Tem gente que não acredita ou absolutamente ignora as tais “estatísticas” apresentadas sobre um jogo de futebol. Para essas pessoas e também para os que adoram analisar “números dos jogos”, um livro imperdível. Trata-se de “Os números do jogo - Por que tudo o que você sabe sobre futebol está errado” (Companhia das Letras). Os autores são dois especialistas: David Sally, especialista em estratégias e o estatístico Chris Anderson. A tradução do jornalista André Fontenelle.Literatura na Arquibancada destaca abaixo o prefácio da edição brasileira, assinado por um apaixonado pelos números, o jornalista Paulo Vinícius Coelho, o PVC e também a introdução da obra, que também pode ser acessada na íntegra, na página da editora:Prefácio à edição brasileiraPor Paulo Vinícius Coelho, o PVCLançamentos longos criam mais chances de gol que cruzamentos? Tentar o drible na própria metade do campo pode prejudicar sua equipe? O 4-4-2 é uma formação mais eficiente que o 4-3-3? Sob que condições e contra que rivais?Sabemos que no futebol não existe fórmula para a vitória, mas a “dataficação” da vida está se infiltrando no esporte, mostrando a treinadores, jogadores, torcedores e comentaristas que o jeito como as coisas sempre foram feitas não é, necessariamente, a forma como elas devem ser feitas.Cientistas e estatísticos criaram formas diferentes para compreender o papel da previsibilidade e da aleatoriedade no futebol, mas a questão essencial que muitos deles discutem atualmente é a mesma. Também é, por acaso, a mesma questão que Charles Reep, o inventor das estatísticas do futebol, tentou responder na década de 1950: partidas de futebol e campeonatos são decididos pelo talento ou pela sorte?De forma surpreendente, o estatístico Chris Anderson e o especialista em estratégias David Sally mostram por que os números do jogo podem nos ajudar a compreender o futebol em sua essência. Ao ler este livro, você vai descobrir por que os escanteios devem ser cobrados curtinho, por que o futebol é um esporte do elo mais fraco e por que demitir o treinador não resolve absolutamente nada.Introdução:Futebol para os céticos — a contrarreforma“No esporte, o fato é mais poderoso do que aquilo em que você acredita.
Só ele pode lhe dar alguma vantagem”.
Bill JamesDurante muito tempo, quatro palavras dominaram o futebol:Sempre foi feito assim.O jogo bonito está arraigado na tradição. O jogo bonito agarra-se a seus dogmas e truísmos, a suas crenças e credos. O jogo bonito pertence a homens que não querem ver seu domínio ameaçado por intrusos que sabem que enxergam o jogo como ele realmente é. Esses homens não querem que lhes digam que há mais de um século eles estão deixando de perceber alguns fatos. Que existe um conhecimento que eles não possuem. Que o jeito como eles sempre fizeram as coisas não é como as coisas devem ser feitas.O jogo bonito é deliberadamente ignorante. O jogo bonito está maduro para a mudança.E no cerne dessa mudança estão os números. São os números que vão desafiar as ideias preconcebidas e subverter as normas, renovar as práticas e demolir antigas crenças. São os números que vão nos permitir ver o jogo como nunca o vimos antes.Todo clube de nível mundial sabe disso. Todos empregam equipes de analistas — especialistas na coleta e na interpretação de dados — que usam a informação que conseguem reunir para planejar treinos, criar sistemas de jogo, preparar negociações. Milhões de dólares e centenas de títulos estão em jogo. Todo clube está preparado para fazer o que for preciso para obter a mais ínfima vantagem.
Mas o que nenhum desses clubes fez, até agora, foi pegar esses números e reconhecer a verdade recôndita. Não é só uma questão de coletar dados. É preciso saber o que fazer com eles.
Essa é a nova fronteira do futebol. Costuma-se dizer que não se pode, ou não se deve, reduzir o futebol a meras estatísticas. Isso, dizem os críticos, tira a beleza do jogo. Mas não é o que pensam os clubes que lutam para conquistar a Champions League ou a Premier League (o campeonato inglês), ou os países na disputa para ganhar a Copa do Mundo. Tampouco é o que nós pensamos. Acreditamos que cada fiapo de conhecimento que juntamos nos ajuda a amar ainda mais o futebol, em toda a sua gloriosa complexidade. Esse é o futuro.Não há como interrompê-lo. Não dá para dizer que todas as tradições do futebol estão erradas. Os dados que hoje podemos reunir e analisar confirmam que parte daquilo que sempre se acreditou ser verdade é, de fato, verdade. Para além disso, porém, os números nos oferecem outras verdades, esclarecem coisas que não temos como saber intuitivamente e expõem a falsidade do “sempre foi feito assim”. O maior problema de seguir uma tradição venerável e um dogma estabelecido é que ambos raramente são questionados. O conhecimento fica estagnado, enquanto o próprio esporte e o mundo em torno dele mudam.Fazendo Perguntas
Rory Delap, cobrando lateral no Stoke City.
Era uma pergunta simples, tão comum entre os americanos que falam de futebol.
“Por que eles fazem isso?”Dave e eu estávamos assistindo aos melhores momentos de uma partida da primeira divisão inglesa, quando algo chamou sua atenção. Não foi nenhum lance de incrível habilidade ou de beleza hipnotizante, nem um erro grosseiro de arbitragem, mas algo muito mais prosaico. Dave estava pasmo, da mesma forma que inúmeros zagueiros antes dele, pelos arremessos laterais longos de Rory Delap.Toda vez que o Stoke City tinha que cobrar um arremesso lateral ao alcance da área adversária, Delap trotava ao longo da linha lateral, enxugava a bola com a camisa — ou, quando o time jogava em casa, com uma toalha estrategicamente posicionada para esse objetivo — e a catapultava para a área, uma, duas, três, quantas vezes pudesse.Para mim, que sou um ex-goleiro, era evidente a vantagem dos arremessos de Delap. Eu expliquei a Dave: o time do Stoke era razoável, mas faltava um pouco de velocidade e, mais que isso, faltava talento. O que não faltava a seus jogadores, porém, era tamanho. Por que não, então, quando a bola saía pela linha lateral, aproveitar a oportunidade para criar uma chance de gol? Por que não semear um pouco de confusão nas hostes adversárias? Aparentemente dava certo.Mas não foi o bastante para saciar a curiosidade de Dave. Só serviu para que ele fizesse a inevitável pergunta seguinte.“Então por que nem todo mundo faz assim?”
A resposta era igualmente óbvia: nem todo time tem um Rory Delap, alguém capaz de arremessar a bola a uma grande distância com a mesma trajetória regular, tal qual uma pedra, que deixa os zagueiros em pânico, e os goleiros, confusos.
Dave, um ex-arremessador de beisebol, tentou outra abordagem: “Mas não dá para procurar e achar um outro Rory Delap? Ou mandar um jogador do time levantar peso e treinar lançamento de dardo e de martelo?”.Não era tão simples assim. Sim, as perguntas de Dave estavam ficando chatas, como as de uma criança insistente; o mais irritante é que eu não tinha uma boa resposta.“Você pode jogar como o Stoke”, contra-argumentei, “se você tem um Delap e um monte de zagueiros altos. Mas não é um jogo muito atraente. Não é assim que se faz, a não ser quando não há outro jeito.”É isso. Tudo o que me restava, como se eu fosse um pai incapaz de responder. “Porque sim.”Porque, sim, há coisas que não se fazem quando se joga futebol. Porque, sim, embora um gol surgido de lateral valha o mesmo que um gol oriundo de uma troca de passes habilidosa, é como se esse gol não valesse a mesma coisa. Porque, sim, para um purista, um gol assim é menos merecido.Mas as intermináveis perguntas de Dave — Por quê? Por quê? Por quê? — me importunavam. Se dá certo para o Stoke, por que outros times não fazem o mesmo? Quem tinha razão? Os Stoke, responsável por um terço das chances de gol a partir de arremessos laterais no Campeonato Inglês daquele ano — ou os outros times, que claramente não sentiam necessidade, ou não queriam, incluir o arremesso longo em seu arsenal?
David Sally e Chris Anderson.
Por que existem coisas que simplesmente “não se fazem”?
Por que o futebol é jogado como ele é jogado?Tentamos responder essas duas importantíssimas perguntas usando nossos conhecimentos e nossas habilidades — eu, como especialista em economia política, e Dave, como especialista em economia comportamental —, nossa disciplina de cientistas sociais, nossas experiências como goleiro e arremessador de beisebol e nosso amor pelo esporte e pela solução de problemas complicados. O resultado é este e está em suas mãos — um livro sobre futebol e números.O futebol sempre foi um jogo de números: 1 x 1, 4-4-2, os grandes camisas 9, a sagrada camisa 10. Isso não vai mudar, e não queremos que mude jamais. Mas há uma “contrarreforma” ganhando corpo, que pode tornar outro grupo de números igualmente importante: 2,66; 50-50; 53,4; <58<73<79 e 0>1 vão se mostrar fundamentais para o futuro do futebol.Este é um livro sobre a essência do futebol — o gol, o acaso, a tática, o ataque e a defesa, a posse de bola, os superastros, os pontos fracos, a preparação e o treinamento, os cartões vermelhos e as substituições, a liderança eficiente, a contratação e a demissão de treinadores — e a forma como tudo isso se relaciona com os números.Sobre os autores:David Sally, é ex-jogador de beisebol e professor na Tuck School of Business na Faculdade Darmouth, em Hanover, New Hampshire (EUA), onde analisa as estratégias de pessoas ao jogar, competir, negociar e tomar decisões. É conselheiro de diversos clubes e outras organizações da indústria do futebol mundial.Chris Anderson. Aos dezessete anos, foi goleiro de um time da quarta divisão na Alemanha Ocidental. Hoje, é professor de estatística na Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York (EUA). Já prestou consultoria a alguns dos mais importantes clubes de futebol do mundo.
Sinopse
"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
CALOUROS DO AR FC
segunda-feira, outubro 07, 2013
Livro: Os números do jogo
domingo, outubro 06, 2013
O segredo do crescimento do Real Madrid
Mesmo com contratações caras, o clube tem conseguido equilibrar suas finanças
Amir Somoggi
São Paulo (SP)
Recentemente, o Real Madrid chocou o mundo ao pagar por Gareth Bale, por 100 milhões de euros, o valor mais alto já gasto por um jogador. Na última semana, o presidente Florentino Perez disse que o valor é baixo graças ao modelo mercadológico do clube, fundamentado em grandes contratações.
Mesmo que seja um exagero chamar as contratações do Real Madrid de baratas, o clube até o momento tem conseguido equilibrar as finanças. O Real, no início do projeto dos galácticos em 2000/01, recebeu uma ajuda do governo de Madri, com a permissão da venda de seu antigo Centro de Treinamento.
Mas as últimas contratações, desde David Beckham, passando por Cristiano Ronaldo e agora Gareth Bale, estão fundamentadas num ambicioso modelo de expansão mundial da marca madrilena. O clube, no último exercício, gerou mais de 163 milhões de euros com marketing, o mesmo valor com os direitos de TV, 146 milhões com o estádio e 49 milhões em amistosos e prêmios da Uefa.
Assim, os merengues encerraram a temporada 2012/13 com receita total de 521 milhões de euros, contra 138 milhões de euros de 2000/01. É uma evolução de 283%, ou 12% em média ao ano. A folha salarial, no mesmo período, passou de 119 milhões de euros para 246 milhões, uma evolução de 107%.
No início da era dos galácticos, a folha salarial consumia 86% das receitas. Desde então caiu 47%. A dívida atual do Real é de cerca de 115 milhões de euros com bancos e de 80 milhões com clubes. As despesas financeiras no último exercício atingiram 11,3 milhões, e seu superávit foi de 48 milhões. Nos últimos seis anos, o superávit acumulado do Real Madrid foi de incríveis 234 milhões.
Assim, o clube mesmo gastando uma fortuna em contratações e salários, consegue manter um equilíbrio financeiro, graças à expansão de seu negócio. O desafio agora será manter esse ritmo, já que no último exercício, a alta foi de apenas 1,4%, a menor desde 1998/99.
.
sábado, outubro 05, 2013
Eduardo Pimenta, fisiologista do Cruzeiro
"O que nós acreditamos e investimos muito é em descanso e boa alimentação", afirmaGuilherme Yoshida
A folgada liderança do Cruzeiro no atual Campeonato Brasileiro não tem sido fruto somente das boas jogadas de Éverton Ribeiro nem dos gols do centroavante Borges.
A participação do fisiologista Eduardo Pimenta no clube mineiro também tem contribuído para que o time não tenha desfalques por contusão e mantenha o desempenho coletivo mesmo com o rodízio tático.
Graduado em Educação Física em 1998, além de mestrado e doutorado na Espanha, ele introduziu desde a última pré-temporada do Cruzeiro a utilização de duas tecnologias que tem ajudado na prevenção de lesões musculares e no melhor rendimento dos jogadores.
O primeiro procedimento foi a análise dos jogadores por meio de um mapeamento genético, para detalhar o perfil biológico de cada um e, assim, elaborar exercícios específicos durante a temporada. O outro é a termografia, técnica que detecta, por meio do calor do corpo, quais regiões estão mais propensas a sofrer contusões.
"Já notamos até uma redução de lesões no nosso elenco. Setembro é considerado o mês negro para o futebol brasileiro, é o período com o maior número de lesões. Mas, no Cruzeiro, tivemos apenas uma contusão, a do Júlio Baptista, que veio do futebol europeu", aponta Eduardo Pimenta, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.
Para ele, no entanto, tanto trabalho e estudo servem apenas para amenizar os prejuízos que o atual modelo do calendário faz no futebol brasileiro. O fisiologista diz acreditar que o ideal seria a adequação ao calendário europeu, além dos 30 dias de pré-temporada e outros 30 de férias.
"Falar de pré-temporada não é falar somente de parte física. Neste período, há também uma reorganização das ideias de jogo, dispensas, contratações, enfim. É uma retomada de ajuste tático, técnico e não só físico. Porque é a época que toda a comissão técnica faz o planejamento para o ano todo", avalia.
"Então, com este cenário, ou os clubes contratam um mega elenco ou se faz um rodízio tático", completa.
Nesta entrevista, concedida diretamente de Belo Horizonte, Eduardo Pimenta ainda falou sobre os benefícios do descanso e da boa alimentação na longevidade do jogador e por que não recomenda a utilização da crioterapia nos trabalhos de recuperação pós-jogo. Confira a íntegra:
Universidade do Futebol – Em sua opinião, qual o tempo ideal para uma pré-temporada? Explique, por favor.
Eduardo Pimenta – Na verdade, para a realização de um bom espetáculo, todas as esferas do atleta têm de estar bem treinadas. E o elemento físico é fundamental. Para essa questão, vejo que deva ser como ocorre na Europa, 30 dias de férias e outros 30 dias de pré-temporada. Eu sempre defendi esse tempo de preparação.
Um calendário denso, com uma concentração de jogos, gera um prejuízo enorme aos atletas. Há muito mais lesões neste cenário. O tempo de recuperação entre um jogo e outro é inviável. Além disso, onera os cofres dos clubes, que têm, cada vez mais, contar com elencos maiores para suprir as lesões de quem joga com mais frequência.
Inclusive, sou a favor das férias no futebol brasileiro acontecerem no meio do ano. Traria benefícios não só físicos, mas, também em aspectos como as janelas de transferências, pois o calendário europeu não teria tanta influencia no nosso como exerce atualmente. É preciso repensar.
E, outra coisa: falar de pré-temporada não é falar somente de parte física. Neste período, há também uma reorganização das ideias de jogo, dispensas, contratações, enfim. É uma retomada de ajuste tático, técnico e não só físico. Porque é a época que toda a comissão técnica faz o planejamento para o ano todo.
Ao lado do jogador Tinga, fisiologista Eduardo Pimenta (à dir.) posa durante testes físicos no Cruzeiro; fisiologista afirma que foco são descanso e boa alimentação
Universidade do Futebol – Com mais jogos disputados em um curto período, é comum que os atletas voltem a campo sem as condições físicas ideias. Como encontrar este equilíbrio?
Eduardo Pimenta – No Campeonato Mineiro, por exemplo, há três anos que temos 28 dias de pré-temporada. Neste ano, tivemos o exemplo do Atlético-PR, que disputou o Campeonato Estadual com uma equipe formada por jovens jogadores e agora tem tido uma performance acima da média dos clubes que estão na Série A. Então, são alternativas para você ter menos atletas machucados durante a temporada.
Um calendário ruim influencia até na longevidade esportiva do jogador profissional. Ele não suporta esse ritmo. Vemos com frequência os jogadores que vêm da Europa sempre com muitas dificuldades de recuperação. Na Espanha, por exemplo, a federação proíbe que se disputem três semanas seguidas com dois jogos cada uma. No máximo, só pode duas. Então, esse tipo de iniciativa contribui com a saúde do jogador e com o espetáculo.
Mas, respondendo à sua pergunta, ou os clubes contratam um mega elenco ou se faz um rodízio tático. Volantes e laterais sempre são as posições com mais desgaste físico. Então, se algum deles já começa a apresentar índices de desgaste aumentando, vai para o descanso, o Marcelo [Oliveira, técnico do Cruzeiro] poupa do jogo. Com isso, o benefício é tático e não físico. O fato de a gente tirar o jogador de um jogo só não tem grandes problemas.
Para se ter uma ideia, até agora, apenas uma vez tiramos dois atletas ao mesmo tempo de uma partida. Se pegarmos o jogo que enfrentamos o Botafogo, por exemplo, que era um confronto direto na tabela, todos os atletas correram acima de 10 quilômetros. Todos. Então, se não fizermos isso, não tem como chegar neste equilíbrio.
A manipulação dos jogos reduzidos deve ser muito bem pensada, pois o foco são os elementos técnicos e táticos, mas o componente essencial é o cognitivo na realidade do jogo, explica Pimenta
Universidade do Futebol – A monitoração dos trabalhos no futebol deve considerar o tipo de exercício intermitente, no qual períodos curtos de alta intensidade são entremeados com períodos mais longos de recuperação ativa ou passiva. Como você faz o trabalho de carga e o direcionamento do treino?
Eduardo Pimenta – No segundo semestre, não estamos treinando praticamente. O calendário não permite treinar. Então, damos suplementação com proteínas. Mas, quando fazemos jogos reduzidos, por exemplo, alguns jogadores não fazem todo o treino.
A capacidade física treinada é a mesma, o que muda é o método. Pensamos, antes de tudo, na individualidade biológica. Na individualização do treinamento. E aonde eu busco as respostas de cada individualidade? No DNA, na genética. Essas diferenças de cada indivíduo têm sido estudadas cada vez mais.
Atualmente, no Cruzeiro, fazemos um mapeamento genético de todos os atletas para entender melhor cada um. Mas, veja, isso não é utilizado para motivo de corte ou dispensa. É apenas para compreender melhor cada um, entender porque alguns têm uma curva de adaptação mais rápida do que outros.
Existe atleta, por exemplo, que joga no domingo e fica recuperando até quarta, não treina nem na terça. E daí joga normalmente. Estamos, hoje em dia, avaliando 12 tipos de genes que têm influência neste processo. No próximo ano, queremos avaliar 25 genes que têm relação com isso. E, com isso, já conhecemos os atletas que suportam mais cargas do que outros.
Já notamos até uma redução de lesões no nosso elenco. Setembro é considerado o mês negro para o futebol brasileiro, é o período com o maior número de lesões. Mas, no Cruzeiro, tivemos apenas uma contusão, a do Júlio Baptista, que veio do futebol europeu. Teremos, em breve, uma maratona de sete jogos no Campeonato Brasileiro em 22 dias. Porém, com três dias, eu não consigo recuperar 100% a parte muscular. Sempre vai haver um débito.
Mesmo quando são aplicados os coletivos, a gente tira o atleta menos recuperado antes do treino acabar. E o legal é que o Marcelo [Oliveira, técnico] aceitou prontamente esse método. Então, temos um olhar diferente para isso. Investimos na recuperação.
Utilizamos de cinco a seis marcadores para fazer esse acompanhamento. Desde o CK [creatinofosfoquinase], marcadores hormonais, GPS, até a termografia [técnica que mede a inflamação muscular]. Mas, é bom afirmar: um gene só não vai definir a capacidade atlética de cada um. A genética é uma interação poligênica. Estamos estudando para evoluir cada vez mais.
Fisiologista introduziu no clube mineiro a termografia, técnica que detecta, por meio do calor do corpo, quais regiões estão mais propensas a sofrer contusões
Universidade do Futebol – Em alguns estudos científicos foi constatado que os pequenos jogos podem ser usados de uma forma efetiva de treinamento de resistência para jogadores de futebol. Esse tipo de atividade em campo reduzido é implementada pela comissão técnica no Cruzeiro?
Eduardo Pimenta – É sim. Atualmente, tem um pesquisador francês, que foi até consultor da Costa do Marfim na Copa do Mundo, que fala muito sobre isso, dos pequenos jogos usados como um meio de se treinar resistência. São jogos de 2x2, 3x3, 4x4, são muitas variações. Lá no Cruzeiro, nós utilizamos este tipo de atividade há um bom tempo.
Com ela, você não obtém somente respostas técnicas, mas adaptações físicas também. O número de jogadores, as regras pré-estabelecidas, o tamanho do campo, tudo influencia no processo. Por isso, a manipulação desses elementos deve ser muito bem pensada, pois o foco são os elementos técnicos e táticos, mas o componente essencial é o cognitivo na realidade do jogo. Eu defendo esse método.
Já notamos uma redução de lesões no nosso elenco. Setembro é considerado o mês negro para o futebol brasileiro, é o período com o maior número de lesões. Mas, no Cruzeiro, tivemos apenas uma contusão, revela
Universidade do Futebol – Como o departamento de fisiologia do Cruzeiro trabalha quando recebe algum atleta que está com algum déficit físico, seja de quaisquer valências?
Eduardo Pimenta – Nós temos vários tipos de avaliações. Já temos um protocolo para jogadores que retornam de empréstimo, por exemplo. E, eles são submetidos a este protocolo toda vez que isso acontece.
Mas, são parâmetros de valores médios. Porque é difícil o jogador profissional que atua regularmente acumular algum déficit físico de grande valor.
O jogador profissional que consegue, em média, atuar por oito anos sem ficar muito tempo parado, por exemplo, tem a manutenção dessas valências físicas sem nenhum problema.
Mesmo quando são aplicados os coletivos, a gente tira o atleta menos recuperado antes do treino acabar. E o legal é que o Marcelo [Oliveira, técnico] aceitou prontamente esse método. Então, temos um olhar diferente para isso, aponta o fisiologista
Universidade do Futebol – No pós-jogo ou treino, você utiliza a técnica da crioterapia com os atletas ou crê que a imersão em água gelada possui benefícios apenas subjetivos?
Eduardo Pimenta – Eu sou contrário ao continuísmo. Eu sou da Ciência. E, por ter essa formação, não vejo com bons olhos a utilização desta técnica. Ela é utilizada para a inflamação muscular, mas ela é uma resposta biológica. O que eu questiono é que nenhum dos artigos científicos que falam da crioterapia é conclusivo.
Este método até diminui a percepção de dor, mas o gelo não vai aumentar ou minimizar a contusão, não vai agir diretamente na lesão. Então pergunto: por que não utilizar então um anti-inflamatório? A crioterapia não dá para fazer de oito em oito horas. Porém, alguns profissionais das áreas médicas dos clubes não gostam desta alternativa.
Mas, no Cruzeiro, eu deixo a decisão deles livre, os jogadores que escolhem se querem fazer ou não. Alguns optam, outros não. São de oito a doze minutos, com temperatura entre oito e 10 graus centígrados. Eles [jogadores] relatam que a crio traz uma melhora no bem-estar. Inclusive, fazemos também no pré-jogo. No entanto, há estudos que mostram que a crioterapia reduz a eficácia nos resultados de saltos. Então, eu não defendo [o método].
O que nós acreditamos e investimos muito é em descanso e boa alimentação. O sono é um dos grandes meios para a recuperação pós-jogo. Este momento é quando ocorre o maior pico de liberação do GH, o hormônio do crescimento, que traz mais efeito.
A recuperação é tão importante quanto o treino. E o fisiologista deve focar cada vez mais nas respostas individuais dos atletas. É uma função fundamental e que veio para ficar, afirma
Universidade do Futebol – Além disso, a crioterapia ainda sofre rejeição por boa parte de atletas, além da dificuldade da logística para realizar esta técnica em estádios distantes. Por isso, já há alguns profissionais realizando outros trabalhos para a recuperação no pós-jogo ou treino, como a eletroestimulação neuromuscular. Como você vê esses outros métodos?
Eduardo Pimenta – Eu tenho buscado ler muito sobre a recuperação de atletas. Já vi métodos com meias de compreensão, leds, com luzes vermelhas, tudo para acelerar o processo de recuperação. Mas, nós, do Cruzeiro, investimos muito nos fatores descanso e alimentação. A recuperação começa até mesmo antes do jogo.
Porque, em geral, os clubes não conseguem controlar isso nos jogadores. Porém, temos muita preocupação com estes aspectos e até outros, como a logística. Já teve jogo que, após a partida, ficamos na cidade para comer e dormir e viajamos somente depois. O nosso foco é sempre na nutrição e no descanso.
A microcorrente, utilizada neste método que você citou, é interessante. Mas, corresponde somente a 2%, em média, de toda a recuperação pós-jogo. Tem uma participação bem pequena no processo.
O core trainning é fantástico. Aplicamos praticamente duas vezes por semana o core com treinamento funcional na musculação, explica
Universidade do Futebol – Hoje em dia, em vários clubes, tem se utilizado muito o trabalho de core training para a prevenção de lesões. Esta técnica realmente é eficaz para este objetivo? Quais são os pontos principais que ela pode ajudar o atleta a se lesionar menos?
Eduardo Pimenta – Esta técnica é fantástica. É um método que começou a ser estudado em 2006 e vem se desenvolvendo rapidamente ao longo dos anos. O fortalecimento do núcleo é fundamental na prevenção de lesões.
O core fortalecido ajuda a prevenir demais as lesões nos membros inferiores, pois se um lado do jogador estiver descompassado, pode ocasionar vários problemas, como pubalgia, tendinites, enfim. Então, o equilíbrio é muito importante. Aplicamos praticamente duas vezes por semana o core com treinamento funcional na musculação.
Para se ter uma ideia, até agora, apenas uma vez poupamos dois atletas ao mesmo tempo de uma partida, lembra Eduardo Pimenta
Universidade do Futebol – Atualmente, relaciona-se muito o trabalho de um fisiologista no futebol à extração do CK (creatinofosfoquinase). Tem-se a ideia de que este profissional serve apenas para este tipo de análise sanguínea. Mas, para você, qual é o papel do fisiologista moderno?
Eduardo Pimenta – No início, a fisiologia no futebol era muito atrelada aos testes físicos. Mas, era outro calendário também. Mas, acredito que as questões de recuperação e distribuição de carga ganharam uma importância maior nos últimos anos. Fatores como a densidade nos treinos atuais precisam ser bem avaliados.
Hoje em dia, a preparação física tem tornado o atleta mais forte e mais rápido. E a fisiologia dá o suporte nesse momento do treinamento, que é a recuperação, tão importante quanto o treino. O fisiologista deve focar cada vez mais nas respostas individuais dos atletas. É uma função fundamental e que veio para ficar.
A venda de cervejas no Serra Dourada
Deve o Poder Público criar formas de se combater a violência em vez de estabelecer proibiçõesGustavo Lopes Pires de Souza
Conforme já exposto em outra coluna, a empresa Parlamento Restaurante Ltda. havia proposto ação contra a CBF a fim de viabilizar venda de bebidas alcoólicas no estádio Mané Garrincha, em Brasília.Após concessão da liminar, na sentença a Magistrada entendeu que o Estatuto do Torcedor proíbe a venda de bebidas alcoólicas e suspendeu sua comercialização.
Vale destacar que, ao contrário do que afirmou a Magistrada, o Estatuto do Torcedor não proíbe a venda de bebidas alcoólicas, eis que o art. 13-A da referida lei estabelece como condição de acesso e permanência do torcedor no recinto esportivo não portar objetos, bebidas ou substâncias proibidas ou suscetíveis de gerar ou possibilitar a prática de atos de violência. Ou seja, , não há qualquer vedação expressa à venda de bebidas alcoólicas.
Recentemente uma decisão judicial do estado de Goiás trouxe novamente o debate à tona, eis que foi concedida medida liminar para venda de cerveja no estádio Serra Dourada sob o fundamento de que o produto é culturalmente ligado ao futebol e que a CBF não tem direito de impedir qualquer comércio dentro dos estádios, que são de propriedade dos clubes ou de governos municipais ou estaduais.
O juiz mencionou, ainda, o prejuízo que os comerciantes têm com a proibição oriunda de uma resolução da da CBF e acrescentou que se a cerveja é tida como um dos fatores que contribuem para a violência nos estádios, quem tem que tomar as devidas providências é a Polícia Militar.
Ora, os bares do Serra Dourada cumprem todas determinações legais como alvará de licença do Município de Goiânia. Ademais, conforme o inciso II, do art. 5º, da Constituição Brasileira, ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da Lei.
Deve o Poder Público criar formas de se combater a violência, ao invés de estabelecer proibições.
Ante o exposto, entende-se como corajosa e louvável a decisão do Juiz goiano, eis que foi contrária aos interesses do Ministério Público, da CBF e até mesmo de setores da opinião pública.
Doutro giro, a referida decisão mostra coerência com o que estabelece a legislação brasileira (especialmente a Constituição), bem como está em consonância com com os estudos modernos acerca da violência nos estádios de futebol.
Tags: estádio , comercialização , bebida , lei , legislação , direito esportivo , cbf , estatuto do torcedor , constituição , poder público ,
.
quinta-feira, outubro 03, 2013
Museu do Futebol inaugura Centro de Referência nesta semana
Local contará com cerca de 1.700 livros, 150 referências sobre a prática do futebol na capital paulista e informações sobre clubes, torcidas e estádiosEquipe Universidade do Futebol
O Museu do Futebol, localizado no estádio do Pacaembu, em São Paulo, inaugura, nesta sexta-feira, a partir das 10 horas, o Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB). O projeto é voltado para pesquisadores, jornalistas e demais interessados na memória e história do futebol nacional.
O Centro contará com cerca de 1.700 livros, 150 referências sobre a prática do futebol na capital paulista e informações sobre 260 entrevistados e 493 instituições, como clubes profissionais e amadores, torcidas organizadas e estádios.
Para organizar e levantar todo esse material, foram necessários três anos de pesquisa de uma equipe multidisciplinar, que percorreu São Paulo, registrando filmes, áudios, desenhos, textos e imagens sobre o futebol. Além disso, o grupo organizou uma biblioteca e uma midiateca gratuitas, instaladas dentro do museu.
"O Museu do Futebol está entre os equipamentos mais visitados da Secretaria de Estado da Cultura do Estado de São Paulo. Isso graças ao seu acervo que conta não só a história do futebol brasileiro, mas também fatos históricos do Brasil e do mundo. Agora, nossa instituição disponibiliza também mais este serviço para o público", declarou Luiz Laurent Bloch, diretor executivo do IDBrasil, organização social de cultura que faz a gestão do local, via nota.
A visita ao CRFB tem entrada gratuita. Basta ao visitante retirar um crachá na bilheteria do museu. O Centro ficará aberto de terça a sábado, das 10h às 17h e seu banco de dados poderá ser visitado pela internet através do site www.museudofutebol.org.br/crfb.
Serviço
Inauguração do Centro de Referência do Futebol Brasileiro
Onde: Museu do Futebol
Endereço: Praça Charles Miller, s/n
Data: a partir de 4 de outubro (sexta)
Horário: 10h às 17h
Quanto: gratuito
quarta-feira, outubro 02, 2013
Fla negocia com empresas para naming right de CT
REDAÇÃO
Da Máquina do Esporte, São Paulo – SPO Flamengo negocia com algumas empresas o naming right do Centro de Treinamento George Helal, conhecido como Ninho do Urubu. A quantia investida pela companhia serviria para quitar parte do dinheiro gasto com a reforma do local.
Segundo Alexandre Wrobel, Vice-presidente de Patrimônio do Flamengo, a tendência é que a negociação esteja em fase avançada no fim de outubro.
O clube também divulgou que teve aprovado R$ 12.554.805,03 para investimentos no CT por meio da Lei de Incentivo ao Esporte. O valor servirá para reforma em três módulos: área de imprensa /musculação /departamento médico /vestiários /departamento técnico do futebol profissional; três estações de energia para o CT e alojamento do futebol profissional.
A Lei de Incentivo ao Esporte vem sendo utilizada pela equipe após a obtenção de todas as Certidões Negativas de Débito (CNDs), que foram adquiridas após o pagamento de mais de R$ 50 milhões em impostos atrasados em 2013. Somados, os seis projetos aprovados podem gerar crédito de mais de R$ 47 milhões para investimentos.
O clube ainda pretende conseguir a aprovação, no âmbito federal, de um projeto para melhorias em outros oito módulos do CT. Além disso, o Flamengo aguarda R$ 5 milhões, que segundo o time, foram prometidos pela Prefeitura do Rio.
As CNDs comprovam que a equipe não possui dívidas fiscais com o governo e permitem que o clube pleiteie linhas de crédito para investir em projetos.
A Lei de Incentivo ao Esporte regulamenta doações de pessoas físicas e jurídicas a projetos chancelados pelo Ministério dos Esportes. Ela estabelece que empresas que declaram no imposto de renda pelo lucro real (com faturamento acima de R$ 48 milhões) podem deduzir até 1% do imposto devido, e pessoas físicas, até 6%.
.

















