"Os jogos dos times brasileiros são os mais entediantes que eu vi na vida", aponta
Guilherme Yoshida / Universidade do Futebol
Foi-se o tempo em que os ingleses eram capazes de somente fazer um jogo baseado na ligação direta entre defesa e ataque ou simplesmente levantar bolas dentro da grande área adversária.
Desde o início dos anos 90, eles abriram o mercado interno aos jogadores estrangeiros, e o jogo praticado na terra da rainha ganhou mais técnica e velocidade com o decorrer do tempo.
Aliado a isso, os clubes se lançaram ao mercado das bolsas de valores e, atualmente, quase a metade dos times da Premier League (a liga principal inglesa) pertencem a bilionários ou conglomerados de outros países.
E essa modernização também atingiu o processo de formação e qualificação dos novos treinadores nascidos no Reino Unido. Nomes como o de Steve Bruce (Hull City), Alan Pardew (Newcastle), Tim Sherwood (Tottenham), Brendan Rodgers (Liverpool), David Moyes (Manchester United), e Mark Hughes (Stoke City), começaram a figurar entre os técnicos estrangeiros que ainda dominam a elite do futebol inglês.
"Muitos profissionais de outros países apontam a Inglaterra como um lugar que não tem tanta força na produção de novos e bons treinadores. Eu discordo. Acredito que talvez não tenhamos tanta quantidade de treinadores de futebol atualmente, mas temos muita qualidade sim. A diferença está também no status que os técnicos têm na Inglaterra e fora dela. Na Itália, por exemplo, os treinadores de futebol são respeitados tanto quanto os médicos ou engenheiros", compara Clwyd Jones, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.
Com formação sênior em Economia e Esporte, licenciado em Futebol nível A pela Uefa, além de analista técnico de diversas equipes da Europa, Estados Unidos, e África do Sul, Clwyd Jones atua como professor na Southampton Solent University, uma das instituições certificadas pela Federação Inglesa para a formação e qualificação de técnicos e gestores dos clubes do Reino Unido.
Lá, para se trabalhar como treinador de futebol em uma equipe profissional, é preciso fazer um curso de três anos para obter a certificação do exercício da função. Além disso, o interessado nesta formação é obrigado a ter uma espécie de seguro contra acidentes e até certificado negativo de antecedentes criminais para poder trabalhar. E o custo todo pode chegar a 10 mil libras (cerca de R$ 39 mil).
"Se você se formar pela Uefa no Chipre, País de Gales ou na Irlanda do Norte, e alguns outros países, por exemplo, a sua graduação será considerada inferior em relação aos países de mais tradição no futebol pelos próprios dirigentes europeus. Com isso, o profissional não terá um reconhecimento para trabalhar numa Série A, na Eredivisie, na Premier League, ou na Bundesliga, mesmo com a certificação. Eles sempre dão preferência para profissionais formados nas principais ligas", revela.
Nesta entrevista, concedida durante o I Encontro Internacional de Futebol, evento realizado nesta semana em São Paulo, Clwyd Jones explicou exatamente como funciona a formação de treinador na Inglaterra e o porquê que acha o futebol brasileiro entediante. Confira:
Universidade do Futebol – Como funciona o trabalho da Southampton Solent University em relação à formação de treinadores de futebol? Como é a grade curricular, duração e qual a abordagem e a metodologia ensinada?
Clwyd Jones – A nossa grade curricular é dividida em dois modelos: técnico e de gestão [business]. E, basicamente, nós temos cursos de graduação e especialização, além de um mestrado em cada modo. O programa de graduação tem duração de três anos. E, no primeiro ano da graduação, oferecemos os módulos técnico, tática, de preparação física, e de como treinar um time, técnica e taticamente.
Temos também um módulo de pesquisa, que ensina o aluno a pesquisar, aulas de sociologia aplicadas ao futebol, e desenvolvimento do futebol [como funciona a indústria do futebol]. Já no segundo ano, o aluno tem conhecimentos mais avançados sobre como treinar um time, psicologia, mais uma matéria de sociologia e desenvolvimento do futebol aplicado, na qual aprendem como funcionam as organizações e governos para promover o futebol. Além de mais aulas sobre métodos de pesquisa.
Neste ano, oferecemos a opção de o aluno trabalhar por um ano inteiro em um clube. Essa escolha proporciona ao estudante conhecimentos para o exercício, entre outros, da função de analista de desempenho posteriormente, que é uma das áreas que mais absorve profissionais atualmente no futebol.
No terceiro ano, os alunos ganham mais autonomia e eles precisam mesmo ser mais independentes para realizarem o projeto final, o chamado TCC [Trabalho de Conclusão de Curso]. Também há as matérias Globalização do futebol e assuntos atuais no mundo do esporte. Na última etapa do curso, disponibilizamos três opções de matérias eletivas para o aluno se especializar: línguas, estágios em clubes ou administração.
Já no modelo business, que também têm duração de três anos, as matérias são relacionadas à gestão, como marketing esportivo, comportamento organizacional, planejamento financeiro, etc.
Sempre que possível, os nossos alunos, após a conclusão do curso, acabam fazendo um estágio voluntário em vários clubes de futebol da Inglaterra, como Fulham, Newcastle, entre outros da Premier League. Se você checar o site da nossa escola, você pode ver o testemunho de muitos alunos que tiveram essa experiência, inclusive em times de renome, e qualquer clube, não importando o tamanho e a expressão, pode se beneficiar dessa interação com a escola. Porque nós não fornecemos opiniões sobre o futebol, nós fornecemos fatos.
Em todos os níveis, são oferecidos os mesmos conhecimentos de treinamento, mas com aprofundamentos diferentes. No curso de graduação, o aluno aprende exatamente como é trabalhar como treinador e o que um profissional desta área procura [num clube, num jogador, etc.], obtendo assim a Licença tipo C.
E, quando os alunos chegam ao terceiro ano, nós os estimulamos a se certificarem com as licenças B e A, que são a especialização e o mestrado, porque possibilitarão ao aluno trabalharem em clubes maiores ou de maior destaque. Mas isso não significa que somente os alunos pós-graduados ou com mestrados possam trabalhar nesses clubes. Muitas vezes, a prática, obtida por meio do estágio, fornece conhecimentos suficientes que o aluno precisa para atuar em times maiores.
Eu acredito que a formação na Europa toda seja muito similar, pois todos os tipos de formações têm de atender o mesmo padrão de formação da Uefa. Então, se você é formado na Itália, você pode trabalhar na Inglaterra, na Espanha, na Holanda, na Alemanha ou mesmo na Itália, explica (Fotos: Studio Carlos Torres)
Universidade do Futebol – Quem define estes conteúdos na Southampton Solent University?Clwyd Jones – O conteúdo engloba tanto a visão técnica quanto a de mercado da profissão. Desta forma, alguns conteúdos do programa são definidos por mim, outros pelo Mario Marinica, que decide as aulas da parte técnica, e o restante por um grupo de diretores.
Preocupamo-nos em oferecer cursos de alta relevância profissional para o aluno, com excelentes professores a preços acessíveis. Não adianta oferecermos ótimos cursos a valores que poucos consigam pagar, nem cursos baratos que não preparem os alunos para o mercado. Com essa certificação, eles também podem atuar em várias áreas relacionadas ao treinador, com estatísticas, finanças, marketing, entre outras. Porque o futebol hoje é uma indústria.
Com essa certificação, eles também podem atuar em várias áreas relacionadas ao treinador, com estatísticas, finanças, marketing, entre outras. Porque o futebol hoje é uma indústria, avalia o professor
Universidade do Futebol – Como é estabelecida a relação entre a Southampton Solent University e a Federação Inglesa de Futebol, a FA (Futebol Association)?Clwyd Jones – Nós trabalhamos diretamente, trabalhamos em parceria. Inclusive, somos uma instituição aprovada pela FA para a formação de treinadores. Muitos dos nossos membros já trabalharam na federação. O Mario Marinica, por exemplo, atuou por muitos anos lá, foi palestrante representando a FA em conferências entre 1998 e 2012, e agora é professor na nossa escola.
Eu sou treinador e também um professor da federação. No entanto, a nossa escola prepara técnicos para trabalharem na FA e também fora dela. Muitos dos nossos alunos são jogadores e técnicos que vêm da federação. Outros vêm de lá para palestrar. Então, somos bastante próximos.
Em toda a Inglaterra, somente a FA pode emitir as licenças para o profissional atuar como treinador de futebol. Mas, as aulas são ministradas pela Southampton Solent University. E outra coisa: nós estamos credenciados a oferecer as formações somente para as licenças C e B.
Para a graduação A e Pro, somente a federação pode certificar. E esses cursos são muito caros para o aluno. Para se ter uma ideia, um curso para a formação A custa cerca de 5 mil libras, enquanto para a certificação Pro, o valor pode chegar a 10 mil libras, além dos custos com viagens, hospedagem e alimentação.
Jones (dir.) posa ao lado de Mario Marinica, que atuou por muitos anos na Federação Inglesa de Futebol, foi palestrante representando a FA em conferências entre 1998 e 2012, e agora é professor na Southampton Solent University
Universidade do Futebol – Há alguma regulamentação na Inglaterra para se trabalhar como técnico de futebol?Clwyd Jones – Sim, a regulamentação é muito rigorosa. Primeiramente, tem de ter uma licença de treinador reconhecida pela Federação Inglesa de Futebol. Tem de trabalhar no nível da sua licença, como por exemplo, até o grau 2, pode-se trabalhar apenas com jovens das categorias de base e futebol amador.
Então, se você quiser trabalhar em clubes profissionais, você terá de ter as licenças A e B ou ainda a Pro. Já para trabalhar com crianças, é preciso ter uma certificação específica. Além disso, você tem de ter uma espécie de seguro contra acidentes e até certificado negativo de antecedentes criminais. E, preenchendo esses requisitos, o profissional pode se tornar um membro da FA e então trabalhar.
Para um estrangeiro, muita gente pensa que é difícil trabalhar como treinador. Mas, não é. É preciso ter um certificado equivalente de formação no seu país de origem e preencher os pré-requisitos legais da função.
E, são muitos anos para você conseguir esta formação ideal. Pode demorar de seis meses a um ano para completar o nível básico [a Licença C]. Depois para você obter a Licença B, pode variar mais tempo. E para ter o nível A, é necessário, no mínimo, um ano, enquanto a Licença Pro, dura um ano e meio.
Muitos profissionais de outros países apontam a Inglaterra como um lugar que não tem tanta força na produção de novos e bons treinadores. Eu discordo. Acredito que talvez não tenhamos tanta quantidade de treinadores de futebol atualmente, mas temos muita qualidade, afirma Jones
Universidade do Futebol – Quais as semelhanças e especificidades que esta grade curricular (programa de conteúdos) tem se comparado com as grades curriculares para formação de treinadores na Espanha, Itália, Alemanha e outros países europeus que têm uma tradição na formação de treinadores?Clwyd Jones – Eu acredito que seja muito similar, pois todos os tipos de formações têm de atender o mesmo padrão de formação da Uefa. Então, se você é formado na Itália, você pode trabalhar na Inglaterra, na Espanha, na Holanda, na Alemanha ou mesmo na Itália.
Porém, se você se formar pela Uefa no Chipre, País de Gales ou na Irlanda do Norte, e alguns outros países, por exemplo, a sua graduação será considerada inferior em relação aos países já citados pelos próprios dirigentes europeus.
Com isso, o profissional não terá um reconhecimento para trabalhar numa Série A, na Eredivisie, na Premier League, ou na Bundesliga, mesmo com a certificação. Eles sempre dão preferência para profissionais formados em países de mais tradição no futebol.
Para a graduação A e Pro, somente a Federação Inglesa pode certificar. E esses cursos são muito caros. A formação do nível A, por exemplo, custa cerca de 5 mil libras, enquanto para a certificação Pro, o valor pode chegar a 10 mil libras, além dos custos com viagens, hospedagem e alimentação
Universidade do Futebol – Em qual nível você acredita que a Inglaterra, atualmente, está em relação à qualidade de técnicos perante os demais países da Europa com tradição no futebol?Clwyd Jones – Veja, muitos profissionais de outros países apontam a Inglaterra como um lugar que não tem tanta força na produção de novos e bons treinadores. Eu discordo. Acredito que talvez não tenhamos tanta quantidade de treinadores de futebol atualmente, mas temos muita qualidade.
A diferença está também no status que os técnicos têm na Inglaterra e fora dela. Na Itália, por exemplo, os treinadores de futebol são respeitados tanto quanto os médicos ou engenheiros. Mas, todos esses países têm muita seriedade na formação de treinadores e os padrões são muito altos em todos eles.
Sempre que possível, os nossos alunos, após a conclusão do curso, acabam fazendo um estágio voluntário em vários clubes de futebol da Inglaterra, como Fulham, Newcastle, entre outros da Premier League. Qualquer clube, não importando o tamanho e a expressão, pode se beneficiar dessa interação com a escola, analisa
Universidade do Futebol – A escola forma mais professores ou treinadores? Qual a proposta pedagógica do curso?Clwyd Jones – O foco principal da nossa escola é formar a próxima geração de profissionais do futebol. Isso compreende uma ampla gama de atividades, entre elas, gestão, marketing, treinamento, desenvolvimento, enfim.
Mas, há também uma parcela dos nossos alunos que almeja a carreira acadêmica. Essas são as pessoas que, por muitas vezes, continuam os estudos até níveis de mestrado e doutorado e que se tornarão professores ou pesquisadores.
Então, o nosso curso não é exclusivamente para a formação de treinadores de futebol. Às vezes, muitos treinadores já formados nos procuram para se qualificarem e desenvolverem ainda mais suas habilidades. Assim, acabamos contribuindo para estes profissionais conseguirem se realocar no mercado.
Historicamente, o Brasil possui grandes equipes e excelentes jogadores, mas nem isso garante belas exibições, analisa Clwyd Jones
Universidade do Futebol – O senhor assiste a algum jogo do Campeonato brasileiro? Como analisa o nosso futebol atual?Clwyd Jones – Estive aqui no Brasil em 2007 e vi um jogo do São Paulo no estádio do Morumbi. Foi o jogo mais entediante que eu presenciei em toda a minha vida. Muito lento.
Já em 2011, vi o Santos jogar contra o Barcelona [na final do Mundial de Clubes], que acabou se tornando o segundo jogo mais chato que assisti em minha vida. Porque o Santos não conseguia pegar na bola.
Mas, eu assisto sim o Campeonato Brasileiro, e acredito que os times brasileiros são bons. Historicamente, o Brasil possui grandes equipes e excelentes jogadores, mas nem isso garante belas exibições. Tenho visto muitos jogos de má qualidade. No entanto, isso ocorre em todo o mundo.
.
Sinopse
"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
CALOUROS DO AR FC
quarta-feira, janeiro 22, 2014
Clwyd Jones, professor da escola de técnicos da Inglaterra
terça-feira, janeiro 21, 2014
Ranking Mundial de Clubes PLURI 2013
Sobre o Ranking Mundial de Clubes PLURI
Esta é a 2ª Edição do Ranking Mundial de Clubes PLU RI, que abrange 1.720 clubes de 114 países de todas as regiões do Planeta, que disputaram 171 competições de futebol Mundial nos últimos 6 anos , incluindo Campeonatos Nacionais de 1ª e 2ª divisões, Copas e Recopas Nacionais, Copas Continentais e o Mundial de Clubes.
Critérios utilizados
Os Campeonatos Nacionais são a base para a definição dos pesos do Ranking de Clubes das Américas PLURI. Cada país tem uma pontuação par a seus campeonatos nacionais de acordo com o grau de dificuldade de cada competição , em função do nível, tradição e da quantidade dos clubes participantes. Uma vez que os campeonatos nacionais estejam ranqueados, as demais competições seguem a seguinte lógica (aplicada a todos os países):
- o A pontuação dos 2º colocados de cada competição equivale a 50% da pontuação dos campeões. Do 3º em diante, o clube recebe 60% dos pontos do time que lhe precede;
- O número de clubes pontuados também é diretamente proporcional à importância do campeonato, nível e quantidade dos participantes. Nos principais países são pontuados os 8 primeiros colocados de cada competição. Nos de mais países são pontuados no mínimo os 4 primeiros colocados, com exceção das supercopas, onde apenas o vencedor é pontuado;
- Os Campeonatos Estaduais e Regionais do Brasil não foram incluídos no Ranking, já que não possuem similares nos demais Países;
- Copas Nacionais tem pontuação equivalente a 60% dos campeonatos Nacionais;
- Times rebaixados em campeonatos nacionais sofrem penalização, com pontuação negativa equivalente a 10% da pontuação do vencedor do respectivo campeonato;
- Vencedores de Recopas e Supercopas recebem pontuação equivalente a 10% dos vencedores das respectivas Copas Nacionais;
- As principais Copas Continentais (Ex: Champions League, Libertadores) tem pontuação equivalente a 50% acima do principal campeonato Nacional do respectivo continente. As Competições Continentais secundárias (Ex.: Europa League, Sul-Americana) tem pontuação equivalente a 50% da principal competição Continental;
- O Campeonato Mundial da FIFA tem pontuação própria em função do pequeno número de participantes e da disparidade técnica (peso, in fluência, tradição, etc.) entre eles;
- Os clubes que não aparecem na tabela não pontuaram no ranking nos últimos 6 anos;
Confira a seguir a tabela de pontuação por campeonato, e a posição (PARCIAL) dos 1.720 Times nos Rankings de 2013 e no acumulado de 2008 a 2013. Na página 71 temos a evolução de cada clube no ranking ao longo de cada ano, e na 138 o anexo 1 , com a pontuação década competição.
.
segunda-feira, janeiro 20, 2014
Por que os campeonatos estaduais de hoje precisam acabar
Tim Vickery
Com a falta de interesse nos estaduais, os estádios acabam ficando vazios nesses torneios
A BBC Brasil começa a publicar, nesta quinta-feira, a coluna quinzenal de Tim Vickery. Correspondente de futebol sul-americano da BBC desde 1997, ele mora no Rio de Janeiro há dez anos e usará esse espaço para falar suas impressões sobre o esporte bretão.
Em pleno ano de Copa do Mundo, as colunas de Tim também trarão a visão dele sobre como está sendo a preparação do torneio no "país do futebol".
Em sua primeira coluna para a BBC Brasil, Tim Vickery escolheu um assunto polêmico: o fim dos campeonatos estaduais. Os torneios regionais, que começam no próximo final de semana, ocupam boa parte do calendário do futebol brasileiro - de janeiro a maio - e não têm atraído o público para os estádios.
Os clubes grandes também não dão muita importância aos estaduais e preferem dar prioridade a outras competições, como a Libertadores e o próprio Campeonato Brasileiro, que começa depois.
Do outro lado, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e as federações estaduais alertam para a importância das competições regionais para o desenvolvimento do futebol no país, já que elas são a única competição no ano para muitos clubes menores no país.
Leia abaixo a coluna:
No final do ano passado, quando chegou à final da Copa do Brasil, o Flamengo cobrou preços exorbitantes para o jogo de volta que definiria o título no Maracanã (de R$ 250 a R$ 800). Um dos diretores do clube explicou que essa era uma necessidade, que eles estavam chamando os torcedores para ajudar o clube, porque nos primeiros meses de 2014, durante o Campeonato Carioca, o Flamengo lucraria muito pouco em caixa. A pergunta óbvia – ainda que eu não me lembre dela ter sido feita – é essa: que diabos o clube está fazendo ainda participando desse campeonato?
É inegável que os estaduais tiveram uma importância histórica e ajudaram muito a desenvolver o futebol no Brasil. Mas também é indiscutível que a hora deles passou. Na minha cabeça, eles morreram junto com o Plano Real. Qualquer estrutura era viável nos tempos da hiperinflação – tudo o que os clubes tinham que fazer era pagar atrasado. Mas em um mundo onde dois mais dois são quatro (com acréscimo de juros), os estaduais logo se descobrem inúteis.
É verdade que algumas finais e os grandes clássicos ainda podem empolgar. Mas, no contexto do lixo que os envolve, eles têm sido tão raros agora que podemos compará-los com o anel de ouro engolido pelo cavalo. Dá para recuperar quando sair do outro lado, mas primeiro é preciso vasculhar muita coisa desagradável.
E o problema não é só a falta de qualidade e interesse nos estaduais – é o efeito que eles têm no resto do calendário brasileiro, já tão cheio e desorganizado.
É como tentar colocar três litros de água em uma garrafa com capacidade para dois. Não há tempo para uma pré-temporada adequada, sem falar no enorme problema de deixar o Brasil fora da sincronia com o resto do mundo. Não existe pausa doméstica para as datas Fifa, o que significa que os principais jogadores irão perder partidas pelos seus clubes quando estão servindo a seleção.
"Façam um estadual mais curto", dizem alguns, "e tudo irá ficar bem". Errado! Não importa se os estaduais tomam muito ou pouco tempo do calendário. Deixar os estaduais no início do ano tem, inevitavelmente, um efeito negativo no Campeonato Brasileiro.
Nos estaduais, estádios lotados são raridade e o interesse do público só vem com os clássicos
Esse ponto não é amplamente compreendido, já que o debate sobre os prós e contras dos pontos corridos infelizmente tem sido muito superficial. Mas é muito fácil de entender.
O formato mata-mata, que existia antes, sem dúvidas levava o campeonato a ter finais empolgantes. Mas o preço pago por isso é que a fase inicial do torneio é sempre subvalorizada, nada mais do que um aquecimento para os jogos decisivos da fase eliminatória. Durante o mata-mata, a mesma coisa acontecia todo ano: na primeira parte monótona, eu ouvia "esse é o pior Campeonato Brasileiro da história". Depois, quando o torneio embalava e a empolgação aumentava, eu ouvia, às vezes das mesmas pessoas, a impressão de que "esse é o melhor Campeonato Brasileiro da história".
O formato de pontos corridos realmente não garante o mesmo clímax dramático. É verdade, sempre há algo em disputa na última rodada, mas, como aconteceu com o Cruzeiro no ano passado, o campeão pode ser definido com várias rodadas de antecedência.
Mas o que você poderia perder no final, você ganha no começo – ou deveria ganhar. O pontapé inicial do campeonato é – ou deveria ser – uma grande festa do futebol. É o momento que todo torcedor, de todos os times, comemora. Cheios de esperança, o torcedor acredita que essa será a temporada que o seu time irá atingir todos os seus objetivos, sejam eles modestos ou não. Seja conquistar o título ou simplesmente escapar do rebaixamento, essa é a hora que todos podem ser seduzidos e podem deixar de lado seu ceticismo.
Mas para isso acontecer, precisa haver uma pausa antes. Isso é básico e não-negociável. A magia de torcer precisa de espaço para nascer e criar asas. Mas se o Brasileirão começa menos de uma semana depois que o estadual acabou, não há tempo para essa magia nascer. O torcedor já está muito familiarizado com as deficiências do seu time. Qualquer magia já terá evaporado há tempos.
Corinthians tirou Alexandre Pato do Milan em 2013 pagando 40,5 milhões de reais
Eu só posso ver uma solução para os estaduais: os clubes pequenos, aqueles que não jogam nenhuma das divisões nacionais, podem jogar contra eles mesmos em um formato de liga, e então, ao longo do ano, eles enfrentam os clubes grandes em uma Copa no meio da semana. Assim, as rivalidades regionais são respeitadas, os clubes menores são mantidos em atividade e os grandes podem cuidar dos seus objetivos sem nada para atrapalhá-los.
Os clubes grandes estão competindo em um nível global agora. O Flamengo e o Corinthians estão disputando jogadores, não do São Cristóvão ou do Mogi Mirim, mas do Barcelona, do Milan ou do Manchester United. E eles estão perdendo – não só por motivos financeiros. Sinceramente, quem gostaria de jogar um campeonato estadual em vez de uma Liga dos Campeões da Europa?
E ainda o elemento bizarro de tudo isso é o fato de os clubes grandes aceitarem com tanta facilidade um calendário que vai diretamente contra os seus interesses. Por que eles são tão relutantes para desafiar a estrutura de poder do futebol brasileiro, onde eles têm menos voz do que os presidentes das federações estaduais?
Enquanto isso, de forma extraordinária e inspiradora, os jogadores resolveram preencher esse vazio. Pelo movimento do Bom Senso FC, que surgiu nos últimos meses, jogadores de todos os principais clubes brasileiros estão lutando pelo que eles chamam de "um futebol melhor para todos". As reivindicações deles são para dar prioridade máxima ao Campeonato Brasileiro – o que só pode significar o fim dos estaduais da forma como são organizados atualmente.
Eles compreenderam o problema político. Em um eco agradável dos protestos que encheram as ruas em junho passado e julho, os jogadores brasileiros têm se posicionado contra a oligarquia tradicional. É uma estrada que certamente irá levar a um conflito - altura em que os grandes clubes, certamente tem que parar de agir como cordeirinhos.
.
terça-feira, janeiro 14, 2014
A correlação de forças do futebol brasileiro: o jogo possível das mudanças
Ensaio para a elaboração de uma política do futebol brasileiro
João Paulo Medina*
“Tenho em mim todos os sonhos do mundo”
(Fernando Pessoa)INTRODUÇÃO
O jogo é de futebol, mas bem que poderia ser um jogo de xadrez. Em uma análise atenta sobre o atual cenário do futebol brasileiro, é possível identificar-se duas grandes tendências, apesar de nem sempre muito nítidas. De um lado estão as forças que querem as mudanças conjunturais e estruturais do futebol brasileiro. Do outro, persiste um pensamento que, consciente ou inconscientemente, defende a sua manutenção. Sabemos que, em qualquer área de atuação, existem aqueles que alimentam o “status quo” simplesmente por serem incapazes de enxergar as limitações do cenário atual, e outros que o defendem por interesses dos mais diversos, alguns evidentemente pouco abonadores.
Este ensaio pretende fazer algumas conjecturas, em um ambiente de correlação de forças, entre os “agentes de conservação” que dominam e procuram manter de todas as formas o poder hegemônico no futebol brasileiro e os “agentes de transformação”, que clamam pelas mudanças.
É bom deixar claro que não é nossa intenção estabelecer aqui um confronto maniqueísta entre os que representam as forças do bem contra as do mal, do certo contra o errado ou do retrógrado contra o moderno, mesmo porque, devido à complexidade do contexto e dos interesses, é comum vermos pessoas e instituições que, paradoxalmente, ora defendem teses conservadoras, ora transformadoras. Na verdade, todos nós somos um pouco assim, contraditórios, complexos, com muitas dúvidas e conflitos internos.
E é justamente neste ambiente repleto de paixões, emoções e subjetividades, onde o futebol pode representar tanto um instrumento de alienação em nossa cultura, como uma de suas mais significativas e legítimas manifestações, que não podemos querer encontrar verdades absolutas. Portanto, o que pretendemos nestas reflexões é tão somente esboçar, dialeticamente, um quadro que nos permita entender cenários e enxergar novos caminhos, ou seja, levantar alguns elementos essenciais para a elaboração de uma política que realmente busque o desenvolvimento para o futebol brasileiro.
Entretanto, é inegável que existem hoje no futebol brasileiro forças extremamente conservadoras e reacionárias que insistem na manutenção de um estado de coisas que impede o seu desenvolvimento em um padrão de excelência, ou ao menos aos níveis já alcançados por alguns outros países, e que permite colocar sob suspeita a ideia de que o Brasil possa, por alguma razão, ser considerado o “país do futebol”.
Excetuando-se os fatos de ainda sermos o único país que conseguiu ser cinco vezes campeão mundial e também o único a ter participado de todas as edições das Copas do Mundo, nada mais nos faz concluir que somos os melhores. Nem em público nos estádios, nem nas boas práticas de gestão e governança e nem mesmo naquilo que sempre nos orgulhou, a qualidade técnica de nossos jogadores e equipes.
Neste contexto vamos fazer uma avaliação dos principais atores do futebol brasileiro em seus papéis enquanto agentes de conservação e/ou transformação. Dentro de uma visão mais abrangente que percebe o futebol como um tecido que envolve – mais ou menos – a vida de toda a sociedade, uma reflexão aprofundada e crítica deveria incluir todos os seus agentes: atletas, clubes profissionais, associações e ligas amadoras, dirigentes estatutários, executivos, treinadores e especialistas diversos, CBF, federações estaduais, sindicatos, patrocinadores, mídia especializada, torcedores, telespectadores, Ministério do Esporte, agentes-empresários, empreiteiros, legisladores e tribunais esportivos, universidades, entre outros.
Porém para este estudo especificamente, vamos considerar apenas os 6 “atores” básicos que interferem mais diretamente sobre o grande negócio que se transformou o futebol. A partir da perspectiva do alto rendimento e do espetáculo consideraremos os reflexos na base e massificação desta modalidade esportiva em nosso país, buscando-se, tanto quanto possível, uma visão de conjunto.
Destacaremos os seguintes grandes atores:
1. Jogadores
2. Clubes
3. Rede Globo e empresas patrocinadoras
4. CBF e Federações
5. Mídia especializada
6. Público em geral1. JOGADORES (profissionais e amadores) – Representam a base primordial do futebol. Sejam eles participantes de uma categoria profissional de elite ou simplesmente praticantes amadores, alegres, descontraídos e apenas comprometidos com o jogo e o prazer da brincadeira e diversão, os atletas são a própria essência desta modalidade esportiva que se tornou um fenômeno social e uma paixão mundial. Historicamente os atletas profissionais no Brasil sempre foram pressionados e levados a conviver em um ambiente que exige posturas conservadoras e, muitas vezes, alienadas.
Alguns poucos atletas se destacaram por se rebelarem contra esta situação. Dois deles, sempre lembrados por suas atitudes contestadoras, são Afonsinho e Sócrates. Temos exemplos de vários outros jogadores contestadores, mas poucos deles no sentido político, ou seja que defendiam publicamente seus posicionamentos em defesa de transformações sociais ou mudanças do “status quo” vigente na sociedade ou no futebol.
Por isso, nunca se conseguiu mobilizar grande quantidade de atletas na luta por seus direitos e, sobretudo, na superação da submissão e alienação prevalentes. Em um ambiente tipicamente opressor, as próprias entidades que representam oficialmente os atletas dividem-se entre conquistas e melhorias pontuais e a total submissão aos poderes dominantes, característica das instituições futebolísticas. Recentemente surgiu um movimento, chamado de Bom Senso F.C., liderado por alguns atletas de elite e que defendem mudanças radicais que beneficiariam não só os jogadores das principais equipes, como também a imensa maioria de cerca de 80% que recebe até três salários mínimos. Trata-se de um fato novo e que merece atenção.
Centenas de atletas firmaram o seu apoio ao movimento, defendendo mudanças em diversos setores estratégicos que atuam no futebol. Seu slogan é “Por um futebol melhor para quem joga, para quem torce, para quem apita, para quem transmite, para quem patrocina. Por um futebol melhor para todos.”.2. CLUBES – Assim como a família é considerada a “célula máter” da sociedade, dando suporte ao desenvolvimento da criança e do adolescente, o clube pode ser considerada a “célula máter” do futebol, dando identidade e apoio ao desenvolvimento do atleta. O fato de serem favorecidos por uma formatação jurídica na qual são constituídos, cujos dirigentes estatutários não são remunerados, fizeram com que um padrão mais profissional de gestão nunca tenha sido considerado com a devida seriedade no futebol brasileiro.
O que prevalece nestas instituições esportivas, ainda são os desejos, intenções e interesses da presidência, diretoria estatutária e conselheiros que são, de forma geral, mais torcedores do que gestores. Dentro deste quadro cria-se um ambiente onde se acumulam dívidas trabalhistas, tributárias, previdenciárias e bancárias, com antecipações desmedidas de receitas futuras e com propostas as vezes absurdas de negociações que no fundo pretendem apenas adiar os problemas, mas que de fato só os agravam, pois algumas delas são praticamente impagáveis.
Os clubes que tentam se modernizar contratam executivos e profissionais especializados, mas paradoxalmente dão a eles pouco poder decisório. Continuam pagando salários fora da realidade, gastando muito mais do que as receitas permitem, servindo de “vitrine” para atletas (“commodities”) pertencentes a agentes (e parceiros ocultos) que possuem fatias expressivas, quando não a totalidade dos direitos econômicos dos principais jogadores, cenário este que exige urgentemente de uma regulamentação.
No setor técnico, às vezes o treinador tem algum poder, mas que está diretamente relacionado aos resultados imediatos de campo. Quando sua equipe perde alguns jogos, ele igualmente perde o poder e, na sequência, o emprego. Aliás, esta lógica serve também para os projetos e planos de ação que são realizados, geralmente, com foco exclusivo no curto prazo, sem decisões tomadas à partir de um planejamento estratégico consistente da própria instituição.
Este cenário faz com que o clube viva de suas rotinas tradicionais, sem integração entre as suas dimensões políticas, administrativas e técnicas e, consequentemente, com ações que mudam conforme o andamento dos resultados de campo de sua equipe principal. Assim, trabalhos mais profissionais e competentes que incluam diagnósticos dos fatores internos e externos, elaboração e execução de cuidadoso planejamento estratégico, projetos e planos de ação de curto, médio e longo prazos, ações estratégicas, administrativas, técnicas e operacionais, completadas com avaliações e controles rigorosos de desempenho, são apenas reflexões futuristas ou utópicas para a maioria dos clubes brasileiros.3. REDE GLOBO E EMPRESAS PATROCINADORAS – Em conjunto, dentro do modelo econômico globalizado vigente, constituem-se no grande pilar de sustentação do futebol brasileiro enquanto espetáculo e negócio. Por razões óbvias, o grande interesse das empresas é o lucro. Portanto, cobrar maior participação delas em relação aos problemas de todos os 641 clubes profissionais brasileiros e seus respectivos 18 mil jogadores soaria como ingenuidade. Esta deveria ser uma obrigação e prioridade da CBF e Federações Estaduais, que são instituições sem fins lucrativos.
As empresas com maiores recursos, via de regra, têm interesse nos clubes que podem agregar valor imediato às suas iniciativas de patrocínio. Embora perfeitamente exequível, não há ainda nem visão estratégica, nem condições concretas para que investimentos consistentes e de longo prazo sejam feitos com os clubes menores.
A Rede Globo, especificamente, possui grande poder e influência como formadora de opinião dentro da cultura brasileira e é hoje provedora fundamental de receitas para os principais clubes do país. Estes, devido ao seu próprio modelo constitutivo e de gestão tradicional, se tornaram reféns das próprias receitas dos direitos televisivos. Diante deste quadro distorcido e/ou desequilibrado, todos os outros atores acabam sendo influenciados, tendo que se adaptar conservadoramente a esta realidade.
De forma sistêmica, até mesmo as demais empresas patrocinadoras acabam tendo que se ajustar aos princípios comerciais estabelecidos pela detentora dos direitos de transmissão. Também no afã de “premiar” os clubes com maiores torcidas e consequentemente, que propiciam maiores audiências, estabelece-se uma correlação de forças nefasta em termos competitivos entre as equipes, estimulando práticas menos saudáveis e justas no futebol como um todo.
Alguns analistas afirmam que está em andamento no Brasil um processo de “espanholização” do futebol, onde poucos clubes recebem boa parte dos recursos dos patrocinadores, abrindo distâncias extremamente desiguais entre as equipes em termos de competitividade.
4. CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL (CBF) E FEDERAÇÕES ESTADUAIS – São associações de direito privado, de caráter desportivo, e que dirigem o futebol brasileiro, em nível nacional e estadual, respectivamente. Conforme o seu estatuto – Capítulo I, Art. 5o. – a Confederação Brasileira de Futebol tem como um dos seus fins básicos “administrar, dirigir, controlar, fomentar, difundir, incentivar, melhorar, regulamentar e fiscalizar, constantemente e de forma única e exclusiva, a prática de futebol não profissional e profissional, em todo o território nacional”.
Deve também “colaborar para o funcionamento e desenvolvimento das Federações filiadas e entidades de prática do futebol, proporcionando-lhes assistência técnica e financeira”. Em conjunto, portanto, deveriam ser as principais responsáveis pela implantação e implementação de uma abrangente política para esta modalidade desportiva em nosso país, nas dimensões do alto rendimento, educacional e social. CBF e Federações Estaduais poderiam ser as grandes coordenadoras do processo de desenvolvimento do futebol brasileiro, seguindo o exemplo do que já consegue fazer com sucesso a Uefa em relação aos seus 53 países filiados, e cuja complexidade em nada pode ser considerada menor que administrar o futebol no Brasil.
Entretanto, quer seja por falta de visão, quer seja por interesses particulares ou mesmo escusos, a verdade é que, apesar de nosso inegável potencial, estamos muito distantes de medidas efetivas capazes de resgatar o futebol brasileiro a patamares que permitam almejar a hegemonia do futebol mundial.
Voltando ao estatuto, podemos constatar que o seu Artigo 6o. é bem claro quando diz que: “a CBF não tem objetivos lucrativos, devendo aplicar suas receitas e recurso financeiros na realização de suas finalidades, bem como na organização, na administração, na divulgação e no fomento do futebol.” Basta, enfim, uma análise superficial para perceber que tanto CBF quanto as Federações Estaduais não cumprem as suas próprias finalidades. Pelo contrário, além deste descumprimento, com uma estrutura institucional jurídica que as protegem, seus dirigentes conseguem se eternizar no poder, propiciando pouquíssimas possibilidades para transformações mais democráticas e modernizadoras.
Em um balanço atual, estima-se que a CBF tem um faturamento anual bruto próximo de R$ 350 milhões, com lucro líquido em torno de R$ 75 milhões, o que daria, por si só, para subsidiar grandes mudanças e estruturar toda a pirâmide de sustentação do nosso futebol. Hoje são distribuídos valores e benesses da CBF para as Federações e destas para os clubes, com contrapartidas mais relacionadas e preocupadas com a manutenção da estrutura de poder do que com o desenvolvimento do futebol propriamente dito.5. MÍDIA ESPECIALIZADA – Na sociedade de consumo do mundo contemporâneo em que vivemos, a imprensa de forma geral tem se destacado não só como meio de comunicação e expressão que reforça, de diversas maneiras, a identidade sociocultural de um povo, como também exerce um papel preponderante – para o bem e para o mal – em diferentes dimensões da esfera pública.
Neste sentido, o jornalismo esportivo brasileiro tem se destacado, em particular através do futebol, enquanto entretenimento, espetáculo e prática social. Apesar desse esporte ser reconhecidamente uma das mais expressivas manifestações da nossa identidade nacional e que possui, além de tudo, um inegável caráter unificador (de uma comunidade ou nacionalidade), este fenômeno pode também ser visto simplesmente como uma mercadoria, e assim ser explorado por diversos segmentos, inclusive pela própria mídia especializada.
Neste ponto, pode-se perceber, de um lado, uma forte tendência ao exercício da modalidade de jornalismo esportivo opinativo, com pouca preocupação realmente informativa e investigativa, que deveria ser a essência do próprio jornalismo, de forma geral. O que se observa, muitas vezes, é tão somente a valorização do processo de espetacularização do evento esportivo e a consequente veiculação das marcas, que não raramente são confundidas com alguns jornalistas, adeptos do merchandising.
Como forma de entretenimento, percebe-se uma tendência onde cada vez se fala menos de futebol e mais de superficialidades. Como nos ensina o sociólogo francês Pierre Bourdieu: “As notícias de variedades consistem nessa espécie elementar, rudimentar, da informação que é muito importante porque interessa a todo mundo sem ter consequências e porque ocupa tempo; tempo que poderia ser empregado para dizer outra coisa. E se minutos tão preciosos são empregados para dizer coisas tão fúteis é porque as futilidades têm o papel de esconder os assuntos que deveriam ser debatidos. Ora, ao insistir nas variedades, preenchendo esse tempo raro com o vazio, com nada ou quase nada, afastam-se as informações pertinentes que deveria possuir o cidadão para exercer seus direitos democráticos."
De outra parte, entretanto, é possível observar um jornalismo esportivo mais crítico, combativo e investigativo, que longe de ser hegemônico – e nos limites de nossa ainda frágil democracia – é, contudo, capaz de fazer contrapontos significativos com esta visão, estabelecendo-se aí uma correlação de forças que, de certa forma, influencia a opinião pública.6. PÚBLICO EM GERAL – O futebol é um fenômeno sociocultural e esportivo admirado por milhões, praticado por muitos, mas – em especial no Brasil – ainda infelizmente estudado por muito poucos. Por seu significado e expressão simbólica em nossa cultura, tentar entender o envolvimento do público em geral com esta modalidade esportiva é tentar entender a própria sociedade. Embora o futebol tenha historicamente começado há mais de 100 anos em nosso país como uma prática elitista e que só se popularizou definitivamente em meados do século XX, a verdade é que uma de suas características mais marcantes é que atualmente ele é apreciado por grande parte da população em praticamente todas as camadas sociais.
Isto quer dizer que haverá sempre simpatizantes e torcedores de futebol em qualquer nível social e/ou educacional, seja entre os pouco mais de 10% dos brasileiros que conseguem completar um curso superior, seja entre os quase 10% de analfabetos, ou ainda seja entre os cerca de 30% (ou seria 40%?) de nossa população enquadrados como analfabetos funcionais.
É, portanto, natural e perfeitamente compreensível que esta modalidade, apelidada pelos ingleses como “the beautiful game”, reflita todos as injustiças, conflitos e contradições da sociedade como um todo. Não há, portanto, um padrão monolítico de torcedores. No seu conjunto eles podem ser apaixonados, passionais, agressivos, sensíveis, violentos, lógicos, racionais, críticos, solitários, enturmados, festeiros, organizados ou desorganizados. E haverá sempre, em última instância, desde aqueles que se identificam mais com causas conservadoras e reacionárias até aqueles que gostariam de se engajar em causas inovadoras e contemporâneos e que beneficiariam todos que apreciam o futebol bem jogado.
Qualquer plano que pretenda estabelecer uma política séria para o futebol brasileiro deveria conhecer melhor o seu público, que no caso são homens e mulheres, crianças e adolescentes, que torcem, assistem, jogam, participam, ouvem, leem, falam e discutem o futebol.
***
Que bom seria para o Brasil se conseguíssemos nos próximos anos reunir todas as forças que querem mudanças conjunturais e estruturais para o nosso país de uma forma geral, e dentro deste contexto, almejassem também mudanças no próprio futebol, através de um plano nacional de desenvolvimento, integrando estas forças no sentido de se valorizar este extraordinário patrimônio da humanidade que tanto significado tem para nós brasileiros!
Afinal, um futebol melhor, dentro de um país melhor, pode significar a contribuição brasileira para um mundo melhor!
Ou isto significaria sonhar o impossível?
“Alguns homens veem as coisas como são, e dizem ‘Por quê?’
Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo ‘Por que não?’”
(George Bernard Shaw)
*João Paulo Medina é Diretor da Universidade do Futebol










