Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
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sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Formação: O “céu” é o limite

O futebol como instrumento de cidadania e pacificação social

 

POR BENÊ LIMA

 

Visão geral do CT da Tijuca Alimentos

 

 

Numa sociedade em que os diversos tipos de violência se fazem cada vez mais presentes, é preciso que descubramos um antídoto para tantos conflitos nas inter-relações, aos quais os vemos somar-se aos conflitos existenciais já tão presentes nas vidas humanas.

 

Dentro desse contexto de dificuldades inter-relacionais, também assistimos tentativas de construção de uma cultura que transmita valores como cidadania, respeito e boa convivência. E tudo isso através do esporte, utilizando-se o mais popular dentre eles, o futebol, como uma verdadeira plataforma de transformação social.

 

Cada vez que identificamos um desses ‘oásis’ sociais, nosso coração bate mais forte e nosso espírito se enche da mais benfazeja satisfação, pois isso nos leva a vislumbrarmos a imagem de uma sociedade um pouco melhor. Antes, era impensável que o esporte pudesse conter esse poder transformador e que também pudesse criar perspectivas tão alentadoras para as comunidades envolvidas. Outro resultado prático alcançado é de fato certo aspecto de pacificação e acomodação dos conflitos sociais tão presentes nas sociedades modernas dos países em desenvolvimento como o nosso, mas ainda cheio de carências e de gritantes diferenças sociais.

 

Inicialmente com as Organizações Não Governamentais (ONGs), depois com admissão de um Terceiro Setor mais robusto, gradativamente as sociedades foram contrapondo ao encolhimento das funções de um Estado remodelado e mínimo, as entidades que foram surgindo como um poder auxiliar sem poder, mas de onde emerge uma inolvidável vontade política de realização.

 

A presença de mães e de uma representante da empresa Tijuca Alimentos ajudam

nas tarefas administrativas do Projeto. Os produtos arrecadados se prestam para

animarem rifas e bazares para a arrecadação de fundos.

 

 

Meninas da Paz

 

Dentre os projetos sócio-desportivos que vem sendo realizados no âmbito da Tijuca Alimentos, desponta um que resultou da junção de outros dois: Meninas Olímpicas e Guerreiras da Paz. Destes, criou-se o Meninas da Paz, que representa uma série de ações de natureza social, desportiva, assistencial e de cidadania.

 

E para não dizermos que em casa de ferreiro o espeto é de pau, uma das mascotes desse projeto é uma garota de apenas 11 anos, de nome Marina, filha do principal mentor-mecenas do mesmo. Marina já está no Projeto tem mais de um ano, sendo aluna da fase de iniciação, estágio inicial em que se dão os primeiros passos da preparação curricular.

 

Detalhe. Filha e mãe ‘bebem’ do projeto. Refiro-me à senhora Marcela e a sua filha Marina. Esta na condição de atleta, aquela numa condição próxima a manager. “Chamo o projeto de céu, mas isso não é uma sigla”, esclarece Marcela, fazendo alusão a uma condição de ideal a ser alcançado.

 

Marcela ainda ressalta, com indisfarçável orgulho, que as diferenças e rivalidades ficam todas fora do portão de entrada do empreendimento, fazendo alusão ao que havia nos dito Chagas Ferreira, a alguns minutos atrás: “Isso aqui é uma espécie de ‘Faixa de Gaza’, mas os conflitos ficam do lado de fora”, diz o professor Chagas.

 

O Projeto localizado no Parque Santa Fé, numa das sedes da empresa Tijuca Alimentos, absorve uma média de trinta meninas em um único núcleo, que funciona as terças, quintas e sábados. Nas terças e quintas o período trabalhado é o vespertino (a tarde), enquanto aos sábados o período utilizado é o matutino (da manhã).

 

Os profissionais uniformizados, da esquerda para a direita, são os professores

Chagas Ferreira e José Maria Paiva.

 

 

Estrutura, características e benefícios

 

A estrutura oferecida é comparável à de muitos clubes brasileiros de médio porte, contando com três campos, dois deles com dimensões oficiais, todos gramados. Além disso, há um campo de beach soccer, outro de futevôlei, refeitório, entre outras instalações adaptadas de acordo com as necessidades operacionais.

 

 

José Maria Paiva em preleção no intervalo do treino,

assistido por Chagas Ferreira

 

 

As meninas participantes são observadas sob vários prismas, e não só pelo desempenho desportivo. A empresa que lhes dá abrigo entende ser importante criar as precondições para que as meninas de melhor perfil profissional e comportamental possam desfrutar de uma oportunidade no mercado de trabalho. Além disso, é ideia da empresa custear parcialmente os estudos de algumas delas, desse modo preparando-as para o futuro.

 

Mas as meninas também contam com benefícios imediatos, tais como o fornecimento do material de treinamento, lanche e o suprimento das passagens de ônibus para seus deslocamentos.

 

A base técnico-científica do trabalho é aplicada por dois profissionais com formação em educação física. Um deles é o professor José Maria de Paiva, com graduação em educação física pela Universidade do Estado de Goiás, enquanto o outro é Francisco Chagas Ferreira de Sousa, que acumula a coordenação geral dos trabalhos. Vale ainda ressaltar que ambos possuem uma vasta experiência no meio esportivo, e entre outras iniciativas, foram os precursores do projeto Guerreiras da Paz, que ao lado do ideário do projeto Meninas Olímpicas formaram o embrião do Meninas da Paz.

 

 

Treinamento utilizando o campo soçaite do centro de treinamento

 

 

Se tomarmos por base nossa experiência como observador de projetos do gênero sócio-desportivo, sejam nacionais ou internacionais, na área da modalidade futebol, bem como a experiência ímpar que vivemos como Comentarista Especialista de Projetos de Transformação de Vidas Através do Futebol, podemos afirmar que nada do que eu tenha visto no âmbito do estado do Ceará se compara com o que pudemos ver e apreender dessa notável experiência que é o Projeto Meninas da Paz. Tanto que nossa ideia é que o Projeto passe a representar, contando com a generosidade de seus autores e executores, uma espécie de ‘case’, com reconhecida expertise para quem o conhece em profundidade, a fim de formarmos também multiplicadores da ideia e da metodologia, torcendo para que novos núcleos – verdadeiros ‘oásis’ - sejam criados.

 

Vídeo PROJETO MENINAS DA PAZ 109

 

Vídeo Clique aqui PROJETO MENINAS DA PAZ 012

 

TRADUÇÃO

Training: "Heaven" is the limit
Football as a citizenship tool and social peace
 
BY Bene LIMA
 

Photo 1: Overview CT da Tijuca Food
 
 
In a society where the various types of violence are increasingly present, we need to discover an antidote to so many conflicts in the inter-relations, to which we added up to the existential conflicts already so present in human lives.
 
Within this context of inter-relational difficulties, we also saw attempts to build a culture that conveys values such as citizenship, respect and coexistence. And all this through sports, using the most popular among them, football, as a true platform for social transformation.
 
Each time we identify one of these 'oasis' social, our heart beats faster and our spirit fills the most beneficent satisfaction, as this leads to vislumbrarmos the image of a society a little better. Before, it was unthinkable that the sport could contain this transforming power and that could also create prospects as encouraging for the communities involved. Another practical result achieved is indeed certain aspect of peace and accommodation of social conflicts so prevalent in modern societies in developing countries like ours, but still full of gaps and glaring social differences.
 
Initially with non-governmental organizations (NGOs), then admission of a more robust Third Sector, gradually societies were in contrast to the shrinkage of the functions of a State and refurbished least the entities that emerged as a power assist without power, but which emerges an unforgettable political will to.
 

The presence of mothers and a representative of the Tijuca Food company help
the administrative tasks of the Project. The product was collected to provide
animate raffles and bazaars to raise funds.
 
 
Photo 2: Girls of Peace
 
Among the socio-sports projects that have been undertaken in the framework of the Tijuca Food, emerges one that resulted from the junction of two:. Olympic Girls and Warriors of Peace Of these, created the Girls of Peace, which is a series of actions social, sports, health care and citizenship.
 
And not to say that in blacksmith shop is the skewer stick, one of the mascots of this project is a girl of only 11 years old, named Marina, daughter of the chief mentor-sponsor of the same. Marina is already in the project is more than a year, being a student of the inception phase, the initial stage in which they give the first steps of the course preparation.
 
Detail. Daughter and mother 'drink' of the project. I refer to Mrs. Marcela and her daughter Marina. This athlete on condition that a next condition the manager. "I call heaven project, but this is not an acronym," says Marcela, alluding to an ideal condition to be achieved.
 
Marcela also emphasized, with undisguised pride, differences and rivalries are all outside the enterprise gateway, referring to what was said in Chagas Ferreira, a few minutes ago: "This is a kind of 'Gaza Strip' but the conflicts are outside, "says Professor Chagas.
 
The Project located in Santa Fe Park, one of the seats da Tijuca Food company, absorbs an average of thirty girls on a single core, which runs on Tuesdays, Thursdays and Saturdays. On Tuesdays and Thursdays the working period is the evening (afternoon), while on Saturdays the period used is the morning (am).
 

Photo 3: The uniformed professionals, from left to right, are the teachers
Chagas Ferreira and José Maria Paiva
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Structure, features and benefits
 
The structure offered is comparable to that of many Brazilian clubs midsize, with three fields, two with official dimensions, all lawns. In addition, there is a beach soccer field, another footvolley, cafeteria, among other facilities adapted according to operational requirements.
 

Photo 4: José Maria Paiva lecture on the training range,
assisted by Chagas Ferreira
 
 
Participating girls are observed from several perspectives, not only for sports performance. The company that gives them shelter considers it important to create the preconditions for girls best professional and behavioral profile can enjoy an opportunity in the labor market. In addition, the company's idea is to partially fund the studies of some of them, thereby preparing them for the future.
 
But the girls also have immediate benefits, such as providing training materials, snack and supply of bus tickets to their movements.
 
The technical-scientific basis of the work is applied by two professionals with training in physical education. One is Professor José Maria de Paiva, with a degree in physical education from the State University of Goiás, while the other is Francisco Chagas Ferreira de Sousa, who accumulates the overall coordination of the work. It is also worth noting that both have extensive experience in sports, and among other initiatives, were the Warriors project precursors of Peace, that next to the ideals of the Olympic project formed the embryo Girls Girls of Peace.
 

Photo 5: Training using the soçaite field training center
 
If we assume our experience as an observer of the social-sports genre projects, both national and international, in the area of football mode, as well as the unique experience which we live as commentator Specialist Lives Transformation Projects Through Football, we can say that nothing I've seen in the state of Ceará compares to what we could see and seize this remarkable experience that is the Peace Girls Project. So much so that our idea is that the project pass to represent, with the generosity of its authors and performers, a kind of 'case', with recognized expertise to those who know him in depth in order of expressing also multipliers of the idea and methodology, hoping that new centers - true 'oasis' - are created.

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sábado, junho 04, 2011

Entrevista com o coordenador técnico da base do Grêmio

Thiago Corrêa, coordenador técnico das categorias de base do Grêmio
Profissional fala sobre o D.O.M., modelo de formação baseado na filosofia e cultura do clube gaúcho
Equipe Universidade do Futebol

Planejamento das atividades voltadas para o alto rendimento esportivo, controle rigoroso, individual e coletivo, dos profissionais envolvidos nesse processo e busca constante da melhoria das ações que conduzem a ótima performance. Em linhas gerais, o coordenador técnico, função cada vez mais consolidada no ambiente de futebol profissional moderno, é o articulador primordial desse ambiente.

Tal profissional deve facilitar e fazer funcionar, na forma e no conteúdo, cada aspecto do trabalho técnico esportivo de modo integrado, com diretrizes e princípios uniformes, instigando o desempenho e a produtividade de todos os envolvidos no complexo funcionamento de um departamento de futebol. No Grêmio Foot Ball Porto Alegrense, Thiago Corrêa Duarte é quem responde pela tarefa.

Arquitetado por preceitos científicos e metodológicos que conseguem ser, de maneira simultânea, coerentes com o ideal de jogo de treinador e o ideal de jogo do clube, enquanto cultura e filosofia, esse papel se reflete de maneira mais abrangente na criação do D.O.M. (Documento Orientador Metodológico). Trata-se de um modelo de formação baseado na filosofia e cultura do tradicional clube gaúcho.

“Esse ciclo do trabalho deve se caracterizar por uma organização dos aspectos da Metodologia do Processo de Ensino que dê conta da forma de jogar da equipe, ou seja, que leve uma verdadeira congruência que represente o ‘modo de jogar do Grêmio’”, explica Thiago, nesta entrevista àUniversidade do Futebol.

Formado em Educação Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ele se especializou em Portugal, na área de Treino de Alto Rendimento, onde teve contato com professores do gabarito de Júlio Garganta, Vitor Frade, José Guilherme, além de André Villas-Boas, treinador que se destacou na atual temporada européia comandando o FC Porto.

Os estudos focados na forma de jogar, na análise e síntese de jogo, e em tudo que envolve o treino e a sua periodização no futebol, capacitaram Thiago em seu trabalho como analista de desempenho da equipe principal gremista. Ao lado de Rafael Vieira e Mano Menezes, teve participação decisiva no desenvolvimento da Central de Dados Digitais do Grêmio (CDD).

“É comum no futebol as opiniões subjetivas sobre os motivos e acontecimentos perante uma observação momentânea. Nesse aspecto tendemos a ter julgamentos sobre os fatos/fatores determinantes para com o resultado do jogo. E desta forma as conclusões variam constantemente entre os observadores”, avalia.

Para Thiago, mesmo treinadores mais experientes e de alto nível absorvem pouco das peculiaridades que interferem de forma significativa no resultado do jogo de futebol. Assim, apenas com a observação complementar e de apoio que se aprende o que necessita melhorar, detectando-se como orientar e o que treinar.

Quando apresentou um projeto para as categorias de base com o intuito de buscar um modo de jogar das diversas equipes de formação, ele foi questionado. “Na verdade, muitos clubes brasileiros não têm uma forma de jogar definida nos diversos momentos do jogo e/ou não têm uma organização pré-estabelecida. De fato não só os brasileiros, mas poucos clubes no mundo têm uma forma de jogar concreta e uma organização de jogo pré-estabelecidas”, acredita Thiago.

Porém, o coordenador enxerga uma identidade, uma cultura de jogo, uma filosofia que precisa ser resgatada, resultado de um comportamento padrão, que não tem relação direta com o treinador que está comandando determinada equipe. “O Grêmio possui uma cultura e uma filosofia muito concretas. Independentemente de quem seja treinador e atletas, a equipe tem uma forma de jogar muito particular. Esse ‘modo de jogar’ emana das paredes de seu estádio, do grito e da paixão de seus adeptos, ou seja, de sua cultura”.

E o clube, diz Thiago, procura seguir essa orientação metodológica mais sistêmica, apesar de ser um projeto árduo e de longo prazo. Cabe a ele, integrante de uma estrutura cuja cultura educacional dificulta a implantação disso, atuar com o respaldo político. “Meu objetivo é organizar a base do Grêmio a tal ponto que ela tenha uma filosofia de jogo e de treino. É um processo que vai levar anos, mas temos que começar por algum ponto”.

Universidade do Futebol – Você é o novo coordenador técnico das categorias de base do Grêmio. Anteriormente desenvolvia a função de analista de desempenho. Como foi esta passagem e quais as diferenças entre estas duas importantes funções?

Thiago Corrêa – O trabalho desenvolvido no Departamento de Análise de Performance do Grêmio FBPA propicia uma ampla vivência voltada para a questão da compreensão do jogo, da organização dos sistemas, das equipes e entre as equipes, que por si só é algo muito complexo.

Aliado com minha experiência em Portugal no mestrado de Treino de Alto Rendimento, onde tive aulas com os Profs. Júlio Garganta, Vitor Frade, José Guilherme, (André) Villas-Boas, Tavares, Paulo Colaço, etc. que se preocupam com a questão da Metodologia do Processo de Ensino-Treino, da forma de jogar, da análise de jogo, da síntese de jogo e de tudo que envolve o treino e a sua periodização no futebol.

Com os conhecimentos adquiridos consegui chamar a atenção do gerente executivo do clube, Cícero Souza, que me convidou para exercer a função de coordenador técnico das categorias de base. Esta tarefa tem um alto grau dificuldade, além do desafio de ter que substituir o professor Édson Aguiar, profissional extremamente competente e capacitado, com larga experiência no futebol em diversas áreas do treino.

Ser analista de desempenho é analisar e sintetizar o desempenho da sua equipe, da equipe adversária, do seu atleta e do atleta adversário, repassando todas estas informações sobre o jogo de futebol em todas suas nuances.

Ser coordenador técnico é planejar, capacitar, controlar e orientar todo o trabalho realizado pelas categorias de base. Porém, quero salientar aqui que esse ciclo do trabalho deve se caracterizar por uma organização dos aspectos da Metodologia do Processo de Ensino que dê conta da forma de jogar da equipe, ou seja, que leve uma verdadeira congruência que represente o “modo de jogar do Grêmio”.



"Criador e criatura": Mourinho e Villas-Boas, dois exemplares formados na Universidade do Porto; Thiago Corrêa buscou a qualificação na mesma escola

 

Universidade do Futebol – O Grêmio possui uma “Central de Dados Digitais” criada com o propósito de se melhorar o desempenho e rendimento de seus atletas e suas equipes. Conte-nos um pouco sobre o que é e como funciona este trabalho.

Thiago Corrêa – O jogo de futebol está arquitetado em um conjunto de ações e elementos oriundos da relação de cooperação e oposição entre os participantes. Nesta perspectiva se faz necessária uma melhor compreensão e explanação desses fatos a fim de se interpretar melhor o jogo, e consequentemente possibilitando uma melhor interferência e regulação da metodologia do processo de ensino.

Desta forma, a maneira mais adequada de analisar e interpretar o jogo de futebol é através da análise de jogo, seja por intermédio de vídeos (análise qualitativa), ou por intermédio de dados em forma de números (análise quantitativa). Portanto, perante a caracterização do fenômeno futebol, têm-se como obrigatórias a compreensão e a interrogação de seus eventos na própria competição. Tendo em vista essa preocupação, o departamento profissional do Grêmio vem estruturando e instrumentalizando a sua “Central de Dados Digitais” para a devida análise do jogo do Grêmio e mapeamento de seus atletas e adversários.

Em nossa perspectiva, o sucesso deste trabalho no futebol se caracteriza pela mensuração e interpretação adequada dos resultados. Para os atletas atingirem grande performance é necessário um conjunto de princípios bem desenvolvidos nos treinamentos. Nesse sentido, quanto maior for a capacidade de antecipação dos acontecimentos, melhores serão as probabilidades de sucesso.

Em minha visão, o analista de desempenho deve desenvolver um ambiente condutivo de informação que permita o desenvolvimento de aprendizagem através do feedback que os atletas recebem diariamente. Este processo constituído pela observação de ações de jogo, pelo armazenamento das observações, pelo tratamento das observações e, finalmente, pela avaliação/valoração dos elementos de jogo.

É comum no futebol as opiniões subjetivas sobre os motivos e acontecimentos perante uma observação momentânea. Nesse aspecto tendemos a ter julgamentos sobre os fatos/fatores determinantes para com o resultado do jogo. E desta forma as conclusões variam constantemente entre os observadores.

Por sua vez, a observação se caracteriza por ser um procedimento que nos permite analisar e refletir sobre a realidade do jogo. Porém, a observação do jogo ao vivo possui algumas restrições com relação à qualidade da informação. Em virtude de o jogo ser constituído por uma sequência de acontecimentos complexos, que ocorrem ao longo da partida, se torna inviável a memorização e a análise, de forma precisa, de todas as ocorrências em campo.

Sabe-se que mesmo os treinadores mais experientes e de alto nível absorvem apenas cerca de 30% das peculiaridades que interferem de forma significativa no resultado do jogo de futebol. Sendo assim, seria através da observação complementar e de apoio que se aprende o que se necessita melhorar, detecta-se como se deve orientar e o que se tem que treinar a fim de se obter a meta desejada na próxima partida. Assim, toda e qualquer estruturação e modificação do treinamento necessita ser arquitetada e estruturada com preceitos advindos das informações extraídas do jogo.



Por conta das dificuldades de avaliação no momento do jogo, ferramentas de análise se tornam primordiais para o desenvolvimento de atividades e prospecção de talentos

 

Universidade do Futebol – Em sua opinião, como deve ser a relação do coordenador técnico com o treinador e demais membros da comissão técnica?

Thiago Corrêa – O coordenador técnico está para os gestores de campo (treinador e demais membros da comissão técnica), assim como o treinador está para seus atletas. Ou seja, é preciso que exista uma relação de liderança, de cooperação, de amizade e de profissionalismo. Claro que a relação entre seres humanos é algo muito complexo e exige muitos cuidados. Neste sentido penso que devemos ser profissionais antes de sermos amigos. Quando há critérios bem claros e definidos, há uma relação muito mais presumível de sucesso.

Como falei antes, o coordenador técnico deve planejar, capacitar, controlar e orientar o trabalho de seus coordenados principalmente em relação aos treinamentos e aos jogos das diversas categorias. Esta minha tarefa está arquitetada por preceitos científicos e metodológicos que conseguem ao mesmo tempo ser coerentes com o ideal de jogo de treinador e o ideal de jogo do clube, enquanto cultura e filosofia. Foi por isso que criamos o D.O.M. (Documento Orientador Metodológico), um modelo de formação baseado na filosofia e cultura do Grêmio, a fim de se garantir o “modo de jogar do Grêmio”.
 


 

Universidade do Futebol – Como se dá a integração do trabalho desenvolvido nas categorias de base com a equipe principal? A coordenação técnica da equipe principal tem semelhanças com a coordenação da base?

Thiago Corrêa – O clube deve ser um só, tanto em termos de metodologia do processo de ensino-treino, como na forma de jogar da equipe, claro que respeitando suas peculiaridades. Justifica-se, com isso, a elaboração do D.O.M.

Entendo que as categorias de base dos clubes devem exercer um trabalho formativo visando ao aproveitamento do atleta na equipe principal. Devem ter um trabalho de longo prazo desde sua iniciação (6, 7 e 8 anos) até as categorias profissionais (16, 17, 18, 19 e 20 anos), a fim de que o atleta vá gradativamente se adaptando à forma de jogar da equipe principal. Vejo aí um dos principais objetivos a serem perseguidos pelo coordenador técnico.

Quando apresentei o meu projeto para as categorias de base fui questionado sobre o porquê de se buscar um modo de jogar das nossas diversas equipes quando. Na verdade, muitos clubes brasileiros não têm uma forma de jogar definida nos diversos momentos do jogo e/ou não têm uma organização pré-estabelecida. De fato não só os brasileiros, mas poucos clubes no mundo têm uma forma de jogar concreta e uma organização de jogo pré-estabelecidas.

Porém há uma identidade, uma cultura de jogo, uma filosofia que precisa ser resgatada. Trata-se de uma cultura e uma filosofia que resultam em um comportamento padrão independentemente do treinador que está comandando. Há que se considerar as influências do ambiente, dos torcedores, dos dirigentes, entre outros aspectos que caracterizam fielmente o clube.

O Grêmio possui uma cultura e uma filosofia muito concretas. Independentemente de quem seja o treinador e atletas, a equipe tem uma forma de jogar muito particular. Esse “modo de jogar” emana das paredes de seu estádio, do grito e da paixão de seus adeptos, ou seja, de sua cultura. Com isso, respeitando os preceitos científicos e metodológicos para os treinos e jogos é que formulamos um documento orientador para este “modo de jogar” que denominamos de “Jogar ao Grêmio”.

E cabe também aqui destacar que o Grêmio possui hoje no elenco de sua equipe principal quase 50% de atletas oriundos de sua base. Dentre os times da Séria A do Campeonato Brasileiro, não há outro que tenha maior percentual.



Documento criado pelo coordenador técnico tem como alvo estabelecer uma metodologia específica de treino para cada equipe de formação "Jogar ao Grêmio"

 

Universidade do Futebol – Como os equipamentos e aparatos tecnológicos podem auxiliar na qualidade dos trabalhos realizados pelas comissões técnicas? Como se estabelece uma relação adequada de custo–benefício nesta área?

Thiago Corrêa – Todo e qualquer equipamento que possa auxiliar no desenvolvimento de um trabalho de mais qualidade é sempre benvindo. Porém, penso que não devemos nos deixar levar pela obrigação da tecnologia que o meio até certo ponto nos impõe. O equipamento só será útil se for funcional, ou seja, se tiver utilidade prática. Neste caso é preciso sempre avaliar a relação custo e benefício para qualquer inovação tecnológica.



"Equipamento só será útil se for funcional, ou seja, se tiver utilidade prática", sintetiza Thiago Corrêa, que participou do processo de confecção da CDD do Grêmio

 

Universidade do Futebol – Você é mestrando da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Qual o diferencial da formação acadêmica em termos da pedagogia do esporte de Portugal em relação ao Brasil? Quais as principais diferenças entre a formação do treinador em Portugal comparadas ao treinador brasileiro?

Thiago Corrêa – Em termos de formação acadêmica, Portugal se destaca por aprofundar mais as questões ligadas à complexidade do futebol do que no Brasil. Minha experiência está ligada à Universidade do Porto, que influenciou a formação de treinadores como José Mourinho e mais recentemente André Villas-Boas (treinador do Porto), entre outros. Lá se fala muito mais sobre a complexidade do jogo, sobre o confronto entre dois sistemas dinâmicos, construídos por partes complexas (seres humanos), por exemplo, do que aqui no Brasil.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde me formei, a ênfase ainda recai muito sobre os aspectos biológicos do entendimento do jogo de futebol. Embora a evolução física e fisiológica desta modalidade seja de extrema importância para o seu desenvolvimento, penso que deveríamos passar para um novo estágio da compreensão do fenômeno.

Universidade do Futebol – O Prof. Vitor Frade, destacado estudioso do futebol, afirma que “formar um equipe de futebol está no ato de criar situações (ambientes de aprendizagem) para que ela própria possa formar sua identidade.” O Grêmio procura seguir esta orientação metodológica? Ou este é um processo ainda distante dos clubes brasileiros?

Thiago Corrêa – Quero destacar em primeiro lugar que existem dois tipos de identidade: a identidade da forma de jogar da equipe e a identidade do clube de futebol em que essa equipe está inserida. Isto deve ficar bem claro. A equipe por si só cria uma identidade conforme sua habituação e sua vivência. Um grupo de atletas ou uma equipe ao treinar extensivamente juntos por longo período de tempo, através de experiências qualitativas e quantitativas, criam uma forma de jogar que é o resultado da interação entre todos que fazem parte da equipe. Ou seja, isto identifica uma forma ideal de jogar para aquele conjunto de atletas ou equipe.

Já o clube, enquanto entidade tem uma cultura e uma filosofia muito próprias (com exceção daqueles clubes novos, sem muita história). Muitas vezes dizemos que determinado atleta não tem a “cara do clube”, ou não se encaixa com o perfil da instituição. Por isso temos que tomar cuidado ao montarmos e treinarmos uma equipe de futebol.

Devemos, portanto, ter a habilidade de perceber a identidade da equipe, a identidade do clube e o que se pensa (treinador, coordenador) que é certo para jogar futebol. Mas atenção, pois invariavelmente a equipe forma sua própria identidade!

O Grêmio procura, sim, seguir essa orientação metodológica mais sistêmica. Mas reconheço é uma tarefa árdua e de longo prazo. Nossa cultura educacional, onde treinadores e atletas estão inseridos, dificulta a implantação deste pressuposto. Por isso buscamos tomar algumas medidas que, em longo prazo, possa obter esse resultado. Uma delas é o D.O.M. Meu objetivo é organizar a base do Grêmio a tal ponto que ela tenha uma filosofia de jogo e de treino. É um processo que vai levar anos, mas temos que começar por algum ponto.

Universidade do Futebol – Em se pensando o futebol no aspecto humano e social, você acredita que a influência da cultura condiciona um determinado tipo de comportamento? É possível se falar em escolas regionais de futebol?

Thiago Corrêa – O Vitor Frade em suas aulas sempre falou que o Brasil não tem um estilo de jogo próprio, pois ele é muito grande. No Sul não se joga da mesma forma que se joga no Centro ou no Norte. A partir daí podemos perguntar: como se pode ter uma forma particular de jogar em um determinado clube se a grande maioria dos seus atletas vem de outras regiões? Eu diria que é por causa da cultura e da filosofia do clube. Acredito muito nisso!

Os nossos comportamentos são extremamente influenciados pela cultura do ambiente onde estamos. Como falei antes, os comportamentos que temos durante uma situação, ou até mesmo o nosso comportamento para executar uma forma de jogar, não necessariamente é algo previamente descrito e treinado – pode ser “algo” que emana do ambiente onde estamos. “Algo” que nos influencia de alguma maneira a executarmos certa ação.
 


 

Universidade do Futebol – Em um de seus artigos, você sinaliza para a existência de uma identidade dentro do “Sistema Futebol” e outra fora do “Sistema Futebol”. Quais atividades e exercícios podem ser desenvolvidos no treinamento para que o atleta mantenha sua identidade própria, mas participe, concomitantemente, da identidade da equipe, na perspectiva do jogar que se pretende?

Thiago Corrêa – Gosto de dizer que a equipe é sempre mais que a soma de seus atletas, mas os atletas, por vezes, são mais e/ou menos que a própria equipe. Ou seja, quando há organização, há regras, e onde há regras, há restrições. Assim, de uma forma ou outra, restringimos em algo a manifestação de nossos atletas. A grande questão é encontrarmos um equilíbrio entre a ordem e desordem da organização, para não termos equipes muito mecânicas e limitadas.

A identidade do atleta tem que ser um fractal (*) da identidade da equipe. O atleta representa a equipe, em menor escala. A identidade da equipe é uma manifestação, também, da identidade do atleta e dos atletas. Para conseguirmos o equilíbrio ideal, precisamos acima de tudo saber contratar os atletas certos para montar a nossa equipe. Se formos treinadores de categorias de base, temos que saber montar a equipe ideal com os atletas que temos. Mas para as duas situações precisamos entender o atleta, interpretar sua personalidade, seu comportamento, sua identidade.

Creio que não há exercícios/meios ideais para que os atletas mantenham sua identidade equivalente com a identidade da equipe. O que há é a ocorrência frequente do comportamento coletivo e individual, e é isso que devemos ter em mente ao elaborar os exercício/meios a serem utilizados. Elaborar exercícios/meios que busquem padrões de comportamentos individuais e coletivos coerentes com a identidade do indivíduo, da equipe e principalmente do clube.

(*) Ou seja, o atleta (parte) por sua característica e funcionalidade, consegue representar a equipe (todo).

 

Reflexões sobre a organização no jogo de futebol 

 

Universidade do Futebol – Como coordenador técnico das categorias de base, de que modo você pensa capacitar os membros de suas comissões técnicas (treinadores, assistentes, preparadores etc.) no sentido de integrar o processo metodológico previsto em seu planejamento?

Thiago Corrêa – Gosto de oferecer periodicamente artigos, capítulos de livros, matérias esportivas etc., para estimular a reflexão e desenvolver a capacidade intelectual dos nossos profissionais, além de termos reuniões sistemáticas visando dar seguimento ao D.O.M., para que ao longo do processo possamos estabelecer e estruturar o “Jogar ao Grêmio”.

Promovemos também encontros mais ampliados como o Seminário de Futebol - Desafios do Alto Rendimento. A primeira edição foi em 2010 e contou com a presença dos professores Julio Garganta e José Guilherme, falando um pouco da metodologia de futebol e da periodização tática. Ajudou e muito a fazer com que os nossos treinadores e profissionais de campo percebessem um pouco mais sobre os aspectos mais evolutivos do treino e jogo do futebol.

Queremos fazer esse seminário anualmente, para que possamos capacitar cada vez mais nossos profissionais.



Cartaz da primeira edição do Seminário de Futebol - Desafios do Alto Rendimento: intenção do clube é promover eventos desse tipo sistematicamente

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