Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

quinta-feira, novembro 05, 2009

A cultura lúdica, os jogos infantis e o futebol: pertinentes interações

O fato de que esses jogos sofreram abrupta transformação, principalmente a partir da metade do século XX, pode ser considerado o mote desencadeador de toda essa série de crônicas pedagógicas

Alcides Scaglia

Como destaquei nos textos "A cultura lúdica e sua produção a partir do jogo" e "A cultura lúdica e o estilo do futebol brasileiro", venho procurando apresentar as relações existentes entre a cultura geral, a cultura lúdica e o futebol.

Neste texto, em particular, abordarei os jogos tradicionais infantis e seu processo de construção e transformação, os quais imbricam com o processo de aprendizagem do futebol.

Para tanto, volto na tela de Brueghel, onde todos os jogos lá apresentados assumem a denominação de jogos tradicionais infantis ou folclóricos, considerados, então, pertencentes à cultura lúdica popular. Nas palavras da mais importante pesquisadora sobre jogo no Brasil, a professora da faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Tizuko Morchida Kishimoto: "... o jogo tradicional guarda a produção cultura de um povo em um certo período histórico. (...) Esses jogos foram transmitidos de geração em geração através de conhecimentos empíricos e permanecem na memória infantil."

Esses jogos, enquanto manifestações espontâneas da cultura lúdica popular, acabam por perpetuar a cultura infantil, desenvolvendo e explicando formas de convivência social. Assim, consigo entender o motivo pelo qual identificamos certo número de brincadeiras no quadro do pintor holandês.

Nós fomos colônia portuguesa e por meio de tal condição acabamos não absorvendo apenas o idioma, mas também toda sua cultura e em particular a sua cultura lúdica, que por sua vez sofreu influência de toda a Europa e países do Oriente.

Além da contribuição direta de Portugal na formação da cultura lúdica da criança brasileira, Kishimoto, em seu livro "Jogos Infantis", alerta para importante e decisiva contribuição à nossa cultura lúdica dos negros africanos e dos índios, além obviamente de todos os imigrantes que aqui se instalaram ao longo de todo período de colonização, formação e consolidação do Brasil enquanto nação.

Desse modo, é importante salientar o quanto nossa cultura foi construída em meio a uma rica diversidade de influências.

Porém, essa rica e diversificada cultura desenvolvida principalmente pela oralidade não fica cristalizada - novamente recorremos a Kishimoto e ela adverte dizendo que a cultura: "Está sempre em transformação, incorporando criações anônimas das gerações que vão se sucedendo". Ou então acabam por evoluir ao ritmo das representações culturais que eles veiculam, segundo outro expoente pesquisador francês sobre a teoria do jogo, Gilles Brougère.

Ao longo do processo de colonização e formação do Brasil, muitos jogos tiveram os seus conteúdos representativos modificados e adaptados de acordo com as representações simbólicas emergente de cada época. Por exemplo, durante o período do engenho até os nossos dias, as crianças criaram algumas variações para a brincadeira de pegador, como: capitão do mato amarra a negra, nego fugido, cowboy e índio, até chegar no conhecido polícia e ladrão.

Importante destacar o alto teor de representação simbólica explicita no conteúdo de cada brincadeira citada acima. Não foi somente o nome que mudou, mas outra cultura foi representada; logo, novas técnicas corporais foram surgindo em decorrência da necessidade de representar os papéis exigidos por cada diferente variação da brincadeira.

Philippe Ariès, na sua destacada obra "História Social da Criança e da Família", ao tentar explicar esse processo diz: "... talvez a verdade seja que, para manter a atenção das crianças, o brinquedo deva despertar alguma aproximação com o universo dos adultos."

Nesse ponto posso, talvez, entender a provável e precipitada afirmação, em texto anterior intitulado "A cultura lúdica e o estilo do futebol brasileiro", de que as crianças dos grandes centros urbanos estão cada vez mais reconhecendo cada vez menos brincadeiras folclóricas, como as retratadas pelo pintor Peter Brueghel do século XVI.

Muitos estudiosos, historiadores de nossa cultura popular e folcloristas, comentam, com certo pesar e saudosismo, o gradual esquecimento desses jogos, tão queridos em tempos não muito pretéritos por todas as crianças.

Os fatos apresentados e discutidos por autores, como Brougère, Ariès e Kishimoto, permitem entender esse processo gradual de modificação dos jogos e da cultura lúdica. Mas o que me alerta, e pode ser considerado o mote desencadeador de toda essa série de crônicas pedagógicas, é o fato de que esses jogos, que vinham transpassando os séculos, sofreram abrupta transformação, principalmente a partir da metade do século XX.

Brincadeiras, por exemplo, como Cinco Marias, ou rolar o arco, para não falar de inúmeras outras, como as cirandas e todas as outras brincadeiras cantadas, que reinavam absolutas no cotidiano de todas as crianças, quer no campo ou nas cidades, praticamente já não fazem parte mais da memória - quiçá visual - das de hoje em dia.

Brinquedos, como as bonecas, os cataventos, os carrinhos, que atravessaram séculos, tendo as suas respectivas confecções sendo transmitidas de pai para filho, ou de criança para criança, atualmente são industrializados.

As bonecas falam, andam e até fazem necessidades. Os carrinhos são de controle remoto ou ajustados para realizarem inúmeras funções preestabelecidas logo após o aperto de certo botão - muitos deles indicados pela palavra "power" ou "on/off". Infeliz dos cataventos, praticamente desapareceram. Vivemos o ápice da industrialização e do consumismo desenfreado.

As brincadeiras, principalmente nos grandes centros urbanos, deixaram de acontecer em espaços abertos e livres, como, por exemplo, nas ruas. Hoje, os jogos folclóricos que sobreviveram à avassaladora devassa contemporânea acontecem, nos poucos momentos livres que lhes restam, em locais fechados e, na maioria das vezes, sob o olhar atento e a vigia castrante dos adultos, quer babás, quer professores, monitores...

Kishimoto, por meio de seus estudos sobre a educação infantil na cidade de São Paulo no começo do século XX, diz que as ruas já deixaram de figurar como espaço para as crianças ricas brincarem desde o início do século.

Já as crianças menos favorecidas se deleitaram por mais tempo desse rico ambiente, porém com a desenfreada violência e desconcertada urbanização - nem elas mais encontram aí ou nos terrenos baldios das redondezas espaço para satisfazerem suas necessidades mais vitais, o ato de brincar livremente, co-construindo sua cultura lúdica em meio aos jogos e com suas respectivas técnicas corporais.

Além da falta de local adequado para extravasar sua corporal espontaneidade, outro fator que pode ser considerado um dos principais vilões - disfarçado de guloseimas - para tão abrupta reestruturação lúdico cultural foi o avanço tecnológico da mídia televisiva e da informática.

De acordo com Gilles Brougère, em seu texto "A criança e a cultura lúdica": "A televisão e o brinquedo (industrializado) transmitem hoje conteúdos e às vezes esquemas que contribuem para a modificação de cultura lúdica que vem se tornando internacional."

Gilles Brougère reafirma no livro "Brinquedo e cultura" que: "A televisão transformou a vida e a cultura da criança, as referências de que ela dispõe. Ela influenciou, particularmente, sua cultura lúdica."

Contudo, com ajuda dos autores que sustentam essa crônica pedagógica, particularmente do francês Brougère, sabemos que as crianças não recebem passivamente e de forma direta os conteúdos impressos nas imposições dos adultos, na televisão, nos brinquedos industrializados, elas, logicamente, se apropriam deles a partir de suas respectivas culturas lúdicas, de seus jogos e brincadeiras, todavia, como já disse anteriormente, a cultura lúdica da criança está imersa na cultura geral, desta feita se abastece de representações nela presentes.

Do mesmo modo, não posso deixar de destacar os videogames, os computadores e a internet, pois são realidades cada vez mais presentes e reafirmadas em nossa cultura, que dia após dia se mostra mais universalizada.

Muito menos posso deixar de falar da maioria das escolas que, em vez de preservar e ampliar os horizontes culturais das crianças, entopem-nas de conteúdos, muitos deles sem relações diretas com suas necessidades prementes, o que as impedem de usufruir de tempo livre, cerceando, assim, o extravasar do potencial criativo, à medida que descobrem e entendem, a partir de seus jogos, o mundo cultural que as cercam.

O mesmo posso dizer das escolinhas de futebol, nas quais os alunos são impedidos de jogar futebol para terem de treinar gestos técnicos, competir como profissionais e sofrer as pressões que os adultos de todas as espécies impõem.

Já tenho encontrado na prática cotidiana das escolinhas, por meio das informações e pesquisas de meus alunos, o fato de jovens aprendizes de futebol não estarem frequentando esses estabelecimentos porque sonham serem jogadores de futebol, mas sim por seus pais sonharem.

Portanto, é latente o fato de que a cultura geral inspira a cultura lúdica, que por sua vez, delineia, por meio dos jogos infantis, as técnicas corporais, o que acarretam decisivas influências no processo de aprendizagem cultural do futebol por nossas crianças, engendrando um estilo.

Estilo este, sujeito às constantes mudanças, que acontecem ao sabor da cultura, em meio a essa rede de interações sistêmicas e ecológicas.

Todos os temas destacados nessa crônica acabam por se tornam conhecimentos básicos e imprescindíveis a todos os pedagogos do esporte conectados às novas tendências, pois permitem consolidar e justificar as metodologias de ensino e treinamento, além de fornecer elementos à didática do sensível professor/treinador.

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Benê Lima