Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

domingo, junho 27, 2010

COPA DO MUNDO: Fifa elogia e alça África do Sul a porto-seguro

ERICH BETING e GUILHERME COSTA
Da Maquina do Esporte, em Johanesburgo (África do Sul)

A 15 dias do término da Copa do Mundo, a África do Sul já conquistou a Fifa. Neste sábado, o secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke, concedeu entrevista coletiva em Johanesburgo e teceu contundentes elogios ao país. A empolgação do dirigente chegou a ponto de transformar a região em um “plano B” para a entidade no futuro.

“É uma Copa do Mundo perfeita em todos os sentidos. Temos visto aqui uma grande organização, além de todas as expectativas. Talvez, se isso tudo for mantido, seremos capazes de dizer ao término do Mundial que a África do Sul vai ser nosso plano B para qualquer eventualidade no futuro”, enalteceu Valcke.

O dirigente reconheceu que a África do Sul encarou problemas com o sistema de transporte e com segurança durante o evento deste ano, mas exaltou a boa vontade do país para compensar as deficiências nos dois segmentos. Além disso, Valcke usou o fracasso das seleções europeias, que fazem neste ano a pior campanha do continente desde 1986, como argumento para elogiar a Copa.

“Você pode notar que estamos nos desenvolvendo também no futebol. A Europa não é mais o único lugar em que se vê um futebol forte. Também há um futebol forte na Ásia e um futebol muito forte na América do Sul. Os Estados Unidos são outra equipe de muita qualidade”, enumerou o executivo.

Em todas as avaliações sobre a África do Sul neste sábado, Valcke fez elogios ao país e à estrutura da Copa do Mundo. Curiosamente, o microfone que o secretário-geral da Fifa usava na entrevista coletiva parou de funcionar ainda na primeira resposta.

No início de maio, Valcke usou tom absolutamente contrário para falar sobre a Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil. Na época, o dirigente se mostrou preocupado e cobrou ação do país sul-americano: “Não adianta só mandar cartas e projetos e não fazer nada”.

Neste sábado, Valcke comemorou a exclusão do Morumbi do Mundial de 2014 e evitou fazer mais comentários sobre a próxima edição da competição. Em uma das respostas sobre o assunto, o dirigente pediu foco na Copa que está sendo realizada.

“Nós ainda não temos 100% do torneio concluído, mas já atingimos 100% dos nossos objetivos. Demonstramos que esse país é capaz de desenvolver um grande evento e que as pessoas podem nos visitar no futuro porque serão muito bem recebidas”, completou Dany Jordaan, diretor-executivo do comitê organizador local (COL), reforçando o tom da entrevista coletiva.

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Para Deloitte, futebol supera PIB de 25 países

REDAÇÃO
Da Maquina do Esporte, São Paulo - SP

Como negócio, o futebol é maior do que o produto interno bruto (PIB) de 25 países. A consultoria Deloitte & Touche divulgou nesta semana um estudo sobre o tamanho do mercado do principal esporte do planeta, e o resultado é que ele move US$ 500 bilhões anualmente, montante equivalente à 17ª economia do planeta.

Além disso, a pesquisa fez uma avaliação sobre o comportamento das marcas na Copa do Mundo. A consultoria apresentou quantas seleções cada uma das marcas de material esportivo patrocina no torneio.

A partir disso e do investimento anual que empresas fazem em cada seleção, a pesquisa tentou identificar o retorno que essas equipes proporcionam às marcas.

O estudo também fez um levantamento de quanto valem os jogadores de cada seleção que participa da Copa do Mundo. Nesse quesito, a Espanha foi a líder do torneio, com um elenco orçado em torno de 303 milhões de euros.

A Copa do Mundo levou 480 mil turistas à África do Sul, dos quais cem mil não tinham entradas para jogos. Ainda segundo o estudo, a expectativa é que o torneio tenha 30 bilhões de espectadores na televisão.

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Estudo aponta vitória da Nike sobre Adidas na primeira fase

REDAÇÃO
Da Maquina do Esporte, São Paulo - SP

Nike - adidas A Nike venceu a Adidas na primeira fase da Copa do Mundo de 2010. Essa é a principal conclusão de um estudo denominado “Gols são amores”, realizado pela consultoria Euroamerica Sports Marketing. A empresa pretende fazer levantamentos periódicos sobre o comportamento das empresas na competição que acontece na África do Sul, e anunciou nesta semana os resultados da etapa inicial.

A pesquisa da Euroamerica na Copa do Mundo é dividida em cinco etapas: primeira fase, oitavas de final, quartas de final, semifinais e decisão. A consultoria é baseada na Argentina, mas o levantamento é conduzido por Gerardo Molina, seu diretor global.

A cada etapa, o levantamento considera aspectos como vendas, repercussão e espaço que as empresas obtiveram na mídia. A Nike, impulsionada pelo resultado positivo da campanha “Write the future” (“Escreva o futuro”, em tradução livre) na internet, ficou com a primeira posição na fase de grupos.

Além do impulso dado pela nova campanha, a Nike se beneficiou dos mercados estudados pela consultoria. O levantamento considera resultados das companhias na Argentina, no Brasil e nos Estados Unidos, país de origem da companhia vencedora.

Entre os patrocinadores oficiais da Copa do Mundo, a consultoria identificou que os que tiveram melhor desempenho nos mercados pesquisados durante a primeira fase foram, seguindo a ordem, Coca-Cola, Sony, Adidas, Hyundai e Budweiser.

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sábado, junho 26, 2010

Advogado prega futebol alemão como exemplo de gestão

QUEM É EDUARDO CARLEZZO
Advogado formado em 2001, com MBA Direito da Economia e da Empresa pela Fundação Getúlio Vargas e é professor do Curso de Pós-graduação em Direito Desportivo do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo. Carlezzo é também membro da International da Association of Sports Law, do Instituto Ibero-americano de Direito Desportivo, da Comissão de Direito Desportivo da Ordem dos Advogados do Brasil – São Paulo, da British Association of Sport and the Law e American Bar Association.
No campo esportivo, faz assessoria em transferências internacionais de atletas, com a representação em disputas perante a FIFA e Corte de Arbitragem do Esporte, a estruturação de investimentos e operações financeiras no esporte, a elaboração de projetos sociais e o planejamento e organização de projetos ligados a Copa do Mundo e Jogos Olímpicos.
Fundou a Carlezzo Advogados em 2004, empresa especializada em direito esportivo.

EDUARDO LOPES
Da Maquina do Esporte

O Brasil parece ainda engatinhar quando o assunto é gestão de esporte. Em meio à discussão sobre a reformulação da Lei Pelé, os clubes ainda batem cabeça quando tentam profissionalizar o seus departamentos. A quatro anos para a Copa do Mundo no país, os times perdem dinheiro com a simples desinformação do mercado em que está inserido.

O advogado Eduardo Carlezzo percebeu as dificuldades enfrentadas quando entrou no mercado, há quase dez anos, e fundou sua própria empresa para dar assessoria jurídica aos clubes e entidades que penam para se modernizar e encarar as novas realidades. Novas imposições, como a própria Lei Pelé, garantiu-lhe destaque ao cuidar de assuntos que envolvem milhões de reais, como, por exemplo, os novos contratos com atletas do futebol.

Carlezzo avaliou a condição dos nossos clubes, “com um longo caminho para percorrer”, ao afirmar que ainda não estamos com a maturidade para tratá-los como empresa, como sociedades anônimas em bolsas de valores. Falou sobre a condição dos clubes europeus e afirmou que, para o sistema ser saudável, é preciso profissionalização e também fiscalização. Nesse modelo, o exemplo ideal passa a ser o alemão, em detrimento do inglês, como se pensava há alguns anos.

Analisou também as condições dos clubes brasileiros em manter a sua base, com o gancho da saída do jogador Oscar do São Paulo. Para o advogado, as administrações ainda tem dificuldade em segurar seus jogadores, até pela legislação que lhe são impostas. Elogiou, no entanto, a Lei Pelé, com a afirmação de que as mudanças têm sido “geralmente benéficas”.  

Leia a seguir a íntegra da entrevista:


Máquina do Esporte: Existe um movimento dos clubes europeus para se colocarem nas bolsas de valores de seus países. O que começou na Inglaterra, hoje é uma realidade crescente em Portugal e na França. Até clubes chilenos têm se arriscado no mercado. No Brasil, os clubes estão preparados para essa nova possibilidade ou aqui a realidade é outra?

Eduardo Carlezzo: Nós temos vários exemplos na Europa de clubes que abriram o capital na bolsa de valores. Mas hoje nós estamos mais próximos de Portugal, onde clubes lançaram ações mais recentemente, depois da Inglaterra. Os casos mais próximos são mesmo os dos clubes chilenos, que tiveram bastante êxito na iniciativa, com a Universidad Católica conseguindo obter US$ 25 milhões no ano passado. No Brasil, há uns cinco anos, o Coritiba tentou entrar nesse mercado, mas não conseguiu autorização. Acho que temos um longo caminho para percorrer para tornar isso uma realidade. O primeiro passo tem sido dado, com os fundos de investimentos com objetivos de obter direitos econômicos de atletas. É um passo importante para podermos pensar em compras de ação de um clube no futuro.

ME: Como proteger os atletas de base? Existe algum meio de resguardar o clube da ação de empresários ou de outros clubes predadores, que só pensam em contratar o jogador formado e arrecadar dinheiro?

EC: Com atletas com menos de 16 anos, os clubes ficam desprotegidos. O máximo que ele pode fazer é um contrato de formação. Isso não impede que ele saia do clube, mas se o clube se comprometer a assinar e cumprir o contrato, ele pode pedir indenização ao perder o atleta para algum clube ou empresário. Mas é só isso. Com menos de 16 anos, não há muito o que possa ser feito.

ME: Como o senhor viu a saída recente de alguns jogadores do São Paulo, com o caso mais evidente do Oscar?

EC: O Oscar não tinha 16 anos ao assinar o contrato com o São Paulo. Portanto, o contrato não era válido e não há muito o que fazer. Poderia ter sido feito um contrato por preferência para conseguir ficar com o atleta depois, mas apenas isso. Trata-se de uma zona cinzenta para o clube formador.

ME: Com ou sem ação na bolsa, transformar os clubes em clubes-empresa representa vantagem concreta para times?

EC: A vantagem de criar empresa jurídica, sociedade anônima, é a necessidade de transformar a administração, a estrutura do clube. Se isso não acontece, não faz diferença se é empresa ou clube. O que os clubes-empresa precisam é se profissionalizar. A mudança é válida para trazer recursos novos, atrair novos investidores e entrar com um efetivo.

ME: Em que pontos o senhor acha que a legislação brasileira ajuda a gestão de um clube brasileiro?

EC: A Lei Pelé trouxe malefícios e benefícios aos clubes brasileiros. Existem pontos polêmicos e que no início pareceram prejudiciais, mas que em longo prazo se provaram o contrário. Quando entrou em vigor, uma série de jogadores entrou na justiça e conseguiu se desvencilhar de seus times. Foi uma bagunça. Mas hoje existe um cuidado muito maior com o contrato e suas exigências, o que é benéfico. Outro benefício foi uma necessidade de profissionalização na gestão com as novas regras. Nenhuma lei é perfeita. A Pelé não foi e a sua recente reformulação também não vai ser. Mas, em geral, ela é benéfica para os clubes: ela deu uma maior segurança.

ME: E quais são os pontos maléficos?

EC: Existe algo que não está na Lei Pelé e que a legislação atrapalha: a contratação de estrangeiros. Pela legislação, eles só podem ter contrato de dois anos. O clube faz um investimento alto, contrata de fora, faz um contrato duradouro com a CBF, mas, pelas leis, só podem assinar por dois anos. Ao final, o jogador pode causar problemas e consegue se desligar do clube sem que esse seja ressarcido. O caso mais recente foi o do atacante Ariel, do Coritiba. O clube fez um investimento considerável para a sua realidade e, após esse tempo, pediu para sair. Infelizmente, esse ponto não tem sido discutido na Lei Pelé.

ME: Muitos times europeus têm donos, são empresas, mas isso não impede que eles tenham dívidas milionárias. O que há de errado nesse sistema?

EC: Os casos mais claros estão na Inglaterra. Há um endividamento absolutamente pesado nos clubes ingleses, dívidas insustentáveis. É o caso de Manchester United e Liverpool. O Chelsea nem tanto porque ele tem um dono que pode bancar as contas no fim do mês. Antigamente, achávamos que o modelo inglês era o ideal. Hoje só vemos dívidas. O modelo ideal passou a ser o alemão.

ME: Qual é a diferença?

EC: É uma questão histórica. Os alemães são muito sérios nos seus modelos de negócios, há um controle muito rígido, que na Inglaterra não acontece. A Bundesliga controla as finanças dos clubes e quem tem dívida muito elevada pode até ser rebaixado no campeonato. A organização pode recusar um clube que não cumpre com suas obrigações financeiras. É uma tradição no país.

ME: Como o senhor vê o “fair play” financeiro da Uefa, medida que tenta impedir que clubes tenham despesas superiores às receitas e que força os clubes a se manterem em dia com seus compromissos financeiros?

EC: Acho muito bom, muito positivo. Acredito que, com a imposição, não veremos abusos que vemos hoje. Acho que, em alguns anos, não teremos transferências como foram a do Kaká e a do Cristiano Ronaldo para o Real Madrid, contratações que chegaram a quase 70 milhões de euros.

ME: E quanto ao regulamento de licença de clubes, que pode ser imposta pela Conmebol aos clubes da América do Sul em seus torneios?

EC: O problema é que se ela fosse posta em prática já no ano que vem, teríamos uma Libertadores sem clube nenhum! Além da situação financeira delicada, a estrutura é muito delicada. Hoje temos jogos em países sem nenhuma condição de receber partidas. Temos jogos na Bolívia, por exemplo, em estádios sem nenhuma condição, sem nenhuma infraestrutura. E o licenciamento aborda esses aspectos. É uma questão urgente e eu espero que seja aprovada o quanto antes.

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Élio Carravetta, coordenador de preparação física do Internacional

Profissional do clube colorado discorre sobre sua trajetória e a relação entre cultura e o futebol

Bruno Camarão

Há mais de uma década, Élio Carravetta está envolvido com o dia-a-dia do Internacional. Sua experiência prática na área de treinamento e coordenação esportivos, entretanto, é bem mais ampla. E se o clube colorado se vangloria dos títulos recentes conquistados, da condição privilegiada de revelador de jovens talentos e até mesmo do sistema de gestão administrativo, certamente tem de fazer uma referência a esse profissional.

Especialista em Ciência do Esporte, pela Faculdade Católica de Medicina de Porto Alegre, com mestrado em Métodos e Técnicas de Ensino, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e doutorado em Filosofia da Ciência da Educação, pela Universidade de Barcelona, na Espanha, Élio sempre soube propor um diálogo coerente entre o âmbito acadêmico e a parte prática. Algo muito difícil de se ver representado, como revelou nesta entrevista concedida à Universidade do Futebol.

“Houve um afastamento do meio acadêmico em relação à realidade, e é necessário que haja esse resgate. Hoje, porém, ainda há uma distância”, apontou.
No Beira-Rio, atua como coordenador de preparação física – englobando categorias de base e o departamento de futebol profissional. Desde 2002, as funções são restritas às atividades de reabilitação e programas especiais para os atletas que ingressaram no grupo principal.

Sempre em consonância com a diretoria gaúcha, exerceu também trabalhos de ordem administrativa. Atualmente, o retreinamento, processo com a finalidade de atender a rotatividade de jogadores, gerada por novas contratações, déficit físico ou lesões, é seu carro-chefe.

Élio tem ainda em seu currículo a assinatura de algumas obras, como “O Esporte Olímpico”, “Um novo paradigma nas relações sociais e pedagógicas”, “O Jogador de Futebol - Técnicas, Treinamento e Rendimento” e “Modernização da Gestão do Futebol Brasileiro”. A última delas, “O enigma da preparação física no futebol”, lançada no ano passado, revela ideias muito interessantes do profissional em relação à atividade.

“É até uma declaração forte, mas a preparação física como grande parte da sociedade pensa simplesmente não existe. No futebol, ao contrário, o que se busca é o equilíbrio das qualidades físicas para melhorar o desempenho individual através dos treinamentos técnicos, táticos, estratégicos e relacionais – e tudo isso pensando no rendimento coletivo das equipes”, argumentou Élio, que também falou sobre a integração das ciências dentro do Inter e por que a questão cultural resultou na saída do técnico uruguaio Jorge Fossati da equipe.
Universidade do Futebol – Qual é a sua trajetória à frente do Internacional e o papel atual na comissão técnica do grupo principal de futebol?

Élio Carravetta – Fui contratado pelo Sport Club Internacional em dezembro de 1996, como coordenador de preparação física. A partir de 2002, minhas funções estão relacionadas com a categoria principal nas atividades de recuperação física e em programas especiais para os futebolistas que ingressam no grupo.

Ao longo destes 14 anos, participei dos programas de planejamento estratégico do Internacional e fiz parte do Escritório de Qualidade (PGPQ) no período de 2005-2006.

Até o ano de 2001, exercia no clube funções técnicas e administrativas, pautadas nas orientações políticas da cúpula diretiva: orientava a canalização dos esforços e potencializava a competência dos colaboradores, promovia a racionalização das ações e das funções e participava da busca permanente da formação técnica competitiva e a excelência do desenvolvimento organizacional (ciclo “planejar, executar, controlar e agir”).

A partir da temporada seguinte, minhas funções mudaram para uma área especificamente técnica e funcional, com a introdução do retreinamento.

Universidade do Futebol – O que seria o retreinamento?

Élio Carravetta – O retreinamento foi introduzido no departamento de futebol, aplicado pelo setor de preparação física, com a finalidade de atender a rotatividade de jogadores, gerada por novas contratações, déficit físico ou lesões.

As ações interdisciplinares ocorrem da seguinte forma: quando recém contratado, o jogador é avaliado pelo departamento médico e, uma vez aprovado, é encaminhado ao setor de preparação física. Se o atleta apresenta deficiências físicas ou está retornando de lesão, é também encaminhado para o retreinamento.

Há alguns procedimentos de rotina. Primeiramente, ocorre uma reunião entre preparação física, médico e fisioterapia. Em casos especiais, outros profissionais, como nutricionista e assistente social, participam.

Feito o diagnóstico inicial, apresentamos a proposta de trabalho ao jogador. Então, efetuamos uma análise dos padrões de movimento (preparação física e fisioterapia), um relatório do equilíbrio muscular e da mobilidade articular, passando para a avaliação subjetiva da resistência aos esforços, força e conduta reativa.

A preparação física mantém um contato diário com a fisioterapia e o departamento médico sobre o andamento do processo, e o diálogo é permanente com o treinador sobre o desenvolvimento dos casos especiais.

Estou muito feliz e realizado na liderança destas atividades. Me sinto constantemente renovado, motivado e sempre aberto para as novas aprendizagens e metodologias.



Atletas do Inter treinam: processo especial de retreinamento comandado por Élio Carravetta rende bons frutos à comissão técnica

Universidade do Futebol – As categorias de base são contempladas com esse seu trabalho?

Élio Carravetta – Realizamos também um programa de treinamento especial com os jovens provenientes das categorias de base.

Alguns atletas necessitaram passar por isso, como o Taison, o Valter, e o próprio [Alexandre] Pato. Alguns jogadores que vieram de fora, como o Danilo, também foram submetidos a ele.

Independentemente de não atuar mais diretamente com o departamento de formação, tenho uma relação estreita com as comissões técnica e o setor da preparação física, onde sou um elemento de apoio dentro do processo de treinamento.

O retreinamento não deixa de ser um trabalho inovador dentro do contexto do futebol. Poucos clubes o realizam.

Universidade do Futebol – O Inter preza muito pelo seu departamento de formação, utilizando-se de muitos atletas na categoria principal. Qual é o diferencial do clube neste sentido?

Élio Carravetta – O Internacional tem uma história dentro do processo de formação. No nosso passado, contamos com Batista, Caçapava, Schneider, Taffarel, Lúcio, mais recentemente: todos foram atletas moldados nas nossas categorias de base.

Dentro dessa trajetória, existe uma cultura especial de formação, que não estagnou e vai se aprimorando continuamente de acordo com as novidades científicas.

Em toda organização, há pontos positivos e outros a melhorar. Entendo que a excelência não pode ser por minutos, por dias: sempre temos de buscar a melhoria no processo de evolução.

Contamos com profissionais que atuam por vários anos em nosso departamento de formação, o que contribui para essa realidade – cerca de 70% a 80% deles trabalham há mais de uma década no clube. E uma experiência vai sendo adquirida, o que contribuiu para o processo, quando não há acomodação, logicamente.

Estou há uns nove anos afastado das categorias de base, mas a integração existe e é constante. O Fabio Mahseredjian é quem tem feito esse elo, na área específica da preparação física, mantendo um contato com diversos atletas mais novos. A própria renovação é importante, com novos profissionais atuando nessa frente.

Universidade do Futebol – Como é seu contato com o Fabio e a participação nos programas de planejamento estratégico do Internacional?

Élio Carravetta – Minha interação com o Fabio é muito boa. Ele é um jovem competente, muito promissor, que provoca muitas dissonâncias em relação a conceitos e metodologias, sempre em prol do clube, e tem um futuro brilhante. Não concordamos em tudo (risos), mas não é à toa que ele compõe também a comissão técnica da seleção brasileira de futebol.

Profissionalmente, é extremamente gratificante participar e colaborar no campo das ideias do clube. No penúltimo planejamento estratégico, concluído no ano de 2005, tínhamos como uma das metas internas colocar o Inter entre as quatro principais forças da América. E justamente naquele período conquistamos a Libertadores e o Mundial.

Nem tanto pelos títulos em si, que são relevantes, claro, mas o importante é a liberdade para se trabalhar de maneira interativa com outros profissionais, conjugando pensamentos das diferentes áreas em um plano maior.

Fico muito contente por isso, pela relação afetiva que tenho com o clube, estreita com a instituição em si, independente do teor profissional. Em termos emocionais, espirituais, me sinto recompensado aqui.

Universidade do Futebol – O senhor fala com um carinho especial a respeito do Inter. Há, de fato, um tratamento diferente por parte da direção do clube em relação aos profissionais que por aí passam?

Élio Carravetta – A instituição tem um valor, sem dúvidas. Manter tantos profissionais por tanto tempo é muito importante, como agora o caso do Celso Roth, que dirige o Internacional pela terceira vez. Não em uma perspectiva corporativa, mas como uma forma de manter a história e criar um vínculo, a relação entre os funcionários, que passa a ser estreita.

A luta por um ideal conjunto, percebendo essa entrega de todos, é muito gratificante.

Universidade do Futebol – Para esta temporada, o Internacional contratou o treinador uruguaio Jorge Fossati, que teve ótima passagem pela LDU, do Equador. Ao lado dele, o compatriota Alejandro Valenzuela assumiu a preparação física do time principal. Como foi essa experiência com ambos antes do retorno do Celso Roth?

Élio Carravetta – Eu tenho um conceito de treinamento esportivo e o coloco desta forma: é um processo continuado de ensino-aprendizagem e tem como finalidade modificar alguns comportamentos integrados. Temos componentes técnicos, táticos, físicos, psicológicos, sociais, relacionais, afetivos, cognitivos. E há um muito importante, que é o cultural.

No momento em que qualquer profissional entra em uma nova cultura, ele tem de se adaptar à mesma. É mais fácil ele efetuar esse processo, do que todos os outros já inseridos se moldarem de maneira inversa.

Esses intercâmbios existem dentro de um processo de globalização, mas há uma cultura definida no próprio clube. E o professor Fossati, por mais que tenha explicitado suas qualidades, que são muitas, encarou dificuldades nessa questão.

O futebol não é só dentro de campo, e há necessidade de uma adaptação à cultura, à metodologia de treinamento própria do Brasil. O processo de aprendizagem é gradativo, e requer tempo. Infelizmente não houve êxito no Inter.

O mesmo vale para o Valenzuela, que apresentou uma proposta de treinamento diferente. Não estou julgando se é boa ou má, nem que não tenha tido aceitação do grupo de jogadores, mas ela encontrou dificuldades de ser inserida. Prefiro não comentar muito sobre esse tema.


Apesar das adversidades encontradas, Fossati conduziu o Inter à semifinal da Libertadores

Antes de sua saída, Alejandro Valenzuela já havia comentado sobre dificuldade de interação com os atletas

Universidade do Futebol – O senhor acredita que existam escolas de futebol regionais específicas no Brasil (gaúcha, paulista, carioca, etc.), algo que condicione o trabalho do preparador físico, fazendo o mesmo ter de se adaptar àquela realidade local?

Élio Carravetta – Eu acredito, sim, que a influência da cultura condiciona o comportamento. No Rio Grande do Sul, a cultura do Internacional vai exigir determinado tipo de comportamento. Assim como existe no Grêmio, em uma atmosfera diferente. Bem como em cada localidade.

Por mais que haja um processo de globalização das informações, influências culturais exigem e direcionam um tipo específico de comportamento.

Universidade do Futebol – O que diferencia o trabalho entre preparadores físicos no Brasil, já que hoje o conhecimento está muito mais acessível?

Élio Carravetta – É até uma declaração forte, mas a preparação física como grande parte da sociedade pensa simplesmente não existe. No futebol, ao contrário, o que se busca é o equilíbrio das qualidades físicas para melhorar o desempenho individual através dos treinamentos técnicos, táticos, estratégicos e relacionais – e tudo isso pensando no rendimento coletivo das equipes.

A unicidade dos atributos técnicos, táticos, físicos, relacionais, psicológicos e socioculturais tem como principal condutor o treinador. Pela multiplicidade de funções, o treinador exerce uma influência fundamental na performance coletiva da equipe.

O restante dos profissionais que trabalham diretamente com ele deve ter a sua confiança, aprovação, sintonia metodológica e respeito.

O preparador físico tem basicamente uma ou duas unidades de treinamento, contra cinco do treinador. Quase 80% do tempo é trabalhado dentro da área técnica, tática, relacional, e não especificamente física.

Essa ideia de preparação física é muito mais global. Nós trabalhamos muitos outros componentes do simplesmente físico e motor – justamente a percepção, a consciência e, ao mesmo tempo, a própria autoavaliação que levamos o atleta a ter. Ele mesmo saberá as necessidades sobre sua condição.

A concepção está mudando. E o cabeça maior disso tudo é o treinador. Isso que eu falo e escrevo em meu livro, o professor João Paulo Medina, quinze anos atrás, já colocava em outras palavras e tinha essa visão no próprio Internacional.


Confira resenha do último livro escrito por Élio Carravetta

Universidade do Futebol – E diante de tal realidade, os treinadores brasileiros, de maneira geral, estão preparados para assumir o papel?

Élio Carravetta – O perfil do treinador está evoluindo muito, em minha opinião. Creio que temos que valorizar bastante a escola de futebol do Brasil, que é uma referência, sem dúvidas.

Não há uma difusão tão grande das ideias, por conta dos trabalhos e publicações ainda muito escassos, mas é motivo de orgulho nosso desenvolvimento e nossa condição.

Fora o treinador, todos os profissionais que trabalham no futebol são assistentes. Ali, eles trabalham para o treinador. Se uma equipe corre muito é porque ela é muito organizada taticamente, com boa capacidade técnica e corretiva. O mérito não é apenas do preparador físico, mas da equipe, comandada pelo treinador. O mesmo vale quando a imagem é negativa e os problemas aparecem.

As deficiências individuais de um determinado componente físico-motor em termos de performance pode ser atribuída ao preparador físico, mas no conjunto é o treinador quem tem de responder.

A autoridade exercida, que começa pela escalação, pelas multifunções que ele assume, faz com que o treinador tenha de estar integrado a todas as áreas científicas.

Novos talentos estão sendo formados. Eles podem não ter muito espaço na mídia, ainda, mas trabalhos muito competentes vêm sendo desenvolvidos.


Celso Roth assume o comando da equipe principal do Inter pela terceira vez e já mostra estar integrado ao projeto

Universidade do Futebol – Existem modelos e métodos diferentes sendo aplicados por diferentes preparadores físicos no nosso país?

Élio Carravetta – Algumas novas metodologias lentamente começam a ser introduzidas no futebol. São linhas de atuação que buscam potencializar a criatividade, a responsabilidade individual, a consciência corporal e a participação coletiva dos jogadores no processo de treinamento. Realizamos isso no Inter.

Universidade do Futebol – Qual é a relevância da área acadêmica para o diálogo e para a melhoria da atuação do profissional de preparação física?

Élio Carravetta – Na verdade, o próprio modelo da universidade não premia esse tipo de relação – falo do futebol, mas o mesmo vale para a maioria das outras áreas.

Houve um afastamento do meio acadêmico em relação à realidade, e é necessário que haja esse resgate.

Hoje, porém, ainda há uma distância.

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Micos & futricos

Cópia de Macaco falante 02

Anelka (França)
Fez uma temporada de sucesso pelo Chelsea e chegou com moral para a Copa. Mas no final exibiu seu péssimo temperamento de sempre, desencandeou de vez a crise na França e ainda foi cortado da Copa antes do último jogo.

"Vai tomar no cu, seu filho da puta!". Pelo menos Anelka proporcionou uma capa histórica ao L'Equipe

“Vai tomar no cu, seu filho da puta!”

Pelo menos Anelka proporcionou capa histórica ao L’Equipe

Fonte: Blog Opiniões em Campo

Veto a transmissão de jogos pela TV Paraná Educativa repercute

Emissora estatal não pode mostrar jogo de torneio amistoso

ESPORTEEMIDIA.COM
Ribamar Xavier

A Federação Paranaense de Futebol (FPF) proibiu a transmissão das partidas da Taça Cidade de Londrina, como divulgamos nesta sexta-feira (25). Agora, chega à informação do motivo alegado pela entidade para o veto: o Iraty, organizador do torneio amisosto, não avisou a entidade sobre o interesse em televisionar os confrontos (será que justifica?).

O próprio presidente do Iraty, Sérgio Malucelli, declarou ser esta “uma situação triste, já que se trata de uma competição amistosa e a emissora {a TV Paraná Educativa} não tem fins lucrativos. A única intenção era divulgar o evento e o futebol local”.

De acordo com o diretor-presidente da Paraná Educativa, Marcos Batista, inclusive a veiculação de vídeo-tapes foi proibida. “Levamos uma unidade móvel para Londrina e disponibilizamos equipes de reportagem para a transmissão do evento. Na medida que recebemos a autorização dos clubes, pensamos que não haveria problema. Depois tentamos negociar com a federação, mas todas tentativas foram em vão”, esclareceu.

Contrapondo a proibição feita à Paraná Educativa, a “TV+” transmitiu a partida entre Corinthians x Iraty. O fato causou estranheza em Sérgio Malucelli. “Não sabia que estavam passando o jogo. Creio que a autorização deve ter vindo do Corinthians, que também faz parte da organização”, contou Malucelli.

A “TV +” se comprometeu a cortar o sinal para Curitiba no domingo, quando ocorrem as finais da competição (ué, mas os jogos não são em Londrina?).

Fonte: Paraná Online, por Felipe Lessa

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Opinião pública vs Dunga

Dunga - frase destaque

Por: Benê Lima

PALAVRAS DE ESCLARECIMENTO

Um pouco de conhecimento acerca da personalidade do atual  treinador   da seleção brasileira, lança luz sobre o entendimento da personalidade da maioria de nós brasileiros, pela identificação da natureza contraditória de nossa relação com o futebol.

Caro leitor, mergulhe nas matérias aqui trazidas sobre o controvertido Dunga, pois elas lhes darão subsídios para que você se coloque diante de uma perspectativa mais humana e verdadeira a respeito de todas as abordagens que o assunto tem suscitado.

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sexta-feira, junho 25, 2010

Uma radiografia possível

Dunga no ataque

O que está por trás do estilo belicoso do técnico brasileiro, que aposta no conflito externo para manter seu grupo fechado e conquistar a torcida
Yan Boechat, Rodrigo Cardoso e Juca Rodrigues (fotos), enviados especiais à África do Sul

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Dunga vs. imprensa. Assista a trechos de entrevistas em que o técnico da Seleção demonstra seu destempero com a mídia

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Na manhã da segunda-feira 21, Dunga foi um dos primeiros a acordar no hotel The Fairway, a concentração da Seleção Brasileira em Johannesburgo. Havia dormido pouco, mas estava especialmente feliz. No dia anterior o Brasil fizera uma boa partida contra a Costa do Marfim e, com a vitória por 3 a 1, garantira a classificação antecipada para as oitavas-de-final da Copa do Mundo. Além disso, também no domingo, o técnico da Seleção Brasileira havia sido informado pela mãe, Maria, que seu pai, Edelceu Verri, finalmente deixaria o Hospital Unimed, em Ijuí (RS), após um mês de internação. Vítima de Alzheimer há quase uma década, Edelceu passara os últimos 30 dias entrando e saindo da UTI, por conta de infecções respiratórias e urinárias, complicações naturais de sua enfermidade, já em estado terminal. Até aquele momento, Dunga não fazia ideia de que os palavrões que murmurara após o bate-boca com o jornalista da Rede Globo Alex Escobar tinham sido captados pelo sistema de áudio da sala de entrevistas do estádio Soccer City. Quando foi informado da repercussão que o caso havia ganho, quase 12 horas após a discussão, assustou-se. Dunga sabe que chegou ao ápice de uma guerra pessoal que trava com a imprensa há 20 anos. Na noite daquele domingo chegara ao ápice também o estilo de comando que o treinador implantara na Seleção Brasileira desde que assumiu o cargo, em agosto de 2006. Depois do fracasso da Copa do Mundo da Alemanha, Dunga foi escalado por Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), para colocar ordem na casa, trazer de volta a seriedade perdida em anos marcados por festas, indisciplina e uma boa dose de falta de respeito pela camisa que foi a segunda pele de verdadeiros mitos do futebol mundial. Fez o que deveria ter feito, é verdade. Mas pode ter errado na forma de fazer e foi além do que lhe pediram. Adotou uma postura ditatorial à frente do time brasileiro. Não permite contestações ou conselhos de pessoas fora de sua intimidade e só aceita, entre seus comandados, quem lhe demostra fidelidade canina. Para Dunga não há meio-termo. Ou se está ao lado dele ou se está contra ele.

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EM AÇÃO
Futebol discreto contra Costa do Marfim (acima) e Portugal (abaixo)
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Desde que chegou à África do Sul, Dunga se transformou em um Stalin do mundo da bola. Enclausurou os jogadores em uma espécie de gulag cinco-estrelas, partiu para o ataque contra a imprensa e simplesmente deixou de dar atenção às recomendações de seus superiores. Ali quem manda é ele, e apenas ele. “O homem enlouqueceu, está doido”, comentou com amigos o chefe da delegação brasileira e presidente do Corinthians, Andrés Sanchez. Irritado com o estilo adotado por Dunga, Teixeira tentou convencer o comandado a ser mais maleável. No dia seguinte à vitória do Brasil contra a Coreia do Norte, na terça-feira 15, Teixeira teria feito uma das poucas visitas à concentração desde que o time chegou à África. Segundo relatos de dirigentes próximos ao presidente da CBF, Dunga não deu ouvidos aos pedidos para que afrouxasse a clausura e diminuísse os ataques aos jornalistas. Oficialmente a CBF nega o encontro, mas confirma que desde a estreia Teixeira não foi mais ao hotel da Seleção. “Sabíamos quem era o Dunga, mas nunca íamos imaginar que ele fosse chegar ao ponto que chegou. Ele simplesmente está contra tudo e contra todos que pensam diferente dele”, conta um cartola que acompanhou de perto as negociações para o capitão do tetra assumir o time brasileiro.

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Quem conhece bem o cidadão de Ijuí Carlos Caetano Bledorn Verri, 46 anos, não se surpreende. “No colégio, ele já era teimoso”, conta o gaúcho Emídio Perondi, padrinho de nascimento e de casamento de Dunga. Sua esposa era diretora da escola que Dunga estudava e lembra da porção contestadora do menino. “Ele venceu no futebol por fazer as coisas da sua maneira. E não vai mudar”, diz Perondi. Mesmo conquistando quase tudo o que disputou na carreira, Dunga não se livra do rancor por ter sido crucificado na eliminação do Brasil contra a Argentina em junho de 1990. Focado nesse embate pessoal, sua porção vencedora deu lugar a uma outra: a de mau ganhador.

Sua descompostura ao proferir palavrões endereçados aos críticos enquanto erguia a taça do tetra, a deselegância ao cumprimentar o presidente Lula, que lhe desejava sorte na Copa, com a mão no bolso e cara de poucos amigos, e a agressividade com que atacou verbalmente um jornalista após a vitória contra a Costa do Marfim são episódios emblemáticos. “Isso tudo vai ter um peso na biografia do Dunga. Mesmo se conquistar o Mundial, ele será uma pessoa perdedora”, diz Paulo Vinícius Coelho, comentarista dos canais ESPN. Um amigo gaúcho do treinador do Brasil vai mais longe: “Pode apostar. Se ele ganhar a Copa, não duvido que irá embora da África sem dar entrevista.” O primeiro passo, Dunga já deu. Com o empate sem gols com Portugal na sexta-feira 25, ele classificou o Brasil para as oitavas-de-final do Mundial. O time, à imagem de Dunga, não foi brilhante mas cumpriu seu dever. Jogo no ataque, só fora de campo.

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Para vencer como técnico, Dunga se esforça tanto ou mais do que na época em que corria o campo atrás de jogadores habilidosos. Na África, tem sido obsessivo. Nos mais de 30 dias em que está no The Fairway, saiu do hotel apenas para jogar ou fazer treinamentos. Nos momentos de folga, convive pouco com os atletas, não participa das principais diversões dos jogadores, como o videogame, a sinuca ou o baralho. É sempre um dos primeiros a acordar e, a todo momento, está focado nos jogos seguintes. Ali na concentração, conversa com frequência apenas com Jorginho, seu auxiliar técnico, e Taffarel, o espião do time nessa Copa. Fora dela, somente os familiares de Ijuí recebem suas ligações. “Ele é isolado, só pensa em trabalhar, passa o tempo inteiro vendo vídeos dos outros times. Está obcecado em vencer essa Copa”, conta o empresário de um jogador enclausurado no The Fairway.

Dentro da concentração, um misto de respeito por sua fidelidade ao grupo e medo de suas atitudes intempestivas faz todo mundo rezar sua cartilha. Há quem discorde dos métodos de Dunga, mas, por conta de sua mão forte, as divergências nunca vieram à tona. Por ordem do treinador, ninguém pode conversar com nenhum jornalista fora das entrevistas coletivas. Nem mesmo profissionais como roupeiros, cozinheiros ou seguranças estão autorizados a ter contato com pessoas fora de seu convívio pessoal.

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“Dunga tem necessidade muito grande de controle, chega ao nível de uma paranoia”, diz João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte. “As atitudes do Dunga podem ter repercussão em maior e menor grau entre os jogadores da Seleção. Para atenuar essas reações, é preciso o grupo continuar ganhando”, avalia. “Se ele for um técnico que explode com os jogadores, a equipe pode se sentir mais vulnerável, insegura e ansiosa em campo. E o jogador ansioso tem mais dificuldade de tomar decisão”, corrobora o psicólogo Luciano Costa, que na semana passada concluiu sua tese de mestrado em psicologia do esporte pela Universidade de Brasília (UnB). Batizada de “Como Dunga Pode Levar o Brasil ao Hexa?” Para muitos, é essa influência, no aspecto negativo, que tem pautado reações intempestivas de jogadores normalmente pacatos, como Kaká, em momentos de tensão nos jogos e nas entrevistas. Contra a Costa do Marfim, embora com boa atuação, o craque brasileiro mostrava-se irritadiço, revidou às provocações do adversário e foi expulso pela primeira vez em sua história na Seleção. Contra Portugal, Dunga substituiu o volante Felipe Mello após o jogador receber um cartão amarelo, fruto de uma troca de entradas violentas com o português Pepe. E nos últimos 30 minutos o treinador expôs a todos grande irritação com o desempenho do time, gesticulando muito e gritando a ponto de ouvir, do campo, um pedido de calma do capitão Lúcio.

Fora de campo, Dunga isolou-se. Ricardo Teixeira já decidiu que, mesmo vencendo, ele não continuará no comando da Seleção. Na semana que passou, Teixeira precisou entrar em campo para tentar colocar panos quentes na guerra que Dunga declarou à Rede Globo. O próprio presidente da CBF procurou a cúpula da emissora para explicar que havia sido o técnico da Seleção quem proibira Luís Fabiano de dar uma entrevista exclusiva a Alex Escobar. Rodrigo Paiva, diretor de comunicação da entidade e homem de confiança do presidente da CBF também entrou em contato com jornalistas e diretores da emissora para aparar as arestas. Dias antes, Teixeira havia acordado com a mesma Globo que as entrevistas ocorreriam logo após as partidas em uma área alugada junto à Fifa dentro do estádio. Apenas emissoras com direito de transmissão podem ter acesso a esse espaço. Dunga acatou no primeiro jogo, contra a Coreia, e permitiu que Elano conversasse com a emissora. No segundo, vetou. “O Dunga não entende que futebol não é só jogadores e comissão técnica, há algo muito mais complexo envolvido”, diz uma pessoa próxima de Teixeira. “Só nesse time estão investidos mais de US$ 100 milhões por ano, dinheiro de patrocinadores que querem retorno e proporcionam toda a estrutura que ele tem na mão. É possível ganhar de forma diferente. Dunga não precisava adotar essa postura. Ele beira um caso patológico, psiquiátrico”, diz esse interlocutor do cartola.

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EU MANDO
Com Lula, na despedida, a mão no bolso indica desprezo pela autoridade alheia

Mas ao mesmo tempo que desagrada à aqueles ligados diretamente à Seleção, o discurso e as atitudes de Dunga reverberam junto à população brasileira. O tom de seriedade, de comprometimento, de patriotismo e a postura de não ceder aos interesses de terceiros fazem eco em um país cansado dos mandos e desmandos de governantes e de benesses concentradas nas mãos de alguns poucos eleitos. A campanha de apoio ao treinador deflagrada na internet logo após seu entrevero com a Rede Globo mostra que Dunga consegue se comunicar bem com o povo e que sua estratégia de eleger um inimigo, seja ele imaginário ou não, funciona. Algumas de suas falas remetem a outro gaúcho, o ex-presidente Getúlio Vargas. “Mais uma vez as forças e interesses contra o povo novamente desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa”, escreveu o ex-presidente em sua carta-testamento. Dunga segue o mesmo padrão: “Primeiro te batem para te deixar fraco e pedir ajuda. Quando não conseguem, tentam te derrubar”, disse o técnico da Seleção Brasileira no fim do ano passado. “Eu, como todo brasileiro, só quero trabalhar. Meu maior exemplo é a minha mãe. O que estão fazendo com o filho dela não se faz com ser humano nenhum”, afirmou o treinador, na coletiva antes do jogo contra Portugal.

Nesse dia, quinta-feira 24, Dunga aparentava cansaço. O golpe da semana mais difícil e conturbada de sua passagem como técnico da Seleção estava escancarado em seu rosto. Não à toa, não passou um dia sem ligar para sua mãe, que, mesmo assistindo o marido, preocupava-se e muito com o filho. Dunga queria receber seu apoio e saber sobre Edelceu, que deixou o hospital na segunda-feira 21. Ex-centroavante famoso em Ijuí, Edelceu é o herói de Dunga. Operário que trabalhou com curtume, fazendo chinelo e tamanco, assistiu às peladas do filho no Sul e o acompanhou em vários momentos. “Edelceu estava com Dunga na Alemanha, na Itália”, conta Perondi, citando alguns países onde Dunga jogou. “O pai dele estava na arquibancada na Copa de 1990, quando o Dunga foi derrotado junto com o Brasil pela Argentina.” Para Dunga, não há nada mais importante do que a família, nem o futebol. “Ele é o que seus pais lhe ensinaram, os valores dele vêm do berço. Por isso estamos todos tranquilos com essa situação”, diz Ivo Boratti, cunhado do técnico da Seleção, que na última semana não conseguiu falar com Dunga. “Desde domingo ele só está falando com a mãe.” Em todos os momentos difíceis de sua carreira, foi em Ijuí que o técnico da Seleção buscou apoio. “Eu sou animal do mato e toda vez que estou ferido volto pro mato para “lecare” (lamber, em italiano) minhas feridas”, afirmou Dunga à ISTOÉ no fim do ano passado. O mato, para ele, é sua família. Se perder este que é o maior desafio de sua carreira, não há dúvida: Dunga, uma vez mais, vai se refugiar na confortável casa que ajudou o pai a construir no bairro São José, em Ijuí, para lamber suas feridas. Se vencer, como todos esperam, é possível que se recolha também. E encerre o ciclo de tormentos que o perseguem há 20 anos.

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Motivação do treinamento físico para alta performance

Quando o atleta está com a motivação elevada, ele treina com maior entusiasmo, tem maior confiança em si mesmo e eficiência na parte técnica e tática

Wladimir Braga

Acredita-se que para ter sucesso no esporte um dos primeiros passos a serem dados é a motivação dos atletas. Segundo Singer (1997), motivação é a insistência de caminhar em direção a um objetivo. Mas essa motivação pode ser entendida de varias formas, como por exemplo, uma premiação extra para os atletas após uma vitória ou também um dia a mais de folga na semana. Porém a motivação que estou querendo discutir pode ser um pouco mais complexa, devido ao fato de ela ter que ser conquistada no dia a dia do treinamento, tentando tirar o máximo dos atletas durante o treinamento físico, seja na pré-temporada, durante ou no final dela, independentemente da posição em que a equipe esteja na competição.

Becker Jr (apud SCALON, 2004 : 23) “reforça que é um fator muito importante na busca de qualquer objetivo.” , “...assim sendo, a motivação é um elemento básico para o atleta seguir as orientações do treinador e praticar diariamente as sessões de treinamento”.

Algumas das alternativas utilizadas por preparadores físicos, principalmente nas categorias de base para dar maior motivação no treinamento, é muito simples, porém ainda pouco aceita por treinadores e clubes profissionais: essa alternativa nada mais é do que acrescentar a bola durante os exercícios. (Grifo deste blog)

Cópia (2) de DSC08137 Treinamento físico com bola, monitorado pelo treinador Wolney Dias e pelo preprador físico Ferdinando Rios, no estádio-sede do Caucaia Esporte Clube – Caucaia, Ceará, Brasil

Perez (1995) já dizia que estar motivado é querer obter um bom rendimento e fazer o máximo possível para consegui-lo. Para isso a estruturação das sessões de treinamento deve ser bem organizada de acordo com a tabela da temporada, e caso os objetivos determinados para alguma das competições a serem disputadas não sejam alcançados, são necessárias algumas alternativas para que não se permita que os atletas façam corpo mole ou deixam de dar o máximo durante o treinamento, devido às possibilidades de titulo ou eventual premiação não possam ser mais alcançados.

É possível perceber nos treinamentos que quando o atleta está com a motivação elevada, ele treina com maior entusiasmo, tem maior confiança em si mesmo e eficiência na parte técnica e tática.

E todos esses fatores vão deixar os atletas mais bem preparados física e mentalmente do que seus adversários, aumentando suas chances de ganhar.

Porém a realidade que observamos nos clubes atualmente é outra. Ao invés de os clubes se preocuparem em melhorar a qualidade do treinamento, eles encontram como única solução a motivação financeira; portanto cabe a nós, preparadores e profissionais do futebol, melhorarmos as estratégias do treinamento, para que um dia não se torne dispensável o papel do preparador físico nos clubes.

Bibliografia
BECKER JR., B e SAMULSKI, D. Manual de treinamento psicológico para o esporte. Novo Hamburgo: Feevale, 2002.

PÉREZ, G; CRUZ, J. e ROCA, J. Psicología y deporte. Madrid: Alianza Editorial, 1995.

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COMENTÁRIO. A bola, sem dúvida alguma, é um elemento que possui um poder imenso de acrescentar ludicidade a quaisquer tipos de treinamentos, a ponto de alterar positivamente a motivação dos atletas. Ademais, ela [bola] tem o poder de promover uma maior integração [a priori] do atleta com o jogo [a posteriori], e essa relação de proximidade com as atividades do “vir a ser” possibilita a criação um estado psico-dinâmico de maior receptividade e assimilação do treinamento.

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Sobre o Dunga e a imprensa

A influência industrial da complexa relação entre o treinador da seleção e os veículos midiáticos

Oliver Seitz

Os xingamentos murmurados do Dunga e a reação editorial da Globo são apenas as faces mais visíveis de um antigo confronto entre o técnico brasileiro e a imprensa. Confronto este que ganhou maiores contornos e colocou em pauta a discussão sobre a relação da Rede Globo com a seleção brasileira.

Existem duas maneiras de se analisar o caso e de extrair dele algo de produtivo, que - convenhamos, é algo bastante raro em discussões que permeiam o futebol. A primeira maneira é entender esse confronto sob a ótica da indústria do futebol, coisa que esta coluna tende a fazer sempre que possível.

Para a indústria do futebol, o jornalismo esportivo, em si, não existe. O que existe são veículos de mídia que reproduzem e se retroalimentam do conteúdo produzido por uma partida, um time ou um campeonato. Esse organismo é fundamental para a indústria, já que ele fomenta o interesse público para o jogo. Sem ele, a indústria do futebol certamente não teria o tamanho que ela tem hoje. Afinal, é apenas através desses meios que torcedores podem acompanhar as infinitas histórias que envolvem seus times, clubes, jogadores, técnicos, diretores e afins diariamente.

Normalmente, essa retroalimentação de conteúdo é de certa forma controlada pela disseminação da demanda por informação entre diversos clubes pertencentes ao mesmo sistema. Ou seja, por mais interessados que existam, eles direcionam seus esforços para diferentes clubes, o que ajuda a facilitar todo o processo. Em um sistema com cinco clubes, por exemplo, ao invés de 100 veículos focarem em um clube só, 20 veículos focam em cada time. Isso permite uma geração de informação bastante suficiente para alimentar os 100 veículos sem ter que precisar tomar medidas mais extremas em busca de conteúdo.

No caso da seleção, isso não acontece, já que esses 100 veículos se preocupam com informação provida apenas por uma fonte. Não apenas isso, o tempo de exploração do conteúdo nas plataformas se expande, já que em período de Copa o interesse do público pelo objeto em si também se multiplica. Mas não há informação suficiente para abastecer tamanha demanda. Então, para suprir a necessidade da retroalimentação de todo o processo, algumas informações são exageradas como forma de compensar a ausência de novos conteúdos. Ou então inventadas, o que não é raro acontecer.

midiaComo a demanda por informação é enorme, a fonte da organização se coloca no direito de cobrar pela exploração midiática. Assumindo que essa operação é fundamentada em um caráter privado, isso é bastante justo. A quem paga, a fonte se abre e permite uma exploração mais profunda de seu conteúdo. É a lógica básica da venda de direitos de transmissão de qualquer evento, esportivo ou não. Daí, portanto, a percepção de privilégio exclusivo que a Globo possui, e que outros canais também deveriam ter. E daí também a sua revolta quando não os obtém ou então quando um de seus profissionais é xingado em público pelo técnico da seleção, que falha gravemente ao não se adaptar ou compreender o caráter de ampla exposição do seu cargo e do time que dirige, do qual ele mesmo já fez parte e sofreu com aquilo que pode ser considerada uma falha de oferta de informações. Como técnico, ele é pago pela CBF, que recebe dinheiro da FIFA, que, assim como a própria CBF, recebe dinheiro da Globo, direta e indiretamente.

Entretanto, a discussão foge da análise exclusivamente industrial uma vez que, no Brasil, existe muita confusão sobre o real caráter do futebol e da seleção brasileira, o que leva à segunda forma de análise do conflito entre Dunga e imprensa. Sob a análise privada, tudo isso que foi escrito acima é válido. Mas se o futebol e a seleção brasileira são considerados algo maior do que um produto gerador de conteúdo e possuem uma legitimidade de representação de todo Estado brasileiro, tudo isso acima precisa ser descartado. Afinal, se é um bem público, não pode haver privilégio. Se é um bem público, é preciso que exista o jornalismo, ainda que não obrigatoriamente caracterizado como esportivo. Se é um bem público, toda informação deve ser acessível a qualquer cidadão através de qualquer meio existente.

Um consenso a respeito do caráter público ou privado da seleção brasileira está muito longe de existir, se é que um dia existirá, e, enquanto isso não acontece, cada lado faz uso daquilo que melhor se concilia com seus próprios interesses. Com isso, o conflito continuará a existir, seja ele técnico x imprensa, técnico x Globo ou Globo x imprensa. E continuará, também, a fazer vítimas. Que, neste caso específico, são principalmente a polidez e a língua portuguesa.

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Jabulani faz curva acentuada em chutes de mais de 75 km/h, diz Nasa

Da Agência Fapesp

Golaço ou gol contra? A maior polêmica da Copa do Mundo na África do Sul até o momento ainda não tem uma conclusão. Para alguns, a bola oficial do evento, denominada Jabulani (“celebração”, em zulu), representa uma notável evolução do ponto de vista tecnológico. Para outros, o resultado deixou a desejar.

O atacante Luis Fabiano, da Seleção Brasileira, criticou. O goleiro Júlio César chamou de “bola de supermercado”. Fernando Torres, atacante espanhol, também falou mal. Kaká está entre os que elogiaram.

As maiores críticas foram com relação aos movimentos imprevisíveis, promovidos pela resposta aerodinâmica da nova redonda, especialmente nos chutes mais fortes. Na primeira rodada, com o baixo número de gols, a reclamação foi ainda maior. Mas no fim da primeira fase da Copa, os gols voltaram. Portugal enfiou sete na Coreia do Norte. O próprio Luis Fabiano marcou dois contra a Costa do Marfim.

Jabulani POR X BRAA bola do jogo Portugal x Brasil fotografada quatro horas antes

Para o fabricante, a Adidas, a bola representa um avanço. Mas o próprio presidente da empresa, Herbert Hainer, reconheceu que é preciso um certo tempo para se acostumar com a Jabulani, por ser “mais aerodinâmica e mais rápida”.

Pesquisadores da Nasa, a agência espacial norte-americana, e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), decidiram avaliar o comportamento da Jabulani.

No Centro de Pesquisa Ames da Nasa, na Califórnia, foram feitos testes para comparar a bola com a usada na Copa de 2006 na Alemanha, a Teamgeist (“espírito de equipe”). A Teamgeist, no lugar dos hexágonos costurados das bolas tradicionais, tinha oito painéis fundidos por um processo térmico, que elimina a necessidade de costura, mesmo interna, entre eles. A Jabulani tem 14 painéis e ganhou sulcos aerodinâmicos.

A conclusão da Nasa é que com a Jabulani os jogadores não deverão ter melhor controle do que com a Teamgeist. “É bem óbvio. O que estamos vendo é um efeito knuckle-ball”, disse Rabi Mehta, engenheiro aeroespacial no centro Ames. Knuckle-ball é um arremesso no beisebol no qual a bola não é segura com os dedos, mas sim com seus nós, resultando em movimento com acentuada curva e imprevisível para o rebatedor.

Segundo Mehta, quando a Jabulani se desloca em velocidade elevada, o ar próximo à superfície é afetado pela sua superfície, resultando em um fluxo assimétrico. Essa assimetria cria forças laterais que podem resultar em mudanças súbitas no percurso. De acordo com o cientista, a Jabulani tende a assumir o efeito knuckle ao superar os 75 km/h, o que corresponde a um chute forte.

Outro ponto a se considerar, segundo Mehta, é que vários dos estádios em que ocorrem os jogos na Copa da África do Sul estão em altitude elevada (Joanesburgo, por exemplo, fica a cerca de 1.600 metros do nível do mar). “Isso afeta a aerodinâmica da bola, uma vez que a densidade do ar é menor. Em altitudes altas, a bola tende a se deslocar mais rapidamente, com menos empuxo”, disse.

Maior arrasto

Os pesquisadores Gilder Nader e Antonio Luiz Pacífico, do Laboratório de Vazão do IPT, realizaram testes no túnel de vento atmosférico do instituto com bolas de torneios oficiais de futebol.

Foram testadas as bolas do campeonato Paulista e Brasileiro deste ano e das copas de 2006 e 2010. Os testes foram encomendados pela Rede Globo. Segundo Nader, foram feitas medições com visualização do escoamento de ar em volta de cada bola. Para isto foi utilizado o sistema PIV (“Particle Image Velocimetry”) com emprego de raios laser.

“Verificamos que a bola do Campeonato Brasileiro, por exemplo, com superfície mais rugosa, do tipo clássico, tem coeficiente de arrasto (resistência ao ar) mais baixo e bom deslocamento. As bolas das Copas apresentaram um ‘descolamento’ mais rápido e maior coeficiente de arrasto”, disse.

Ao ser chutada, a bola ganha uma velocidade inicial que vai diminuindo até que, em um determinado momento, atinge o chamado “ponto de crise de arrasto”, explicou Gilder.

“É quando ela faz uma curva. Com a bola do ‘Brasileirão’, esse ponto demorou mais para ser alcançado, em uma velocidade de aproximadamente 13 metros por segundo. A Jabulani atinge esse ponto e faz a curva bem antes, em uma velocidade que ainda vamos medir com exatidão”, disse.

As bolas de futebol evoluem constantemente, com as grandes novidades surgindo justamente em cada Copa do Mundo. As atuais, e não apenas a Jabulani, são muito diferentes das usadas há meio século. Na Copa da Suécia, em 1958, por exemplo, a bola era de couro curtido, chamada de “capotão”, pesada e que se encharcava em dias chuvosos, dificultando a precisão dos chutes.

Mas isso, claro, não impediu que o Brasil fosse campeão nem que um certo garoto apelidado de Pelé, então com 17 anos, assombrasse o mundo com momentos antológicos, como o gol na final, em que deu um lençol no zagueiro sueco e chutou a bola ainda no ar para o fundo das redes e da história. Mostrou que craque que é craque dá show com qualquer bola. E isso o mundo já está vendo na Copa da África do Sul, independentemente das polêmicas da bola.

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quinta-feira, junho 24, 2010

Ideias e controvérsias sobre a Copa 2014

"Não vale a pena!", diz urbanista sobre a Copa em SP

Pedro Sales afirma que condições da Fifa para abrir o torneio são absurdas

Arquiteto e urbanista Pedro Sales

Regina Rocha

O arquiteto e urbanista Pedro Sales* não esconde sua indignação com a postura autoritária da Fifa que vetou o Morumbi, nem crê que São Paulo devesse insistir, em condições tão arbitrárias, em receber a Copa de 2014. "Não vale a pena a cidade se sujeitar a atender às condições absurdas impostas pela Fifa, e dispender recursos altíssimos, só para que um estádio sedie umas cinco partidas da Copa".

Ele alfineta: "Por que haveríamos de montar um circo para a Copa?". Para ele, o investimento não é justificável, e os ganhos para a cidade, aposta, serão poucos se comparados às exigências e recursos dispendidos.

Do ponto de vista urbanístico e de crescimento urbano, menos justificável ainda é a construção de um outro estádio, o Piritubão ou o que vem discutido para Guarulhos. Diferente da visão corrente, ele acha que Copa do Mundo não traz melhorias em larga escala, "não obriga à realização de obras que resolveriam as grandes pendências da sociedade". Não é o mesmo que nos Jogos Olímpicos, diz: "Uma Olimpíada é diferente, porque se dá num único lugar, e necessita por isso intervenções na escala de atuação urbana e metropolitana. É o que esperamos aconteça no RJ em 2016", analisa.

*O arquiteto Pedro Sales é professor e pesquisador de planejamento urbano da Escola da Cidade. Foi assessor técnico da Sempla - Secretaria Municipal de Planejamento, atuando na coordenação do plano de intervenção e ordenação de operações urbanas na cidade de São Paulo. Como consultor, realizou trabalhos para órgãos como Iphan e Cooppe-UFRJ. Participou do seminário Qualificação Urbana em Cidades-Sede da Copa 2014, durante a 8ª Bienal Internacional de Arquitetura.

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Coluna "Assuntos de Família"

Limites na educação

Fabio Toledo

Fábio Henrique Prado de Toledo

Algum tempo atrás manifestei nesta coluna certa perplexidade com o Projeto de Lei n. 2.654/2003, com o que se pretendia proibir qualquer forma de punição corporal a crianças e adolescentes. Como disse naquela oportunidade, o assunto merece ser melhor refletido.

Penso que as “palmadas” nas crianças não são mesmo um recurso educativo a ser utilizado a todo momento. Mais ainda, conheço vários pais que conseguiram educar muito bem sem jamais ter sequer levantado a mão contra os filhos. Aliás, se analisarmos bem, muitas das vezes que se bate numa criança, faz-se porque o pai ou a mãe estão nervosos com outro assunto que os afligem e a travessura foi apenas o estopim. Outras vezes, quase sempre, bate-se porque não se tem paciência para explicar o porquê de não poder ela fazer algo, dando os motivos pelos quais sua conduta não é adequada e, sobretudo, expondo as boas razões para se proceder corretamente.

O problema de leis radicais como essa são as más interpretações que podem causar. Estou certo de que, tão-logo aprovada, não tardará em surgir nas escolas e nas famílias uma falsa concepção do tipo: não se pode fazer nada com o garoto que não obedece, pois do contrário pode ser “processado”. Ou, pior ainda, as próprias crianças poderão incorporar o falso conceito e se levantarem contra os educadores, pais e professores, numa arredia desobediência a qualquer tipo de ordem com o petulante argumento: “não pode fazer nada comigo, sou menor”.

Não há educação sem limites. Já relatei a história de um garoto que, durante uma viagem com os colegas de escola para um acampamento, se queixava com o professor de que seus pais não lhe davam liberdade, que dependia da autorização deles para quase tudo. Esse bom professor deu ao aluno uma brilhante lição, que merece ser contada novamente:

“Seus pais não permitem que você faça tudo o que quer porque o amam. Veja esse pequeno riacho, em sua nascente, uma margem é bem próxima da outra. É o que ocorre com uma criança pequena, de tudo dependem dos pais. O riacho, conforme vai avançando, as suas margens vão ficando cada vez mais distantes, até que deságüe no mar, onde não há mais margens. Assim deveriam os pais fazer com os filhos. A autoridade dos pais é a margem dos rios que permite que cheguem ao destino.

Quanto maior o rio, mais distantes as margens, quanto maior e mais responsável o filho, maior pode ser a sua autonomia. E veja, que bom que é a margem, imagine o que seria do rio sem ela? Veja aquela parte do rio em que a margem é menos resistente, parte da água caiu para fora e apodrece à beira do rio, não chegará ao mar. Assim acontece com os filhos que possuem pais fracos, que não desempenham a obrigação de exercer a autoridade: deixam seus filhos perdidos nas ribanceiras do mundo, não chegam ao mar".

Soube também do drama de uma adolescente que talvez ilustre o desastre que é a educação sem limites. Trata-se de uma jovem de quatorze anos que estava deprimida e resolveu fazer um tratamento psicológico. Depois de algumas sessões, ela acabou por deixar de escapar algo, aparentemente sem importância, mas que revelava a causa de sua “depressão”.

Disse ela: “quando as minhas amigas me convidam para algum passeio que eu não quero, gosto muito de dizer que meus pais não deixaram. É a desculpa que mais me agrada”. “Você sabe por que isso lhe agrada?”, perguntou o psicólogo. “Na verdade não sei”, prosseguiu ela, “os pais de minhas amigas sempre as proíbem de fazer algo que elas verdadeiramente gostariam, mas eles também conversam com elas, fazem programas juntos, penso que elas ganham um beijo dos pais antes de irem dormir...”. Ela não contém as lágrimas que escorrem, e depois conclui: “meus pais me deixam fazer tudo o que eu quero porque não gostam de mim. Fazem isso para que eu não os incomode, então eu costumo dizer a minhas amigas que me proíbem de fazer alguma coisa para que não percebam que meus pais não me amam”.

Comprometedor esse relato, não? É hora, pois, de levá-lo mais a sério.

garota brava


Fábio Henrique Prado de Toledo é Juiz de Direito em Campinas. Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Articulista do Correio Popular de Campinas e de alguns outros jornais. Casado, pai de 8 filhos e Membro do Conselho de Administração do Colégio Nautas.

e-mail: fabiotoledo@apamagis.com.br

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Nike usa Twitter para estampar prédio na África

GUILHERME COSTA
Da Maquina do Esporte, em Johanesburgo (África do Sul)

A nova campanha mundial da Nike se chama “Write the future” (“Escreva o futuro”, em tradução livre). E nesta semana, a companhia de material esportivo lançou uma ação que dá ao público a chance de escrever literalmente. Um prédio estampado pela marca em Johanesburgo vai expor mensagens enviadas via internet de todas as partes do mundo.

O prédio em questão é o quarto mais alto de Johanesburgo. Situado no centro da cidade, é visível no caminho de ida ou volta do estádio Soccer City, sede da abertura e da decisão da Copa do Mundo. Na cerimônia que inaugurou o evento, aliás, a construção com a marca da Nike apareceu em todas as tomadas aéreas da arena.

Para evitar que o patrocínio ao prédio fosse caracterizado como marketing de emboscada, a Nike mantém a estampa desde o ano passado. A construção tem símbolos da marca na parte superior, uma imagem de Cristiano Ronaldo em um dos lados, o tema “Write the future” em outro e um painel digital de 44 x 42 metros. O conteúdo exposto nessa parte varia de acordo com o dia, e esse pedaço também mostra as mensagens.

Internautas dispostos a participar da ação devem enviar mensagens para a Nike via Twitter ou Facebook com a hashtag #NikeFuture. A cada dia, a companhia vai selecionar cem mensagens para colocar na fachada do prédio.

Nesta semana, uma das primeiras mensagens expostas foi mandada por Anton Ferdinand, irmão do zagueiro inglês Rio Ferdinand, cortado da Copa do Mundo por lesão. Ele escreveu “Believe to achieve” (“Acredite para conseguir”).

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Geraldo Campestrini, gestor esportivo

Pesquisador fala sobre o papel dos clubes como organismos de mobilização e integração social

Bruno Camarão

Para elucidação, é necessário dissociar o conceito de responsabilidade social da ideia de filantropia das organizações à comunidade. Somente desta forma, o real significado e o entendimento moderno daquele preceito, que aponta para a atuação socialmente responsável das instituições somente dentro do seu campo de atuação, ou seja, em torno daquilo que seus respectivos negócios fazem parte, passa a ser captado.

A função das entidades é cumprir com as necessidades das pessoas no presente, em todos os setores de atividade, sem que isto comprometa o futuro de outras gerações. Sendo as organizações um sistema inserido na sociedade, é preciso uma atuação pautada na ética, na legalidade, no senso de justiça e na responsabilidade econômica perante o governo, os consumidores, os fornecedores, o meio ambiente e demais envolvidos para suplantar uma série de melhorias coletivas. Clubes de futebol também deveriam compor esse âmbito, mas a prática só explicita exceções.

Graduado em Ciência do Esporte pela Universidade Estadual de Londrina, mestre em Gestão do Desporto pela Faculdade de Motricidade Humana, na Universidade Técnica de Lisboa de Lisboa-Portugal, e especialista em Gestão e Marketing Esportivo pelo Instituto Catarinense de Pós-Graduação, Geraldo Campestrini comprovou essa situação em uma pesquisa.

A intenção era justamente discutir as questões da responsabilidade social (RS) e verificar se as mesmas se aplicam ou não nas políticas e procedimentos das principais agremiações do futebol brasileiro no desenvolvimento do trabalho de formação de atletas. E os resultados indicaram que os departamentos investigados cumprem apenas em partes com as teorias propostas em termos de RS.

“No entanto, esse cumprimento acontece de maneira muito informal, totalmente dependente das pessoas que vivenciam o processo de formação de atletas no clube naquele momento”, revelou Campestrini, nesta entrevista concedida via e-mail à Universidade do Futebol.

Colunista especial do portal, o pesquisador viu seu projeto resultar na redação da Carta Internacional de Responsabilidade Social na Formação de Atletas para o Futebol – CIRESPFUTE 2009. Além disso, foi supervisor das categorias de base no Joinville Esporte Clube nos anos de 2005 e 2006 e técnico de futsal no Sporting Club Lisboa, de Portugal, em 2007.

“No Brasil, muitos clubes que possuem um vínculo grande com projetos sociais vieram fruto de ajustamentos de conduta ou acordos legais em detrimento de um problema havido com a justiça. As ações ainda são informais e desordenadas, salvo raras exceções”, apontou Campestrini, citando Atlético Paranaense e Internacional como exemplos interessantes de trabalho.

Defensor de novas práticas visando a profissionalização da gestão do esporte em todas as suas vertentes, ele ainda falou sobre sua visão em relação à gestão de arenas no país, o marketing social e como adequar no futebol o planejamento estratégico às intempéries motivadas por resultados negativos.

Universidade do Futebol – Qual a relação ou a associação que o futebol - clubes e federações -, tem com a responsabilidade social, em se tratando dos preceitos modernos e da aplicabilidade prática dela?

Geraldo Campestrini – As entidades de prática e de administração do futebol, ou de qualquer outra modalidade, possuem relações diretas com a sociedade e, por conseguinte, exercem forte influência e impactam de alguma maneira no modo de vida das pessoas. Parece óbvio, mas o fato é que muitas organizações esportivas adotam comportamentos que não condizem com a realidade de uma sociedade sustentável – a falta de transparência é uma delas, apenas para citar um exemplo.

Os clubes e as federações precisam entender seu papel como organismos de mobilização e integração social, valores inseridos na gênese da sua constituição, quando pessoas se reuniram com um propósito de fundar uma entidade ligada ao futebol.

O componente principal da responsabilidade social é justamente agir de forma equilibrada dentro daquilo que a organização se propõe a fazer, sem que isso impere em prejuízos para a sociedade como um todo.

Universidade do Futebol – Você desenvolveu uma pesquisa com o intuito de discutir as questões da responsabilidade social (RS) e verificar se as mesmas se aplicam ou não nas políticas e procedimentos dos clubes do futebol brasileiro no desenvolvimento do trabalho de formação de praticantes. Qual o panorama geral?

Geraldo Campestrini – O panorama geral dos clubes pesquisados (foram os 15 principais clubes do Sul e Sudeste do país e, portanto, aqueles com maior capacidade de investimento) é que a maioria deles até cumpre alguns dos preceitos destacados como relevantes para a análise da responsabilidade social na formação de atletas. No entanto, esse cumprimento acontece de maneira muito informal, totalmente dependente das pessoas que vivenciam o processo de formação de atletas no clube naquele momento.

Isso significa dizer que não há uma cultura ou a formalização de processos que determinem a atitude do clube, como organização, perante os menores. Fica tudo a critério do gerente de futebol da base e de seus respectivos treinadores e colaboradores o comportamento e as atitudes perante os atletas em formação – poucos clubes (entre três e quatro para cada item) apresentaram uma carta de princípios, um código de ética, um balanço social ou outro documento formal que qualifique as atitudes em termos de responsabilidade social na cultura organizacional do clube.

A responsabilidade social e o futebol

Universidade do Futebol – Em um de seus artigos expostos no portal, você identificou que os clubes, como organizações que são, precisam assumir formalmente seus papéis e princípios quanto à formação dos atletas. Já há uma evolução nesse sentido no Brasil?

Geraldo Campestrini – Vejo uma evolução neste sentido, sim. A pressão da sociedade, da mídia, do Ministério Público do Trabalho, de entidades como a Fifa, juntamente com a ONU/UNESCO, e outras organizações, tem contribuído para algumas mudanças de atitude. A nossa grande preocupação passa por entender até que ponto os clubes têm o direito de assumir o papel de tutores de menores por um longo período de sua formação.

Sabemos que, por um processo de seleção natural, a grande maioria das crianças e adolescentes que passam pelas categorias de base de um clube não se tornarão atletas de futebol profissional, por inúmeras razões. Se concordamos com esse mecanismo, será que é muito pedir ou recomendar aos clubes que trabalhem um formato de educação paralela, sem prejudicar a formação esportiva, mas que contribua para a inserção social daqueles que hão de fracassar no futebol?

Essa é a lógica principal da proposta da “Carta Internacional de Responsabilidade Social para a Formação de Praticantes para o Futebol” (CIRESP-FUTE 2009). Como eu disse anteriormente, os grandes clubes evoluíram bem dentro destes princípios, mas há muito o que fazer nos clubes de médio e de pequeno porte, que são a maioria. É também evidente, em razão desta pressão social para melhores práticas com crianças e adolescentes, uma disparidade significativa entre o discurso e a prática, merecendo atenção especial das pessoas neste sentido.

Universidade do Futebol – Há um modelo de publicação de balanço social mais recomendado? Como os clubes se apresentam como bons cidadãos corporativos perante a sociedade?

Geraldo Campestrini – Existe o modelo proposto pelo IBASE, que no Brasil é o melhor aceito pelas entidades que determinam critérios e parâmetros relacionados à responsabilidade social. Na pesquisa realizada com os clubes de futebol, apenas dois deles apresentaram Balanço Social: o Atlético Paranaense e o Internacional, sendo que apenas o Atlético Paranaense adota o modelo de Balanço Social do IBASE (o Internacional usa modelo próprio).

O Balanço Social não é um documento obrigatório, mas como recomendação, serve para esclarecer as atitudes e o investimento realizado no campo social pelas empresas ao longo de um ano.

Essa questão tem reflexo direto na transparência dos clubes e a lógica é simples: as entidades querem cada vez mais que as pessoas se preocupem com elas, que tenham uma relação positiva.

A recíproca é verdadeira. Os clubes precisam, portanto, mostrar e provar o quanto se preocupam com as pessoas para obterem retorno nesta via de mão dupla.


Complexo do CT do Caju abriga toda a estrutura administrativa e as equipes das categorias de formação do Atlético Paranaense

Universidade do Futebol – Como você vê o trabalho voltado à base e ao projeto social nas agremiações brasileiras, de maneira geral? É possível se traçar um paralelo com o que ocorre nas principais forças europeias, e quais são as particularidades?

Geraldo Campestrini – No Brasil, muitos clubes que possuem um vínculo grande com projetos sociais vieram fruto de ajustamentos de conduta ou acordos legais em detrimento de um problema havido com a justiça. As ações ainda são informais e desordenadas, salvo raras exceções. Também não vemos ações espontâneas, proveniente de um interesse em melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Na Europa, tive maior contato com os clubes portugueses, que atuam de maneira semelhante aos brasileiros. Pesquisei e tenho pesquisado outros clubes, com importante destaque para o Ajax, da Holanda, no seu trabalho de desenvolvimento de talentos e com reflexo considerável sobre a qualidade de vida dos jovens atletas.


Segunda equipe e academia para jovens do Ajax: clube holandês é considerado como uma das referências do Velho Continente em termos de formação de atletas

Universidade do Futebol – Manter um estádio de futebol é algo caro para qualquer clube brasileiro. A utilização do local para eventos e shows é uma alternativa para garantir a sua sustentabilidade. Partindo-se do estágio atual, e tendo o Morumbi como parâmetro, como você enxerga a gestão de arenas no Brasil e o que pode ser feito para um upgrade com vistas à sustentabilidade?

Geraldo Campestrini – Nossos estádios estão defasados e antiquados. É como reformar casa antiga, se pensarmos na nossa vida particular: quanto mais se mexe, mais problemas aparecem. Muitas vezes é preferível desmanchar e construir outra no lugar, tornando-a economicamente mais viável no médio-longo prazo. Penso que a lógica para os estádios é a mesma, mas a nossa cultura não admite este tipo de pensamento.

Um estádio precisa de alternativas, de acessibilidade, de condições viárias e transporte urbano adequado para torná-lo sustentável. Muitas arenas na Europa abrigam mais de 200 eventos ao longo de um ano, sem considerar os 30, 40 jogos de futebol em casa na temporada.

Tudo passa pelo planejamento e adequações para que o espaço possa ter vida ao longo do dia, que abrigue desde um congresso ou encontro de médicos até um show internacional, e no dia seguinte esteja em condições de receber uma partida de futebol pelo campeonato nacional. Esse planejamento começa antes da construção do estádio.

Universidade do Futebol – O que podemos aproveitar da experiência européia no tocante às ações de marketing e que seriam passíveis de implantação no futebol brasileiro?

Geraldo Campestrini – Estou trabalhando em outra pesquisa relacionada ao marketing social dos clubes de futebol, juntamente com outro pesquisador brasileiro que faz doutorado na Espanha, o André de Paula. Neste sentido, estamos investigando e comparando as ações de responsabilidade social publicadas nos sites oficiais dos clubes da 1ª divisão de Espanha, Portugal e Brasil – o estudo será apresentado no Congresso Europeu de Gestão do Esporte em setembro deste ano, que ocorrerá em Praga, na República Tcheca.

A nossa primeira recolha de dados, ainda não oficiais, mostra que o Brasil está um pouco atrás destes mercados quando falamos em comunicar as ações sociais realizadas e os projetos ligados a responsabilidade social. Esta noção de marketing tem reflexo direto no pensamento de autores como Philip Kotler, que lançou, em co-autoria com Kartajaya e Setiawan, recentemente, o livro chamado “Marketing 3.0: as forças que estão definindo o novo marketing centrado no ser humano” (Editora Elsevier, 2010).

Percebo que os clubes brasileiros exploram muito pouco essa mobilização social inerente a modalidade.

Sporting: relação entre dados econômicos e esportivos

Universidade do Futebol – Qual é a importância da migração de um cenário multidisciplinar para uma perspectiva interdisciplinar no contexto do ambiente corporativo? Essa exigência é pertinente também no esporte?

Geraldo Campestrini – Em uma abordagem simplificada, a interdisciplinaridade faz menção ao componente que relaciona o conhecimento de diferentes áreas que são úteis para determinada finalidade, contribuindo para a tomada de decisão, a solução de problemas e a definição de processos dentro de uma equipe de trabalho ou mesmo fazendo parte da pauta de saberes dos gestores.

Essa perspectiva passa, portanto, pela conexão e acúmulo de distintos conhecimentos fundamentais para o eixo organizacional – quando falávamos em multidisciplinar, não havia esta justaposição e raciocínio para um fim.

No esporte essa relação é igualmente fundamental. Parte da formação da comissão técnica, com distintos conhecimentos e com um objetivo comum, passando por toda a estrutura organizacional, que deve perceber e entender as conexões entre o que pode interferir no diálogo dos negócios com aquilo que se espera em termos de resultado esportivo.

A decisão de optar pela contratação do jogador “A” ou “B” pode passar pela análise conjunta do treinador da equipe, que verá o atleta pelas suas habilidades técnicas e táticas, somada à opinião da psicóloga em relação a questões da personalidade dos jogadores, com as reflexões do gerente de marketing pelo potencial de marca e vendas de produtos licenciados da personalidade.

Universidade do Futebol – A abordagem holística de colaboradores e funções é determinante para o sucesso em qualquer ambiente. Mas quais são os passos que devem ser dados para que isso seja possível em um mercado que cobra resultados imediatos e não se preocupa com os processos que levam a essas metas?

Geraldo Campestrini – Os planos no esporte e em especial no futebol devem passar por duas reflexões importantes: os resultados esportivos é que vão dar vazão aos resultados econômicos? Ou são os resultados econômicos é que hão de proporcionar vitórias e conquista de campeonatos?

Se acreditamos que sem resultados imediatos não há como manter um clube, então devemos refletir na sustentabilidade destes resultados. A resposta está na estrutura e nas condições financeiras disponíveis pelo clube – se há recursos para manter estes resultados, ótimo. O grande problema é que a maioria dos clubes brasileiros não reúne condições de fazer “loucuras” todos os anos.

Minha visão é pela busca constante do equilíbrio entre um lado e outro. Isso pode ocorrer através da criação de duas gerências no início de um trabalho: uma responsável pelos resultados imediatos, dentro da capacidade de investimento possível do clube; a outra pela formatação de processos com visão de longo prazo.

A ideia passa pela ampliação do escopo do trabalho da segunda visando um encontro com a primeira ao longo do tempo até a adoção de uma mesma linguagem e princípios de atuação.

Planejamento x clubes de futebol

Universidade do Futebol – Qual é a relevância da área acadêmica para o diálogo e para a melhoria entre as áreas em um clube de futebol?

Geraldo Campestrini – Nós estamos na era do conhecimento. Vivenciamos mudanças constantes na sociedade e no comportamento das pessoas. Se as organizações não estiverem preparadas ao ponto de serem capazes de se adaptar a essas mudanças, estão fadadas ao insucesso. Isso quer dizer que as ciências do esporte devem servir para o embasamento das tomadas de decisão no campo prático. Do contrário, o método passa a ser o da “tentativa-erro”, ou seja, se não há conhecimento acumulado, a decisão passa a ter suporte no “achismo” e não na convicção e debate de ideias.

Universidade do Futebol – Com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos no Brasil durante a próxima década, quais são as perspectivas que você vislumbra para o desenvolvimento sustentável da indústria do esporte no país?

Geraldo Campestrini – Os megaeventos citados, e podemos incluir aí as Paraolimpíadas, servirão como motor propulsor de iniciativas e crescimento do esporte em inúmeros segmentos. Isso é claro e as experiências em outros países comprovam a assertiva. Contudo, não vejo ações e discussões fundamentadas para que esse crescimento se torne de fato sustentável.

A sustentabilidade dos megaeventos deverá vir das novas instalações, com praticidade e facilidade de uso para a população; pela formação e capacitação das pessoas, deixando um legado de conhecimento para futuras atuações no campo esportivo; na questão econômica, sem que haja um grande impacto sobre as finanças públicas e que a população tenha que pagar posteriormente a conta dentre outras. Mas isso tudo parece utópico e ainda distante das ações relacionadas a essas organizações.


Campestrini ainda não vê ações e discussões fundamentadas para que crescimento do esporte se torne de fato sustentável, mesmo com os eventos citados

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