Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

sábado, janeiro 15, 2011

A transformação do treinador de futebol pautada nas ciências: quais as competências necessárias para se obter vitórias?

Trabalho cada vez mais complexo desse profissional está cercado de demandas; base humanística é essencial no processo de compreensão de atletas e comissão técnica integrada
Equipe Universidade do Futebol

Em 14 de janeiro, comemora-se o Dia do Treinador. Momento interessante para uma reflexão a respeito do lugar-comum que habita o ambiente, em especial, do futebol brasileiro: todo cidadão apaixonado pela modalidade é um comandante técnico em potencial? A resposta negativa certamente encontrará argumentos sólidos, visto que grande parte dos consumidores dessa paixão não faz ideia do trabalho envolvido na fundamentação da formação de um elenco e consequentemente de uma equipe, bem como as particularidades de um planejamento estratégico dentro de um departamento de futebol profissional.

A lista de exigências inerentes ao trabalho de um técnico é extensa e pressupõe um plano em conjunto com uma série de outros especialistas capacitados em suas área de atuação, até que se encontre o modelo de jogo e a maneira mais eficaz de uma equipe atuar em cada ocasião.

Em primeiro lugar, o trabalho de formação técnica não começa no treinador. Para otimizar o rendimento, é fundamental que ele seja respaldado por um coordenador técnico, que sirva como elo entre a comissão técnica e a direção do clube e que faça funcionar de maneira integrada, na forma e no conteúdo, cada aspecto da performance esportiva.

A partir desse respaldo estrutural, é fundamental que o clube encontre um treinador que se encaixe em sua filosofia e seja condizente com as exigências que serão feitas do cargo. Alguém com a sensibilidade para captar as especificidades sócio-culturais determinadas pela história da agremiação e adaptar suas condições empírico-acadêmicas àquele local.
 


 

Apesar de essa realidade ainda ser um pouco distante do que acontece atualmente, os técnicos deveriam ser selecionados de acordo com as características dos projetos do empregador – no caso, o clube –, e não por conta de seus resultados nas competições.

“O futebol, sob a perspectiva técnico-tática, evoluiu muito ao longo dos anos. O ritmo de jogo, as movimentações, as jogadas de bola parada, a compreensão do jogador sobre o jogo, os esquemas de jogo, os sistemas, as plataformas... Muitas coisas foram mudando. Funções e novas atribuições surgiram e as exigências a jogadores, equipes e comissões técnicas aumentaram exponencialmente”, apontou em um de seus textos publicados pela Universidade do Futebol Rodrigo Leitão, atual treinador do time sub-17 do Corinthians.

 

O perfil do treinador no futebol moderno de alto nível

 

Conhecer de uma forma holística o projeto do clube é o primeiro passo para o desenvolvimento do trabalho do treinador. É fundamental que ele esteja alinhado com a agremiação quanto às perspectivas de curto e de longo prazo, estabelecendo a partir disso os passos para alcançar tais metas.

Todas as medidas necessárias para a preparação de um grupo de atletas em função dos objetivos traçados devem ser tomadas pelo setor técnico. O primeiro passo, é claro, é a constituição desse grupo. Tal seleção, assim como acontece com o treinador, deve acontecer em um processo cada vez mais parecido com os processos de contratação nas grandes empresas – entrevistas, análise de currículo e traço de perfil.

O primeiro ponto, a parti daí, é a definição das carências da equipe (setor, posição, estilo de jogo e estilo de atleta). Depois, o setor técnico da equipe precisa definir quais jogadores são capazes de preencher essa lacuna e quais se enquadram nos padrões financeiros previstos no projeto do clube.

Definido o elenco, cabe à comissão técnica avaliar e preparar os jogadores para serem incorporados no projeto do treinador. E então, o treinador precisa avaliar as características de cada atleta para buscar perfis complementares e que funcionem dentro do planejamento global estabelecido para o departamento.

Boa parte dos técnicos analisa os jogadores do elenco para encontrar uma plataforma tática e o tipo de trabalho que melhor se encaixa às características. Tal processo, entretanto, muitas vezes se limita em virtude de problemas das mais diversas ordens. “Não quero o Pelé nem o Garrincha, mas apenas uma ou outra opção razoável para montar situações de jogo diferentes [do time] do ano passado”, comentou Luiz Felipe Scolari, técnico do Palmeiras, em sua primeira entrevista coletiva do ano.

“O trabalho da equipe está me agradando, o empenho, a desenvoltura. Temos uma base organizada. Mas há o aspecto financeiro. E também há contratações que imaginávamos que seriam fáceis, mas hoje, para contratar algum jogador, temos que negociar com três investidores, quatro procuradores, cinco amigos, 14 sei lá o quê”, continuou, em tom de reclamação, o sétimo melhor técnico da década, em levantamento realizado pelo IFFHS.

Após a definição do plano tático, cabe ao treinador encontrar exercícios para serem realizados nas atividades do dia-a-dia e fazer com que os jogadores assimilem o posicionamento planejado para a equipe.

A definição do esquema tático, porém, ocupa apenas parte dos trabalhos do cotidiano. O treinador também precisa analisar os adversários e montar seu time de um modo que coíba as virtudes do oponente e potencialize suas próprias vantagens. Esse trabalho é fundamental para direcionar o que acontece nas partidas.

Afora o planejamento técnico e tático da equipe e trabalhos de repetição de fundamentos, por exemplo, o treinador precisa estar atento às informações que são passadas pela comissão técnica para que a equipe seja trabalhada de uma forma integrada e que a atenção seja dispensada para todos os setores necessários (prevenção de lesões e correção de movimentos são dois casos típicos).

É fundamental que treinador e profissionais adjuntos compactuem do mesmo planejamento e entendam a importância de cada ponto para os níveis de evolução delineados. O trabalho interdisciplinar, intradisciplinar, multidisciplinar e transdisciplinar é de enorme importância na preparação global.

“O trabalho do setor técnico é, antes de qualquer coisa, de gerenciar pessoas. Você precisa estar pronto para entender o atleta como um homem e retirar dele o melhor em prol do que você espera para a equipe”, pondera há anos o treinador Paulo Autuori, uma das referências de Mano Menezes, atual comandante da seleção brasileira principal.
 


 

A comissão também deve estar preparada para a periodização do treinamento, com um princípio de continuidade baseado na metodologia da educação física, direcionado à evolução constante e progressiva da capacidade laboral do atleta. Claro, levando em consideração a perspectiva do atleta como homem.

“O futebol é a modalidade desportiva que mais entusiasmo desperta no mundo todo. Mas, como motricidade humana que é, dele emerge a complexidade humana: o físico, o biológico e o antropossociológico”, sinaliza o filósofo português Manuel Sérgio, doutor em Motricidade Humana pela Universidade Técnica de Lisboa.

Para ele, um treinador de futebol incapaz de descobrir o complexo que fundamenta o aparentemente simples, por exemplo, não pode ocupar essa função nos dias de hoje. Assim, um departamento de futebol deverá compor-se de especialistas de várias áreas, para que a inter, a intra, a multi e a transdisciplinaridade se tornem possíveis.

“O conhecimento, num treinador de futebol, desenvolve-se tão-só quando se é capaz de contextualizar e complexificar. No esporte, quem sabe muita biologia e não entende a realidade humana é, de certo, um líder com inúmeras insuficiências”, afirma Manuel Sérgio, que também é colunista especial da Universidade do Futebol.

Eis o “desafio cultural” que se coloca ao treinador de futebol: deve possuir uma cultura humanista, fundamentada também nas ciências, e uma cultura científica, fundamentada também nas humanidades. Para tanto, ele tem de fazer da informação que lhe chega dos especialistas que o rodeiam matéria-prima que deve integrar e dominar. Uma grande responsabilidade.
 

Bibliografia

GOMES, Antonio Carlos. Treinamento desportivo - estruturação e periodização. Editora Artmed, 2002.

MELO, Rogério Silva. Sistemas e táticas para futebol. Editora Sprint, 1999.

CARVALHO, S. Comunicação, movimento e mídia na educação física. Universidade Federal de Santa Maria, 1996.

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