Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

domingo, agosto 02, 2009

Ana Tais Cortegoso, consultora de imagem
Trabalho com a imagem do atleta pode resultar em mais e melhores acordos, e influenciar as pessoas
Marcelo Iglesias

Cerca de 50 mil pessoas presenciaram a apresentação do brasileiro Kaká ao Real Madrid. No caso do português Cristiano Ronaldo, o número de espectadores passou para, aproximadamente, 80 mil torcedores. No Brasil, tomadas as devidas proporções, milhares de corintianos foram ao Parque São Jorge receber o atacante Ronaldo, em um dia de semana, no meio da manhã.

A influência que os profissionais do futebol possuem sobre a população é enorme. Por conta disso, muitas empresas estudam as opções e apostam em atletas para a divulgação de suas marcas e produtos. A imagem tornou-se uma das mais importantes moedas do mundo contemporâneo, vide os valores astronômicos que alguns jogadores recebem por acordos comerciais.

“Quando pesquisamos, percebemos que os atletas, em geral, são os maiores influenciadores da sociedade. Dentro dessa gama de profissionais do esporte, o jogador de futebol tem um poder absurdo. Basta falarmos no cabelo do Ronaldo que influencia desde uma criança pequena até um adulto”, comentou Ana Tais Cortegoso, formada em marketing de moda pela Anhembi-Morumbi, consultora de imagem e que participou da construção do trabalho “DNA Consultoria – construção de imagem”, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

No seu trabalho, Ana Tais trata da importância do cuidado com a imagem que um jogador de futebol deve ter para que consiga bons contratos com clubes e empresas e para que possa proporcionar mudanças sociais, principalmente em países como o Brasil, em que há forte ligação com a modalidade. O objetivo do projeto é usar essa relação para criar nos atletas e, consequentemente, na população, uma maior conscientização humanitária e cultural, uma vez que o futebol consegue dialogar com todas as gerações ao mesmo tempo.

Além de explicar as conclusões decorrentes do seu projeto, a consultora de imagem falou sobre como pretende levar adiante a ideia de lidar com jogadores de futebol, como isso será importante para a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, e quais são os principais entraves sociais para o desenvolvimento de um trabalho como esse.

Universidade do Futebol – Como surgiu a ideia do projeto para trabalhar com a imagem dos atletas? Explique como ele funciona, por favor.

Ana Tais – O projeto surgiu pela importância da influência que a imagem de um atleta tem para o resto da população. Quando iniciamos os estudos, percebemos que essa influência poderia ser utilizada de maneira produtiva para a humanidade, e, principalmente para o brasileiro, que tem o futebol como algo da maior importância.

Devido ao relevante efeito da imagem do jogador de futebol sobre a população, nos perguntamos: O que esses atletas estão passando para as novas gerações? A resposta foi imediata: Que para se ganhar muito dinheiro basta saber jogar futebol. Porém, creio que esse não é o conceito que devemos ter.

Se o próprio jogador de futebol tiver o conhecimento do seu poder de persuasão, ele poderá, além de fazer da sua imagem algo mais duradouro, contribuir para um futuro melhor, para a formação de uma consciência mais humanitária e cultural em toda a população de um país ou do planeta.

Uma figura como um atleta de futebol pode influenciar várias gerações, e isso é um fator muito importante para que as pessoas entendam que é ótimo praticar esportes, mas que a formação de um indivíduo completo possui muitos outros aspectos, que isso não é algo isolado.

Eu já trabalhei com alguns garotos das categorias de base do Santos, e pretendo, em breve, lidar com atletas do São Paulo e do Corinthians, os quais mostraram-se interessados em desenvolver esse tipo de projeto. A ideia é dar o pontapé inicial por meio de palestras, para conhecer a situação do clube, saber quais são os seus objetivos e, a partir daí, trabalhar a imagem dos atletas direcionando o processo para o que foi estabelecido como meta.

Nós damos inicio ao nosso trabalho ouvindo as pessoas que convivem diretamente com os jogadores. Conversamos com o empresário para saber qual é o objetivo do atleta, o que está programado para a sua vida profissional. Além disso, deve conhecer-se o clube para saber qual é a imagem que ele tem e o que ele deseja que o atleta transmita. A consultoria começa exatamente por aí, juntando todos esses aspectos para determinar o que é necessário adequar para cada atleta. Estabelecida a meta, todos dentro do clube trabalham com mais clareza de aonde devem chegar.

Universidade do Futebol – Qual é a real importância da imagem visual de um atleta para o seu sucesso?

Ana Tais – Já é comprovado que o ser humano é um ser estritamente visual nas suas concepções, pois precisa de apenas alguns segundos para se formar um pré-conceito. Às vezes, nem se conversa com a pessoa, mas só de olhar para ela já formamos uma opinião. Isso é, nós somos seres visuais, capazes de imaginar muitas coisas quando olhamos para alguém.

Dizer que não importa a imagem visual é mentira. Faz diferença, sim. Criamos pré-conceitos o tempo todo, e eles podem ser bons ou ruins. O ser humano forma a sua opinião, primeiro visualmente, depois pelo tom de voz da pessoa e depois pelo o que a pessoa faz. Por isso, o ditado “a primeira impressão é a que fica” se aplica muito bem no mundo do futebol moderno.



Universidade do Futebol – Além da imagem visual dos jogadores de futebol, o comportamento deles influencia a sociedade. Como isso é trabalhado?

Ana Tais – Quando falamos em consultoria de imagem, não abordamos apenas a imagem física, porque ninguém é só aquilo que veste. Temos expressões particulares das quais não conseguimos nos desvencilhar. Além disso, nós transmitimos inúmeras mensagens por meio do corpo, há toda uma linguagem corporal, o jeito de falar, de sentar, de ficar em pé etc. Mais do que isso, para a formação da nossa imagem existe a concepção de uma série de valores.

Portanto, para uma imagem ser formada, ela precisa ter a união de tudo isso. Sendo assim, não abordamos apenas o visual. Para que esse visual aconteça de maneira coerente, é preciso que se trabalhe o atleta por dentro também.

É preciso passar cultura geral para o indivíduo, além de trabalhar a sua postura verbal e corporal e outros fatores, a fim de que a imagem consiga transmitir os valores que você deseja.

Por exemplo: existem pessoas que falam uma coisa e agem de outra maneira. Por isso a imagem, principalmente de quem tem poder tão grande de influência, como o jogador de futebol, deve ser coerente. Não basta só falar, é preciso mostrar. Para isso há de se seguir padrões, os quais não são pré-determinados de maneira a mudar o jeito de ser da pessoa, mas sim auxiliá-la a se adaptar.

Às vezes, quando se alerta alguém sobre a maneira como se porta, ele passa a perceber algumas falhas na sua forma de agir. Na maior parte das vezes, as pessoas não conseguem visualizar esses defeitos. Há indivíduos que falam de maneira muito agressiva e não sabem disso.

Portanto, trabalhamos o todo, desde a relação social até a relação empresarial. E com os atletas, especificamente, é preciso saber que a profissão lhes rende muito dinheiro. Por isso, o indivíduo deve preservar a questão financeira também. É necessário que se saiba o que o patrocinador pretende que jogador demonstre.

Sendo assim, são desenvolvidos processos relacionados ao visual do atleta, adequando-o àquilo que o clube espera e ao que os patrocinadores desejam. Mais ainda, ampliamos a cultura geral do jogador, damos apoio psicológico, além de realizarmos consultorias específicas para que ele possa frequentar determinados eventos.

Por fim, procuramos deixar claro para esses atletas que eles são exemplos de vida para a sociedade e que, portanto, é essencial que valorizem a cultura. Para que esse amplo projeto seja desenvolvido, nós possuímos uma vasta gama de parceiros.

Para se ter noção de quanto isso é importante, existem diversos exemplos no futebol de atletas que ganham muitas vezes mais com propaganda do que com a própria modalidade. Só que precisam transmitir a imagem que aquelas empresas querem. Fato semelhante acontece nos clubes.

Universidade do Futebol – Qual é a relevância do seu trabalho de consultoria para a vida social dos jogadores, para a sua correta aparição fora dos gramados?

Ana Tais – Com essa pesquisa que eu fiz, percebi que os dirigentes têm receio de levar um jogador a um evento social, pois não sabem como o atleta irá se portar, se ele vai se vestir adequadamente, se ele vai dizer alguma besteira ou não. A consultoria ajuda nesse sentido também.

Se o jogador vai a um evento social, é importante que ele saiba que evento é esse, quem são as pessoas que estarão por lá, o que ele precisa conhecer para conversar com essas pessoas, para não denegrir a sua imagem, como é comum de se ver.

Além disso, abordamos a questão do jogador que tem que ir para outro país. Ele precisa ir preparado, conhecer a cultura local. Como ele chegará lá? Como ele vai sobreviver ali? Para isso, é necessário que aprenda um pouco sobre o idioma, sobre os costumes, sobre a geografia do lugar. Tudo isso é importante.

Durante as pesquisas, conversando com jogadores, descobri que muitos, depois que acabaram o seu período de fama e de estrelato, não sabiam o que era um voucher ou um check-in.

Portanto, a consultoria cuida para que as pessoas estejam antenadas. Trabalhamos não só com a imagem, no sentido do que o jogador vai transmitir para as outras pessoas, como aquilo que ele pode trazer de bom para si próprio. Como eu disse, o estrelato é muito rápido.

Tive contato com algumas crianças de equipes sub-15 e sub-18 e, em alguns deles, percebi que o sonho é ser igual a um determinado jogador por conta do dinheiro e do carro que ele tem. Poucos jovens têm a consciência de que é preciso estudar, porque há a possibilidade de se chegar a um bom clube, mas que a fama dura pouco tempo.

É importante começar o trabalho quando os jogadores ainda são jovens. Se as crianças tiverem mais força e conhecimento, o estrelado não lhes subirá à cabeça depois.

Universidade do Futebol – É evidente a relevância da imagem do atleta para o seu sucesso. No entanto, há casos em que isso é exagerado (Beckham/ Cristiano Ronaldo). De que maneira deve-se ponderar para que não se extrapole nesse sentido?

Ana Tais – A consultoria visa exatamente isso. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Ela serve para os dois lados, para equilibrar, para se chegar a um meio termo, o qual seria o ideal. Nenhum extremo é bom.

Há de se saber que esse tipo de trabalho serve para adequar a imagem do jogador às suas necessidades, ou àquilo que pretende o seu clube ou o seu patrocinador. Isso porque, às vezes, para o atleta, aparecer demais não é bom. É preciso saber como estar na mídia para que isso seja produtivo.

A maioria das pessoas acredita que, quando se faz uma consultoria, o resultado será a maior aparição do atleta nos meios de comunicação. Isso não é verdade. O trabalho é desenvolvido para equilibrar esses momentos.

Por exemplo, um jogador de futebol pode ter a sua imagem vinculada exageradamente, ou se ela chama muito a atenção para aspectos ruins, é preciso que essa exposição seja moldada.



Universidade do Futebol – O jogador brasileiro, geralmente, vem de condições sociais pouco privilegiadas. Assim que ganha dinheiro, compra bens materiais (carros e casas luxuosas), e poucos investem na formação educacional. Como você enxerga essa situação? Quais são as consequências?

Ana Tais – Essa é uma realidade que me motivou ainda mais a criar a consultoria voltada para os atletas, pois sabemos que muitos meninos, às vezes, vêm de lugares muito pobres, sem instrução alguma. Como ele vai transmitir as coisas que ele não entende? Como ele vai passar algo que ele nem sabe que existe?

O Brasil precisa reaver valores que ficaram perdidos na história. Se não resgatarmos isso de alguma forma, as consequências sociais podem ser muito graves.

A única maneira de se resgatar esses valores é dando uma chance para que as pessoas possam fazer isso em conjunto. Portanto, é importante realizar essa consultoria com jovens jogadores de futebol, pois é a partir daí que será criada a consciência de que é importante ter valores e cultura.

Um dos meninos com os quais conversei falou algo bastante interessante durante a época em que eu estava trabalhando na montagem desse projeto de consultoria. Ele verbalizou que até então não havia tido a oportunidade de aprender, mas que esse era um dos seus maiores desejos. Assim, no dia em que ele fosse um jogador famoso, poderia influenciar crianças a estudarem e a se tornarem pessoas melhores. Isso é algo muito interessante, mas extremamente raro.

A consultoria que pretendo realizar com os atletas é algo novo e de difícil compreensão por parte deles, porque os jogadores já têm uma situação fixa de objetivar só o dinheiro e os bens materiais. A única forma de mudar esse processo é trabalhar com o jogador desde sua iniciação na modalidade. Ele deve aprender e ter cultura para passar adiante e para o seu próprio bem.

Conversei com vários empresários, e todos falaram que precisa haver mais estudo e que os atletas precisam se esforçar mais, mas poucos fazem algo de maneira objetiva para que isso aconteça.

As pessoas costumam falar mal. O clube culpa os empresários e vice-versa, mas todos os envolvidos se prejudicam com isso. É interessante para todos que os atletas evoluam também fora de campo. Os jogadores não sabem que existem mil e um universos a serem explorados. Eles precisam de alguém que os guie.

É preciso que os clubes, empresários e os próprios patrocinadores tenham a consciência de cobrar esse tipo de atitude. Só assim vamos conseguir criar esse hábito dentro de um esporte que foi acostumado a pensar que não é preciso aprender para se ganhar dinheiro.

No entanto, o jogador de futebol tem um poder tão grande que pode ajudar um país inteiro a se construir de maneira mais sólida. Ele consegue falar para todas as gerações ao mesmo tempo, o que é raríssimo. Infelizmente, ele não sabe como exercer e nem que ele possui todo esse poder.



Universidade do Futebol – Atualmente, se apenas jogar bem não é garantia de bons contratos, como as empresas buscam os atletas nos quais investirão?

Ana Tais – Vamos exemplificar: o Romário sempre foi muito comentado por conta do seu bom futebol. Porém, nunca o vi ser manchete por ter sido chamado por uma grande empresa e ter se mantido nessa empresa por muito tempo.

Hoje, as marcas dão cada vez mais valor para as suas imagens. O mundo corporativo e social vive de imagem. O empresário já possui essa consciência e se preocupa muito em como a sua empresa será apresentada ao público.

Basta analisarmos o que aconteceu no escândalo do Ronaldo com os travestis. O episódio atingiu diretamente a empresa para qual ele trabalhava como garoto-propaganda. O jogador não perdeu o contrato, pois ele possuía uma garantia nesse acordo, mas a relação foi abalada. Quanto tempo ele ficou sem fazer propaganda para essa empresa?

Por isso, hoje, os cuidados são ainda maiores, as empresas se preocupam com a imagem e precisam que as pessoas que falam por elas tenham uma conduta positiva. Então, a tendência é o empresário ficar cada vez mais seletivo, por conta de todos os escândalos que aparecem, por conta da falta de profissionalismo que o mercado demonstra.

Portanto, as empresas vão ficando cada vez mais seletivas porque não podem se arriscar. E, com certeza, o atleta que não se adequar às exigências dessas empresas também terá o seu mercado diminuído, já que elas vão pensar duas vezes antes de fazer um contrato com ele.

Cada empresa tem o seu código de conduta, tanto que, quando os atletas assinam contratos de patrocínio, essas normas são anexadas ao acordo. Por isso, que as marcas buscam jogadores que possuam um perfil semelhante ao que é determinado por esse conjunto de preceitos. É importante deixar claro que cada empresa possui o seu código de conduta particular.

Universidade do Futebol – Qual é a importância da imagem que alguns jogadores brasileiros têm e da imagem da própria modalidade no Brasil para a Copa do Mundo de 2014?

Ana Tais – Eles têm uma importância fundamental. Infelizmente, o Brasil é conhecido por algumas coisas ruins e pelo futebol. Sendo assim, no exterior, o futebol e o Brasil são uma coisa só.

Se esse futebol também tiver a sua imagem denegrida, o que vai sobrar? As pessoas têm muito medo de vir para o Brasil para assistirem à Copa do Mundo, pois a falta de segurança, a violência, os escândalos de corrupção, tudo vai se ligando à imagem do futebol, também.

Para a maioria dos estrangeiros, o Brasil é muito bom para se jogar futebol, mas somente para isso. É interessante que se passe para essas pessoas a certeza de que elas terão segurança aqui.

Assim como os fatores de entorno vão influenciar, o profissional da modalidade também. Por exemplo: o jogador que tem sucesso quer atuar fora do Brasil. Dessa maneira, passa-se que não é bom ficar no Brasil para quem joga futebol. E para os meninos daqui fica a imagem de que eles só vão ganhar dinheiro se forem para outros países.

É claro que essa imagem vai influenciar para quando alguém for pensar em vir para assistir aos jogos de uma Copa do Mundo, pois o que as pessoas esperam encontrar no Brasil, além do futebol, é uma série de escândalos.

Se analisarmos o exemplo do Kaká, ele é educado e tem cultura. Sendo assim, traz uma imagem muito boa sobre o Brasil. Basta perceber isso para notarmos como a imagem faz uma diferença enorme. No entanto, se nós tivermos dez Kakás e três problemas sérios com outros jogadores, infelizmente os problemas sérios vão pesar mais.

Esse tipo de situação será relevante não somente na Copa do Mundo que acontecerá em 2014, mas para a imagem brasileira como um todo. O atleta do país, principalmente o jogador de futebol, tem como meta sair. Isso não pode acontecer, pois mostra que aqui não é um lugar bom para eles ficarem, e que faltam consciência, estrutura e visão de planejamento.



Universidade do Futebol – Como você define o conceito da imagem ideal do atleta de futebol? Existe algum jogador que seja referência nesse aspecto?

Ana Tais – Trabalho com imagem e costumo dizer que não existe certo e errado. O que vale é adequar. Porque não se muda as pessoas, mas podemos ajudá-las a se tornarem pessoas melhores, dentro do que cada uma é.

Não existe um ideal, mas você consegue chegar, a partir dos objetivos da própria pessoa, à dimensão que ela quer tomar. Pode existir um atleta cuja meta é ser como o Kaká. A partir daí, consegue-se guiá-lo nessa direção. Da mesma maneira, outros jogadores possuem diferentes objetivos, e você pode auxiliar cada um deles a seguir na direção que lhes é conveniente.

Cada atleta é único, mas todos deveriam ter o seu objetivo com a consciência de que eles exercem enorme influência e que isso tem, por consequência, uma responsabilidade muito grande também. Um jogador pode ser responsável por várias gerações, ou pela construção de um país inteiro.

Isso seria o ideal, um atleta que tivesse a consciência sobre a qual comentei e que buscasse o caminho para usar essa influência de uma maneira que crie para ele uma condição melhor de sobrevivência e desenvolva a consciência cultural e humanitária de forma a passar isso para as crianças, que crescerão com esses valores.

Universidade do Futebol – Você acredita que, na Europa, a maneira de se trabalhar a imagem dos atletas é mais profissional? Quais são as diferenças do que é feito nesse sentido por lá e no Brasil?

Ana Tais – Na Europa, a cultura, por si só, já é responsável por uma imagem mais trabalhada, ou algo mais próximo da consciência sobre a qual conversamos, pois lá há uma cultura bastante diferente da nossa. Os valores são mais claros, existe um respeito muito grande pela cultura.

Aqui não acontece o mesmo, justamente por conta de uma questão cultural. Conversando com as pessoas na Europa, elas dão valor a tudo o que é antigo, têm conceitos básicos de higiene como não jogar papel no chão, entre outros aspectos. Esses conceitos são tratados com mais rigidez, o que já ajuda para que a imagem seja outra.

As pessoas, no Brasil, em geral, não dão valor para a história do país e não se ligam ao estudo. A própria pobreza no Brasil nos leva a essa realidade. Temos jovens atletas que vêm de lugares sem nenhum recurso, que mal têm o que comer. Isso dificulta e colabora para que eles não tenham noção da imagem correta, do quanto podem influenciar e transmitir ou até onde podem chegar.

Com certeza, essas questões fazem muita diferença, mas podem ser modificadas. Aliás, dá para alterarmos qualquer situação. Basta um trabalho bem feito, que não pense somente na parte financeira, mas nos ganhos que o país pode ter. Se nós não resgatarmos certos valores e mostrarmos para as novas gerações a importância de aspectos como conhecimento e cultural, elas não vão ter algumas noções fundamentais.

Então, se me perguntarem se tem como melhorarmos, a resposta é afirmativa. É um trabalho que terá sucesso se aqueles que se envolverem o fizerem com boa vontade. Se os clubes movimentarem-se para isso fica muito mais fácil estabelecer uma consultoria que trabalhe com a imagem dos seus atletas. Os empresários também podem convidar uma consultoria que os ajude.

É importante deixar claro que ninguém realiza um trabalho dessa relevância sozinho. Existem profissionais em cada área, cada um na sua função, com o mesmo objetivo: ajudar na construção dessa imagem.

Universidade do Futebol – Qual é a diferença da influência que jogadores como Pelé, Garrincha, entre outros, exerciam sobre a população para a influência que atletas como Ronaldo, Cristiano Ronaldo e outros profissionais atuais têm?

Ana Tais – Acredito que a única distinção é que hoje a exposição é muito maior. Sempre os jogadores de futebol exerceram enorme influência. Mas com um espaço maior na mídia, eles conseguem influenciar pessoas de forma muito mais direta atualmente, em diferentes meios.

Décadas atrás, existia a televisão. Hoje existem a televisão, os canais a cabo, a internet e muitos outros meios de influência, os quais veiculam a imagem do jogador de futebol com frequência.

Essa é a diferença básica. Mas em relação à influência, isso sempre existiu.



Universidade do Futebol – Nós conversamos bastante sobre a maneira que um atleta deve fazer para melhorar a sua imagem. No entanto, da mesma forma que ele pode realizar mudanças para o bem, o mesmo pode acontecer no sentido contrário. Por exemplo, o Ronaldo, em comparação com a época em que ele jogava pelo Cruzeiro, melhorou a dentição. Porém, na final da Copa do Mundo de 2002, ele apareceu com um cabelo apelidado de “Cascão”. Nos dois casos houve influência em relação à população brasileira. Como você enxerga situações como essas?

Ana Tais – É a partir de fatos como esses que percebemos o poder de influência que um jogador de futebol possui. Para conseguir fazer com que aquela coisa horrorosa fosse imitada por um número absurdo de brasileiros, nota-se a influência descomunal de uma figura como o Ronaldo.

Esse é o melhor exemplo que nós temos. Não houve ninguém que dissesse que aquele cabelo era algo legal, bonito. Todo mundo achava aquilo feio, mas fazia igual. Tinha gente que fazia aquele cabelo até nos filhos.

Por isso que se tem que direcionar a influência que o jogador vai ter sobre a população. Esse é um exemplo ótimo, pois ele conseguiu fazer com que todo mundo achasse aquilo feio, mas seguisse a “tendência”.

Imagina se o Ronaldo usa isso para mostrar para o país a importância de uma criança ir para a escola, a relevância de se ter vontade de saber, de se ter vontade de conhecer.

O esporte faz parte da cultura. Ele tem que agregar, e não dividir ou diminuir. Não é porque você é um atleta que você também não pode ser uma pessoa culta, que você não vai ter conhecimento geral e saber falar. Pelo contrário, os atletas representam o país, o que é uma responsabilidade enorme.

O jogador de futebol brasileiro deveria perceber a responsabilidade que ele tem sobre o mundo inteiro, pois todos olham para atleta brasileiro com enorme ansiedade, respeito e paixão. Imagina quanta coisa ele poderia transmitir para o mundo! Mas ele não tem essa noção. É isso que falta: ter consciência, saber que se é capaz disso.

...

O drible no futebol, e o árbitro 'Minority Report'
No filme Minority Report, os policiais previam os crimes, e os evitavam, pelo menos, prendendo os criminosos; qual o papel dos árbitros em campo?
Rodrigo Azevedo Leitão
Em 2002, foi lançado um filme, dirigido por Steven Spielberg, chamado “Minority Report – A Nova Lei” (já na versão para o Brasil). Nele, crimes eram resolvidos pela polícia, antes mesmo que acontecessem, a partir de “previsões” que apontavam criminosos que ainda não haviam cometido seus crimes (e que, algumas vezes, nem sequer sabiam que o cometeriam).

Pois bem, dia desses em um jogo de futebol profissional, no Brasil, aconteceu algo parecido. Pelo menos, pelas explicações do árbitro do jogo.

Lá pelas tantas, um jogador de uma das equipes desse jogo, deu dois ou três dribles e... Bom, eu deveria substituir as “reticências” por pontos de interrogação e exclamação; mas é tão “surreal” que; hum, “reticências”...

Pois então. O jogador deu dois ou três dribles, e ao final da jogada foi advertido pelo árbitro do jogo.

Não, ele não desrespeitou o adversário... Ele driblou. E não foi nada “espalhafatoso”.

Depois do jogo, o árbitro “A Nova Lei”, disse que sua intenção, ao advertir o “jogador driblador”, era de, na verdade, preservá-lo. Ele pressentiu que algum adversário, estava na iminência de praticar um ato violento, e agredir o tal driblador.

Então, para evitar “o crime”, resolveu coibir o drible.

Isso quer dizer, mais ou menos assim; “que pressentindo o possível crime, puniu a vítima, e deixou feliz, o criminoso”.

O pior, é que no dia seguinte, alguns comentaristas, que falam sobre arbitragem, disseram que o árbitro estava certo; o drible, no caso, foi ato de desrespeito ao adversário...

Desrespeito é se despir da roupa de árbitro e vestir a de juiz (o que o árbitro não é), sem direito.

Não é possível que driblar constitua desrespeito. Se alguém acha que um jogador está fazendo “graça” (o que não foi o caso na situação que descrevi), então faz igual o pessoal lá da Vila Bela, onde na infância joguei muitas peladas; se fez graça, e faz gol, quero no meu time (aplausos!); se fez “graça” sem objetividade, então rouba a bola dele, porque se ele está fazendo graça sem objetividade, então está sem tempo para prestar a atenção no jogo (aí, os próprios colegas de equipe chamam a atenção).

Lá, ninguém cometia crime contra ninguém (pelo menos, não jogando futebol). E nem havia árbitro.

No filme Minority Report, os policiais previam os crimes, e os evitavam, pelo menos, prendendo os criminosos. Já no nosso “surreal” acontecimento, nosso árbitro, prevendo o crime, acabou dando a arma para o bandido, e tentou enjaular a vítima.

Então, que acabe o drible no futebol!

Que saiam todos de campo! E que fiquem apenas alguns árbitros dentro dele (não todos, porque a maioria faz um ótimo trabalho); afinal, não é para assisti-los que a massa preenche os estádios?

Era só o que faltava...

O que estudar para ser um treinador de futebol?
São várias as respostas, para muitas circunstâncias, findando o conhecimento eterno e imutável, cambiando-o para o histórico
“Somos de mais se olhamos em quem somos”
Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

Em crônica anterior procurei evidenciar os motivos que devem desencadear a mudança de foco na formação de novos e jovens treinadores.

As conjeturas engendram a alteração do verbo fazer para estudar. O que não representa apenas uma troca de verbos, pois a complexidade dos atratores é muito significativa e relevante, representando na verdade um grande salto evolutivo e de qualidade.

O fazer está mais próximo das pretensões de reprodução do que de revolução. Pois, eu faço o que sempre foi feito. Já, eu estudo para compreender o fazer, desvendando seus motivos e gerando ajustes e mudanças para contínuos ganhos em eficácia e eficiência.

Esta permuta há muito anunciada pela ciência, e propalada por Thomas Kuhn em seu clássico livro “A estrutura das revoluções científicas”, evidencia claramente uma mudança paradigmática.

Boaventura de Sousa Santos, em seu didático livro “Um discurso sobre as ciências”, explica muito bem os motivos que desencadearam a crise no paradigma dominante (positivista – que sustenta e explica a visão tradicional e conservadora do futebol atual) e as fundamentadas justificativas que revelam o paradigma emergente, o qual confere às ciências sociais (humanas) uma inédita centralidade.

Esta posição privilegiada que assume as ciências humanas não é maniqueísta. Ou seja, não desconsidera as demais ciências, mas sim procura outros sistemas de referências para explicar um mundo comunicante e sustentado por interações.

De acordo com este preâmbulo, posso estabelecer pressupostos que nortearão possíveis caminhos para responder a questão título desta crônica pedagógica.
Quero reforçar o fato da possibilidade, pois não existe apenas uma resposta certa (como previa o paradigma cartesiano), mas sim várias respostas para muitas circunstâncias, findando o conhecimento eterno e imutável, cambiando-o para o histórico, o qual se pauta na busca pela compreensão inteligível do processo (o processo organizacional sistêmico).

Desse modo, acredito que o ponto de partida para formação do novo treinador de futebol está na filosofia. Na principal pergunta filosófica que o professor Paulo Guiraldelli Junior responde muito bem. Ou seja, o fato da filosofia nos permitir desbanalizar o banal.

Explicando melhor: voltar ao tempo dos porquês infantil; é preciso questionar tudo.
Principalmente, o banal, aquilo que sempre teve como resposta: “foi sempre assim”; “desde que o futebol existe foi desse jeito”...

Contextualizando: Por que o treino de chute a gol deve ser assim? E por que nestes treinos não há compromisso com o erro? Por que os jogadores não podem participar das decisões estratégicas? Por que as ações táticas não são discutidas frente as suas circunstâncias contextuais? Por que não se treina a intensidade de concentração? Por que o treino técnico acontece desvinculado do tático, físico e emocional? Por que no jogo o jogador é físico-técnico-tático-emocional e no treino ele é esquartejado? Por que só o preparador físico tem uma periodização a seguir? Qual é o planejamento do treinador? Por que os cursos de Educação Física têm competência apenas para formar preparadores físicos? Por que quem mais estuda e se prepara ganha menos e é sempre coadjuvante? Por que crianças e jovens devem ser retirados da sociedade e confinados em alojamentos para engorda e posterior abate...?

Ser questionador, não significa ser chato. Contudo, à medida que se desenvolve o espírito crítico, aguça-se a curiosidade e desperta o ser (sujeito histórico) que não aceita mais a condição de espectador passivo da vida. E assim, se estabelece os pré-requisitos e as condições necessárias para o inicio da formação do treinador do século XXI.

Por isso, é necessário tomar ciência do meio, convivendo direta ou indiretamente com o universo futebolístico, para que se possa com o convívio aprender como pensam os jogadores, os dirigentes, o senso comum e, ao mesmo tempo, ter subsídios teóricos para compreender por que eles pensam assim.

Isto não significa a necessidade de ser jogador de futebol, mas impõe uma condição de espectador mais próximo e comprometido com o meio futebolístico. E para tanto existem várias possibilidades de aproximação mais intimista e responsável.

Outro aspecto incontestável: estudar sobre gestão e liderança. É inconcebível e totalmente contraditório, sonhar, desejar ardente e profundamente, ser um líder de sucesso sem se preparar para tal. Sem compreender o seu perfil de liderança (que pode ser moldado), bem como dispor de ferramentas para saber como liderar diferentes pessoas em díspares situações.

Para tanto, não preciso fazer uma graduação em administração de empresas, mas posso ler, estudar e discutir sobre liderança e psicologia.

Recomendações de leitura podem ser muitas, mas indico como um bom começo o livro de James Hunter “O Monge e o Executivo”, ou então, seguindo um caminho que também julgo muito importante, não pensando apenas no que tange a liderança, seria a leitura de biografias, tanto de jogadores como treinadores.

Vejo como obrigatório o livro “Fio de esperança”, que narra a história de Telê Santana. Ou mesmo as obras (mesmo que mais jornalística que científicas) que versam sobre o trabalho de treinadores brasileiros da atualidade: Muricy Ramalho, Wanderley Luxemburgo, Carlos Alberto Parreira, Luis Felipe Scolari, entre outros.

Ainda, os treinadores internacionais merecem atenção e respeito. É preciso conhecer o bom trabalho dos argentinos José Pekerman e Carlos Bianchi. Dos tops do momento como, Rafael Benitez, José Mourinho, Alex Ferguson, Arsene Wenger..., além de alguns bons livros sobre estratégia e tática no futebol, o qual destaco o livro “O universo tático do futebol” do competente Ricardo Drubscky.

Por outro lado é preciso aprender a construir um caderno de campo, onde neste dossiê junta-se material multimídia dos mais diversos: informações de treinadores nacionais e internacionais, treinos, artigos científicos, filmagem de jogos, scoults táticos, ficha de jogadores, exemplo de planejamentos, material didático, etc...

Já quando o assunto recai sobre os aspectos pedagógicos, didáticos e metodológicos entendo que a academia contribui significativamente por meio da pedagogia do esporte.

As novas tendências em pedagogia do esporte, lideradas por autores como João Batista Freire, Julio Garganta, Amandio Graça, Judith Oslin, Pablo Juan Greco, Roberto Paes, Claude Bayer, entre outros, estabelecem as atualizadas referências norteadoras para a transposição da teoria à prática.

Referências estas que nós na Universidade Aberta do Futebol estamos trabalhando para futuramente transformar em um curso para treinadores de futebol. Eu e os professores João Paulo Medina, Rodrigo Leitão e Lucas Leonardo, pensamos o currículo do treinador, ou seja, um rol de disciplinas das mais diferentes áreas do conhecimento (exatas, biológicas e humanas) que complementariam a formação transdisciplinar do treinador de futebol.
Contudo, como adverte o professor Manuel Sérgio, para se saber mais de futebol é preciso saber de outras coisas, ou mesmo aprender analisá-lo por outros vieses.

Para isso, na literatura os escritores André Sant’anna e Eduardo Galeano, nos ajudam, respectivamente, com os livros “O Paraíso é bem bacana” e “Futebol ao sol e à Sombra”.

Em outras áreas do conhecimento, sugiro a estudo dos livros: “Dança dos Deuses” do professor Hilário Franco Júnior, “Veneno Remédio” de José Miguel Wisnik, “Lógicas no futebol” Luiz Henrique Toledo; “Afonsinho & Edmundo: a rebeldia no futebol brasileiro” de José Paulo Florenzano; “Futebol 100% profissional” de José Carlos Brunoro e Antonio Afif, “O negro no futebol brasileiro” de Mario Filho, entre muitos outros bons livros que discorrem sobre todo o universo que envolve e influencia o futebol.

Por fim, quero destacar o imprescindível estudo dos filmes “Boleiros” de Ugo Giorgetti e “Linha de passe” do premiado Walter Salles.
Mas de nada vale este cabedal de informações se o pretenso treinador do século XXI não compreender as poéticas palavras de Fernando Pessoa, na expressão de seu heterônomo Ricardo Reis:

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”
.
Qual é o papel dos torcedores dentro do futebol moderno?
Ao mesmo tempo que podem motivar os atletas, alguns atos apaixonados podem prejudicar o desempenho da equipe
Marcelo Iglesias

Por que os clubes disputam para saber qual deles possui a maior torcida? No que isso altera o desempenho da equipe dentro do gramado? Será que um estádio lotado pode influenciar na maneira como os jogadores adversários ou não vão atuar?

Os torcedores podem proporcionar um barulho ensurdecedor, vide a Copa das Confederações 2009 e as vuvuzelas, cornetas que eram tocadas incessantemente durante todas as partidas da competição. Além disso, as massas entoam cânticos de apoio ao seu time, o que pode influenciar no aspecto motivacional dos jogadores.

“Em times com grandes torcidas, como o Flamengo e o Corinthians, há a identificação da torcida como referência do time. Isto é, a presença da massa de torcedores caracteriza o prestígio aos atletas. Caso contrário os jogadores entendem como uma rejeição”, comentou Kátia Rúbio, psicóloga pela PUC-SP, com mestrado em Educação Física pela EEFE-USP, doutorado em Educação também pela USP e pós-doutorado em Psicologia Social pela Universidade Autônoma de Barcelona.

A relação entre torcedores e jogadores pode, em alguns casos, ficar mais em evidência do que a ligação do profissional com a própria agremiação. Torcidas que realizam atos de paixão exagerados pelo clube costumam ter um papel determinante na vida do clube.

“A torcida faz parte do espetáculo do futebol, e é essencial para motivar os jogadores. Quando ela acompanha o time, incentivando-o, a consequência sempre é a melhoria do desempenho. Ela contamina o atleta”, afirmou Maurício Murad, sociólogo, doutor em Ciências do Desporto pela FCDEF, Universidade do Porto (Portugal), professor do Departamento de Ciências Sociais da UERJ, professor titular de Sociologia do Desporto do programa de mestrado da Universidade Salgado de Oliveira (Universo).

No entanto, existem agremiações em que a força da torcida extrapola os limites das arquibancadas, seja para elogiar ou para criticar a equipe. Nesses casos, muito dirigentes deixam de ver o futebol de maneira racional e embarcam na paixão que move os torcedores.

“Em algumas equipes a torcida tem enorme influência sobre a dinâmica dos clubes, chegando a derrubar técnicos e jogadores, que não estejam lhe agradando”, disse Kátia. “Precisa ficar claro que a torcida não é levada pela racionalidade e sim pela paixão. Porém, no Brasil, por vezes, alguns dirigentes deixam-se levar pelos torcedores e encerram trabalhos indevidamente, o que compromete a evolução da equipe”, completou a psicóloga.

Esse seria um dos aspectos problemáticos de se ter uma torcida extremamente ligada ao clube. Pior do que uma situação em que são os torcedores que ditam as regras do clube é quando eles criam um clima de tensão e ameaça. Isso prejudica tanto o desempenho dos jogadores quanto denigre a imagem da equipe.

“Os torcedores podem criticar o time, mas, a partir do momento em que eles são agressivos, a equipe desanda em campo, pois os atletas sentem-se atemorizados, e ninguém consegue trabalhar em um ambiente de ameaça constante”, afirmou Murad.

Portanto, apesar de alguns torcedores acreditarem que o não é o seu time que possui uma torcida, e sim a torcida que possui o time, é preciso ficar claro que, cada vez mais, as agremiações terão que ser administradas como empresas, objetivando lucros e bons desempenhos, sem deixar que a emoção interfira nas decisões.

.

A descrição do scout do jogo como ferramenta de treinamento para goleiros
Desempenho do camisa 1 do Guarulhos foi traçado a partir de bolas em direção ao gol e orientação aos defensores e sistema ofensivo
Marcos Timóteo Rodrigues de Sousa
O presente artigo é uma descrição de uma partida de futebol realizada na Série B do Campeonato Paulista de futebol profissional. O objetivo deste estudo é a aplicação do scoutcomo ferramenta para os treinamentos diários dos goleiros. Para a realização dessa descrição, utilizamos os seguintes materiais: formulário de scout, dois cronômetros, calculadora, prancheta, termômetro, GPS e uma máquina fotográfica.

Após o preenchimento do formulário, utilizamos o Word e o Excel na elaboração dos gráficos e texto. A leitura do jogo, as análises quantitativas e qualitativas e a percepção do desempenho do goleiro estão norteadas na realidade da partida e na dissertação do preparador de goleiros da equipe.

Após a descrição e a quantificação, discutiremos com os atletas as possibilidades de segmentar os treinamentos de acordo com as necessidades ocorridas durantes os últimos jogos, ou seja, o treino deverá ser um prosseguimento de uma partida.

Segue abaixo a descrição da atuação do goleiro e das equipes.

Ficha da Partida:
Goleiro: Carlos de Siqueira Leite: 1,81m, 80kg (1990)
Jogo: Palestra 2 X 2 Guarulhos
Local e data: Estádio Baetão (São Bernardo) – 28/05 às 19:30h
Temperatura: início do jogo: 18º C; final da partida: 15º C
Condições climáticas: tempo nublado com garoa perene (umidade relativa: 82%)
Condições do gramado: grama sintética molhada e com dejetos de areia

Descrição e Estatística:
1º Tempo: 47 minutos: 26 minutos de bola em jogo = 55,3% de bola rolando
Posse de bola: 16 minutos Palestra = 61,5% de posse
Posse de bola: 10 minutos Guarulhos = 38,4% de posse
2º Tempo: 48 minutos: 29 minutos de bola em jogo = 60,4% de bola rolando
Posse de bola: 15 minutos Guarulhos = 51,7% de posse
Posse de bola: 14 minutos Palestra = 48,2% de posse
Gols
- 29 minutos do segundo tempo: Palestra: falta rasteira batida da entrada da grande área do lado esquerdo do ataque. Bola rasteira no canto esquerdo do goleiro, barreira armada do lado direito;
- 30 minutos do segundo tempo: Guarulhos: saída do meio campo, batida longa alta;
- 33 minutos do segundo tempo: Palestra: escanteio pela esquerda do ataque, bola alçada longa e escorada de cabeça para dentro da pequena área e cabeceio da entrada central da pequena área;
- 35 minutos do segundo tempo: Guarulhos: falta cobrada do lado direito do ataque, cruzamento de pé esquerdo, cabeceio com rebote do goleiro e escorou com o pé pro gol.



Performance do goleiro

Durante toda a partida, foram executados 10 tiros de meta de bola longa, ultrapassando o circulo central, sendo sete pelo lado esquerdo e três pelo lado direito – todos foram batidos com a perna direita, sete deles sendo interceptados pelo adversário. Dos cinco encaixes, dois foram após bolas altas, dois após rasteiras e um após meia altura, demonstrando segurança no campo molhado. As espalmadas se dividiram em uma alta e duas a meia altura – uma delas de extrema dificuldade, devido à alta velocidade, alto poder de explosão e reação.

Os quatro socos foram em bolas altas. A única cama foi de uma bola muito próxima de um desvio de escanteio.

Apenas uma cintura no centro do gol. Foram nove reposições, sete com os pés, sendo seis longas e uma curta, duas com as mãos, uma longa e outra curta. Houve três reposições executadas em forma de falta no próprio campo. Dois tapas com grande eficiência, um meia altura e outro alto.

Houve dois momentos de indecisão em cruzamentos que passaram próximos à pequena área. Precisou armar a barreira durante cinco vezes, três delas pelo lado esquerdo do ataque adversário e apenas uma frontal e outra pela direita.
Não houve defesa em bola rasteira com deslize no chão. Foram cinco saltos com acertos no tempo de bola, com oito saídas (seis frontais e duas laterais), sendo que quatro delas com os pés. O goleiro orientou da equipe durante 21 vezes, 15 delas como forma defensiva e seis ofensiva, sendo que a equipe adversária atacou 42 vezes. Houve uma contusão logo no terceiro minuto de jogo em uma bola dividida no chão.


Ao todo foram 21 bolas em direção ao gol do Guarulhos, sendo 18 acertos do time adversário. O Guarulhos atacou 16 vezes, com 12 acertos em direção ao gol adversário. O Palestra obteve, durante todo o jogo, cerca de 30 minutos de posse de bola, ou seja, a cada 1,4 minutos a bola era arrematada. O Guarulhos obteve, durante todo o jogo, cerca de 25 minutos de posse de bola, ou seja, a cada 1,6 minutos a bola era arrematada. Dos 18 chutes em direção ao gol do Guarulhos, foram 14 bolas batidas com bola rolando, sendo cinco pelo lado esquerdo da defesa, quatro no centro e cinco pelo lado direito da defesa.


*Marcos Timóteo Rodrigues de Sousa é treinador de goleiros da A. D. Guarulhos
.