antigo professor.

"Vejam como sou saudável", disse Xi aos jovens futebolistas da escola. "A base disso foi o esporte quando eu era moço".

A seven-year-old student folds clothes before going to sleep in his room at the Evergrande Football School in Qingyuan, China, Dec. 6, 2016. Parents pay up to about $8,700 a year to send children to the worldÕs biggest soccer boarding academy, where 24 Spanish coaches oversee training and students spend 90 minutes a day on drills and also play on weekends. (Gilles Sabrie/The New York Times)
Garoto de sete anos em escola de futebol na China

Investidores privados correram ao ramo do futebol profissional, encorajados pelo apoio de Xi ao esporte e aparentemente ansiosos por marcar pontos junto ao governo.

Na principal janela de transferências do ano passado, os 16 times da Superliga chinesa gastaram US$ 300 milhões (R$ 965 milhões) na contratação de jogadores estrangeiros, superando em US$ 120 milhões (R$ 386 milhões) os gastos da Premier League inglesa, de acordo com a FIFA TMS, uma empresa que compila dados sobre transferências de jogadores. Em 2017, é provável que os preços sejam ainda mais altos.

Mas o foco de Xi é o longo prazo e a próxima geração de jogadores. Seu plano dispõe que 50 mil escolas do país tenham fortes programas de futebol, até 2025, ante cinco mil em 2015. O número de campos de futebol no país crescerá para mais de 70 mil até o final de 2020, ante menos de 11 mil no início do projeto. Àquela altura, dispõe o plano, 50 milhões de chineses, entre os quais 30 milhões de estudantes, jogarão futebol regularmente.

"Agora os diretores de todas as escolas estão prestando bem mais atenção ao futebol", disse Dai Wei, diretor de esportes na Escola Bayi, onde Xi estudou. "Antes isso seria impensável".

Mas há fortes resistências culturais à iniciativa, mesmo na Bayi.

Alguns pais desencorajam os filhos de dedicar tempo aos esportes, disse Dai, porque eles têm muitos deveres de casa e enfrentam forte concorrência nos exames acadêmicos.

Embora a China venha apresentando excelentes resultados nos esportes individuais que exigem intensa disciplina desde muito cedo, o país não se saiu tão bem no incentivo aos esportes coletivos, onde capacidades como o trabalho de equipe e a improvisação contam tanto quanto a virtuosidade pessoal.

A escola Evergrande, uma instituição privada e maior colégio interno de futebol do planeta, diz que sua fórmula de intenso treinamento combinado a educação sólida pode mostrar o caminho para o desenvolvimento de atletas jovens.

"Quando mais escolas de futebol forem construídas, mais e mais crianças jogarão e os astros se multiplicarão", disse Liu Jiangnan, diretor da escola inaugurada em 2012. "Eu apostaria que, dentro de sete ou oito anos, metade da seleção chinesa de futebol terá vindo da escola".

Some of the 48 fields at the Evergrande Football School, the worldÕs biggest soccer boarding academy, in Qingyuan, China, Dec. 6, 2016. While China has excelled at individual sports that demand intense discipline from an early age, the country has not done as well at fostering group sports, where skills like teamwork and improvisation count as much as personal virtuosity. (Gilles Sabrie/The New York Times)
Campos de futebol em escola em Qingyuan, na China

Atraídos por esperanças como essas, os pais pagam até US$ 8,7 mil (R$ 28 mil) anuais para que os filhos estudem na Evergrande, onde os treinos são comandados por 24 treinadores espanhóis. Os jogadores promissores recebem bolsas, e as crianças de famílias mais pobres têm descontos, dizem os dirigentes da escola.

Mas mesmo na Evergande as crianças começam no esporte mais tarde do que suas contrapartes na Europa e América do Sul, e muitas vezes lhes faltam fundamentos de jogo em equipe e tática, diz Sérgio Zarco Diáz, um dos treinadores espanhóis.

"Os meninos estão melhorando, ano após ano", ele diz, com esperança.
Mas a abordagem da Evergrande é cara demais para ser copiada em larga escala.
Algumas escolas, por falta de treinadores e espaço para campos, desenvolveram treinamentos próprios, como a ginástica de futebol, na qual crianças se exercitam com bolas. Isso pode impressionar as autoridades visitantes, mas não prepara os jovens para o fluxo de uma partida, disse Zhang Lu, respeito comentarista de futebol chinês.

"O futebol da China já fracassou no passado tentando correr em busca do sucesso instantâneo", disse Zhang em entrevista em Pequim, recordando esforços frustrados anteriores para promover o esporte, nos anos 80 e 90. "O problema é que o pensamento de todos continua a correr em linhas tradicionais. Todo mundo pensa que futebol é só resultados, competição, treinamento, criação de astros".
Zhang em lugar disso vem encorajando as escolas a se concentrar na diversão do jogo e em promover ampla participação. A abordagem oferece a mais crianças uma pausa na monotonia das aulas, e no futuro produzirá mais campeões do que uma abordagem elitista, de cima para baixo, ele argumenta.

Algumas escolas estão tentando seguir suas ideias. Em uma tarde recente, o smog que costuma cobrir Pequim se dispersou e as crianças da Escola Primária Caoqiao correram para os campos, gritando de alegria e rindo.

"Hoje cedo, o futebol foi cancelado por causa do smog", disse o diretor Lin Yanling. "Mas ao meio-dia avisei aos alunos que podiam jogar, e eles explodiram de alegria". 
.