Stephen Kanitz
O espírito do Terceiro Setor é “servir o outro”, e isto significa perguntar primeiro: “O que vocês precisam?”.
1. Antes de implantar um projeto social pergunte para umas vinte entidades doTerceiro Setor para saber o que elas realmente precisam.
A maioria das empresas começa seu projeto social procurando uma “boa ideia” internamente.
Contrariando os preceitos da administração que exige pesquisar primeiro o mercado antes de sair criando novos, na área social estes princípios são jogados fora. A maioria dos projetos começa nos departamentos de marketing das empresas sem consultar as entidades que são do ramo.
O espírito do Terceiro Setor é “servir o outro”, e isto significa perguntar primeiro: “O que vocês precisam?”.
2. O que as entidades precisam normalmente não é o que sua empresa faz, nem o que a sua empresa quer fazer.
O conceito de “sinergia” é muito atraente e poderoso para a maioria dos executivos, mas lembra um pouco aquele escoteiro que atravessa um cego para o outro lado da rua sem perguntar se é isso que o cego queria.
Dar aula de inglês para moradores de favelas só porque você tem uma cadeia de escolas de inglês, não é resolver o problema do Terceiro Setor. Mas é o que uma escola de inglês tende a fazer.
Pode ser uma forma de resolver o seu problema na área social, com o menor esforço. Se toda empresa pensar assim, quem vai resolver o problema da prostituição infantil, abuso sexual, violência, dos órfãos? Ninguém.
Por isto, muitas entidades estão começando a ver este movimento de empresas “socialmente responsáveis” com maus olhos. “Onde estavam estas empresas nestes últimos 400 anos, quando fizemos tudo sozinhos?”, é a primeira pergunta que fazem.
“Por que muitas estão iniciando projetos iguais ao que fazemos, ao invés de nos ajudar?”
3. Toda empresa que assumir uma responsabilidade será mais dia menos dia responsabilizada.
Da mesma forma que sua empresa será responsabilizada pelos péssimos produtos que venha a produzir, seu insucesso em reduzir a pobreza ou uma criança que for maltratada no seu projeto social, também será responsabilidade da sua empresa.
E empresas que tem 10.000 funcionários, 12 dos quais no departamento de responsabilidade social irão fracassar no seu intento.
4. Assumir uma responsabilidade social é coisa séria. Creches não mandam embora órfãos porque a diretoria mudou de idéia.
Muitas empresas “socialmente responsáveis” não estão assumindo responsabilidades sociais.
Nenhuma empresa está disposta a adotar um órfão, um compromisso de 18 anos.
A maioria das empresas “socialmente responsável” está no máximo disposta a bancar um projeto por um único ano.
E não poderia ser o contrário.
Empresas não podem assumir este tipo de responsabilidade, não foram constituídas para tal.
As entidades foram instituídas para exatamente prestar serviços sociais, e é triste ver que estão perdendo espaço. Se o projeto não ganhar um destes prêmios de Responsabilidade Social, troca-se de projeto.
Hoje, a tendência das empresas é trocar de projeto a cada dois anos se ela não for premiada, por outro que tenha mais chance de vencer no ano seguinte.
5. Todo o dinheiro gasto em anúncios tipo “Minha Empresa É Mais Responsável do que o Concorrente”, poderia ser gasto duplicando as doações de sua empresa.
Os líderes sociais do país, que cuidam de 28 milhões de pessoas carentes, não têm recursos para comprar anúncios caríssimos na imprensa. Depois desta onda de responsabilidade social o “Share of Mind” do Terceiro Setor tem caído de 100% para 15%.
Cinco anos atrás, o recall espontâneo de instituições responsáveis na mente do público em geral, eram a AACD, as APAES e a Abrinq. Hoje, os nomes mais citados são de empresas que no fundo usaram o Terceiro Setor para ficarem conhecidas.
Bom para as empresas e seus produtos, péssimo para a AACD e seus deficientes.Lembre-se também, que todas as religiões sem exceção recomendam não alardear os atos de responsabilidade social, que deveriam ser discretos e anônimos.
Quem alardear sua bondade sofrerá a ira do povo, uma sabedoria milenar em todas as crenças do mundo. Algo para se pensar.
6. Entidades têm no social seu “core business”, dedicam 100% do seu tempo, 100% do seu orçamento para o social. Sua empresa pretende ter o mesmo nível de dedicação?
Irmã Lina é a nossa Madre Tereza de Calcutá.
Ela veio da Itália cuidar de 300 portadores de hanseníase confinados em Guarulhos, e sabia com certeza que iria morrer da doença, o que não a impediu de cumprir a sua missão.
Sua empresa estaria disposta a morrer pela sua causa social?
A maioria das empresas ao primeiro sinal de recessão corta 30% da propaganda, 50% do treinamento e 90% dos projetos sociais.
Justamente quando os problemas sociais tendem a aumentar.
As empresas brasileiras estão dedicando em média 1% do lucro ao social, o que corresponde a 0,1% das receitas.
As entidades sociais dedicam 100% de suas receitas e 100% do seu tempo.
Se sua empresa socialmente responsável acredita que poderá competir com as “Irmãs Linas” do país, e que terá coragem de subir num palco e receber um Prêmio de Cidadania Corporativa é acreditar que nossos consumidores são um bando de idiotas.
Se você é um executivo de marketing, por acaso você esteve presente quando a Irmã Lina recebeu o seu Prêmio Bem Eficiente? Você nem apareceu, somente quando você ganhou o Prêmio de Cidadania Corporativa, ainda vocês fizeram uma festa.
Mas ela notou a sua ausência, e viu o anúncio de sua empresa dizendo como ela se preocupa com o social.
7. O consumidor não é bobo.
O consumidor sabe que o projeto social alardeado pela empresa está embutido no preço do produto.
Ninguém dá nada de graça.
Isto, todo consumidor sabe de cor.
E quem disse que o consumidor comunga com a mesma causa que sua empresa apadrinhou?
Sua empresa pode ser “Amiga das Crianças”, mas seu consumidor pode sentir que os velhos são os verdadeiros excluídos.
Afirmar que o projeto social é custeado pelo lucro da empresa, e não entra como despesa, não convence ninguém.
O lucro pertence aos acionistas, não aos executivos da empresa.
Na maioria dos países, filantropia é feita na pessoa física não na jurídica.
Não existe Fundação Microsoft, e sim Fundação Bill Gates.
Da Microsoft queremos bons softwares, não bons projetos sociais.
8. Antes de querer criar um Instituto com o nome da sua empresa ou da sua marca favorita, lembre-se que a maioria dos problemas sociais é impalatável.
Empresas que criaram institutos com a marca da empresa fogem de problemas sociais complicados como o diabo foge da cruz.
Nenhuma delas quer ajudar a resolver problemas como hanseníase, abuso sexual, prostituição infantil, deficiência mental, autismo, Aids, discriminação racial, velhice e Alzheimer, doenças terminais, alcoolismo, dependência química, drogados, mães solteiras, pais abusivos, pois são projetos que não se adequam bem à imagem que você quer imprimir para a sua marca.Marcas são penosamente construídas e não dá para discordar desta relutância em apoiar projetos “mercadologicamente incorretos.”
Você terá que decidir o que vem em primeiro lugar, se sua marca ou a sua responsabilidade social, decisão ética de primeira importância. Empresas que criaram institutos ou fundações com a marca da empresa, preferem projetos como educação, adolescentes, esportes ou ecologia, projetos que “não dão problemas”.
9. Evite usar critérios empresariais ao escolher seus projetos sociais, como “retorno sobre investimento” ou “ensinar a pescar”. Esta área é regida por critérios humanitários, não científicos ou econômicos.
Empresários tendem a usar critérios empresariais para definir quais projetos apoiar, embora este seja um setor de critérios humanitários.
Um dos “mantras” das empresas socialmente responsáveis é que elas ensinam a pescar em vez de fazer “mero assistencialismo”.
Só que, quando as entidades fazem “mero assistencialismo”, deficiente visual sai com óculos, crianças com câncer saem curadas, órfãos são cuidados, paraplégicos saem com cadeiras de rodas.
Nos projetos que “ensinam a pescar”, como na Alfabetização Secundária, da Dna. Ruth Cardodos, 90% dos recursos acabam nas mãos dos professores, e 10% ao consultor social idealizador do projeto. No Bolsa Família do Lula, 100% ia para o bolso da família carente. Razão do sucesso do PT e decadência do PSDB.
10. A responsabilidade social é no final das contas, sempre do indivíduo, do voluntário, do funcionário, do dono, do acionista, do cliente, porque requer amor, afeto e compaixão.
Na literatura encontramos duas posições bem claras.
Uma que a responsabilidade social é do governo, por isto estamos pagando quase 50% da nossa renda em impostos. Sem muito resultado.
A segunda posição é que a responsabilidade social é do indivíduo, da comunidade, da congregação, das Ongs organizadas para tal.
No Brasil, surgiu uma terceira visão, de extrema direita.
Que a responsabilidade social é das empresas e dos empresários, que a agenda social deve ser estabelecida por executivos e empresários, sob critérios empresariais de retorno de investimento.
Empresas, como o governo, são impessoais.
E, ainda corremos o perigo dos poucos indivíduos que achavam que a responsabilidade é do indivíduo acabem lavando as mãos achando que a responsabilidade é do governo e das empresas.
Por que então se envolver?
E agora, o que fazer?
Empresas estão agora ganhando dinheiro vendendo a imagem de bonzinhos na área social.
Virou um grande negócio, existem agora interesses a preservar, o lado voluntário e filantrópico se foi para sempre.
Agora as agências de publicidades estão sugerindo propaganda ecoambiental, onde o mico preto tem mais valor que uma criança com fome.
Não vou mencionar as agências que literalmente usaram o Terceiro Setor para seus próprios fins pessoais, deixo para o leitor.
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Sinopse
"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
CALOUROS DO AR FC
quinta-feira, maio 02, 2013
Os 10 Mandamentos da Responsabilidade Social
terça-feira, abril 30, 2013
Como você enxerga o jogo?
Analisar uma partida de futebol vai muito além do óbvio
Felipe D. Bressan* / Universidade do Futebol
1. INTRODUÇÃO
São inegáveis os inúmeros avanços que o futebol vem sofrendo nos últimos anos. E, ainda que lentamente, essa evolução já tem se apresentado em alguns setores do futebol brasileiro.
Apesar de ser uma das modalidades esportivas que mais resistiu à evolução pela ciência, já se faz presente o aparecimento de novas metodologias que vem rompendo com o pragmatismo habitual.
Com isso a forma de se observar e analisar uma partida de futebol também se modifica. Faz-se necessário entender e estudar o jogo de futebol em sua complexidade.
2. DISCUSSÃO
Pode-se definir o futebol como uma estrutura complexa composta por duas subestruturas (equipes) que interagem entre si continuamente, em uma relação de oposição, através de seus componentes (jogadores, linhas) e em relações dinâmicas de forças representadas pelas fases do jogo na qual se buscam organizações eficazes (DI PASQUALE, 2012).
As observações e análises vão muito além do sistema de jogo de uma equipe em campo (1-4-3-3, 1-4-2-3-1, 1-4-4-2, etc.), de quais são os referenciais de marcação os jogadores durante a partida, da porcentagem da posse de bola, do número de passes certos ou errados, entre outros dados.
Uma forma de se visualizar como essa análise de forma simplista seria observar duas equipes que partem de um mesmo sistema de jogo (-1-4-2 3-1), porém se comportam em campo de maneiras totalmente deferentes.
Essas equipes podem utilizar-se de princípios distintos para a resolução de um mesmo problema levando a um modelo de jogo que as diferem e as identificam em campo. Portanto, sabemos de fato o que estamos observando em um jogo de futebol?
Como associar esse tipo de informação a complexidade do jogo sem que se tornem apenas “dados de efeito sem efeito aparente”? Por ser uma estrutura complexa, o jogo de futebol possui elementos que constituem uma organização coletiva que não pode ser compreendida pela análise descontextualizada das diferentes partes que a compõem (PIVETTI, 2012).
Antes de qualquer análise deve-se entender com clareza a estrutura do jogo e as relações dinâmicas que ocorrem no durante uma partida.
Para tanto, e fundamentalmente, há a necessidade de se compreender a Dinâmica do Jogo e o que vem a ser um Modelo de Jogo. Em que se baseiam as ações de uma equipe de futebol nos diferentes momentos de uma partida, para a partir desse ponto poder-se compreender e avaliar o todo.
O fato é que esse artigo não intenciona apresentar os pormenores de um jogo de futebol e entrar em discussões muito complexas, mas de expor de forma resumida e objetiva a estrutura de uma partida de futebol e gerar uma reflexão ao leitor sobre determinado ponto de vista e sua real compreensão ao realizar uma analise do jogo. Contudo se necessita definir a Dinâmica do Jogo e o Modelo de Jogo.
A Dinâmica do Jogo consiste em sucessivas ações nas quais as equipes passam de uma fase ofensiva para uma fase defensiva ou o inverso, através da perda ou da recuperação da posse da bola. Entre uma fase defensiva e uma fase ofensiva encontram-se as fases de transição defensiva (ataque-defesa) e transição ofensiva (defesa-ataque).
Não menos importante, acrescenta-se às fases do jogo as ações bolas paradas ofensivas e defensivas, que atualmente possuem uma grande parcela para o resultado final de uma partida.
O que se visualiza no diagrama supracitado (figura 1) é cada uma das fases que podem ser observadas durante uma partida de futebol e as possíveis ações gerais subsequentes de uma equipe em caso da perda ou da recuperação da posse da bola.
Cada uma dessas ações gerais é marcada por determinados princípios e subprincípios, sejam eles individuais ou coletivos, que conferem identidade a uma equipe de futebol dentro do jogo.
Esses princípios e subprincípios são as ferramentas utilizadas pela equipe ou pelo jogador para a resolução dos problemas que se apresentam durante uma partida.
O princípio de jogo é o início de um comportamento que um treinador quer que sua equipe assuma em termos coletivos e os jogadores em termos individuais. Deste modo os princípios de jogo potencializam determinados comportamentos. (SILVA, 2008)
Essas ações pré-determinadas estão baseadas no Modelo de Jogo de uma equipe que pode ser definido como o sistema de relações das unidades de resoluções táticas que configuram uma equipe de futebol definida pelos princípios e ideais do jogo. De uma maneira mais informal, seria estabelecer a forma como o treinador deseja que sua equipe jogue em cada uma das fases do jogo.
É claro que esse modelo não é rígido, uma vez que pode sofrer algumas mudanças circunstanciais dependendo do adversário que se vai enfrentar. Porém existe sempre um padrão de ações que não se modificam e com a sequência dos treinamentos e jogos trarão consistência ao jogar dessa equipe e do atleta.
Ao analisar uma partida de futebol alguns problemas gerados pela oposição característica do jogo devem ser resolvidos, gerando questionamentos sobre quais princípios ou subprincípios do jogo seriam os mais adequados para determinada equipe em um momento específico.
Exemplos:
O que fazer ao perder a posse da bola? Tentar recuperá-la imediatamente ou temporizar e posicionar-se defensivamente? Depois de posicionado defensivamente qual o comportamento da equipe? Pressionar o adversário de forma organizada? Realizar uma defesa de contenção marcando atrás da linha da bola? Realizar uma defesa combinada?
Ao recuperar a posse da bola qual deve ser o comportamento da equipe? Ampliar o campo de jogo ou compactação? Realizar um contra-ataque ou um ataque organizado? Esse ataque organizado deve ser um ataque combinado ou direto?
3. CONCLUSÃO
Como havia mencionado no início deste artigo, não intenciono aprofundar ou entrar em discussões muito complexas, mas gerar reflexões sobre a análise do jogo.
O tema é extenso e seriam necessárias centenas de páginas para explorá-lo de forma minuciosa e ainda sim, talvez não se esgotassem todas as possibilidades, porém apenas com essa simples introdução se pode remeter a sua complexidade.
Se focarmos a análise do jogo simplesmente no posicionamento dos atletas em campo, nos referenciais de marcação, em dados numéricos aleatórios que não se associam ao modelo de jogo de determinada equipe, estaremos compreendendo de fato o que está acontecendo no jogo?
As respostas às perguntas estão presentes no modelo de jogo das equipes e na dinâmica do jogo.
Não existe resposta certa ou errada e sim o que melhor soluciona os problemas apresentados pela oposição gerada pelo adversário durante uma partida.
Por isso finalizo com um questionamento, o mesmo com a qual iniciei essa explanação: sabemos de fato analisar um jogo ao assistirmos uma partida de futebol?
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DI PASQUALE, R. La complessità del gioco del calcio e la metodologia operativa., 4o Convegno Sul Calcio Giovanile, 2012.
PIVETTI, B. M. F. Periodização Tática: o futebol arte alicerçado em critérios. São Paulo, Phorte Editora, 2012.
SILVA, M. O desenvolvimento do jogar segundo a periodização táctica. Tuy (Pontevedra), Espanha, MCsports, 2008.
*Bacharel em Esporte pela Universidade de São Paulo (USP), treinador de Futebol.
Contato: homebressan@terra.com.br
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Recriação dos clubes] Pacotão de reforços
No Brasil, corre-se o risco de insucesso na tentativa de enquadrar o futebol a regras, se a CBF não estiver envolvida na construção do sistema de licenciamento
Rodrigo Barp / Universidade do Futebol
Vem aí um grande pacote de reforços prometido para salvar o futebol brasileiro da iminente insolvência econômica - historicamente acumulada – e instituir, em mais uma das tentativas, um marco regulatório no Brasil.
Junto da grande anistia aos clubes de futebol do país, o Governo Federal e o Ministério do Esporte pretendem incluir, no marco de gestão e responsabilidade fiscal, a limitação dos gastos com salários dos jogadores e comissão técnica, do tamanho dos elencos, além de alinhar o calendário de competições do Brasil com o da Europa.
A Europa já vem discutindo e implementando medidas no futebol continental, a partir do Sistema de Licenciamento de Clubes da Uefa, conjunto de normas e procedimentos regulatórios que versam sobre melhores práticas de governança corporativa, dirigidos aos clubes e associações nacionais.
De fato, as associações nacionais também se envolvem diretamente na aplicação de tais medidas, no âmbito de sua atuação nacional, e isso é um dos fatores de êxito do sistema.
Recentemente, após o período de adequação de clubes e associações ao sistema, alguns clubes foram punidos por não cumprirem com a previsão de respeitar as diretrizes orçamentárias.
As sanções variam de perda de pontos até a eliminação de competições continentais.No Brasil, corre-se um grande risco de insucesso nessa tentativa de "enquadrar" o futebol a tais regras impositivas, se a própria CBF não estiver envolvida na construção do sistema de licenciamento.
Não só de fato como de direito, a autonomia desportiva que a Constituição Federal lhe assegura e, consequentemente, aos clubes e federações estaduais, permite à CBF decidir quando e, se, deseja por em prática esse marco regulatório.
A não ser que o movimento para a instauração do licenciamento seja originário da Fifa e impulsione, ou até mesmo, obrigue a CBF a implantá-lo por aqui, dificilmente a iniciativa do Governo e Ministério do Esporte ganhe legitimidade junto ao futebol brasileiro, além da questão formal-legal definida na legislação federal.
Se for, obviamente, apenas para anistiar os clubes e não se lhes exigir, como contrapartida, o estabelecimento de melhores práticas de governança corporativa, em áreas estratégicas da gestão, como recursos humanos, jurídica, ética, administrativa, desportiva, financeira e de responsabilidade social, ficará muito fácil e tranquilo. Afinal, é muito simples proibir ou permitir.
Muito mais complexo é se criar um sistema baseado na ampla discussão, na educação e informação, visando regulamentar e contribuir com a evolução da gestão do futebol brasileiro, chamando a todos para discutir e assumirem responsabilidade sobre este marco regulatório – CBF, clubes, federações, atletas, poder público.
Nesse sentido, o horizonte pode ser positivo, não apenas impositivo.
E, no fim das contas, nós todos pagaremos a conta disso tudo.
Já pagamos outras tantas vezes. Não pretendo ver meu dinheiro, recolhido através dos impostos, sustentando instituições falidas que não entendam seu relevante papel social e assumam o ônus decorrente disso.Porque o bônus já estamos cansados de oferecer.
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sábado, abril 20, 2013
Mesmo desigual, futebol brasileiro foge de 'espanholização' e caminha para modelo inglês
Bruno Doro e Rodrigo Farah
Do UOL, em São Paulo
Em 2011, os clubes brasileiros passaram a negociar individualmente quanto receberiam da TV pela transmissão de seus jogos. O resultado disso foi que Corinthians e Flamengo passaram a ganhar muito, mas muito mais do que seus rivais. Especialistas logo alertaram contra a “espanholização” do futebol nacional, lembrando que Barcelona e Real Madrid concentram 55% da arrecadação dos clubes espanhóis. O UOL Esporte, no entanto, teve acesso a um estudo que mostra o Brasil mais próximo de outro gigante europeu: a Inglaterra.
“A minha primeira hipótese era de que caminhávamos em direção ao modelo espanhol, que conta com a polarização Real e Barcelona. Mas o estudo mostrou que estamos muito mais próximos da situação inglesa. E o motivo para isso são as características dos clubes brasileiros”, analisa Amir Somoggi, especialista em marketing e gestão esportiva e autor do estudo. “Corinthians e Flamengo realmente recebem mais das TVs e isso faz com que seu potencial de patrocínio seja maior, mas a distância para os outros não é tão grande, graças a ações de marketing que equilibram um pouco essa balança”, completa.
O modelo espanhol
O futebol espanhol vive um momento único em sua história. A sua seleção é considerada a mais forte do mundo e seu campeonato nacional ganhou uma escala global de audiência. Tudo graças ao fortalecimento de seus dois principais clubes: Barcelona e Real Madrid. O problema é que esse fenômeno não foi seguido pelos demais clubes.
Em 2002, Barça e Real arrecadavam 38% do total gerado pelos 20 clubes do Campeonato Espanhol. Em 2012, essa marca deve atingir os 55%. “O processo de concentração de receitas nas mãos de apenas dois clubes foi prejudicial para a Liga como um todo, que se enfraqueceu. A diferença dos dois gigantes em valores arrecadados em comparação com os demais clubes é gigantesca. Nenhuma Liga do futebol mundial tem tamanha concentração de riqueza em apenas dois clubes”, analisa Somoggi.
A arrecadação total do futebol espanhol, em 2002, estava na casa dos 776 milhões de euros. Em 2012, pulou para 1,8 bilhão, um aumento de 134%. No mesmo período, Barça e Real aumentaram sua arrecadação em 242% (de 291 milhões para 996 milhões). E a diferença para os demais clubes chegou a um patamar insustentável: enquanto Real fatura 480 milhões e o Barcelona, 451 milhões, o Valencia, terceiro colocado na lista, ganha apenas 120 milhões de euros.
A situação brasileira
Esse abismo não aparece no futebol brasileiro. Mesmo com Corinthians e Flamengo ganhando muito mais com TV do que seus rivais, a diferença de arrecadação é menor. Em 2011, por exemplo, os dois clubes receberam, somados, R$ 206 milhões (R$ 112 mi do Corinthians, R$ 94 mi do Fla) da Globo. O terceiro clube da lista, o São Paulo, recebeu apenas R$ 67 milhões, mais de 40% a menos do maior valor.
Em arrecadação total, somando bilheterias e ações de marketing, no entanto, a diferença é bem menor. O São Paulo foi o segundo time que mais ganhou no país em 2011, com R$ 226 milhões, contra R$ 290 mi do Corinthians. O mesmo acontece com o Internacional, terceiro da lista: mesmo recebendo da TV apenas R$ 51 milhões em 2011, arrecadou R$ 198 mi na temporada. O Flamengo, segundo na lista de TV, é só o quinto em arrecadação, com R$ 185 milhões.
“As ações de marketing fazem a diferença. E o Internacional é o maior exemplo disso. Tem um programa de sócio torcedor muito organizado e, com isso, consegue arrecadar mais em bilheteria do que o Corinthians, que tem uma torcida muito maior. Em contra-partida, o Flamengo nem mesmo tem um programa de sócio torcedor ativo”, analisa Somoggi.
O modelo inglês
Esse equilíbrio que o Brasil mostra aproxima o modelo verde-amarelo muito mais ao que acontece na Inglaterra, que conta com um grupo de quatro ou cinco clubes grandes. Na última versão do relatório Football Money League, informativo da consultoria Deloitte sobre a movimentação financeira do futebol, oito clubes ingleses aparecem entre os 20 mais ricos da Europa - cinco deles entre os dez primeiros.
A explicação para tantos times fortes economicamente é, justamente, a divisão das cotas de TV. Por lá, a negociação é coletiva: os times recebem cotas básicas iguais, mas o valor sobe de acordo com rendimento e número de partidas televisionadas. Com isso, os times grandes recebem mais, mas o sistema da meritocracia garante que a diferença não seja esmagadora, como no caso espanhol.
“É um modelo muito mais racional do que o brasileiro. O ideal era adotar a postura alemã. Na Bundesliga, a divisão é igual e você tem, tirando o Bayer de Munique, um equilíbrio muito maior nas finanças”, fala Somoggi.
Preocupação com o futuro
Apesar do cenário não ser tão negro quanto na Espanha, o Brasil ainda vive uma concentração de poder na mão de poucos clubes. E isso já está evidente nos resultados recentes dos campeonatos nacionais. Desde 2003, quando o modelo de pontos corridos foi adotado, times do estado de São Paulo levaram o título seis vezes (três do São Paulo, dois do Corinthians e um do Santos). Clubes cariocas foram campeões três vezes (Fluminense, duas, e Flamengo, uma) e Minas Gerais, com o Cruzeiro em 2003, só tem um título.
Isso já é resultado da divisão de finanças desigual: os quatro grandes de São Paulo, por exemplo, abocanharam, em 2011, 38% do total que os 20 clubes mais ricos do país arrecadaram no ano. Já os quatro grandes do Rio de Janeiro, pouco mais de 20%. Isso quer dizer que 40% dos times ficaram com quase 60% da arrecadação.
“Estamos indo na contramão do resto do mundo. Nesse modelo, a tendência à concentração é inequívoca. E o problema é que não é só na TV que isso está sendo usado. Em outras receitas também. A criação do sócio-torcedor com a Ambev vai nessa direção. Os maiores ganham mais benefícios e isso gera diminuição das torcidas dos menores. Uma parte dessa diferença é quase incontrolável. É questão de mercado e acontece no mundo inteiro. Mas nós estamos acelerando este processo”, analisa Fernando Ferreira, da Pluri Consultoria, especializada em análises do mercado do futebol nacional.
Com esse panorama traçado, os clubes admitem que o risco de uma polarização extrema assusta. Um dirigente ouvido pela reportagem, que pediu para não ser identificado, admitiu que foi contra a implementação do modelo de negociação individual das cotas de TV. “Não há como esse modelo ser bom. Você pode ganhar mais a curto prazo, mas só vai aumentar a distância para a concorrência. E você precisa de times fortes para ter um campeonato forte. E só com um campeonato forte você passa a valer mais. Fui contra na época e continuo sendo contra agora”, disse o cartola.
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