Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

A especialidade de uma atmosfera: diferenças entre se assistir a um jogo no estádio e pela TV
Na praça esportiva, público é parte atuante do evento, enquanto noção virtual, apesar dos benefícios, não traduz plenamente os sentimentos do torcedor
Bruno Camarão
“Se as pessoas acharem que o futebol é aquele da TV, ele irá acabar”. Apesar da incerteza do aparato midiático em que foi proferida tal frase, bem como a identidade da construção gramatical, o sentido e o contexto expostos por Sócrates nessa afirmação são um só: o modo como o público que se afasta dos estádios a cada dia, por uma série de motivos, compreende o jogo do esporte mais popular do mundo está abalado.

O principal representante do movimento social conhecido como Democracia Corinthiana e um dos maiores jogadores da história do clube do Parque São Jorge, sempre crítico à atual administração do futebol brasileiro – leia-se CBF –, analisa o afastamento do público que se encantava pelas suas próprias jogadas, em décadas remotas, ciente das diferenças de mundo daquela e da época atual. Diferentemente dos anos 1980, quando, por exemplo, o Flamengo colocava em média aproximadamente 60 mil pessoas por jogo*, no Campeonato Brasileiro do ano passado, quando realizou uma campanha positiva e terminou na quinta colocação, a presença de quase 40 mil torcedores em cada duelo no Maracanã, na maioria das vezes, surpreendeu.

A queda acentuada em relação a pouco mais de 20 anos, mesmo em se considerando o valor da massa rubronegra in loco em 2008, é mais um traço para corroborar com o perfil do espectador caseiro. E da exposição das diferenças no olhar.

“Futebol é no campo. Na TV, você não tem a dimensão do que é uma partida, de fato. Vê-se a geometria, todo o movimento de todos os atletas em campo. Isso é algo inconcebível, mesmo com 36 câmeras espalhadas”, avalia Plínio Labriola Negreiros, que é historiador, além de professor de História da Escola Nossa Senhora das Graças.

A tentativa de se criar um espetáculo que não existe, com o fechamento das lentes em um bloco mais cheio de torcedores, além da disposição intencional de microfones direcionais que captam o áudio em meio às torcidas organizadas, por exemplo, condiciona quem está do outro lado da tela a se impressionar com o estádio cheio. O que geralmente não procede.

Corre-se o risco de, com um tempo, as próximas gerações perceberem o futebol apenas como aquilo que se passa na TV? Uma resposta foi dada por Ary Rocco, professor de jornalismo da FECAP, que desenvolveu uma tese de doutorado no departamento de comunicação e semiótica da PUC-SP sobre a relação entre torcedores de futebol no espaço virtual.

“Eu acredito que não. A ida do torcedor ao estádio não vai acabar nunca. O que particularmente acredito é que mais cedo ou mais tarde teremos de nos render ao modelo inglês, onde, na Inglaterra, em 1992, com a Premier League, decidiu-se que o futebol era um espetáculo sócio-econômico e, como tal, o torcedor teria de pagar mais caro, mas com algumas condições de conforto, que fizesse ele abdicar de um teatro, de um cinema, por exemplo, em detrimento do futebol”, prevê.

“Vejo a solução parecida por aqui, guardadas as devidas proporções, relativas a PIB, poder aquisitivo do brasileiro, mas teremos de ajustar a fórmula, profissionalizar o futebol a tal nível que o torcedor sinta aquele evento como uma atividade de lazer, com segurança, para desfrutar disso. Se continuar com esse modelo, não tenho dúvidas de que perderemos muitos torcedores para a televisão, para outras formas de lazer, e até para clubes de fora”, completa Rocco, apontando para uma situação muito comum: garotos brasileiros trajando uniformes de equipes estrangeiras.

Um jovem de classe média alta, vestindo a camisa do Milan, da Inter de Milão ou do Real Madrid, e não dos clubes brasileiros, seria sinal da preferências dele, como consumidor do esporte, de assistir pela televisão a um espetáculo melhor, com uma qualidade melhor, do que efetivamente ir ao estádio por conta do receio próprio ou da família.

Os jogos organizados tornaram-se institucionalizados a partir de meados do século XIX, especificamente na Europa e nos Estados Unidos. Até o início do século XX, os esportes fortemente marcados por organizações, equipes e campeonatos nos quais a presença do nacional era muito forte.

O ressurgimento dos Jogos Olímpicos, da Copa do Mundo, e dos campeonatos nacionais, entre outros eventos, conviveu com uma dinâmica em que outras identidades se construíram – cidades e regiões têm muito a dizer nesse processo.

Nem mesmo o advento da televisão e dos patrocínios milionários das multinacionais destruiu essa multiplicidade de identidades construídas nas diferentes modalidades esportivas por diferentes populações. Na mesma medida que os esportes e as equipes podem representar identidades locais, regionais, nacionais e étnicas, também apresentam funcionalidade político-ideológica. Uma análise caso a caso é mais interessante.

Roberto Da Matta (1982) considera que uma mesma atividade pode ser apropriada de formas diferentes por diferentes sociedades, como é o caso do futebol no Brasil, diferente do futebol praticado nos países europeus, por exemplo. Ele ressalta que, no Brasil, o futebol é sempre chamado jogo, o mesmo termo que classifica os chamados “jogos de azar”, como o tambémbrasileiro “jogo do bicho”.

Normalmente, o interesse dos brasileiros pelo futebol encontra-se dividido em torno da regionalidade decorrente da torcida a diferentes clubes. Os clubes de futebol simbolizam um pertencimento social com características específicas, demandando dos torcedores uma lealdade por toda a vida (“Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer...”). Muitas vezes, os locutores esportivos se referem à torcida de um clube como “nação” (“nação colorada”, “nação rubronegra”, etc., de acordo com as cores do clube), ressaltando esse sentido de comunidade reunidaao redor do pertencimento afetivo a um grupo, a um sentimento coletivo compartilhado, no caso, mediado pelo time do coração.

“O nascimento da mídia esportiva estaria relacionado à formatação do torcedor. Somos todos robôs e estamos submetidos a ela. O futebol e a mídia quase que se retro-alimentam. Zaldo Barbosa acreditava que o rádio acabaria com a sociabilização do futebol. Mas ocorreu o contrário”, avalia Luiz Henrique de Toledo, do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
“A mídia tem sua posição ideológica e ela joga com essa questão da violência. Há uma consequente apropriação de parte da elite pelo espaço urbano, que começa a se desagregar. Torcer hoje passa por esse esvaziamento. É necessária uma modulação, por questões econômicas, do que é ser torcedor hoje. O fato de estar em casa não significa que você está mais afastado da violência”, completa Luiz Henrique.

Após fraturar o terceiro e quarto metacarpos da mão esquerda, o atacante Ronaldo ficará afastado por aproximadamente um mês do Corinthians. Isso corresponderá a cerca de oito jogos do Nacional. A projeção de Mano Menezes, treinador da equipe, é de que os corintianos diminuam a frequência nesse período por conta da falta desse “fator motivador”.

“Provavelmente vamos perder público porque o Ronaldo é uma atração especial, mas precisaremos resolver os problemas do ataque sem ele. [O Brasileiro] perde muito sem ele, pois quanto mais jogadores do seu nível ou próximo disso, melhor para a competição”, acredita o comandante-técnico gaúcho.

* Segundo estatísticas da revista Placar, dentre as dez maiores médias de público da história da primeira divisão do Campeonato Brasileiro, o Flamengo aparece em cinco delas – todas na década de 1980.
1. Flamengo (1980) - 66.507
2. Flamengo (1982) - 62.436
3. Flamengo (1983) - 59.332
4. Atlético Mineiro (1977) - 55.664
5. Internacional (1975) - 51.692
6. Corinthians (1976) - 47.729
7. Flamengo (1987) - 47.610
8. Internacional (1979) - 46.491
9. Bahia (1986) - 46.291
10. Flamengo (1981) - 43.614

Bibliografia
GEBARA, A. (Org.) ; PILATTI, Luiz Alberto (Org.) Ensaios sobre História e Sociologia nos Esportes. 1. ed. Jundiaí: Fontoura, 2006. v. 2000. 196 p.

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Benê Lima