Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

A revolução no futebol brasileiro não será televisionada

AMIR SOMOGGI
O futebol brasileiro parou no tempo. CBF, federações estaduais e clubes vivem um subdesenvolvimento no campo das ideias, que afasta nosso mercado de qualquer possibilidade real de evolução.
No último domingo tivemos mais uma prova desse mundo arcaico do nosso futebol. O clássico paranaense Atletiba, sem transmissão pela TV aberta e fechada, seria transmitido apenas no Youtube.
Entretanto por uma artimanha da Federação Paranaense de Futebol (FPF) esse passo importante para o futebol nacional não ocorreu. Mas de 20 mil pessoas na arena do Atlético-PR foram impedidas de assistir à partida.
Milhares estavam aguardando ansiosas na internet.
Com a desculpa que a equipe que faria a captação das imagens e a transmissão online não estava credenciada, a FPF proibiu que pela primeira vez um jogo de futebol no Brasil fosse somente disponibilizado no Youtube.
De forma corajosa Atlético-PR e Coritiba se recursaram a realizar a partida. A Federação, mesmo sem ter direito sobre esse conteúdo, de forma autoritária proibiu sua transmissão.
Se os clubes não aceitaram os valores ofertados pela RPC, tinham sim o direito de transmitir via streaming sua partida, o mais importante componente atual da industria do esporte global. O streaming, com a transmissão online atinge bilhões de pessoas ao mesmo tempo em todo o mundo, nada se compara a esse potencial.
A dupla paranaense pode ser considerada precursora de uma revolução que está em curso, a transmissão online de jogos de futebol no Brasil. E essa revolução não será televisionada!
A partir do momento que os times se derem conta da força da internet, e do streaming, sem dúvida chacoalharão as estruturas do futebol brasileiro.
O Youtube, de propriedade do Google, uma das mais importantes empresas do planeta e tem a marca mais valiosa.
Obteve faturamento em 2016 de US$ 90 bilhões e lucro líquido de US$ 20 bilhões, é um player imbatível.
Em 2013 faturava US$ 56 bilhões e cresce junto com o avanço da internet.

Google

Domina há anos as receitas publicitarias online, além de utilizar ferramentas modernas antenadas com o que de mais avançado se pratica atualmente.
É mais rico que qualquer emissora de TV, e também muito mais inteligente.
Assim, a partir do momento que o futebol brasileiro tiver o aparato tecnológico do Google, ficará muito mais complicado de se manter essa visão arcaica e antiquada da gestão de conteúdos de futebol no Brasil.
Os jovens não assistem mais TV como seus pais e avós faziam. No Brasil de hoje, há mais audiência em vídeos na internet, do que na TV aberta.
Isso significa que a revolução já começou, menos no nosso futebol.
E o Google já se enveredou para o futebol. A Copa do Rei da Espanha está sendo transmitida pelo Youtube, com um custo por partida de aproximadamente € 4,99. Uma verdadeira revolução!
Por meio do streaming, o Youtube tem um alcance muito maior que a TV aberta e fechada. É incomparável! Sem falar que permite que mais torcedores tenham acesso ao conteúdo.
Os ganhos são globais e não mais nacionais e em muitos casos regionais.
A revolução do futebol brasileiro passa por essa nova era, das transmissões online.
NBA já mostrou o caminho.
A NBA dos EUA foi uma das pioneiras em investir em transmissão online de seus jogos e os resultados foram muito positivos. Em 2012, as receitas de transmissão da liga estavam estagnadas em US$ 930 milhões por ano.
Com a criação do NBA League Pass, os torcedores ao redor do planeta podem pagar diretamente para a NBA e acompanhar os jogos por streaming.

1477037101_lplogo2 

Essa decisão foi tão acertada que os valores com os direitos de transmissão já superaram US$ 2,6 bilhões por ano.
Em 2017, a expectativa da NBA é que salte para US$ 3,6 bilhões anuais.

Análise conceitual do jogo no futebol

Análise conceitual

Os gols da partida entre Paris Saint Germain vs Barcelona

Olá a todos! A análise de desempenho vem tendo um crescimento muito importante e sendo indispensável para qualquer clube em busca de seus objetivos (formativo – estratégico). O suporte dado por imagens e dados estatísticos são imprescindíveis para todo o staff técnico na programação de qualquer ciclo de treinamentos.
Iremos analisar lances e gols da Champions League 2016/2017 com base em conceitos e princípios. Por meio das definições de alguns termos podemos identificar padrões e comportamentos táticos individuais, de setor e coletivos. Seguem abaixo as definições que servirão de base para nossa análise:
Tática Coletiva: Movimento pré-determinado e organizado de dois ou mais jogadores de um setor ou de toda a equipe com objetivo ofensivo ou defensivo.

Princípios em fase de posse de bola
Distribuição: número de jogadores como possíveis linhas de passe em diferentes posições; dois ou mais jogadores na mesma linha horizontal do campo diminuem a possibilidade de linhas de passe e conquista do espaço do campo.
Verticalização: procura da profundidade através de um passe, um lançamento, condução
Amplitude: utilização dos espaços horizontais de campo em qualquer zona e fase de jogo, para conquistar espaço e aumentar distância entre jogadores adversários.
Mobilidade: movimento dos jogadores dentro de um sistema dinâmico conceitual ou combinado para não dar referência ao adversário
Imprevisibilidade: capacidade de criar desequilíbrio na equipe adversária com diversas soluções ofensivas. Não entende- se imprevisibilidade como improvisação.

Princípios em fase de não posse de bola
Distribuição: ocupação dos espaços dos jogadores nos setores (diagonal, triangular, horizontal) de acordo com a zona de campo, adversário e proteção do próprio gol para não permitir a conquista do espaço.
Retardamento: ação com intuito de retardar a progressão adversária visando a reorganização e maior equilíbrio da equipe ou setor.
Densidade: maior concentração possível de jogadores em zona da bola para maior cobertura dos espaços e raio de ação
Equilíbrio: manutenção da condição numérica nos setores com superioridade ou igualdade através da distância entre os jogadores do setor e entre setores (compactação)
Controle: capacidade de escolha em definir se/como intervir (retardamento, pressing, marcação, cobertura).
Técnica – Tática individual
A execução de um gesto ou movimento se encaixa no contexto técnico. A escolha de um gesto ao invés de outro, para uma determinada finalidade ou efeito, se encaixa no contexto tático.
A partir destas definições vamos analisar dois gols que a equipe do Barcelona sofreu contra o PSG, pelas oitavas de final da UEFA Champions League.
Video Player
Análise Gol – Draxler (a partir 2’:52’’ do vídeo)
Barcelona:
Posse de Bola
Início da ação com comando e verticalização (condução) de Piquet. Busquets entra na linha defensiva para dar cobertura (equilíbrio) enquanto os laterais sobem em amplitude; Piquet passa para Messi, que na zona central do campo, perde um duelo 1vs1 dando a possibilidade de uma transição ofensiva adversária.
Não posse de bola
Transição negativa em inferioridade numérica (não em equilíbrio); realizam uma ação de retardamento até cerca dos 20-22 metros de distância do gol para que possam se reorganizar em linha com a entrada dos laterais.
Enquanto Sergi Roberto tenta velozmente entrar na linha no lado oposto, Jordi Alba começa sua ação de transição negativa atrasado (tática individual); quando a ação de retardamento chega ao ponto de intervenção, Jordi Alba não conseguiu chegar a posição necessária para intervir em tempo deixando o jogador adversário em uma situação de 1vs1 con o goleiro.
Análise Gol – Cavani (a partir 5’:57’’ do vídeo)

Barcelona
Não posse de bola
Marcação com pressão ofensiva (distribuição) na saída de bola adversária com seis jogadores; superioridade numérica do setor defensivo em sua linha 4×3 (equilíbrio); grande distância entre setores defensivos – meio campo e ataque; Neymar mantém alta distância com seu adversário de referência; sai em pressão ao adversário com ligeiro atraso e escolhe afrontar 1vs1 e vem superado; jogador adversário conduz verticalmente a bola criando igualdade numérica com a linha defensiva; ação retardamento da linha que vai até cerca de 30 mt do gol para diminuir distância entre jogadores na linha em proteção ao gol (equilíbrio);  Jordi Alba ao se reorganizar em linha com o setor, mantém uma distância maior em relação aos demais jogadores (tática individual); Piquet acompanha acertadamente o movimento de Cavani nas costas de Umtiti não conseguindo a intervenção ; passe que passa exatamente entre Umtiti e Jordi Alba que não consegue intervir na trajetória devido sua distância inicial.

Conclusão
Sabemos que o gol é um episódio muito raro dentro de todos os eventos que acontecem durante uma partida. Para que ocorra, tem que haver algum tipo de “erro” da equipe que o sofre. Será sempre uma sucessão de eventos coletivos e individuais dentro da mesma situação para que aconteça um gol.
Um dos intuitos da análise é conseguir compreender determinados comportamentos das equipes em posse e não posse de bola, para que sejam apresentados, discutidos, corrigidos ou reforçados com toda a equipe para auxiliar na programação de treinamentos.
Quais questões podemos refletir após estas análises? Devemos acrescentar ou retirar algo? A troca de informações e opiniões são essenciais para o crescimento do conhecimento.
Abraço!

sábado, fevereiro 18, 2017

A escolha inicial pesa na continuidade



Portal Futebol Cearense
Ceará e Fortaleza protagonizaram um episódio inédito nestes últimos dias. Após serem derrotados na Copa do Brasil e a consequentemente eliminados precocemente na competição mais democrática do país, a dupla acabou demitindo suas respectivas comissões (o alvinegro trocou Gilmar Dal Pozzo pelo experiente e vitorioso Givanildo Oliveira; o tricolor bancou o retorno de Marquinhos Santos, campeão cearense em 2016 pelo próprio tricolor), apontando um problema recorrente no nosso futebol: o erro na hora de escolher o treinador para iniciar uma temporada.
Algo que prejudica – e muito – a continuidade e o planejamento para todo o ano. Fizemos um levantamento acerca dessa situação nesta década (de 2010 pra cá). E assusta!
2010 – CSC: O Vovô, recém-promovido à Série A do Brasileiro, não conseguiu manter (acordo financeiro) o técnico PC Gusmão e apostou em René Simões. O resultados e o desempenho pífio no início da temporada culminaram na demissão e posteriormente retorno do seu antecessor.
FEC: Já o tricolor, que havia acabado de passar pelo fatídico rebaixamento à Série C, apostou em Luiz Muller (que acabara de ser auxiliar de Roberto Fernandes, técnico em parte de 2009). O tricolor permaneceu até Abril, quando acabou eliminado na Copa do Brasil e acertou a saída em comum acordo. Em seu lugar, Zé Teodoro assumiu e sagrou-se campeão (tetracampeonato) estadual pouco tempo depois.
2011- CSC: O interminável Dimas Filgueiras iniciou a temporada, após encerrar 2010 no comando do alvinegro na Série A. Foi substituído pelo técnico Vágner Mancini em março.
Foto: Lucas de Menezes/Agência Diário
FEC: Flávio Araújo (guarde este nome, falaremos deste mesmo treinador daqui a pouco) iniciou a temporada, todavia, em abril acabou demitido e deu lugar ao técnico Ferdinando Teixeira, que retornaria para sua terceira passagem no Pici.

2012- CSC: Dimas, novamente, era o técnico do Ceará. Após a demissão de Vágner Mancini na Série A do ano anterior e o retorno(que também havia trabalhado no Ceará em 2010) de Estevam Soares, Dimas terminou o Brasileiro com o objetivo – frustrado – de livrar o Ceará do rebaixamento. Mesmo com o descenso, permaneceu. Até fevereiro, quando foi trocado por Lula Pereira. Este, por sua vez, durou pouquíssimo tempo e foi substituído pelo repetente PC Gusmão (2009, 2010, 2012 e ainda retornou no final da Série B em 2014).
FEC: Ponto fora da curva! O tricolor iniciou a temporada com Nedo Xavier, que permaneceu até julho, mesmo sendo vice-campeão cearense. Foi substituído por Vica.
2013 – CSC: O Ceará apostou no “emergente” Ricardinho, que foi substituído por Leandro Campos (mais tarde, sagrou-se tricampeão cearense). Na temporada, o Vovô ainda teve Sérgio Guedes e Sérgio Soares – sem contar com Dimas que acabou como interino em algumas ocasiões.
FEC: Vica foi mantido, mesmo após fracassar no mata-mata da Série C no ano anterior. Após ser eliminado nas semifinais da Copa do Nordeste (pelo Campinense), o treinador foi demitido e deu lugar ao retorno de Hélio dos Anjos.
2014 – um ano diferente Ceará e Fortaleza iniciaram a temporada com Sérgio Soares e Marcelo Chamusca, respectivamente. Sérgio durou quase toda temporada (contabilizando o início da passagem em 2013, ficou 14 meses no comando) e Chamusca terminou a temporada no tricolor.
2015 – CSC: Dado Cavalcanti inicia a temporada, foi demitido com 9 jogos e deu lugar a Silas Pereira, posteriormente campeão da Copa do Nordeste. Na temporada, Vovô ainda teve mais três técnicos.
FEC: Nedo Xavier iniciou o ano no Fortaleza (já havia sido assim em 2012), mas foi demitido e Marcelo Chamusca retornou ao tricolor após a passagem frustradas no Sampaio Corrêa.

Foto: CearáSC/Divulgação
2016 – CSC: Lisca iniciou a temporada, mas foi demitido e deu lugar ao também repetente Sérgio Soares, que retornou para as disputas da Série B.
FEC: Flávio Araújo – de novo – deu o pontapé inicial na temporada, dando lugar ao emergente Marquinhos Santos.
2017- Neste ano, a dupla apostou em técnicos que conseguiram sucesso no futebol catarinense. Gilmar Dal Pozzo (Ceará) e Hemerson Maria (Fortaleza) foram demitidos ontem e deram lugar a Givanildo Oliveira e Marquinhos Santos, respectivamente, para a continuidade da temporada.
É possível observar, diante deste levantamento, a falta de convicção por parte dos dirigentes na hora de escolher um treinador para iniciar um planejamento. Os maus resultados ou até mesmo o mau desempenho mesmo acompanhado de vitórias, acaba acarretando na demissão de treinadores logo no início da temporada. De forma justa ou injusta (não vamos nem entrar no mérito da questão), os clubes desmontam o planejamento, isto porque, as peças que vêm por indicação dos técnicos acabam permanecendo, gerando assim um prejuízo técnico, tático e, sobretudo, financeiro aos clubes.
Outro ponto de fácil percepção é o fato de tanto Ceará, quanto Fortaleza, acabarem insistindo em um ciclo vicioso de procurar, quase sempre, os mesmos profissionais. É fácil vê na lista idas e vindas de determinados nomes, o que mostra uma visão de mercado muito resumida do futebol cearense. Precisamos de critério e convicção nas escolhas de pré-temporada, pois são essas escolhas – na maioria das vezes, equivocada – que acabam pesando muito no restante do ano.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

O que está acontecendo com o esporte mais amado dos brasileiros?

Luigi Bispo é Tecnólogo, Especialista em Gestão Esportiva, Pós-Graduando em Liderança Estratégica e Atleta.
                         *  *  *

O que está acontecendo com o esporte mais amado dos brasileiros?

Prometi a mim mesmo que não iria mais tocar no assunto futebol nacional, mas os recentes questionamentos de Benê Lima, importante ativista do Futebol feminino no Ceará, me fará abrir uma exceção.
Os dirigentes, em suma, não valorizam o conhecimento científico. O que vale na prática é a articulação de cunho, quase que exclusivamente, político.


Agora os clubes precisam de intervenção externa. Foi assim com o PROFUT, iniciativa do governo federal para equacionar as dívidas dos clubes. Foi assim com a Conmebol que obrigará os clubes participantes da libertadores investir no futebol feminino.

De quantas outras intervenções externas serão necessárias?

Os conselhos deliberativos, viraram em suma, parlamentos. A ordem da pauta, quase sempre, tem cunho político. Assim como no parlamento político nacional, um vazio de ideias dando asas a velha disputa do poder pelo poder.

Quando não, são os atletas dos grandes clubes que ganham fortunas cada vez maiores, dando péssimos exemplos dentro e fora de campo. Indisciplina, noitadas e outras distrações. A vaidade vai no céu e o futebol sucumbiu nos gramados.

Fico surpreso quando iniciativas como as minhas e de Abilio Diniz, no que tange a implantação de boas práticas de governança corporativa, custem a ser realizadas, devido ao embaraço político que corrói as agremiações.

O futebol não deve ter mais espaço para amadores, por isso, nosso maior Case (Exemplo de sucesso) é de um clube dos Estados Unidos, o Orlando City, que tem Marcos Peres como Diretor de Comunicação, a quem estendo minha admiração.

O clube da terra do Tio San, adotou as boas práticas de governança e hoje triplicou seu valor de mercado, saiu de uma discreta participação regional para figurar entre os 10 maiores do país, conseguiu atrair investidores para construir o estádio próprio, entre outras ações.

Alex Bourgeois, ex-CEO do São Paulo, talvez saiba mais que eu, não existe espaço para a profissionalização da gestão num olhar 360 graus.

Quando vejo o Professor Amir Somoggi, Consultor em Marketing Esportivo, talvez o único que circunda na grande mídia, fazendo críticas aos dirigentes de clubes brasileiros, me faz ter esperança por mudanças.
.

segunda-feira, fevereiro 13, 2017

Ashoka Brasil cria iniciativa para impulsionar negócios sociais

São Paulo. São Paulo --( DINO - 10 fev, 2017) - Na próxima quarta-feira (15/2), sete organizações sociais irão apresentar em São Paulo modelos inovadores de negócios sociais. A iniciativa faz parte do evento final do programa Grow2Impact, realizado pela Ashoka Brasil, instituição pioneira na área de empreendedorismo social. Essa será uma oportunidade para investidores e interessados no setor conhecerem novas soluções para questões sociais, que gera impacto positivo sistêmico.

Imagem relacionada

Em sua terceira edição, o Grow2Impact reuniu ao longo de um ano empreendedores sociais, empresas, investidores e mentores para criarem em colaboração estratégia, produtos e serviços para alavancar o impacto social de diferentes iniciativas. De soluções para a questão da água no sertão da Paraíba, à promoção do microcrédito para jovens mulheres empreendedoras, o programa traz resultados concretos de modelagem de negócios 2.5.

"O Grow2Impact é uma metodologia inovadora que representa um mecanismo de colaboração entre setor social e privado para impulsionar soluções de impacto social. Ele atende uma tendência do segmento que é o interesse pelo modelo de negócio social, partindo da necessidade de unir expertise. A colaboração entre os setores é a chave para uma mudança da sociedade", afirma Deise Hajpek, coordenadora de redes de empreendedores sociais e parcerias institucionais na Ashoka Brasil.

O Grow2Impact é uma metodologia que abriga diferentes estratégias que abordam do desenvolvimento individual ao organizacional, utilizando conteúdos como design thinking, formação continuada em estratégia, cultura organizacional e desenvolvimento de liderança para o alcance de resultados concretos. O objetivo é alavancar impacto de forma sustentável financeira e organizacional.

"Participar do programa foi uma grande oportunidade de pensarmos como nos tornar um negócio social no que temos de mais valioso: nossa metodologia de inclusão social", avalia Vera Cordeiro, do "Saúde Criança", organização que trabalha no Rio de Janeiro com famílias de crianças em risco social, provenientes de unidades públicas de saúde.

Para Lilian Prado, da ONG "Acreditar", que atua com microcrédito em Pernambuco, o programa foi importante para ressaltar a importância das pessoas na implementação das iniciativas. "Aprendi que a melhor forma de definir novos produtos e serviços é usando a empatia e ouvido o público-alvo antes de tudo. Por meio da metodologia do design thinking ampliamos o olhar e compreendemos que nosso trabalho em educação financeira não é apenas um novo serviço, mas uma mudança real na vida as pessoas", afirma.

O Grow2Impact é uma iniciativa precursora da Ashoka no mundo. A organização, presente no Brasil há mais de 30 anos, e em outros 90 países, é a pioneira global no campo do empreendedorismo social. A Ashoka trabalha em rede com mais de três mil empreendedores sociais no mundo, sendo 379 deles no Brasil.

O Programa já contou com a participação de 22 organizações sociais de 11 estados brasileiros, capacitou diretamente 75 líderes e gestores e indiretamente 140 membros dessas organizações. O evento final do Grow2Impact poderá ser acompanhado pelohttps://www.facebook.com/ashokabrasil/?fref=ts a partir das 19h30, do dia 15/2.
.

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

Comentários prontos sobre futebol costumam encobrir boas explicações

GLYN KIRK/AFP
Gabriel Jesus comemora após fazer gol em jogo do Manchester City
Gabriel Jesus comemora após fazer gol em jogo do Manchester City
Tostão

Os Estaduais começaram com os mesmos problemas de outros anos: gramados e estádios ruins, pouca qualidade técnica, públicos pequenos, violência na arquibancada no jogo do Inter e muitos erros dos árbitros e auxiliares. Atlético-MG, Cruzeiro e Corinthians foram beneficiados em suas vitórias.

Os mesmos que criticam a longa duração dos Estaduais e o enorme número de partidas no ano das grandes equipes são os mesmos que aplaudem a realização da Primeira Liga. A justificativa inicial de que ela seria um embrião de uma forte liga nacional foi mais uma conversa para boi dormir.

Uma característica do futebol é o comentário pronto, uma mesma explicação para situações diferentes. Mesmo se for correto, encobre outros motivos, às vezes, mais importantes. É mais fácil ter um comentário pronto.

Se o Palmeiras não for bem nos primeiros jogos, já está pronto o comentário de que Eduardo Baptista é um técnico pequeno para um elenco tão forte, como se o Palmeiras tivesse um timaço.

Se Felipe Melo for expulso, já existe o comentário pronto: "Eu já sabia". Ele é muito bom para o nível do futebol brasileiro, mas, nas grandes equipes em que jogou, foi sempre um coadjuvante. No Palmeiras, se sente o grande craque, o grande líder. Daí, sua excessiva agitação em campo e nas entrevistas, querendo mandar em tudo, até na opinião dos jornalistas.

Se Gabriel Jesus não tivesse jogado bem os primeiros jogos no Manchester City, já estava pronto o comentário de que seria preciso tempo de adaptação. Como brilhou, tiraram da manga outro comentário pronto: o de que craque não precisa de tempo. O futebol é muito maior e mais complexo que nossas explicações.
Guardiola, antes da estreia de Gabriel Jesus, já sabia que o melhor lugar do atacante seria pelo centro e próximo à área para aproveitar a velocidade de raciocínio e de movimentos, além de ser um bom finalizador. Tite também já sabia disso.

Outro comentário pronto é o de que o bom e equilibrado Campeonato Inglês é o melhor do mundo, tem um número maior de grandes times, e que o Espanhol é pior e mais fácil de jogar. Já disseram até que Messi e Cristiano Ronaldo fazem tantos gols porque os adversários são muito fracos. As equipes espanholas vão sempre melhor que as inglesas na Liga dos Campeões e na Liga Europa. Real Madrid e Barcelona são superiores, e Atlético de Madrid e Sevilla estão no nível dos grandes times ingleses.

Os gramados da Inglaterra são tão perfeitos, o público é tão grande, o ambiente é tão espetacular, os jogos têm tanta intensidade, e o campeonato é tão organizado, que até parece que a maioria das equipes é de alto nível técnico.

Se o São Paulo perder mais alguns jogos, já está pronto o comentário de que Rogério Ceni deveria começar pelas categorias de base. O clube, em vez de ajudar seu ídolo com bons reforços, o prejudica, já que o time é fraco. No jogo contra o Audax, não vi nada novo nem interessante. Se Rodrigo Caio é o melhor zagueiro que atua hoje no Brasil, não deveria jogar de volante, onde é mais um.

Às vezes, o comentário pronto impede o aparecimento do fato. Antes de ser contratado, já está pronta a análise de que o técnico Fernando Diniz não daria certo em grandes times. Os clubes preferem o técnico que faz tudo igual aos outros e que não corre tantos riscos. 
.

Com maioria das camisas, Caixa congela valores e irrita clubes

Daniel Augusto Jr. /Agência Corinthians
Durante o jogo entre Caldense/MG x Corinthians/SP, realizado esta noite no Estadio Dr. Ronaldo Junqueira, abertura da Copa do Brasil 2017. Juiz: Bruno Arleu de Araujo - Sao Paulo/Brasil - 08/02/2017. Foto: © Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians
Rodriguinho comemora gol marcado na vitória sobre a Caldense
EDUARDO RODRIGUES
GUILHERME SETO
LUIZ COSENZO
DE SÃO PAULO

Patrocinadora de 17 dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, a Caixa Econômica Federal negocia a renovação dos contratos com a maioria das equipes sem reajuste para 2017. A inflação oficial do país (IPCA) em 2016 fechou em 6,29%.
Dirigentes dos clubes se queixaram à Folha da atual estratégia adotada pela estatal. Eles admitiram, porém, que com o mercado desaquecido a renovação com o banco deve ser feita.
Além de não reajustar os valores do contrato, o banco incluiu novas contrapartidas para os clubes. Uma delas, por exemplo, é exigência de exposição da marca nas campanhas em canais nas redes sociais das equipes.
Os clubes têm visto essa nova proposta da Caixa como a sinalização de uma tendência de desinvestimento de recursos da estatal no esporte. Eles acham que no médio prazo a participação dela será pequena no futebol.
Para esses dirigentes, a mudança no governo federal, com a entrada do presidente Michel Temer, implicou numa alteração de visão política sobre o tema. Se antes perseverava a participação estatal, a partir de agora os clubes terão que começar a se virar com patrocínios privados.
"Queríamos uma valorização maior, mas não será possível. O valor deste ano não terá correção. A Caixa deu uma segurada para todos os clubes. Ela está aproveitando o momento que atravessamos", afirmou Jorge Avancini, diretor de mercado do Bahia.
Os baianos ganharam R$ 2 milhões no ano passado por quatro meses de contrato (de setembro a dezembro) e deverão receber R$ 6 milhões ao ano em 2017.
Assim como o Bahia, todas as outras equipes esperam uma confirmação do acordo de renovação com a Caixa. A assessoria da estatal confirmou à reportagem que terá uma definição de todas as propostas até o final deste mês. O anúncio das renovações será divulgado no Diário Oficial da União.
Mesmo que os contratos já tenham vencidos no fim do ano passado, os clubes permanecem expondo a marca da empresa pública até as negociações para a próxima temporada serem encerradas. O valor pago de janeiro e fevereiro também será retroativo em caso de acordo entre as partes.
INVESTIMENTO
Em 2016, a Caixa Econômica Federal investiu R$ 132,5 milhões para expor sua marca em camisas de clubes no país. Além de 13 equipes que estavam na elite do Brasileiro em 2016, patrocinou sete times da que disputaram a Série B do torneio.
Como realizou cinco contratos mais curtos -de 3 a 4 meses- no segundo semestre do ano passado com Bahia, Fluminense, Botafogo, Avaí e Santos, o montante do investimento deve aumentar neste ano se todos os acordos que encerraram em 2016 forem renovados. Esses clubes negociam agora um contrato anual. O valor será o mesmo do ano passado, mas proporcional ao período de exposição da marca na camisa.
Procurada pela reportagem, a estatal afirmou que "está em negociação com os clubes de futebol, não sendo possível emitir qualquer manifestação sobre o assunto".
Lúcio Távora/Ag. A Tarde/Folhapress
Renato Cajá comemora após marcar o gol que deu a vitória ao Bahia por 3 a 2 sobre o Bragantino, na Arena Fonte Nova, pela Série B
O Bahia subiu para a Série A do Brasileiro de 2017 e é mais um patrocinado pela Caixa
CORINTHIANS
O contrato com valor mais alto da Caixa pertence ao Corinthians. Desde o final de 2012, a equipe tem acordo com o banco. Em 2016, recebeu R$ 30 milhões por ano, valor que será mantido.
O Flamengo, que ganha R$ 25 milhões pelo acordo do ano passado, também terá o valor mantido e espera anunciar a renovação nos próximos dias.
Atualmente, o contrato mais rentável do futebol brasileiro pertence ao Palmeiras.
Nesta quarta-feira (8), o clube anunciou a parceria de dois anos com a Crefisa por R$ 80 milhões anuais.
Pelo novo compromisso, ainda deve receber bônus por objetivos esportivos alcançados pelo clube na temporada. Seria o caso, por exemplo, de uma conquista da Copa Libertadores da América. 
.

Conheça o holandês que questiona até Pep Guardiola: "Cometem erros"

Técnico e preparador físico com vasta experiência, Raymond Verheijen crê que grande causa das lesões é exagero nos treinamentos. E não aceita calendário como desculpa


Por Rio de Janeiro
Raymond Verheijen é objetivo. Não faz metáforas. Gosta de fatos. Ele tem fala pausada, serena e quase não altera o tom de voz. Tenta ser o mais claro possível a todo momento. Aos 45 anos, o técnico e preparador físico holandês fundador da “World Footbal Academy” (Academia Mundial do Futebol) usa cada uma dessas características para espalhar o que aprendeu e vivenciou pelo mundo. A cada semana, está em um local diferente para cursos e workshops. 
De opinião forte, ele é muito atuante no twitter e frequentemente questiona os métodos os grandes treinadores do futebol mundial, como Arsène Wenger, Jurgen Klopp - que já o respondeu - e até Pep Guardiola. De acordo com Verheijen, os técnicos exigem muito de seus atletas, que acabam se lesionando.
– Eu ensino princípios. O que eu vejo é que esses treinadores cometem erros. Ou não entendem princípios ou não os aplicam da maneira correta – disse Verheijen, em entrevista ao GloboEsporte.com.
Raymond Verheijen_preparador físico holandês (Foto: Daniel Mundim)Raymond Verheijen: "Sou idealista. Não quero ser rico" (Foto: Daniel Mundim)
O holandês já escreveu três livros. O mais recente se chama "Quão simples pode ser", se referindo ao futebol. Raymond esteve no Rio de Janeiro para um de seus cursos sobre “Periodização no Futebol”, um método que prevê o equilíbrio entre as sessões de treinamento. Segundo ele, a maioria das lesões no futebol é causada pela fadiga acumulada em duras atividades nos treinos. O consultor acredita que a próxima geração de técnicos vai mudar o panorama e, consequentemente, o futebol evoluirá.
Raymond tentou ser jogador de futebol, mas abandonou a carreira precocemente, aos 18 anos, devido a uma lesão. Ele então fez cursos de fisiologia e psicologia em Amsterdã e depois se especificou no futebol. Com sua pesquisa, escreveu um livro que virou referência na Real Associação Holandesa de Futebol, que o fez ser contratado para ser auxiliar de Frank Rijkaard na Euro 2000. A partir dali, ele trabalhou com Guus Hiddink - o treinador mais elogiado por Verheijen -, Dick Advocaat, Louis van Gaal em todas as Euros e Copas do Mundo desde então, seja como membro da comissão, seja como consultor técnico.  
Os times do Guardiola têm muitas lesões porque ele sobrecarrega seus jogadores nos treinamentos. E ele culpa o departamento médico. Eles nunca culpam a si mesmos. Então, eles continuam cometendo os mesmos erros"
Raymond Verheijen, técnico e preparador físico holandês
Em 2014, ajudou a Argentina com conselhos sobre métodos de treinamento. Fez o mesmo trabalho com Portugal na Euro do ano passado. Sua última passagem em uma comissão técnica permanente foi com a seleção de País de Gales, em 2011, interrompida tragicamente pela morte do treinador Gary Speed, em novembro daquele ano. Mas Raymond não quer mudar o futebol trabalhando em uma seleção ou clube. Ele se considera idealista.
– Eu não olho para dinheiro. Se isso importasse, eu iria para os clubes. Mas não me importo com isso. O que faço agora, em 2009 fundei o World Football Academy e faço dinheiro suficiente. Não quero mais. Sou idealista. Não quero ser rico – diz.
De dezembro para cá, Raymond já passou pelo Japão, Áustria, Brasil, Estados Unidos e Canadá. Parou uma hora para conversar com o GloboEsporte.com, mas não permitiu ser filmado. Veja as ideias do holandês e por que ele acha que Guardiola, Klopp e companhia devem mudar seus estilos.
GloboEsporte.com: Como começou sua carreira?
Eu fui jogador, estava jogando na seleção sub-17 holandesa. Então eu me lesionei, tive que parar quando eu tinha 18. Fiz um curso para treinadores, fui à universidade em Amsterdã. Eu estudei Fisiologia e Psicologia, mas era muito geral. Eu não gostei muito. Não era específico em futebol. Então eu comecei a pesquisar para desenvolver essas áreas no futebol por conta própria. Eu escrevi um livro, que se tornou referência para a Holanda. Eles me contrataram como um instrutor. Meus primeiros estudantes foram Frank Rijkaard, Gullit, Neeskens, Ronald Koemam. Rijkaard foi para a seleção holandesa e me pediu para acompanha-lo como auxiliar na Euro 2000. Aí tudo aconteceu muito rápido. Com Guus Hiddink, Dick Advocaat, Louis Van Gaal, Rijkaard, no Barcelona, em 2006.Algumas vezes como membro da comissão, mas se você for membro do staff de um clube, você não pode trabalhar em nenhum outro lugar. Então eu sempre colocava no meu contrato que eu poderia ajudar outros treinadores. Estava bem, mas começou a ficar difícil. Em alguns clubes, eles dizem: “Se você trabalha com a gente, não pode trabalhar com ninguém mais”. Então eu parei de trabalhar com os clubes e passei a trabalhar apenas como consultor.
Raymond Verheijen treino Guus Hiddink Rússia 2008 (Foto: Jaspe Julien/Getty Images)Raymond, à direita, no topo, com Guus Hiddink em treino da Rússia na Euro 2008: para Verheijen, Hiddink é uma referência de treinador com bons métodos de treinamento (Foto: Jaspe Julien/Getty Images)
Só como consultor?
Apenas com alguma ajuda. Ajudei Portugal na última Euro. Eu gosto de ser flexível. O que eu realmente gosto é de viajar ao redor do mundo, ensinar e experimentar outras culturas. A cultura futebolística do Brasil é muito específica. Para mim, eu estou ampliando meus horizontes. É uma inspiração, assim sinto que estou crescendo. Quando você trabalha com um clube, você está em um túnel. É apenas uma coisa. Todo mundo está pensando “temos que ganhar”. Para mim isso é chato. Eu sou uma pessoa criativa.
Os altos salários dos clubes não o atraem?
Eu não olho para dinheiro. Se isso importasse, eu iria para os clubes. Mas não me importo com isso. O que faço agora, em 2009 fundei o World Football Academy e faço dinheiro suficiente. Não quero mais. Sou idealista. Não quero ser rico. Quero aproveitar e curtir. Em 2009 começamos a WFA, criamos escritórios em todo o mundo, Japão, Austrália, Dubai, África do Sul, América do Norte, e agora começando no Brasil. 
Raymond Verheijen tweet Pep Guardiola (Foto: Reprodução/Twitter)"Guardiola trará seu terrível recorde de lesões à Premier League", disse Raymond Verheijen após o anúncio do ténico no Manchester City (Foto: Reprodução/Twitter)
Como funciona a consultoria aos clubes?
O que normalmente acontece é que há um assistente responsável pelo programa de treinamento. O que eu faço, também com a Argentina dois anos trás, na Copa do Mundo, primeiro eu treino a comissão sobre Periodização. A segunda parte é ajudar eles a aplicar os princípios para que eles façam o próprio programa. Não no campo, fora dele. Eu não quero estar em campo. Quando eles aplicam, talvez tenham questionamentos e aí podem entrar em contato comigo. “Fizemos esse programa, esse treinamento, mas temos este problema, como o solucionamos?”. Então primeiro, educação, segundo, planejamento, terceiro, resposta a questões. 
O que é periodização?
É o planejamento de todas as sessões de treinamento. As pessoas acham que periodização é preparação física, mas não é verdade. Preparação física está longe de periodização. Periodização é treino tático, simulação de jogo, treino técnico, e todos esses diferentes tipos de treinamento têm que ser balanceados para que não se influenciem negativamente. Periodização é o planejamento para que o efeito de cada atividade seja máximo e que uma sessão não influencie negativamente a próxima sessão e o jogo. É o equilíbrio do programa de treinamentos.
Fundador da World Footbal Academy, Raymond já trabalhou com Frank Rijkaard, Guus Hiddink, Dick Advocaat, Louis van Gaal, Gary Speed e fez consultorias para a Argentina em 2014 e Portugal em 2016
O que causa mais lesões, os treinamentos ou os jogos?
O que causa mais lesões é a fadiga, e é possível prevenir fadiga. Quando você acumula fadiga, se você sobrecarrega os seus jogadores, eles se cansam. Fadiga em uma sessão não é problema, é o que você quer, porque no jogo você vai até o limite. Mas, a rigor, depois do treinamento eles (jogadores) enfrentam dificuldades. Então, o grande erro que usualmente vemos é que, após o treino, o tempo de recuperação é muito curto. Eles começam a próxima sessão ainda um pouco cansados da sessão anterior. Aí eles começam a acumular fadiga com o tempo. É esse o problema. E o que acontece? Se você acumula fadiga com o tempo, o seu sistema nervoso fica mais lento. O sinal do seu cérebro para os músculos caminha mais lento. Isso significa que a sua coordenação, o controle do seu corpo, diminui. Isso te torna vulnerável se você tem que fazer movimentos logo após suas ações, porque você tem menos controle, mas você tem que fazer o máximo de ação. Aí você se arrisca a se lesionar. Então a maior razão para lesões é a fadiga. Seja no jogo, seja no treinamento. 
No Brasil, e em vários lugares, é comum treino em dois períodos. É um método equivocado, então?
No futebol, você treina uma vez por dia no campo. Talvez, em outra hora, você pode ir para a academia, um trabalho de prevenção de lesões, análise tática, porque isso também é treinamento. Mas se você analisa futebol e compara o alto nível com o menor nível, tudo é igual, com exceção da velocidade. Então se você quer que seus jogadores melhorem, você tem que aumentar a velocidade das ações. Isso significa que a fadiga é a pior inimiga. Se você está cansado, então sua velocidade de ações diminui e você não conseguirá melhorar. Então se você treina duas vezes por dia, o segundo treino pode ser mais cansativo que o primeiro treinamento. Isso significa que, no segundo treinamento, a velocidade das ações é menor que 100%. Então você não está desenvolvendo a velocidade mais. Por causa da fadiga, os jogadores estão jogando um futebol mais lento, então você está condicionando um futebol mais lento. E não é isso que você quer. Mas é o que está acontecendo. Então, no futebol, é um treino em campo por dia com 100%. Tudo 100%. E isso não é opinião. Isso é um fato. É baseado em todos os estudos feitos. A velocidade das ações é um argumento. Mas, treinar duas vezes ao dia, não é baseado em um fato. É baseado em subjetividade. É uma tradição. Um ritual. Pessoas não pensam nisso criticamente. Eles dizem que é correto porque todo mundo está fazendo há 100 anos. Mas todo mundo fazer por 100 anos não é uma prova. É tradição.
Se você sabe que o calendário será um problema, você tem que se antecipar. Você tem que reduzir a intensidade dos treinos. Além disso, se você joga várias partidas, você não pode treinar entre os jogos"
Raymond Verheijen
E como todos fazem assim, e um time é campeão com esse método, ele nunca acaba...
Isso. Imagine que um time está treinando duas vezes ao dia. E são eliminados. Alguém diz que eles estão errados? 
Não...
Então o time treina duas vezes por dia, e são sempre eliminados. É certo ou errado? Então é por essa razão que esse pensamento está incorreto.
E como o senhor acha que está a noção dos treinadores sobre isso?
O que vejo é que os jovens treinadores, a próxima geração, irá mudar. Os outros treinadores já têm suas crenças, suas tradições, seus padrões. Então é difícil de demonstrar isso. Os jovens treinadores ainda estão com a mente aberta e entendem. Eles aplicam esses princípios. 
Quando você diz jovens treinadores seria qual faixa, até 40 anos?
Entre 35 e 45 anos. Algo assim.
Raymond Verheijen twitter Arsène Wenger (Foto: Reprodução/Twitter)"Aqui vamos de novo. Aaron ramsey machucado. O padrão se repete", postou Raymond, sobre o Arsenal (Foto: Reprodução/Twitter)
Então você acha que o futebol será diferente em poucos anos?
Será melhor educado. Com menos lesões e um futebol melhor. Acho que o grande problema no futebol é a falta de educação, mas você vê que o problema começa a dissolver.
Recentemente, usando suas ideias, você criticou alguns grandes nomes do futebol mundial (Raymond interrompe)...
Eu nunca critico, eu questiono.
Sim, esse é um melhor termo. Você questionou alguns treinadores como Arsène Wenger, Jurgen Klopp, mas foi no Twitter, apenas em 140 caracteres. O que você queria dizer exatamente?
Eu ensino princípios. O que eu vejo é que esses treinadores cometem erros. Ou não entendem princípios ou não os aplicam da maneira correta. E eu só posso ver isso pela internet. Por isso que eu faço previsões. Então, eu não questiono depois, eu digo antes. Com Wenger estou dizendo desde 2010. Já faz sete anos. Porque eu entendo o princípio e eu vejo que eles não o estão aplicando da maneira correta. Então eu sei quando dará errado. Então, para mim é muito fácil dizer isso na internet. Quando digo isso, as pessoas acham estranho. Porque elas ainda não viram a prova. Mas aí, as coisas dão errado, e elas entendem. Eu uso esses exemplos como ilustrações práticas de princípios teóricos. Porque todo o resto está no campo. Eu posso dizer: “Klopp está fazendo isso errado por causa deste princípio”, e aí todo mundo entende esse princípio melhor. 
E agora o Liverpool só venceu um jogo em 2017...
E eu disse isso em agosto e depois em outubro.
Raymond Verheijen treino País de Gales Gary Speed 2011 (Foto: Stu Forster/Getty Images)Raymond, em seu último trabalho em uma comissão, com Gary Speed no País de Gales, em 2011                                                 (Foto: Stu Forster/Getty Images)
Disse quando o Liverpool estava perto da liderança. Então, o que está errado com o método deles?
Os jogadores do Liverpool fizeram a pré-temporada mais dura que já vi. Isso significa que eles treinaram muito em um curto período de tempo. Se você faz isso, você desenvolve a parte física rápido. Se você a desenvolve rapidamente, ela durará poucos meses. Mas se você a desenvolve gradualmente, ela durará toda a temporada. Se eu vejo que eles estão treinando duro três vezes ao dia, eu sei que é um erro. 
E isso não é uma opinião.
Não é. É como o corpo funciona. É por isso que para mim é fácil fazer essas previsões. 
Jurgen Klopp, na ocasião, respondeu culpando o calendário (clique aqui e veja, em inglês, a partir de 11:30). O calendário também é motivo de muitas reclamações aqui no Brasil. Você acha que muitos jogos no calendário é um grande problema?
Sim. Mas se você sabe que o calendário será um problema, você tem que se antecipar. Isso significa que se você sabe que vai jogar vários jogos, você tem que reduzir a intensidade dos treinos, porque em curto espaço de tempo será muito. Além disso, se você joga várias partidas, você não pode treinar entre os jogos. Isso significa que sua condição física pode cair. Então, agora a preparação física a longo prazo se torna ainda mais importante. Então, a esse ponto, treinos duros significam que o nível dos jogadores cairá. Mas se você tem vários jogos e não consegue treinar, isso também significa que o nível deles cairá ainda mais rápido. Então, sim, muitos jogos é um grande problema. Mas você tem que se antecipar e fazer da maneira correta com uma preparação física a longo prazo. 
Raymond Verheijen tweet Jurgen Klopp (Foto: Reprodução/Twitter)"Uma lição que jovens treinadores podem aprender com o erro de Klopp: Treino intenso é crucial para melhorar os atletas, mas planeje momento/quantidade com cuidado" (Foto: Reprodução/Twitter)
Então isso significa que o grande número de jogos na temporada não é a maior razão para as lesões?
Os treinadores treinam da maneira incorreta, então os jogadores estão cansados, com condição física de curto prazo, e os jogos são muito duros. Então eles se lesionam nos jogos. E aí todo mundo acha que é por causa dos jogos. Não. Eles se lesionam nos jogos porque eles foram sobrecarregados nos treinamentos.
E qual a importância de uma boa pré-temporada para aguentar todo o ano?
Como eu disse, é um trabalho gradual. O objetivo mais importante da pré-temporada é desenvolver um time. Desenvolver um bom jogo. Se você treina muito duro, você terá lesões. Então você não poderá treinar com o seu melhor time. Então, como resultado, o seu time desenvolverá mais lentamente. Você prepara seu time para aguentar o treinamento fisicamente, você não poderá treinar com o seu melhor time na prática e, como resultado, o desenvolvimento do seu estilo de jogo é mais lento. Estilo de jogo é mais importante que condição física.
Você pode mencionar um técnico que tenha bons métodos em seus treinamentos?
Guus Hiddink era um técnico que entendia esses princípios. Mas temos que esperar pela nova geração de técnicos. Porque até mesmo Guardiola comete erros. O Bayern tinha, por 10 anos, os melhores recordes físicos da Europa. É um fato, é só ver as estatísticas. Então ele vai do Barcelona para o Bayern, e um ano depois, eles têm um dos piores. Os times do Guardiola têm muitas lesões porque ele sobrecarrega seus jogadores nos treinamentos. 
Mas você acha que, para esses técnicos, o problema é a cultura? Eles não conseguem perceber o erro?
Sim. Guardiola estava culpando o departamento médico. Ele tinha esse argumento. Eles nunca culpam a si mesmos. Então, eles continuam cometendo os mesmos erros. 
De dezembro para cá, Raymond já passou pelo Japão, Áustria, Brasil, Estados Unidos e Canadá dando cursos
No futebol hoje há duas palavras muito usadas: intensidade e compactação. O que pode dizer sobre elas?
Intensidade significa a velocidade do jogo, então a velocidade das ações, o número das ações. Então, se o número de ação é mais rápido, a intensidade aumenta. Compactação significa todos estão juntos. Não é nada novo. Na Europa, isso já é algo velho. 
Depois do 7 a 1, começamos a procurar vários culpados. Os técnicos foram os principais alvos. Do que você conhecer do futebol brasileiro e acompanha, já percebeu alguma diferença desde então?
Aquele jogo foi um erro tático. Hulk estava jogando na ponta esquerda. Ele estava indo para dentro todo o tempo, e Marcelo estava indo para frente. Então havia um grande espaço naquele setor. Em três ou quatro bolas, Muller ia para aquele espaço, pegava a bola, cruzava e gol. Foi um erro tático. Marcelo estava na frente o tempo inteiro e ninguém o cobria. Era toda hora a mesma coisa. Claro que você tem problemas, porque no passado não havia cursos para treinadores. Todo mundo poderia treinar um time. É algo muito estranho. Agora isso estão mudando, mas no mundo inteiro está se educando, desenvolvendo. Se você não vai por esse caminho, você ficará aqui. Isso é uma coisa. A outra coisa é que toda a literatura de futebol está escrita em inglês. A maioria dos treinadores no Brasil não sabe inglês. Se você não entende inglês, você não consegue ler 75% de todo o conhecimento de futebol até agora. Qual é a consequência?
As pessoas fazem as coisas baseadas em suas opiniões, experiências, ao invés de se basearem em fatos. Esse é o maior erro (do futebol). Opiniões são importantes, mas não como um ponto de partida"
Raymond Verheijen
Você conhece Renato Gaúcho, um grande jogador nos anos 1980 e 1990 e que é o atual técnico do Grêmio?
Não, não sei quem é.
Ele ganhou a Copa do Brasil no ano passado com o Grêmio e, após o título, ele disse: “Quem precisa, estuda. Quem não precisa, quem conhece futebol, não precisa estudar”. Ele está certo?
Esse não é um comentário muito inteligente. Essa é só minha opinião. Se ele estivesse certo, por que tem tantos cursos para treinadores ao redor do mundo? Ele pensa que entende futebol. Mas, talvez, se ele estivesse no curso aqui, poderia ter uma opinião diferente. É o que costumamos ver com as pessoas. Se eles ganham um torneio, eles pensam que são os melhores do mundo. Então, talvez, se o Grêmio terminar no próximo ano em oitavo, talvez devessem perguntar para ele novamente. Ele é o grande obstáculo para si mesmo. Eu não ligo. O fato de que ele pensa assim significa que ele está preso a si mesmo. Porque ele fará a mesma coisa no resto da vida. É o que se chama de pensamento conservador. É responsabilidade dele. 
Aqui no Brasil temos um problema de continuidade com os técnicos, que dificilmente completam um ano em um clube. Lá fora, temos o Arséne Wenger, que está há 20 anos no Arsenal. O que é ideal?
Você pode dizer que você precisa de tempo para desenvolver uma cultura, desenvolver um padrão de jogo. Demitir alguém com menos de um ano não faz sentido algum, ao menos que haja algum problema muito grande. Você não pode exigir resultados no dia seguinte. Tem que haver um crescimento. Treinadores precisam de mais tempo. Se você, como um clube, constantemente contrata o técnico errado, é você quem está errado. 
Qual é o erro mais comum no futebol?
Subjetividade. Opiniões. As pessoas fazem as coisas baseadas em suas opiniões, experiências, ao invés de se basearem em fatos. Esse é o maior erro. Opiniões são importantes, mas não como um ponto de partida. No nível de aplicação, opiniões são importantes. Mas aqui, você tem que ser uma referência. A referência tem que ser objetiva. E a aplicação da referência pode ser subjetiva. O problema é que no futebol todos têm referências subjetivas. Mas todo mundo está jogando o mesmo jogo. Então todos têm a mesma subjetividade?     
O quão simples o futebol pode ser?
Futebol é um jogo. As pessoas, e suas opiniões, o tornam complicado.
Raymond Verheijen livro Camp Nou (Foto: Divulgação/World Football Academy)Raymond Verheijen e seu livro: "O quão simples pode ser?" (Foto: Divulgação/World Football Academy).