Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

quinta-feira, junho 28, 2012

O que queremos de nossa equipe? Entendendo os conceitos de dependência e independência

Ações da equipe não podem ser de forma coreografada, mas a partir de análise rápida e correta da situação, para que os jogadores empreguem com inteligência, intensidade e rapidez a resposta eficaz
Douglas Saretti e Carlos Arissa Vargas / Universidade do Futebol

Dependência constante da leitura do jogo pelo treinador e consequentemente solicitações e orientações do mesmo em relação as ações do jogo (defensivas e ofensivas), ou pequenas ações individuais integradas, a partir da leitura e entendimento do jogo, tendo como consequência respostas rápidas e eficazes na resolução de situações problemas que aparecem de forma aleatória e imprevisível?

“Quem sabe muito só sobre futebol, pouco sabe sobre futebol”
(Manuel Sergio).

Deve-se entender o termo “evolução” antes de tudo como transformação, mudança progressiva, lenta e gradual. E, sendo assim, a “evolução” está em tudo que existe. Desde o mundo físico até os processos sociais. Nada acontece sem ser resultado de estágios progressivos. Nem mesmo ideias surgem do nada.

A evolução no futebol é uma realidade, mas, acima de tudo, eu acredito que é uma necessidade, pois estamos falando de um esporte altamente competitivo, no qual por vezes se atribuem diferentes metodologias na aplicabilidade dos treinamentos, bem como diferentes formas de liderança. E o mais intrigante é que constatamos que essas diferenças, constantemente, vêm atingindo o mesmo objetivo (ser campeão), ou seja, não se pode dizer que se aplicarmos um único método aqui e ali teremos a certeza de que atingiremos nossa meta.

Se voltarmos ao tempo, podemos recordar que equipes eram formadas por jogadores mais técnicos, treinadores menos estrategistas, onde o drible era uma coisa natural.

Primeiro, tivemos uma evolução na preparação física dos jogadores, em que se passou a percorrer uma distância maior durante o jogo, bem como um aumento da velocidade; isso fez com que tivéssemos um jogo ora mais dinâmico em termos ofensivos, ora mais truncado, haja vista que o time que não está com a posse da bola quer recuperá-la o mais rápido possível.



Porém, após um determinado ponto dessa evolução “futebolística”, o que temos é um futebol rápido, forte? Sim, de ações extremamente intensas, ofensiva e defensivamente, mas esse aumento de intensidade fez com que viéssemos a inibir o drible e as jogadas individuais, tão comum em outrora, mas com uma execução cada vez mais difícil sua execução, devido ao aumento da demanda física durante o jogo.

Sendo assim, o futebol se fez evoluir em outro aspecto: os treinadores passaram a evoluir no que diz respeito a aspectos fora do contexto do futebol, mas que sem dúvida passaram a ser determinantes para obtenção de resultados absolutos; sendo assim, conseguiram-se desenvolver outras ferramentas importantes na evolução.

1- Análise do adversário;
2- Criação de estratégias de acordo com os mesmos;
3- Maior variabilidade dos sistemas e esquemas táticos;
4- Estímulos motivacionais e trabalhos psicológicos;

Por muito tempo se acreditava que com bons jogadores e uma análise acertada da equipe adversária e treinamentos táticos específicos para determinadas características de oponentes se pudessem fazer a diferença entre ganhar ou perder um jogo, mas não é bem assim.

O treinamento de futebol gira em torno do principio da especificidade, porém apenas do ponto de vista fisiológico e em relação ao gesto motor desportivo.

A complexidade do jogo traz consigo vários fatores, mas o mais importante é que na maioria das vezes nos responde o porquê uma equipe considerada mais fraca, de menor expressão, consegue ganhar de um adversário teoricamente mais forte. Esse fator se chama imprevisibilidade e vem acompanhado de situações-problemas que somente as análises da equipe adversária e treinamentos táticos específicos não são suficientes para transpor esse difícil obstáculo(imprevisibilidade). E, com isso, o futebol subiu mais um degrau na escada da evolução.

Atualmente, podemos observar algumas equipes fazendo uso de uma abordagem sistêmica, com a utilização de métodos de ensino-aprendizagem como global e parcial, deixando os treinamentos analíticos se não totalmente fora de ação, com uma atenção muito pequena durante o planejamento anual.

Segundo Ackoff (1985, citado por Bertrand & Guillemet, 1988, p. 47), “um sistema é um todo que não pode ser decomposto sem que perca as suas características essenciais. Deve, portanto, ser estudado como um todo. Além disso, antes de explicar um todo em função das partes, é preciso explicar as partes em função do todo”.

Dominar o princípio da especificidade na construção de exercícios de treino significa adequar a estrutura e os componentes da carga aos objetivos definidos para esse mesmo exercício, e isso inclui também o Modelo de Jogo e uma abordagem global e sistêmica.

Como já foi referido, a abordagem sistêmica caracteriza-se por elevado grau de especificidade e pela procura de soluções em contextos específicos (Bertrand & Guillemet, 1988). Então, no contexto do futebol, a especificidade deve ser entendida como um conceito aberto ao imprevisível, ao aleatório, ao acaso, já que a essência do próprio jogo contém essas características (Garganta, 2006b; Garganta & Cunha e Silva, 2000; Guilherme Oliveira, 2006).

O treino de futebol deve, então, ir ao encontro da situação de jogo tanto quanto possível (Guilherme Oliveira, 1991; Júlio & Araújo, 2005).

Falando de forma bem simples, as ações que queremos individualmente de nossos jogadores e consequentemente de nossa equipe, não podem acontecer de forma coreografada, e sim a partir de uma análise rápida e correta de uma situação, para que eles saibam empregar com inteligência, intensidade e rapidez uma resposta eficaz. E isso só conseguimos com treinamentos propostos por nós, mas oportunizando a construção coletiva rumo à autonomia com o objetivo de desenvolvimento da inteligência (entendimento, leitura e solução) do próprio jogador.

Bibliografia

Costa Israel; Garganta J; Greco P .J; Mesquita; Princípios Táticos do Jogo de Futebol: conceitos e aplicação (Motriz, Rio Claro, v.15 n.3 p.657-668, jul./set. 2009);

Festa J. F. A. Fernando - Importância, Comportamentos e Operacionalização da Transição Ataque-Defesa no Futebol inserida num contexto de jogo colectivo (Porto,2009)

Faria, R. (2003). Entrevista a Rui Faria. in Fernandes, V. (2003): Implementação do modelo de jogo: Da razão à adaptabilidade com emoção. (Monografia de licenciatura. FCDEF-UP, Porto)

Garganta, J. (2001).“Futebol e ciência. Ciência e futebol”. (In www.efdeportes.com/- revista digital, Buenos Aires)

Guilherme Oliveira, J.(2009). Periodização Tática: Um modelo de treino. Universidade do Porto – PT.

Leitão,R.A. Futebol - Análises qualitativas e quantitativas para verificação e modulação de padrões e sistemas complexos de jogo. (UNICAMP,2004-Dissertação de mestrado)
-Teoria da evolução- ( www.xr.pro.br)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por seu comentário.
Em breve ele será moderado.
Benê Lima