Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

quinta-feira, fevereiro 25, 2010


Com bons resultados em campo, nova safra se consolidou no país


Dominantes, técnicos novatos 'reciclam' os medalhões e revolucionam o mercado

Luiza Oliveira
Em São Paulo*

No início da década a constatação era sempre a mesma. Um grupo restrito de técnicos se revezava entre os grandes clubes de um futebol brasileiro carente de renovação. Em 2010, o cenário é outro. A nova safra de treinadores derrubou a desconfiança inicial com resultados concretos, obrigou os ‘anciões’ a se atualizarem e hoje é soberana.

A TURMA DOS DESEMPREGADOS

Se alguns se seguram como podem, muitos técnicos consagrados acabaram perdendo espaço de vez. Figurinhas carimbadas nos grandes, Tite, Celso Roth e Paulo César Carpeggiani estão desempregados. Geninho hoje está à frente do modesto Atlético-GO, depois de sagrar-se campeão brasileiro em 2001 pelo Atlético-PR.

Emerson Leão vive momento ainda mais difícil, apesar de ter comandado a seleção brasileira e ser considerado um dos mais importantes do país. Com temperamento difícil, alto salário e raros resultados expressivos, foi taxado de desatualizado, perdeu espaço e os convites ficaram escassos. Em seu último trabalho, foi mandado embora do Sport pela má campanha em 2009.

O caso recente é o de Muricy Ramalho, há pouco tempo incontestável com o status de tricampeão brasileiro pelo São Paulo e cotado para substituir Dunga no comando na seleção. Mas a maré mudou. Em oito meses tempo, foi demitido de dois clubes (São Paulo e Palmeiras), o último com aproveitamento pífio de 49%.

Se antes poucos clubes de tradição se arriscavam nas mãos de um inexperiente, hoje a aposta nos medalhões virou um verdadeiro risco, pois muitas vezes é mais caro e com métodos ultrapassados. A chegada de Antônio Carlos ao Palmeiras, com apenas nove meses de carreira, em substituição ao tarimbado tricampeão brasileiro Muricy Ramalho expressa bem a ‘nova cabeça’ dos dirigentes.

De um total de 19 clubes, considerando os mais tradicionais de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Pernambuco, Bahia e Goiás, apenas quatro ainda são adeptos da chamada velha guarda.

O Atlético-PR tenta reviver os tempos áureos de Antônio Lopes com os títulos brasileiros de 1997 (Vasco) e 2005 (Corinthians) e a Libertadores pelo Vasco em 1998. O xará mineiro ainda acredita no que a marca Vanderlei Luxemburgo pode render, enquanto o Sport resgatou Givanildo Oliveira, que teve a primeira passagem por Pernambuco em 1983. Dos quatro clubes, só o Botafogo está em ‘lua de mel’ com Joel Santana após a conquista da Taça Guanabara.

As explicações inicialmente simplistas para a opção pelos novatos, baseadas nos custos mais baixos em uma época de vacas magras e a maior disposição, ganharam argumentos fortes com os resultados em campo e uma relação mais próxima com os jogadores.

Essa é a visão de Antônio Carlos. “Temos algumas vantagens. A maior delas é que parei de jogar há dois anos, tenho mentalidade e consciência de jogador, sei o que posso falar para ele. Os atletas não são iguais e tento passar minha experiência a eles”, avaliou.

No ano passado, o então auxiliar Andrade pegou o Flamengo desacreditado, envolto em problemas financeiros e com divergências no elenco para chegar ao título do Campeonato Brasileiro. "É uma mudança natural, mas chama a atenção porque os clubes estão procurando um novo perfil. Essa nova geração é muito boa", analisou.

Há mais de dois anos em seus clubes, Mano Menezes e Adilson Batista são casos expressivos de longevidade. Mano conquistou a Série B, o Paulista e a Copa do Brasil pelo Corinthians, enquanto Adilson chegou à decisão da Libertadores depois de vencer dois estaduais. Dorival Júnior segue a linha dos contemporâneos com bons trabalhos em Cruzeiro e Vasco. Agora comanda o ‘time da moda’ Santos. Paulo Silas traça o mesmo caminho no Grêmio após uma boa campanha no Avaí.

Por tudo isso os novatos ganharam confiança. "Já conquistamos o espaço. Nos fixamos nos clubes mais rapidamente do que os antigos. Os técnicos mais jovens têm mais capacidade de diálogo com os jogadores. Somos mais amigos e sabemos o que cada um pensa", disse Vagner Mancini, outro integrante da nova geração, agora no Vasco.

DUNGA: DIRETO PARA A SELEÇÃO

Dunga é o caso mais emblemático entre os novatos que vêm dando certo. Conhecido pela garra como jogador, foi o escolhido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para resgatar a honra de uma seleção desmoralizada pela eliminação na Copa do Mundo de 2006.

Sem experiência como treinador, cometeu erros no início, encarou muitas críticas e chegou a se desentender com parte da imprensa, principalmente por um começo oscilante nas Eliminatórias Sul-Americanas para o Mundial da África do Sul.

Mas conseguiu impor seu estilo disciplinador, quebrou um recorde na década com 19 jogos de invencibilidade e diante de uma campanha inquestionável no classificatório (nove vitórias, sete empates e duas derrotas) comandará a seleção na Copa do Mundo 2010 com aprovação nacional.

Velha guarda em alerta

Antes em situação bem confortável, os anciões se sentem cada vez mais ameaçados e fazem o que podem para se segurarem. Os casos mais emblemáticos são de Joel Santana e Vanderlei Luxemburgo.

Pentacampeão brasileiro, o técnico do Atlético-MG passou de unanimidade a 'rejeitado', e se escora na fama para tentar manter o status anterior. Os resultados recentes deixam a desejar para quem custa quase R$ 800 mil mensais: seu último título foi o Paulista de 2008 pelo Palmeiras, mas em nível nacional Luxemburgo levou apenas o Brasileiro de 2004 com o Santos.

Joel Santana também não é soberano. Em sua passagem conturbada pela África do Sul, sentiu o gostinho do ‘quase’ de disputar a Copa do Mundo de 2010, acabou demitido e foi criticado até pelo seu inglês um tanto quanto inusitado. Mas o caso de amor com o Rio de Janeiro perdura.

O chamado 'papai Joel' (por fazer do grupo uma família) saiu do Flamengo ovacionado – mesmo com uma despedida amarga na eliminação histórica na Libertadores para o América do México em 2008 – voltou nos braços da torcida do Botafogo e se consagrou no último fim de semana com a conquista da Taça Guanabara. A receita do sucesso: se atualizar.

"Não tem outra maneira senão me atualizar. Não tem como não mudar com o tempo, pois as cabeças mudam. Tenho de saber lidar com os jovens do meu time. Contudo, sou um treinador das antigas. Passo para eles como é a vida e tenho a experiência ao meu lado. A nova geração é muito boa, mas sempre tem meu espacinho aí”.

* Com ajuda de Rodrigo Farah e do escritório do Rio de Janeiro

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Benê Lima