Não só no jogar futebol se percebem mudanças, como também na apropriação pelas meninas de jargões próprios à cultura futebolística
Há não muito tempo, o título desta crônica seria inimaginável, principalmente entre nós, brasileiros, pois futebol era tido como coisa pra homem e... Ponto final.
Hoje, muitos se pegam diante da TV acompanhando a nossa seleção feminina de futebol com muito mais entusiasmo do que assistem aos rapazes na Argentina.
Do que vejo, concluo que tem muita mulher jogando melhor do que muito marmanjo e que a tese de que a ginástica – assim se chamava a atividade física - deveria ser estendida às mulheres desde que respeitada suas formas feminis e as exigências da maternidade futura, como apregoava ao final do século XIX Rui Barbosa, tido em meados do século passado, até os anos 1980, nada mais nada menos como o “paladino da educação física brasileira”, ficou no passado, embora até hoje muita gente ainda não se conforme com outros papéis sociais da mulher que não o de mãe...
Mas não só no jogar futebol se percebem mudanças, como também na apropriação pelas meninas de jargões próprios à cultura futebolística, que até recentemente só faziam parte do vocabulário dos meninos...
Isso tudo me fez recordar uma situação por mim vivida na metade da década de 1980. Na ocasião estava vivendo com minha família em São Paulo, dando tratos ao meu processo de titulação acadêmica, cursando mestrado na PUC/SP. Morávamos em um apartamento em Perdizes, bairro paulista onde ela se localizava...
... Num belo dia, me via às voltas com o estudo de um – dos muitos – texto, quando vi entrar pela porta meu filho Alexandre, sujo, suado e com cara de poucos amigos.
Percebi mascarada em seu silêncio a vontade de falar. Fechei o livro, sinalização de que estava aberto à conversa, rapidamente por ele iniciada...
— Oi, pai! Tô vindo lá da quadra... Jogamos contra o time daquele prédio lá da esquina...
— E como foi o jogo, perguntei...
— IH pai! Nos f...! Perdemos de goleada...
Antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa, desandou a falar:
— Sabe pai, eles jogaram melhor... Nada deu certo pra nós...
E percebendo que eu estava interessado na história, se empolgou:
— Mas teve um lance pai... A menina veio pelo alto... Matei ela na caixa pai! Aí vi um carinha se aproximando e não tive dúvidas, meti ela no meio das canetas dele... Aí percebi outro chegando e... Dei um drible da vaca, pai! Quando dominei ela, vi o goleiro saindo e não tive dúvidas: taquei o pé embaixo dela e mandei ela lá onde a coruja dorme, pai, um golaço!
De imediato pensei com meus botões: “estou rico!”. Sim, pois se com aquela idade ele tinha feito tudo aquilo, era só uma questão de tempo pra ele chegar a algum time europeu... Mas logo em seguida caí na real e me dei conta tanto de como era grande a capacidade imaginativa da criança, quanto do fato de que aquele diálogo seria impossível de ser feito se no lugar dele estivesse uma filha...
Sim, pois àquela altura somente um menino teria acesso a expressões próprias ao universo do futebol, já que às meninas era vetada a entrada nele, sob pena de ser de imediato estigmatizada por se fazer presente em um lugar de ingresso restrito aos homens...
Assim sendo, dificilmente uma garota saberia que a menina do relato era a bola; que caixa era o peito e matar a menina na caixa era amortecê-la (carinhosamente) nele...
... Que canetas eram as pernas do moleque; que drible da vaca significa jogar a bola de um lado do adversário e ir buscá-la pelo outro; e, por fim, que lá onde a coruja dorme era o ângulo superior da meta ou arco defendido pelo goleiro...
Hoje esse diálogo já se faz possível, pois o futebol deixou de ser território exclusivo dos homens. Parte por conta do processo de emancipação feminina, da luta das mulheres por igualdade de gênero. Parte, por outro lado, da indústria cultural do entretenimento própria à sociedade de consumo, que percebeu o potencial consumidor de um segmento social até então impedido de consumir tudo aquilo que fosse pertinente ao mundo do futebol...
Mas o desafio da construção da cultura corporal esportiva dos brasileiros e brasileiras longe ainda está de superar os preconceitos. O portal UOL nos traz uma foto das nossas atletas de futebol com os seguintes dizeres: “Atletas defendem ensaios sensuais e reclamam de preconceito com gays”.
Nada melhor do que lembrar a frase do cartunista Laerte, “senta aqui, Bolsanaro”, proferida em tom de brincadeira por ocasião de sua participação em debate sobre homofobia realizado no espaço da FSP na Flip – Festival Literário de Parati, para, brincando, levar a sério a construção de valores ético-políticos que não os defendidos por aquele “nobre” deputado.
.
Sinopse
"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."
CALOUROS DO AR FC
segunda-feira, julho 11, 2011
Sobre boleiros e boleiras
Arenas brasileiras: um desafio para seus gestores
Planejar e executar a comunicação com a torcida é um grande desafio para os administradores das futuras arenasMatheus Braga
Maquete da nova Arena Castelão, em Fortaleza
Nos últimos meses, temos visto muitas notícias sobre os estádios que serão utilizados na Copa do Mundo de 2014, no Brasil. As notícias, em sua grande maioria, tratam sobre a construção dos estádios. Licitação, atraso nas entregas, valores acima do estipulado pela comissão brasileira em 2007 (quando ganhou o direito de ser sede), são os principais assuntos que vemos reproduzidos na mídia.
Mas, por ora, não vemos os jornalistas, torcedores, dirigentes de clubes, governo e administradores das arenas, preocupados com uma situação: a comunicação com o torcedor.
Especificaremos mais. No Brasil, nenhum estádio está apto para ser sede da Copa, por isso, os que serão, passam por reforma. Os outros continuarão antigos e com os problemas já conhecidos pelos torcedores brasileiros. Mas então, como será essa "transição de ambiente" entre um estádio antigo e o outro novo? O que quer dizer "transição de ambiente"?
Vamos exemplificar usando o Pacaembu e a Arena Palestra Italia. Imagine um torcedor que em certo domingo vai ao tradicional estádio municipal, que possui alguns banheiros químicos pela falta de sanitários comuns disponíveis, nenhuma higiene, torcedores urinando no chão em dias de clássico, nenhuma orientação dentro do seu espaço, nenhum lugar disponível para se alimentar, sem cadeiras visivelmente demarcadas, e no outro domingo esse mesmo torcedor vai a um estádio novo, com vários banheiros disponíveis e novos, opções para comer, cadeiras novas, tendo o direito de sentar no lugar comprado, etc.
Há uma grande diferença de ambiente. Utilizamos a Arena Palestra Italia como exemplo, pois está sendo construída com investimento privado, logo, a WTorre*, construtora do estádio, irá administrá-lo e desejará obter receita oriunda do mesmo. Dessa forma, é necessário se preocupar com esse "choque de ambiente". Mas estão se preocupando? Quais são as ações que estão tomando hoje para que o torcedor saiba qual será a diferença entre os estádios?
Vale lembrar que a grande maioria dos torcedores não sabe como é um estádio de primeiro mundo, moderno. Os gestores devem planejar uma comunicação com os torcedores o quanto antes, se possível. Sabemos o quão difícil é mudar a cultura dos povos. No Brasil, não temos o costume de sentar no lugar demarcado no ingresso, por exemplo, até porque é algo novo para nós, mas com a Copa, isso será obrigatório durante os jogos.
Os torcedores brasileiros não estão acostumados com isso. Não podemos deixar essa responsabilidade apenas nas mãos dos orientadores dentro do estádio nos dias de jogos. A comunicação deve partir dos organizadores, administradores dos estádios, pois utilizaremos os estádios após a Copa.
As pessoas tomam atitudes diferentes em lugares diferentes. Temos exemplos externos ao futebol. O Metrô de São Paulo é bem mais limpo e conservado do que os trens da CPTM. As administrações são diferentes, mas os serviços prestados são os mesmos. Atualmente, o Metrô faz uma comunicação com os seus usuários, tentando conscientizá-los de que a higiene e a conservação dos trens também dependem dos mesmos, com cartazes dentro dos vagões e com o condutor do trem falando ao microfone. É uma ação que visa uma melhora e que só saberemos o resultado depois de um tempo. Mas a tentativa é extremamente válida.
No futebol, caso não seja feita nenhuma ação de instrução pré-Copa com os brasileiros, como será o pós-Copa? Voltaremos a utilizar os estádios como utilizávamos antes? Depois de um ou dois anos, com banheiros sujos e pixados? Os estádios novos ficarão velhos em quanto tempo? E o legado que o governo brasileiro tanto menciona que teremos por sediar a Copa do Mundo?
A internet está cada vez mais presente em nosso cotidiano. Poderíamos usá-la fazendo vídeos comunicativos, mostrando como serão as Arenas, quais suas possíveis particularidades, entre outras coisas.
É com isso que precisamos nos preocupar. É muito difícil mudar uma cultura, ainda mais em pouco tempo. Por isso, governo e administradores dos estádios privados precisam agir o quanto antes, para que possamos não apenas realizarmos um grande evento, como é a Copa do Mundo de futebol, mas também deixar um legado verdadeiro e positivo para nosso país e para a modalidade brasileira.
*Tentamos contato com o WTorre para consultar se planeja alguma ação de comunicação, porém, não tivemos resposta.
Contato: http://www.twitter.com/@_mbraga.
quinta-feira, junho 30, 2011
Por desenvolvimento do futebol para cegos, Urece e Tottenham selam parceria

Associação não governamental sem fins lucrativos recebeu a visita de representante do clube inglês
Equipe Universidade do Futebol
Há exatamente uma semana, a Urece Esporte e Cultura viu se estabelecer um marco em seu projeto de desenvolvimento dos esportes para cegos. A associação não governamental sem fins lucrativos recebeu a visita de um representante do Tottenham Hotspur, tradicional clube da Inglaterra, com quem alinhavou uma parceria sócio-comercial.
Em cerimônia ocorrida no Morro dos Prazeres, o projeto recebeu a chancela da Tottenham Foundation, que dará auxílio metodológico e promoverá troca de experiências entre seus profissionais e as pessoas que trabalham na ONG.
Por intermédio da figura de Gabriel Mayr, gerente da Urece, haverá a contrapartida com a expertise no trabalho com formação de atletas que têm deficiência visual.
No evento que marcou também uma parceria da Premier League com a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro, a equipe feminina de goalball da Urece se apresentou, assim como houve um jogo de futebol entre duas equipes formada por atletas da associação, uma delas vestindo uniforme do Tottenham.
“É um grande passo para nós, estamos mostrando nossa competência, a excelência do nosso trabalho”, disse Mayr, que embarcou na sequência para a Europa, onde desenvolverá diversas iniciativas no desenvolvimento do futebol para cegos, incluindo um workshop em Londres, como parte do acordo firmado com o Tottenham.
.
sábado, junho 04, 2011
Entrevista] Interdisciplinaridade e mudança social pelo esporte

Os sinais são claros de que as universidades, muito em razão do momento gerencial prévio da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, que serão realizados em território brasileiro, colocaram o esporte em suas pautas. Ações relacionadas a atividades físicas e modalidades diversas permeiam a academia, com o amparo de algumas grandes empresas especializadas na temática. É o caso da parceria entre a Nike do Brasil e o programa UniSol (Universidade Solidária).
Ambos, juntamente com a Rede Esporte pela Mudança Social (REMS), a partir do ideal de que o esporte pode promover o desenvolvimento social por meio de ações nos âmbitos social, ambiental e econômico, criaram o Prêmio Nike Esporte pela Mudança Social. O alvo é reconhecer e apoiar ações e projetos de extensão universitária, executados por professores e alunos, que utilizem modalidades como mote desenvolvimentista humano.
“O UniSol tem 16 anos de atuação e a proposta fundamental é contribuir para a formação cidadã dos estudantes universitários, colocando-os em contato com a comunidade na qual eles estão inseridos, ou com comunidades menos favorecidas”, explica Daniela Lemos, coordenadora técnica do UniSol.
Ao agregar o que a universidade desenvolve com o conhecimento do estudante universitário ao longo da vida acadêmica, o projeto consegue dar um passo adiante nessa transformação. O programa articula e implementa projetos e ações sociais de instituições de Ensino Superior, em parceria com empresas públicas e privadas, organizações do Terceiro Setor e comunidades.
O UniSol é um programa da AlfaSol, criada por Ruth Cardoso, que estimula a liderança nos jovens universitários e, sobretudo, proporciona uma visão mais apurada da realidade social brasileira, fortalecendo a organização comunitária e a construção de soluções pontuais.
Na segunda edição do Prêmio Nike, concorrem projetos de extensão universitária com foco em esporte e que beneficiem diretamente jovens em situação de vulnerabilidade social, localizados nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. O valor da premiação é de R$ 25 mil, com acompanhamento técnico da equipe do UniSol.
“A universidade tem total autonomia para desenvolver suas atividades. Quando elas apresentam o projeto, há uma pré-definição de roteiro, com orçamento e metas desenhadas para os seis meses de trabalho”, comenta Daniela.
Coordenadora de projetos, ela aponta que o UniSol trabalha para garantir os benefícios e a interação entre universidade e comunidade. Por exemplo, se um professor está tendo alguma dificuldade na implementação de determinado projeto, se a universidade está acompanhando de fato a iniciativa, ou mesmo se as ações estão sendo institucionalizadas para não se tornar algo apenas pontual.
Nesta entrevista à Universidade do Futebol, Daniela fala mais sobre as especificidades do UniSol, o cenário atual propício para projetos ligados ao esporte e como o diálogo entre academia e sociedade pode ser benéfico para a formação dos jovens carentes.

Universidade do Futebol – Você poderia falar sobre sua formação, a trajetória até o ingresso no UniSol e a experiência em lidar com projetos, impactos e inovações na área social?
Daniela Lemos – Comecei no antigo Comunidade Solidária, um programa de governo criado pela doutora Ruth Cardoso. Era estudante da UNB de Administração e estagiei nessa parte administrativa. Lá me deparei com todo o aparato de política social e combate à pobreza.
No Comunidade Solidária, fui apresentada à Universidade Solidária, e passei a atuar como coordenadora de projetos no antigo programa nacional, muito parecido com o Projeto Rondon, em que muitos universitários vão para comunidades distantes fazer um intercâmbio social e discutir as fragilidades desses grupos, ao mesmo tempo em que realizam uma troca cultural.
Passei três anos nesse programa de governo, e em 2003 o UniSol se transformou em uma organização da sociedade civil, e fui coordenar a área de projetos. Minha formação é em assistência social, com especialização em gestão de projetos na área do Terceiro Setor.
Na Alfasol, o Universidade Solidária é um programa que integra todas essas ações criadas pela doutora Ruth, e dentro desses planos há o Prêmio Nike – Esporte pela Mudança Social, cuja primeira edição foi criada em 2008.

Ruth Cardoso, durante Primeiro Comício da Mulher, em campanha eleitoral em São Paulo (1985); foto: Ary Brandi
Universidade do Futebol – O UniSol (Universidade Solidária) é um programa que articula e implementa projetos e ações sociais de Instituições de Ensino Superior (IES), em parceria com empresas públicas e privadas, organizações do Terceiro Setor e comunidades. Fale um pouco mais sobre ele.
Daniela Lemos – O UniSol tem 16 anos de atuação e a proposta fundamental é contribuir para a formação cidadã dos estudantes universitários, colocando-os em contato com a comunidade na qual eles estão inseridos, ou com comunidades menos favorecidas.
A ideia é pegar toda essa expertise – o que a universidade desenvolve mais o conhecimento do estudante universitário ao longo da vida acadêmica – e transformar em uma ação educativa para essas comunidades a partir das potencialidades e das demandas que elas têm.
Temos também uma parceria com o Banco Santander que foca nas questões ambiental e de geração de renda. Na realidade, o UniSol articula o conhecimento acadêmico em prol de comunidades menos favorecidas, mas reconhecendo o conhecimento popular existente nos moradores daqueles ambientes.
Universidade do Futebol – Um dos projetos desenvolvidos é o Prêmio Nike - Esporte pela Mudança Social. Quais as pretensões e os resultados já alcançados por essa empreitada que chega à sua segunda edição?
Daniela Lemos – Em 2007, a Nike começou a articular no Brasil a Rede Esporte pela Mudança Social (REMS) e convidou não apenas as grandes ONGs que atuam com esporte no Brasil, como outras que também trabalham com ações educativas e que lidam com ações de gênero.
O Universidade Solidária entrou no circuito, pois havia também o foco de levar a academia para discutir sobre a forma como o esporte é tratado no país. Não apenas o alto rendimento ou as atividades ligadas à saúde.
Começamos a discutir nos projetos que havíamos feito, e as universidades apresentavam mais o esporte relacionado ao lazer ou em seu aspecto educativo. E surgiu a ideia do primeiro Prêmio Nike – Esporte pela Mudança Social. Tivemos mais de 50 projetos, e cinco deles foram premiados em nível de Brasil – no Rio Grande do Sul, em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Santa Catarina.
Envolvemos mais de 600 crianças e adolescentes, com projetos de empreendedorismo no Rio, com a PUC-RJ, e também em São Carlos, com a UFSCAR.
Rediscutindo as estratégias, pensando em uma continuidade, resolvemos lançar a segunda edição mais focada para jovens e adolescentes, especificamente para as capitais de São Paulo e Rio de Janeiro. O prêmio passou de 15 para 25 mil reais, e as universidades premiadas receberão o acompanhamento técnico do UniSol por seis meses, além de doação de materiais esportivos da Nike.
As universidades, por conta do momento vivido pré-Copa e Olimpíadas, colocaram o esporte em suas pautas, aumentando essas ações relacionadas de uns dois anos para cá.
Universidade do Futebol – O cenário atual do mundo é também inspirar a mudança social por intermédio do esporte?
Daniela Lemos – Sem dúvida alguma. E de várias formas. Tivemos um projeto premiado que, na realidade, o esporte era um meio, e não o fim.
Um jovem skatista do subúrbio do Rio de Janeiro ensinava às crianças no contraturno escolar essa prática, e a universidade viu aquela potencialidade e qualificou o grupo, junto com a Nike do Brasil, e hoje praticamente eles são uma associação que produz shapes, aquela prancha do skate. Chama-se Briza Arte, conduzida pelo Charles Alexandre da Silva.
O que conseguimos perceber e mostrar pelo prêmio é que o esporte pode ser um estímulo, um tema transversal, para que uma ação social ou educativa com diversos públicos seja efetivada. E não necessariamente se apresentar como tema central.
Universidade do Futebol – Em sua opinião, como liberar o potencial de jovens, para que estes fortaleçam suas comunidades, alavanquem o desenvolvimento e promovam mudanças?
Daniela Lemos – Percebo que principalmente por meio do diálogo. E as universidades, no caso com os estudantes universitários, e a UniSol, ao longo desses 16 anos, desenvolveram uma metodologia de conversar com essas instituições para que as mesmas cheguem às comunidades e falem de igual para igual, e não como templo de saber.
O estudante pode ser inserido naquele contexto e falar com outros jovens, se interessando pelo outro, apesar das visões e das realidades distintas.
Levamos, por exemplo, alguns jovens de comunidades para vivenciar o ambiente acadêmico, e a partir desse diálogo horizontal e da troca de conhecimentos, o processo se tornou positivo.
Universidade do Futebol – No esporte, de que modo pode-se trabalhar a questão social sem decair no mero assistencialismo?
Daniela Lemos – Acredito que de forma mais educativa, formando multiplicadores. Na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, o programa Esporte Integral desenvolveu a partir da experiência própria um mini curso de esporte educacional. O professor não necessita ser um profissional de Educação Física, mas pode ser um coordenador de uma ONG de base que trabalha com isso, e ele consegue utilizar qualquer modalidade para falar de cidadania, gênero, e entender o que é o ambiente familiar do jovem.
O UniSol intermedeia e orienta vários processos para estabelecer esse diálogo de uma maneira mais eficaz.

Programa Esporte Integral (PEI) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) em Rio Grande do Sul (RS); foto: Arquivo UniSol
Universidade do Futebol – O esporte já atua efetivamente na promoção de igualdade de gênero e no combate da violência contra mulheres, crianças e jovens, ou as ações ainda caminham a passos muito lentos?
Daniela Lemos – No nosso universo, ainda caminha a passos lentos. Temos de ter uma sutilidade em alguns ambientes para falar sobre determinados temas. Há um projeto que se utiliza da capoeira para falar de questões ligadas à raça.
As universidades não vão tão a fundo nesse tipo de tema, não por escolha, mas por se tratar de um processo de conquista paulatina desses jovens, por meio do esporte.
Universidade do Futebol – Também a partir de sua visão profissional e acadêmica particulares, de que forma o processo da educação auxilia no desenvolvimento do raciocínio, da criatividade e na compreensão dos fatores externos vividos pelos jovens?
Daniela Lemos – No Instituto Briza citado, o simples fato de levar jovens de Irajá para vivenciar um ambiente acadêmico, no caso a PUC-RJ, fez com que cinco dos 10 jovens que participaram no início se interessassem em prestar vestibular.
Isso sem haver qualquer tipo de argumentação sobre a importância de estudar e ter um curso superior. Somente pelo ambiente, percebemos essa vontade e essa transformação.
O UniSol tem um grupo de colaboradores voluntários, entre os especialistas, representantes das REMS, das ONGs, além de acadêmicos, reitores e ex-reitores, que possuem experiência em projetos universitários e sociais.
A universidade tem total autonomia para desenvolver suas atividades. Quando elas apresentam o projeto, há uma pré-definição de roteiro, com orçamento e metas durantes os seis meses de trabalho. Nosso acompanhamento técnico visa garantir os benefícios e a interação entre universidade e comunidade – se o professor está tendo alguma dificuldade na implementação daquele projeto, como a universidade está acompanhando, se as ações estão sendo institucionalizadas para não se tornar algo apenas pontual, etc.
Há necessidade de um compromisso social, a fim de definir também indicadores para uma avaliação de resultados, já que o impacto para a vida do estudante e das práticas universitárias é importante para todos.

Projeto Coletivo do Briza da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; foto: Arquivo UniSol
Universidade do Futebol – Você acredita que é possível pensar a formação de jovens jogadores de futebol sem a criação de um programa que gerencie o crescimento pessoal, social e profissional de modo interdisciplinar?
Daniela Lemos – Não acredito. As universidades estão aí para mostrar. Essa visão sistêmica é fundamental para um atleta, não só consciente do seu papel profissional, mas como cidadão.

Projeto Futsal Social da Universidade Feevale – Novo Hamburgo (RS); foto: Luiz Fernando Framil Fernandes
.
quarta-feira, maio 25, 2011
Reflexões sobre o jeito de ser do brasileiro: em campo e fora dele
Estamos mergulhados em uma cultura de exclusão: da responsabilidade pessoal, do indivíduo, da cidadania, do auto-respeito, inclusive, que desmoraliza a todos nós quando nos escondemos de nós mesmosAndrea SebbenFaz alguns anos li um livro que muito me impressionou e tinha ligação direta com meu trabalho – chamava-se “Brasileiros Pocotó”. O livro, de Luciano Pires, era uma coletânea de artigos sobre a mediocridade que assola o Brasil em seus diferentes momentos.
O que isso tem a ver com o que faço? Sou psicóloga culturalista, cinco anos praticamente fora do Brasil, vivendo nas melhores universidades européias, ajudo hoje executivos expatriados - ou seja, estrangeiros que chegam ao Brasil ou brasileiros que vão ao exterior por tempo determinado, jogadores de futebol trasladados ao exterior e jovens que vão de intercâmbio. Muitas das empresas que atendemos (HSBC, EMBRAER, Nissan, Vivo, Nestlé, Banco do Brasil, Bosch) acreditam que nada é mais importante do que a pessoa entender de fato os povos que irão recebê-las. E eu falei entender, não conhecer.
Anderson, no Manchester
Muita gente acha que basta olhar a etiqueta, a gastronomia, a religião e falar bem um idioma - de preferência o inglês, não necessariamente o idioma dos nativos (o que por si só já justificaria uma grande gafe), que está apto para entrar no cenário global. Não está. Primeiro passo talvez seja mesmo conhecer o país, mas o mais difícil vem depois: compreender.
“Alguém aí pode me explicar o Brasil?”, dirá um estrangeiro desesperado mergulhado em seus dez primeiros minutos no caos que é o Aeroporto de Guarulhos, onde nós mesmos não nos entendemos. Me explicar, por favor, por que acontecem tantas barbaridades? Alguém pode explicar a um estrangeiro nossa facilidade intrínseca de colocar a responsabilidade no outro e, portanto, nunca responsabilizar-se por nada nem por ninguém? Vocês acham que estou exagerando?
Quantas vezes na sua vida você já esteve envolvido em infindáveis telefonemas para os 0800 de telefonia móvel, de internet, de redes de televisão, de clínicas médicas, de órgãos do governo e ouviu: “Senhor, me desculpe, mas não podemos fazer nada?”. Ou ainda: “Desculpe, senhor, políticas da empresa (quer dizer, não podemos fazer nada novamente.)”. Ou quem sabe o: “Senhor, mil desculpas, o sistema não permite (idem ibidem)”... Isso quando a ligação não cai depois de quarenta e dois minutos...
Ah, Brasil... Meu papel, como psicóloga culturalista, é explicar, aprofundar na complexidade do pensamento de cada povo – por que pensa dessa maneira, por que decide de outra, por que comunica numa outra esfera ainda. Mas fazer isso no papel de brasileira para mim é, às vezes, motivo de vergonha.
Robinho, no Milan
Alguns povos lidam com seu ambiente de uma forma irresponsável, ou seja, por ele não tenho gerência alguma. Talvez seja uma questão de sorte, talvez de azar, talvez seja tudo culpa do governo mesmo, ou de Deus (que quis assim). Mas e eu? Ah, eu? Eu não conto nada... Afinal, de que adianta reclamar? Vai mudar? Não vai mesmo... E assim entramos (todos) no infindável ciclo Pocotó que meu colega tanto comenta.
Ao ausentar-me da responsabilidade, naturalmente o segundo passo é procurar o culpado: e assim o fazemos com Deus, com o trânsito, com a filha doente, com o governo, com o fornecedor, com o cliente ou com um ente querido de que muito gostamos de evocar: “a gente”.
Sempre brinco com meus clientes: “a gente quem? Tu e teu guia espiritual? Tu e teu amigo imaginário? Quem é a gente?”.
Como todos sabem, a língua portuguesa nos autoriza a ter seis pronomes pessoais e o brasileiro, com sua infinita criatividade, criou um sétimo: a gente.
“A gente” é uma excelente expressão para eximir-se da responsabilidade. Ela não apenas ilude o interlocutor dando a ideia de que "estou incluído nisso", mas ainda melhor ela pulveriza o sujeito, esconde ele, mascara num grupo secreto. Será "a gente" um grupo religioso sectarista ortodoxo que trabalha num porão escuro às expensas do pobre brasileiro que queria responsabilizar-se, mas "a gente" proíbe?
Quem disse para fazer isso? A gente.
Quem não quis mandar o e-mail? A gente.
Quem se esqueceu do documento? A gente.
Quem decidiu ir embora mais cedo? A gente.
E como explicar para o estrangeiro o pronome "a gente"?
Sempre digo que “a gente” pode de fato ser um grupo, mas frequentemente é a própria pessoa que está falando. Mas, então, por que não usa o "eu"? Ah... porque "eu" não vou me expor dessa maneira. Será que "a gente" se dá conta disso?
A responsabilidade, portanto não é lá uma grande virtude em solo brasileiro. É confundida com exposição, com maturidade, com autoridade. Sabe lá (Deus) o que vão fazer se eu me pronunciar? Melhor mesmo é seguir escondidinho aqui.
E num país coletivista, onde o indivíduo vale tão pouco mesmo, acrescentado o fato de que somos jovens, imaturos, um grande adolescente em conflitos de crescimento, por que preocuparmo-nos com a responsabilidade? Ah, isso o tempo resolve...
E sem percebermos, cria-se a cultura da corrupção e da negligência. Corrompem-se as normas da boa conduta, da honestidade, da integridade, do olho no olho, do ser escutado e respeitado como cidadão e do que sei que posso contar com você. A propósito, alguém aí se sente realmente amparado a fim de poder contar com alguém nessas situações?
Vamos ao futebol.
Kaká, no Real
Como disse anteriormente, trabalho nas melhores empresas multinacionais deste país, fazendo o treinamento intercultural de presidentes, vice-presidentes, diretores e uma infinidade de pessoas altamente qualificadas que estarão se mudando para o exterior em breve a fim de cumprir suas missões profissionais. Em um público bem diferente deste, faço a mesma coisa com adolescentes entre 14 e 20 e poucos anos que vão para o exterior estudar. E no meio do caminho, tenho um público muito especial, que é a fusão de ambos: o jogador de futebol.
Este, similar ao executivo, irá para o exterior com uma sobrecarga de tarefas e responsabilidades que, todos sabemos, é tão grande quanto, ou senão maior, da que o profissional brasileiro da empresa americana que acaba de assumir a presidência na Coréia do Sul. Ou seja, só desafios pela frente, de toda ordem.
Na mesma linha, salários altíssimos e pressões ainda mais para fazer o gol de placa que todos esperam. Concordam? Soma-se a isso o fato de que assim como o executivo, o jogador poderá levar junto sua esposa e seus filhos – um capítulo ainda mais complexo da novela migratória, que, neste caso, começa a assumir contornos diferentes do esperado.
Quando comecei a ofertar nosso trabalho junto aos jogadores e suas famílias – todos eles então sobrecarregados de esperança e pouco municiados em ferramentas sócio-cognitivas (até pela pouca idade ou pela absoluta falta de experiência com culturas estrangeiras) – o resultado natural da oferta, em meu ponto de vista e daqueles com quem conversava, era de que todos os envolvidos, fossem eles os clubes ou os empresários, se deleitariam com a possibilidade de mais qualificação e suporte num momento tão importante de suas vidas. Correto?
Infelizmente não. Começam os telefonemas para os clubes brasileiros, cuja telefonista nos passa para a assistente social, que por sua vez nunca está presente e menos ainda retorna nossas chamadas. A cada tentativa, a resposta: “Não sei, senhora, quando ela vai estar. Quer deixar recado?”. E na ciência de que o recado não seria eficiente, pergunta-se: “E como posso fazer para encontrá-la, então?”. A resposta é sempre fatídica: “A gente não tem como prever...”.
Previsões à parte, algumas poucas vezes os telefonemas são atendidos, e não mais que meia dúzia de vezes somos jogadas entre a assistente social e a psicóloga, cujas respostas harmoniosas são: “A gente já faz isso que você está oferecendo”. “Mas a gente quem? Você ou a psicóloga?”, pergunto. “Nós duas...”. E partíamos dali com a certeza de que nem uma, nem a outra, haviam entendido sequer o que fazíamos.
E finalmente, os empresários, também sócios ativos da “Sociedade Secreta A Gente”, cujas respostas são: “A gente até queria que o jogador fizesse este tipo de trabalho, mas ele não quis...”. “E podemos falar com ele?”. “Olha, isso a gente não pode fazer... É complicado falar com ele”.
“Quando podemos encontrar com Sr. Fulano?”. “Ah, isso é bem difícil... a gente nunca sabe por onde ele anda...”. E talvez uns sete ou dez meses de telefonemas tentado encontrá-lo para que as respostas sejam: “Acho muito importante esse trabalho, mas sabe como é o futebol, né? A gente quer profissionalizar, quer mudar as coisas... mas é difícil. Um dia a gente chega lá...”.
E termino minha reflexão me perguntando com uma desesperada curiosidade: quem é o futebol? Quem faz esse grupo secreto, inatingível, cujos objetivos todos são truncados pela “gente”?
Quem se responsabiliza pela mudança? Pelo bem estar do jogador? Pela competência intercultural dele, de sua família? Pela sua qualificação como profissional e como ser humano que o Treinamento Intercultural propõe?
"Não sei, senhora, não sou eu quem cuida disso", ouvimos. “Quem cuida, então (uma vez que eu estava falando com todos os envolvidos no tema)?”. “Não sei, senhora”. “Mas quem se responsabiliza?”. “Também não sei, senhora”.
Bem, eu também não sei.
Mas sei que estamos mergulhados numa cultura de exclusão: a exclusão da responsabilidade pessoal, a exclusão do indivíduo, a exclusão da cidadania, a exclusão do auto-respeito, inclusive, que desmoraliza a todos nós quando nos escondemos de nós mesmos. Hoje “a gente” se misturou uns aos outros, a palavra do indivíduo pouco vale, o pensamento individual foi banido, a responsabilidade mais ainda, e tudo, tudo, pulverizamos entre "a gente" mesmo. Que talvez um dia acabe decidindo por dar mais atenção à competência intercultural de nossos jogadores.
.
Há não muito tempo, o título desta crônica seria inimaginável, principalmente entre nós, brasileiros, pois futebol era tido como coisa pra homem e... Ponto final.
Como disse anteriormente, trabalho nas melhores empresas multinacionais deste país, fazendo o treinamento intercultural de presidentes, vice-presidentes, diretores e uma infinidade de pessoas altamente qualificadas que estarão se mudando para o exterior em breve a fim de cumprir suas missões profissionais. Em um público bem diferente deste, faço a mesma coisa com adolescentes entre 14 e 20 e poucos anos que vão para o exterior estudar. E no meio do caminho, tenho um público muito especial, que é a fusão de ambos: o jogador de futebol.